Fé cega na crença torna quase impossível prever ascensão de um ditador

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Um texto de Hélio Rodrigues Pereira, publicado pelo Instituto Liberal, questiona se seria possível prever e evitar a ascensão de um ditador. Hélio lembra que “Hitler não avisou aos alemães que iria fazer a guerra ou exterminar os judeus em seus discursos de campanha, e Castro muito menos avisou publicamente que possuía ideais comunistas”. Sobre ambos, lembrou que “agiram de maneira dúbia, procurando amenizar os anseios das expectativas públicas que buscavam em suas palavras os esperados sinais de moderação.”

O autor comenta como o primeiro ministro britânico Neville Chamberlain foi feito de trouxa por Hitler. Chamberlain chegou a definir o último como um “homem sensato, sinceramente interessado na paz”. Mesmo erro foi cometido por Ghandi. O texto lembra que “Churchill teve que insistir repetidas vezes em mostrar no parlamento uma quantidade imensa de dados militares que eram tediosamente relatados para uma assistência debochada e sonolenta, até finalmente conseguir convencê-los dos planos hostis da Alemanha”. Em suma, Hitler dissimulou suas intenções por muito tempo e enganou um bocado de gente.

Sobre a revolução cubana, o fenômeno se repetiu, pois na época “não se associava a guerrilha cubana a idéia de comunismo”. Mais: “O próprio Fidel Castro, mentindo diante das câmeras disse que não era comunista e chegou mesmo a comentar numa outra ocasião que era contra isso. Até mesmo Jesus Carreras, oficial militar e um dos chefes da guerrilha, ficou chocado quando percebeu tendências marxistas em Guevara.”

É aí que o texto vai para um ponto interessante:

Todavia, não existe uma fonte segura ao qual possamos nos referir para captar os indícios reveladores do perigo. Ao invés disso existem inúmeros relatos conflitantes entre si, cada qual descrevendo seu mundo de maquinações e acusando a mídia de esconder as provas. Seja tramas envolvendo a industria de armas, infiltração alienígena, planos do governo americano ou sociedades secretas, uma boa quantidade de versões conspiratórias alegam estar apoiadas em provas definitivas que, diante de um observador despreparado, parecem tão verdadeiras quanto as evidências que realmente indicam algo de concreto. Diante de tanta confusão as pessoas costumam reagir com total credulidade, ou total descrença aceitando somente o que as fontes publicamente reconhecidas subscrevem.

Como separar uma coisa da outra? Como distinguir no meio desse caos, os elementos que verdadeiramente compõe um quadro coerente dos acontecimentos em marcha? Como saber o que é verdade e o que é fantasia especulativa?

A resposta dada pelo autor à sua própria pergunta é essa:

Adotando critérios de validade e filtrar o que procede e o que não. Modelos para acuracidade dos dados, dos testemunhos e das fontes podem ser obtidos mediante exemplos bem sucedidos em prever o futuro. Não é preciso ter um amigo trabalhando em arquivos confidenciais. Basta prestar atenção nos sinais que realmente provaram ser fidedignos ao longo do tempo. Ao invés de estórias criadas por escritores ou denúncias de militantes engajados, coletar aquilo que realmente fundamentaria o trabalho de um historiador. Atas de reuniões, acordos assumidos entre organizações, material interno de partidos, confissões públicas de interesses escusos, atividades parlamentares, dados estatísticos, informes técnicos de autoridades militares, cartas de intenções, depoimentos de dissidentes, e todo tipo de coisa que não se apresenta isoladamente como algo perdido no espaço, mas que complementa um sentido de coerência que se ajusta a um passado histórico sem lacunas, formada por nexos de causalidade resultante de um esforço em não omitir nada. Reunir essas informações é fundamental para que o público possa ser alertado sobre a provável ascensão de um ditador.

Na verdade, a solução é vaga demais, e bem pouco tangível.

Há uma solução mais poderosa: aniquilar a fé cega na crença, uma mania de vários liberais – não digo que seja o caso de Hélio – de querer visualizar os socialistas como “coitados enganados por uma utopia”, ao invés de pessoas que desde o início possuem por objetivo a tomada totalitária de poder.

A partir desse reconhecimento, a mente adquire um verdadeiro poder preditivo das próximas ações totalitárias. Caso contrário, a mente colapsa.

Por exemplo, as seguintes frases deveriam serem “limadas” de nosso repertório:

  • Será que eles não aprendem que o socialismo não funciona?
  • Mais uma vez o socialismo fracassou…
  • O socialismo não deu certo em lugar algum

O problema dessas frases é que elas nublam o entendimento da realidade, além de estabelecerem recusa total a visualizar o oponente na plenitude de seu totalitarismo.

Imagine que todos já tenhamos ciência da fraude da venda de falsos bilhetes premiados da Loto. A partir disso, devemos saber que na próxima tentativa que alguém tentar vender um bilhete falso de loteria um sensor deveria nos dizer: “ei, é fraude”. Mas se nós verbalizarmos frases como “esses sujeitos que vendem bilhetes da loteria sempre fracassam” ou “será que eles não aprendem que esse método não nos transforma em milionários?”, nosso subconsciente entrará em colapso.

Confusos entre perceber o oponente como enganador – trocando de percepção para visualizá-lo como “enganado” – nossa capacidade de predição das próximas ações do oponente cai quase a zero.

A fé cega na crença é um dos maiores flagelos da direita – especialmente a liberal, e podemos apostar que até mais de 50% deles sucumbem a tal “trava” mental -, que terminam, com isso, adotando um discurso inócuo para a política.

Sem o abandono da fé cega na crença é impossível que alguém possua capacidade de prever a ascensão de um ditador. Mas aqueles que superarem tal credulidade, poderão, enfim, adquirir tal tipo de previsão.

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1 COMMENT

  1. Para você que não assiste mais televisão, aqui está um resumo desta semana

    O programa foi exibido no dia seguinte a queda do Helicóptero no RJ.

    Resposta de um chefe de polícia

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