Temer pode dar tiro no pé se reforma da Previdência vier com “bode na sala”

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Se ouve falar por aí que o governo Temer pode adotar uma estratégia para tentar aprovar a reforma da Previdência: colocar o “bode na sala”. A ideia seria enviar um texto com vários pontos mais duros, para que eles sejam negociados com os parlamentares. Ao fim, seria aprovada uma versão mais branda. Os mesmos rumores afirmam que o governo planejaria começar a discussão no início de dezembro, após a aprovação da PEC antipedalada.

A reforma é essencial

Para início de conversa, a reforma da Previdência é essencial, assim como é essencial que tenhamos um teto de gastos. Mas devemos questionar o padrão de “colocar o bode na sala”. O método proposto é o já tradicional balão de ensaio, pelo qual o governo propõe uma ideia um tanto radical para avaliar a reação perante a população. Se a proposta for muito criticada, surge outra proposta mais branda.

A técnica do “balão de ensaio” também é tratada, pelos estudos sobre psicologia da influência, por “porta na cara”. Por esse método, alguém faz seu pedido real parecer sensato por fazer, em primeiro lugar, um pedido ultrajante. As pessoas descartam esse pedido ultrajante logo de cara. Logo após que essa pessoa descartar o primeiro pedido, então você pede o que realmente deseja. Isso agora parecerá trivial, levando em conta o que foi pedido no momento anterior.

Veja um exemplo, do artigo 12 Aulas Práticas de Negócios da Psicologia Social, da Método:

Digamos que você quer que a sua empresa aprove o financiamento para uma equipe de cinco profissionais de marketing elaborarem uma nova campanha publicitária. Ao invés de simplesmente pedir pelo financiamento e arriscar levar um redondo não, use o princípio da porta na cara. Peça a sua empresa o dobro do montante de financiamento para duas vezes uma equipe tão grande como a que você precisa. Este pedido certamente será reprovado, mas não se preocupe, você não precisa desse montante, em primeiro lugar. Aja como se você estivesse realmente fazendo um trabalho duro para reduzir o valor do financiamento até o osso e refaça sua proposta. Em poucos dias, volte e proponha o pedido de financiamento que você queria o tempo todo. Vai parecer que você encontrou uma maneira de realizar as mesmas tarefas pela metade do preço com metade do pessoal. Afirma a pesquisa de psicologia social que você terá maior probabilidade de conseguir fazendo isso.

Tudo muito bem, tudo muito bom… mas o problema é que não vivemos mais nos anos 70. E agora as regras mudaram consideravelmente…

O bode que entra na sala pode dar uma baita cabeçada em quem o colocou lá

Hoje estamos na era da Internet, era na qual uma ideia pode ser desconstruída minutos após ser lançada. Acontece que nos anos 70, era fácil lançar uma ideia dessas, por exemplo, as 14 horas. A ideia só seria comentada em grande escala no Jornal Nacional, às 20 horas. Claro que no rádio poderia surgir algum burburinho, mas nem todos ouvem comentários políticos em rádios. Os jornais dariam espaço para pessoas criticarem a proposta, mas só no dia seguinte.

Na era da Internet a coisa mudou. Uma proposta lançada as 14 horas já pode ser rebatida por memes às 14:15. Em muitos casos, os memes podem viralizar. Passados 30 minutos, já se pode criar um desgaste considerável em quem fez a proposta. Ou seja: ficar brincando com “balão de ensaio” – ou colocar o “bode na sala” – na era da Internet é brincar com fogo. Basta ler Marshall McLuhan – que infelizmente é muito mais lido por esquerdistas do que por centristas e direitistas – para não cair mais nessa.

Há um método para superar os “balões de ensaio” vindos do governo na era na Internet. Agir em alinhamento com entidades da sociedade civil. Como estas não fazem oficialmente parte do governo, podem propor o que quiserem. Podem “colocar o bode na sala” sempre que quiserem.

Até mesmo a proposta que censurou a mídia na Argentina, nos tempos de Cristina Kirchner, foi feita por este modelo. Grupos que seriam “a entidade civil” – e naquele caso eram sovietes do governo socialista – fizeram a proposta de “regulação de meios”. Depois de ser criado o clima, o governo apenas “encampou” a proposta. Mas Cristina só fez isso quando o ambiente se tornou seguro para ela. Esse modelo de ação é contado no livro La cocina de la ley: el proceso de incidencia en la elaboración de la Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual en Argentina, de Diego Jaimes e Néstor Busso.

Em suma, em pleno 2016 governos não colocam mais “bodes na sala” e nem brincam com balões de ensaio. Se for para usar a técnica da porta na cara, é preciso de muito mais manha do que apenas colocar um ministro para dar a cara a tapa, ser desconstruído, dar munição de graça à extrema-esquerda e assistir uma queda de 2% a 3% de popularidade após o lançamento do “balão de ensaio”.

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