A direita tem parte de responsabilidade no culto a Fidel Castro. E dá para reverter isso…

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A indignação de quase toda a direita com os discursos esquerdistas dizendo que Fidel “era um sonhador” ou “aquele que mudou o mundo” é muito bem vinda. Precisamos dessa indignação mesmo! Quem não está indignado não é um bom lutador político. Na verdade, não é nem um lutador…

Tal indignação surge de todos os lados da direita: liberais, libertários e conservadores. Porém, sinto dar uma péssima notícia: a narrativa de que Fidel foi “um grande sonhador” foi em parte construída por uma parte da direita, principalmente liberal – embora não compreenda todos os liberais -, e que não parece disposta a largar o osso da fé cega na crença tão cedo.

A fé cega na crença como uma “trava” mental

Com a fé cega na crença, alguém não julga mais seu oponente pelo que ele é, mas pela superfície do discurso adversário, interpretado da forma mais caridosa possível. Assim, um fraudador de bilhete premiado não é mais alguém que precisa ser punido por enganar os outros, mas um iludido em seu sonho de “transformar todos em milionários”. Quando um hacker invade uma rede, a visão realista mostra que estamos diante de uma tentativa de roubo de informações confidenciais, mas a fé cega na crença diria que é apenas alguém que “não sabe usar a tecnologia” (pois se soubesse, não seria um hacker – risos). Igualmente, um invasor de escolas não é alguém com intenções de promover um governo totalitário (que depende do estouro dos gastos públicos), mas apenas uma pessoa “que não leu a PEC”. Por fim, um líder socialista não é mais alguém cujas intenções centrais se baseiam em estabelecer um totalitarismo (o objetivo único do socialismo), mas alguém “cujas boas intenções para a economia não dão certo, pois… o socialismo não funciona”.

Mas aí surge um detalhe cruel: uma das regras principais do controle de frame é buscar a coerência destes frames. A coerência não é o mesmo que “verdade”, mas apenas algo que pode gerar a seguinte impressão no público: “ei, tem algum sentido nisso”.

Quando uma pessoa de direita diz que “o socialismo fracassou”, então o frame de que “há boas intenções no socialismo” se torna mais coerente. Assim, fica mais fácil para um socialista dizer “Fidel Castro era um grande sonhador, apenas contraditório em alguns momentos”.

O combate a este frame só pode ser feito a partir de uma completa mudança de rota, que consiste de deixarmos de tratar o socialismo como “um conjunto de boas intenções que deu errado”, passando a visualizar o socialismo como ele é: um projeto totalitário de poder dependente de um discurso para enganar trouxas. A adoção desta visão real do socialismo prejudica o frame do “grande sonhador Fidel”.

O delírio de Hayek

Friedrich Hayek disse que os “socialistas não entendem de economia, caso contrário não seriam socialistas”, mas isso é pura fé cega na crença – uma mania adotada também por Ludwig von Mises, vista na quase totalidade de seu livro “A Mentalidade Capitalista”, uma grande patacoada que quase comprometeu o resto de sua brilhante bibliografia. Se aplicássemos a regra de Hayek diríamos que “os hackers não entendem de tecnologia, caso contrário não seriam hackers”. Qualquer hacker que ouvisse isso morreria de rir. Mas ainda tem muita gente inteligente que repete a frase de Hayek sem medo de ser feliz (e sem medo de deixar o adversário morrer de rir também).

A única forma de quebrar o frame de “Fidel Castro como o grande sonhador” (e por isso, ele seria o “genocida legal”) é expor a realidade: o socialismo é isso aí que vimos em Cuba. Tal país sofreu por ter visto o socialismo como ele é. O projeto macabro do socialismo deu certo em Cuba, conforme as intenções dos psicopatas por trás deste sistema macabro, uma máquina de morte ainda mais devastadora que nazismo e fascismo juntos. Se algum dia existiu algum “sonho” na mente de Fidel, foi o de executar o socialismo como ele é. Com isso ele conseguiu criar morte, caos, destruição, estupro e tortura em larga escala. Todos estes fatores foram habilitados pela adquisição do poder totalitário, única intenção do socialismo.

Observe que é uma visão praticamente oposta daquela adotada pela direita apegada à fé cega na crença. Os que adotam este paradigma dificilmente reconhecem a má intenção por trás do socialismo como ele é. Em vez disso, optam por achar que seus oponentes são “iludidos em uma crença errada sobre a economia”, quando na verdade os socialistas sabem o suficiente sobre economia para usá-la para implementações totalitárias. As narrativas dos adeptos da fé cega na crença quase nunca possuem a assertividade necessária para tratar uma verdadeira máquina de morte. Os discursos se tornam adocicados, ingênuos, estéreis e até apaziguadores, em alguns momentos.

Mesmo assim, alguns ainda estão bravos

É curioso reparar que muitos adeptos da fé cega na crença continuam indignados com a mitologia propagada tanto pela esquerda como pela extrema-esquerda quanto a Fidel. Essa indignação é real, mas a coerência do frame socialista foi fornececida por eles próprios. Muitos liberais que viveram suas vidas dizendo que “o socialismo fracassou” ou “os socialistas realmente não sabem do que estão fazendo” apenas contribuíram para tornar coerente o frame dizendo que “os líderes socialistas possuem boas intenções… que nem sempre dão certo”.

Me parece que os liberais que adotam a fé cega na crença – principalmente entre os formadores de opinião – nutrem uma sensação de prazer ao se sentirem detentores de “uma tese melhor”. Para isso, precisam acreditar que seu oponente socialista apenas “tem uma tese errada”. Tais mentes adquirem dependência psíquica da crença de que o oponente é uma pessoa com delírios quanto à economia, à polícia e à administração.

Daí, quando este mesmo formador de opinião diz que Fidel é um monstro, tudo se torna incoerente. Como Fidel poderia ser ao mesmo tempo um monstro como um “iludido quanto à economia”? Ora, se ele é um “iludido quanto à economia” – e, como Hayek disse, se ele conhecesse de economia, não seria socialista – como podemos apontar sua perversão? Não seria mais coerente apontar apenas o delírio? No fim das contas, o próprio discurso liberal que hoje está indignado com os elogios à Fidel é incoerente com suas teses sobre o socialismo.

Em suma, só é possível dizer coerentemente que Fidel Castro é um monstro que não merece perdão se considerarmos que tudo que ele fez era consciente. Para um realista político é fácil demais: basta observar o comportamento histórico de Fidel e demonstrá-lo como a perfeita aplicação do socialismo como ele é. Já um adepto da fé cega na crença precisará lidar com sentimentos contraditórios – e que, em conjunto, se tornam incoerentes – e dizer, num momento, que Fidel é um monstro assassino e canalha e, noutro, apontá-lo como “detentor de teorias erradas”, qualificação que estaria mais coerente com o frame de “Fidel como o grande sonhador”, que é exatamente o frame da extrema-esquerda.

Em resumo: quem foi arrogante por muito tempo para adotar a fé cega na crença – seja lá em busca de quais sensações e prazeres psicológicos -, precisa refletir sobre os motivos que o estão deixando indignado com o comportamento da imprensa que hoje homenageia um ditador psicopata. Mas para essa imprensa se tornou uma moleza classificar Fidel como “um grande sonhador (apenas um tanto equivocado)” uma vez que muitos liberais escolheram historicamente dizer que o socialismo era “apenas uma ideia iludida sobre a economia” ao invés de uma máquina de criar totalitarismo, destruição, estupro, tortura e morte. (Em tempo: já vi liberais dizendo “ah, mas eu já escrevi dizendo que o socialismo é essa máquina de destruição e morte sim”, mas isso não adianta muito se esta mesma pessoa em outros texto diz “ah, quando será que eles vão aprender que socialismo não dá certo?”. Os frames da própria pessoas entrarão em colapso, pois se referem a realidades diferentes e, pior, contraditórias ou incoerentes. De novo: ou um sujeito é mal intencionado em seus objetivos, ou possui boas intenções mal planejadas. Não dá para afirmar as duas coisas ao mesmo tempo e manter a coerência)2726

Como quase tudo em política, nossos resultados advem de nossas escolhas. Boa parte da direita ainda pode escolher mandar para a vala a fé cega na crença – reconhecendo o socialismo como ele é – e adotar, finalmente, a crítica política mais assertiva, corrosiva, coerente e verdadeira.

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8 COMMENTS

  1. Luciano, este seu texto é definitivo! Parabéns! Por consequência não podemos afirmar também que tanto o Nazismo quanto o Fascismo tem por objetivo o totalitarismo? A diferença é que o primeiro enfatiza a raça e o segundo o nacionalismo?

  2. Belo….texto, mais uma vez.

    conseguiu resumir toda a falácia apregoada por liberaris, direitista…

    o próprio Pondé pecou ao repetir essa frame em seu texto postado ontem ,onde o mesmo revela os crimes do Fidel e ao mesmo tempo revela que “Fidel como o grande sonhador”.

    Lamentável.

  3. Assim como o desonesto pressupõe que todo mundo é trapaceiro, o honesto pressupõe que todo mundo é sincero (alguns honesto, até prova em contrário; outros honestos, nem assim). Essa é uma das dificuldades perceptivas de muitos liberais/conservadores.

    Mises e Hayek também foram influenciados pelo contexto da época; hoje temos muito mais evidência empírica da nocividade do socialismo, que é ainda pior do que eles imaginaram.

    Além disso, como coloquei em outro comentário, quando liber/cons dizem que “o socialismo nunca deu certo”, eles estão focando nos resultados e não analisando a veracidade das supostas boas intenções. É uma forma de se persuadir pessoas comuns que ainda acreditam na esquerda.

    De qualquer forma, parece ser preferível dizer algo como “o socialismo sempre deu maus resultados” – a ideia é a mesma e dá menos margem para pressupor boas intenções.

    Portanto, temos que atacar nos dois fronts: expor os maus resultados e expor a hipocrisia; é mais fácil uma pessoa ludibriada, porém sincera, aceitar primeiro que o socialismo só dá maus resultados e depois aceitar que os seus grandes heróis na verdade sãos monstros morais.

    * * *

    • Excelente análise, o problema de não passar por um discurso que parte do pressuposto da boa fé está em transpor a resistência natural do ser humano a desapegar de suas crenças.

      Se você chegar apenas xingando e condenando a realidade fraudulenta do socialismo, você cai no problema do evolucionista que ridiculariza o criacionista.

      As pessoas desinformadas ou indoutrinadas nessas crenças ridículas e mentirosas tendem a rejeitar a evidência empírica diante do argumento conspiratório.

      Os regimes totalitários são precedidos por crenças totalitárias de que as palavras de seus líderes são verdades absolutas e inquestionáveis destinando seus seguidores para a grandeza.

      Essa deturpação mental da sociedade é o que abre o caminho para psicopatas, os quais por natureza consideram-se infalíveis e destinados para grandeza, tomarem o poder e escravizarem o povo em um regime de barbarismo.

      O ser humano odeia reconhecer seus erros. Ele prefere apegar-se a uma mentira absurda, passar fome e ajoelhar-se para um tirano do que admitir que gastou seu tempo e suas emoções com um grande fracasso autodestrutivo.

      Os tiranos totalitários, uma vez instaurados no poder, fazem de tudo para silenciar as opiniões dissidentes justamente porque psicopatas não suportam a ideia de que estão errados.

      Enquanto o ditador mata, escraviza e estupra, ele nunca questiona suas próprias ações e nunca é questionado uma vez que sua ascenção ao poder condiciou a população a aceitar aquilo que ele diz e rejeitar toda evidência e argumentos em contrário.

      A frase de Lenin “Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é” explica perfeitamente como o totalitarismo funciona. Uma vez que você deturpa a visão moral da sociedade, convencendo-a de que está sobre o ataque de um inimigo abominável e genocida, você consegue justificar suas próprias ações abomináveis e genocidas como “moralmente corretas”.

      O combate ao totalitarismo começa justamente por negar aos psicopatas essa capacidade de construir “inimigos da sociedade” ao confrontar os alvos de sua propaganda com um comportamento conciliatório que lhes permita reavaliar suas próprias crenças.

      A partir do momento em que as pessoas admitem a sua própria capacidade de cometer erros, sem sentirem-se constrangidas ou fracassadas por isso, elas começam a enxergar os defeitos de seus líderes e as virtudes de seus opositores.

      Quando as pessoas começam a partir do pressuposto de que podem estar erradas, elas começam a buscar mais evidências e contrastar mais argumentos para construírem sua visão de mundo.

      É ai que morre o germe do totalitarismo, as pessoas passam a perceber que “pau que bate em Chico também bate em Francisco”, isto é, aqueles que propõe a destruição de inimigos horrendos em nome de uma causa justa não passam de pessoas horrendas e injustas que só trarão desgraça para todos.

  4. Zapeando a tv, para na globo news e o programa estava passando uma reportagem sobre Fidel. Vi o comentário final do apresentador e os créditos passando com fotos do ditador (ainda bem), mas o que me passou é que Fidel era um bom homem, estava chorando, ou sorrindo, ou parecendo um líder nato e de grande valor. Essa é a imprensa brasileira, fazendo propaganda e transformando o mal em algo bom

  5. .
    Eu acrescento que essa crença de que os socialistas “erraram” economicamente possui mais uma razão de ser:

    isso acontece porque o sujeito simpatiza com o socialismo no sentido deste fornecer PODER ABSOLUTO ao governate, sendo o estado algo como um deus a ser adorado. Então os socialistas são apenas “INTERMEDIÁRIOS” equivocados da mística entidade. E eles, essas tão bondosas pessoas como os socialistas, é que sabem interceder com o Estado para criar o “bem comum” IMPONDO sua moral ideológica e mais racionalidade no trato econômico.

    A questão é que criticar moralmente o Socialismo levaria a um questionamento do Cristianismo, dado que ambos possuem a mesma moral e o POBRISMO lhes é inerente.
    Ainda mais coincidências gritantes:
    -O cristianismo valeu-se do COITADISMO e do VITIMISMO, como se ser fraco e perseguido legitimasse sua verdade (trata-se de falácia bem elaborada).
    -O Cristianismo, tão bonzinho, produziu as ATROCIDADES do FEUDALISMO, com perseguçoes e as mais CRÉIS TORTURAS CONTRA CRÍTICOS.
    -O discurso cristão foi EXATAMENTE o que ATUALMENTE SE CHAMA “POLITICAMENTE CORRETO”.

    Por tudo isso a tal direita ideológica não se permitia a CRÍTICA MORAL AO SOCIALISMO por temor dela se virar contra o cristianismo.

    É o tipo de gente que necessita de adorar entidades misticas, muito bem descritos na mitiologia bíblica do BEZERRO de OURO.

    Não conseguem viver sem estarem adorando e fazendo súplicas na esperança de serem atendidos. Assim o seu par ideal são aqueles maníacos que querem ser soberanos magnânimos e “salvar o povo através do Estado”. Um casamento perfeito de imbecis com maníacos.

    Os conservadores amam o Estado totalitário, mas advogam a economia com alguma liberdade a fim de propsperar. Contudo querem o “comunismo moral” segundo seus dogmas morais.

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