Esmagamento público de presidente do Inter comprova o poder do debate moral

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Eu sou principalmente um liberal, principalmente em termos de princípios. Mas se há algo que me incomoda na narrativa adotada por grande parte dos liberais é o discurso focado na “eficiência”, em detrimento do debate moral. Ainda que o Brasil ultimamente tenha sido brindado com mais liberais pragmáticos, que adotam o debate moral em vários momentos, ainda encontramos muitos outros liberais partindo para o “tecniquês”, incapaz de emocionar quem quer que seja.

Em relação à tragédia do Chapecoense, é bom lembrar o caso de Vitório Píffero, presidente do Internacional, se tornou alvo de uma artilharia de shaming após ter defendido a não realização da última rodada do Brasileirão, que ficaria incompleto. Outros jogadores adotaram a mesma posição, alegando falta de condições emocionais para atuar após o desastre aéreo envolvendo a delegação da Chapecoense, jornalistas e tripulantes. A frase em que Píffero tratou da “tragédia” do Inter – caindo para a segunda divisão – no mesmo patamar que a tragédia que matou quase todo o time do Chapecoense – além de alguns repórteres e dirigentes – foi considerada o ápice da falta de humanidade. (Atualização às 12:28 de 04/12 – A frase foi proferida por Fernando Carvalho, vice-presidente do Inter, mesmo que a chuva de críticas pelo pacotão de atitudes recaia sobre Píffero, como representante da organização)

Não demorou para que outros presidentes de clubes identificassem o gesto de Píffero como antiético e imoral, unicamente com o objetivo de virar a mesa. A tragédia do Chapecoense seria um pretexto para a virada de mesa, dado que o Inter está na zona de rebaixamento.

A partir de agora, não há nada mais que Píffero possa fazer. Ele foi completamente desconstruído em termos morais. De acordo com a tese do desengajamento moral, estabelece-se aí uma situação na qual uma boa parcela da população pode fazer praticamente o que quiser contra ele, uma vez que ele é tratado como o monstro moral do momento. Vemos por exemplo várias pessoas dizendo que ele era um “lixo, vagabundo, escória” e daí pra frente. Ao chegar na Arena Condá, ele foi hostilizado. Agora ficou fácil fazer isso, dado que ele foi colocado numa posição onde está moralmente desconstruído.

O que isto prova? Que o debate moral deveria ser o caminho de boa parte dos debates políticos. Quando expomos a imoralidade de nosso adversário, a discussão normalmente se torna mais “calorosa”. Os ânimos normalmente se exaltam, e, em geral, falamos ao coração da plateia.

Quando um liberal adepto do debate técnico diz que o socialista adota “uma visão ineficiente da gestão do estado”, isso não aborda componente moral algum. Como resultado, o debate daí resultante é frio e desinteressante. Paixões não são levantadas. Essa é uma reflexão a ser feita, por exemplo, pelo Partido Novo. De que adianta iniciar um projeto político que não fala ao coração do povo?

Se quiserem ter resultado, direitistas deverão adotar como temas de várias de suas iniciativas políticas aqueles que inflamam o coração do povo. Vale a pena buscar discutir questões nas quais é fácil expor a imoralidade de seu oponente. Por exemplo, podemos apontar com facilidade a monstruosidade de Dilma Rousseff por ter pedalado e destruído de propósito a vida de milhões de brasileiros. Podemos demonstrar que, ao ficar contra a PEC 241, os petistas são monstruosos, uma vez que escolhem a destruição das contas públicas, que afugentam investidores e empregos. Igualmente, podemos apresentar evidências de montão de que ficar contra a reforma do ensino médio é escolher a destruição do futuro dos estudantes, que dependem de um ensino mais profissionalizante do que o atual.

Para você saber se está na esfera do debate moral é simples: basta notar se você consegue apontar a imoralidade de seu oponente em tomar uma posição diferente da sua quanto às questões públicas. Se você consegue apontar a imoralidade, isso já é parte de um debate moral. Porém, num discurso sobre “eficiência”, onde se discutem “erros na gestão do estado” – que, como os leitores aqui já sabem, não são normalmente erros, mas práticas propositais -, não há nenhum aspecto moral envolvido.

Em suma, a demolição moral sofrida pelo presidente do Inter deve ficar como uma lição. Primeiro, a de que é preciso tomar cuidado no momento de adotar posições imorais em assuntos do debate público. Ele se deu mal por isso. Segundo, a de que o debate moral é o mais fértil dos terrenos da moderna guerra política.

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3 COMMENTS

    • Independentemente de quem proferiu cada frase, o conjunto da obra sugere um oportunismo absolutamente imoral, tanto que pela ação dos seus dirigentes, o próprio clube está sendo estigmatizado. Mesmo as declarações dos jogadores, supostamente legítimas (embora a meu ver um tanto afetadas*) estão sendo vistas como parte de uma “jogada ensaiada”.
      * considero essas afirmação de não ter condições psicológicas de entrar em campo 12 dias depois da tragédia uma afetação típica do homem pós-moderno emasculado pelo politicamente correto (do mesmo tipo que protesta contra o estupro de suas mulheres usando saias). Como esse discurso hipersensivel cai bem aos ouvidos da mídia esquerdista, tem quem compre. Como jogador de futebol é bem mais povão (muitos cresceram em favelas e viram amigos morrerem ainda adolescentes), esse discurso soa falso mesmo.

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