Não é momento de aceitar as desculpas da mídia se ela vier dizendo que "errou"…

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Recebi a informação de que o editor do The New York Times – Arthur Sulzberger, em parceria com o coeditor Dean Baquet – escreveu uma carta aos leitores onde alegou que o jornal iria “refletir” sobre sua cobertura da eleição deste ano. Ele prometeu se dedicar à elaboração de relatórios da “América e do mundo” com mais cuidados e averiguação da informações.

Aqui está o padrão “clássico” do fraudador pego de calça curta:

nytimes

Pergunta: por que eu não estou surpreso? Basta estar acostumado ao modus operandi dos fraudadores. Pois é, meus amigos, não posso esquecer os tempos em que fui auditor de fraudes corporativas em TI.

É preciso compreender que o fraudador possui dois modos de ação, que não falham:

  1. Enquanto a fraude não for descoberta, ele encenará confiança de que está com a verdade em mãos, dissimulando na própria prática da fraude
  2. Após a fraude ter sido descoberta, e não tiver mais argumentos a seu favor, ele dirá que “errou” em seu julgamento, em outra instância de dissimulação

E por que ele adota os dois padrões? No primeiro caso, ele tenta se beneficiar da fraude. No segundo, ele busca diminuir sua punição tentando convencer os outros de ser apenas alguém que “errou em seu julgamento” ao invés de alguém que fraudou deliberadamente a empresa.

Eu nunca vi um fraudador dizer “é, eu fraudei os boletos de restaurante mesmo, e aí?” ou “maquiei os relatórios para esconder a bolada que eu estava recebendo por fora”. Ao contrário, quando pegos eles sempre apelam ao padrão (2) e dizem “é, eu não sabia que os boletos não podiam ser contabilizados como despesas sem aprovação” ou “eu errei ao considerar determinados dados no relatório”.

Por isso, mesmo o frame do momento para a mídia suja vai ser o seguinte: dizer que “erraram na avaliação”. Nós não podemos ajudá-los, pois esta é uma expansão da fraude: lembre-se que o segundo padrão do fraudador é apenas uma forma de esconder o primeiro e enganar ainda mais gente.

Cada vez que dissermos que a mídia “errou demais” estaremos agora ajudando gente como Arthur O. Sulzberger Jr. e Dean Baquet, do NY Times. É um prêmio que daremos a eles se os tratarmos como “errados em suas avaliações”. Mas o que aconteceu foi o exato oposto: eles mentiram enquanto divulgavam propaganda suja disfarçada de notícia.

Não devemos aceitar as “desculpas” de boa parte da grande mídia que vier dizendo que “errou” na avaliação. Devemos aceitar as desculpas apenas se eles começarem a falar a verdade. Estou pronto a aceitar as desculpas de um editor da grande mídia que diga: “É, nós mentimos deliberadamente enquanto tínhamos as informações reais em mãos, mas divulgamos informações falsas. Encenamos o papel de ‘torcida’ para tentar um herding effect, mas não foi o suficiente. Pedimos perdão por termos mentido tanto”.

Caso contrário, nada feito. Daqueles participantes na grande mídia, nenhuma desculpa de gente dissimulada que vier dizendo que vai “refletir com os erros na cobertura” deve ser aceita. E para quem ainda acha essa abordagem um tanto excessiva, peço que preste atenção nos dois padrões dos fraudadores. Não é mérito algum cair em qualquer um desses padrões.

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