Hillary seria de direita e Trump de extrema-direita? What the hell?

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É exatamente isso que vocês leram, meus amigos. Ao ter feito críticas à Hillary Clinton – que esquerdou a vida toda sem parar -, tomei um “puxão de orelha”. Um petista me disse o seguinte: “Que isso, Luciano, Hillary não é de esquerda. Ela é de direita. Já o Trump é de extrema-direita”. Em seguida, outro emendou: “Não existe esquerda nos Estados Unidos, apenas direita e extrema-direita”.

Ambos pareciam coordenadinhos. Mas no fundo há um sentido para este tipo de jogada.

Os esquerdistas – por lá, e ultraesquerdistas por aqui – estão cientes de que o Partido Democrata tem uma pauta de esquerda, enquanto Bernie Sanders era claramente de extrema-esquerda. Assim, por que negar o esquerdismo dessa gente? George Lakoff já explicou o esquema em suas obras sobre controle de frame.

O fato é de uma parcela da população – digamos, uns 20% de cada lado – se assume como “de direita” ou “de esquerda”. E o resto? Bem, o resto é composto do que Lakoff define por biconceituais, que perfazem a maioria da população e assumem visões tanto de esquerda como de direita.

É normal visualizarmos isso no dia-a-dia. Você pode encontrar alguém defendendo o desarmamento mas, ao mesmo tempo, almejando a privatização da Petrobrás. Outro se posiciona contra o casamento gay mas defende regulação econômica extrema. Em suma, uma baita mistura de conceitos oriundos de diferentes vertentes políticas. Essas pessoas não podem ser definidas como “de direita” ou “de esquerda”, mas votarão em candidatos que pertencem a cada um dos lados, de acordo com o momento.

Nessa parte da população, se localiza a maior parte dos “neutros”. São aqueles que “não fecham” com nenhum partido por antecedência. Este tipo de eleitor possui preferência por aquele que se apresenta como “o mais moderado” nas questões. Ele favorece o centro.

Assim, na conquista desta parcela do eleitorado, a rotulagem de seu oponente como “ultra” ou “extrema” assume papel central. Basta que você se apresente como “de centro” (ou mesmo que nem diga nada a seu respeito), mas posicione seu adversário como “de extrema”. Sua chance de marcar espaço na mente desse tipo de eleitor aumenta consideravelmente.

Para o ultraesquerdista, por exemplo, o alvo da marginalização é Donald Trump. Por isso, ele é rotulado de “extrema-direita”. Para tornar essa rotulagem coerente, alguns desses ultraesquerdistas estão rotulando de Hillary de “uma candidata de direita”. Mas para que? Para que eles possam rotular o PT de centro-esquerda. Observe que toda essa rotulagem obedece a uma clara política de posicionamento.

E enquanto isso, muita gente da direita ainda se recusa a rotular o adversário petista de extrema-esquerda. Até hoje vemos muitas direitistas dizendo que eles são apenas “a esquerda”. É claro que estão falando principalmente para pessoas de direita – ou seja, a pregação para convertidos -, como se tivessem desistido da luta pelos neutros (biconceituais).

Neste texto, expliquei um padrão da direita tr00, que explicou o pattern utilizado para se recusar a chamar o PT de extrema-esquerda. A ideia é bem simples: nublar a percepção da patuleia diante dos diferentes tipos de esquerda, para definir que todos “seriam a mesma coisa”. Em seguida, eles rotulariam liberais de esquerdistas. Com a jogada teríamos Ronaldo Caiado igual a Aécio Neves, que, por sua vez, seria igual a Dilma Rousseff. O único “de direita” seria Bolsonaro. Em suma, uma retórica tr00.

Quer dizer: algumas pessoas de um perfil específico de direita conservadora de fato possuem uma tática para evitar rotular o PT de extrema-esquerda. Eles perderiam a capacidade de rotular o principal oponente como extremista – como de fato o PT é em seu esquerdismo -, mas ganhariam um mecanismo para fazer propaganda negativa de seus “rivais”, que seriam, em sua visão, os liberais.

Porém, esta tática significa uma “troca” de retorno muito baixo. Beira até a mesquinharia. Mas é importante que tenhamos a noção da superioridade tática da esquerda sobre a direita nesta questão.

Em tempo: o PT se autorotula como “de esquerda”. Uma regra básica é jamais chamar o seu adversário por um rótulo que ele considera elogioso. Logo, se o PT se autodefine como “de esquerda” aí é que nós não poderíamos defini-los desta forma. Quer dizer: mais um motivo para os rotularmos de extrema-esquerda.

Em resumo: os ultraesquerdistas possuem até uma estratégia de discurso para rotular Donald Trump de extrema-direita e esconder o esquerdismo de Hillary, rotulando-a de “direita” para que a nomeação do PT como centro-esquerda se torne mais convincente. Enquanto isso, boa parte da direita diz que o PT é “esquerda” (e não extrema-esquerda). É como se víssemos um time querendo meter a bola na rede e o outro achando que fazer gols é um “pecado”.

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2 COMMENTS

  1. Só vou fazer campanha contra qualquer liberal se for um abortista concorrendo com um pró-vida. Até esse dia utópico chegar, liberais de boa estirpe são muito bem vindos, obrigada. A liberdade deve estar acima de qualquer crença, mas aborto não é crença é assassinato.

  2. Nunca li tanta bobagem. O esquerdismo sempre foi caso de segurança nacional, jamais de política. Simples assim. Elimine a causa e o efeito cessa.

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