"Não me importo se o PT pede a renúncia, o que importa é a proposta": eis uma frase insana

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Esta é uma argumentação que ouvi recentemente. O sujeito, de direita, diz, orgulhosamente: “Olha, eu não me importo de onde as ideias surgem. O que importa é a ideia em si. E se pedir a renúncia do Temer é o ‘certo’, tanto faz se o PT a pede ou não. Então, não me importo se o PT criou a demanda por ‘renúncia de Temer’. O que importa é que grito junto”.

Geralmente este tipo de afirmação é dita naquele tom orgulhosinho, no qual a pessoa parece um pavão emplumado: “Eu sou o cara! Eu sou o bonzão! Eu sou o rei da cocada! Eu sou aquele que escolhe a ideia pela ideia em si, e não por quem a proferiu”. É o verdadeiro iluminista clássico!

Me desculpe a sinceridade com os que caíram neste “bug” mental: avaliar a ideia sem querer saber quem a proferiu (e qual o maior interessado nela) certas vezes não difere muito da loucura.

O empreendimento de esforços desapegado da análise da origem do discurso adotado (ou em vias de sê-lo) nos coloca fora da política real.

Imagine a situação na qual você é um policial do BOPE, em busca de um contato para estourar a boca do tráfico. Agora realize que você ouviu a frase: “ei, apareça no beco (x) às 9 horas da noite que a fita é boa”. Porém, você não quer nem saber se a informação vem de: (1) um informante bom da polícia, (2) um traficante armando uma emboscada.

No primeiro caso, você pode conseguir fazer uma boa emboscada. No segundo, pode tomar uma azeitona no meio da testa. Em resumo: não faz sentido tomar decisões políticas sem saber se onde as propostas surgem.

Se o PT está tão interessado em pedir “renúncia de Temer”, a primeira coisa a perguntar é: qual a origem de tamanho desejo? Em seguida, devemos nos questionar: quais os motivos para que eu me coloque na mesma direção em que os petistas? Isso sem falar nas questões éticas: por que temos que pedir “renuncia, Temer” com tanta antecipação sendo que demoramos cinco anos para pedir “fora Dilma”? E se pedimos “fora Dilma” por crime de responsabilidade, por que o critério para Temer deve ser mais exigente (apenas por delação ainda não comprovada)? Se quisermos o impeachment – e não a renúncia – de Dilma por que de Temer se pede a renúncia? Não será que essa impaciência histérica é apenas um engodo criado pelo seu adversário?

Questões como essas nos colocam em uma decisão até fácil: se o PT quer tanto a renúncia de Temer, é praticamente impossível que essa seja uma boa ideia, tanto na avaliação política como na avaliação moral.

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