Por que "narrativa" foi a palavra mais relevante de 2016 na política?

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Imediatamente após a vitória de Dilma Rousseff em 2014, a direita aprendeu, de vez, o significado da expressão “desconstrução”. Era o sinal de que caminhávamos para um novo estágio de maturidade política na direita. Nesse novo nível de maturidade, passamos a entender que o ataque contínuo – do modo mais corrosivo e abrasivo possível – é o tom da política. Atacar o adversário por todos os lados significa desconstrução.

Há quem leia Derrida e diga que não é isso que ele quis dizer com “desconstrução”. Sim, há um outro significado: que é o de interpretar conteúdos alheios conforme sua conveniência. Mas na seara da guerra política, fazer isso é destruir a imagem de seu inimigo. Seja lá como for, na desconstrução podemos desconstruir o próprio significado original de Derrida.

Se com a desconstrução, entendemos que precisamos atacar – de verdade – nosso adversário político, também é necessário esvaziar o discurso de embusteiros. No caso, quase todo discurso da esquerda – e no Brasil, especialmente da extrema-esquerda – se classifica como embuste. Para isso, usamos a grande palavra de 2016: narrativa.

Claro que alguns teóricos vão dar algum significado empolado ao termo “narrativa”, mas, na arena da guerra política, o termo tem um único significado: narração – normalmente desapegada da verdade – lançada para se obter um benefício.

Há um benefício para o uso do termo. O imaginário popular já compreende narrativa como algo negativo. Mesma sensação não decorre de utilizarmos termos como “argumentação” ou “discurso”. Automaticamente quando mencionamos uma narrativa, o público já compreende: “aí tem treta”.

E isso nos leva a deixar de dar valor de possível verdade aquilo que quase com certeza é mentira. Assim, vemos o PT lançar a “narrativa de que Lula é perseguido”, bem como parte da direita ter caído na “narrativa de que é preciso pedir ‘fora todos'”. Quando Marina Silva pede eleições direta, está apenas emitindo uma narrativa picareta que é a mesma utilizada pelo PT. Após o atentado em Berlim, a mídia se organizou para emitir a narrativa de que “o culpado era o caminhão”, e não o terrorista. E assim, por diante, passamos a tratar tudo que a esquerda fala como “narrativas”. Nosso texto deixa de ser apenas a “discussão de ideias” (algo que não faria sentido num ambiente de conflito), mas principalmente se torna o desmascaramento de embustes, traduzidos nas narrativas de nosso oponente.

Pode-se dizer: “Luciano, mas isso não tem nada de novo”. Claro que não tem. Mas a disposição de começar a tratar praticamente tudo que a esquerda fala como um conjunto de narrativas é, sim, uma novidade. Quantas vezes por dia não vemos textos dizendo “a narrativa de (x) entrou em contradição” ou “depois de (x), temos o fim de mais uma narrativa”? Agora isso ocorre várias vezes por dia. Antes de 2016, quase sempre víamos citações de discursos e “argumentos” alheios. Nem se compara.

Há uma diferença clara entre um argumentador de ideias e um desmascarador de narrativas. O primeiro normalmente é feito de besta pelo oponente. O segundo não deixa passar um truque sequer. Eis, enfim, a era das narrativas.

Em resumo, quando descobrimos que estamos na era da desconstrução, vimos boa parte da direita atacar a esquerda da forma que esta sempre os atacou historicamente (claro que ainda falta ampliar a maturidade nos jogos da guerra política para a direita, mas estamos no caminho). Quando descobrimos que estamos também na era das narrativas, vimos nosso nível de desmascaramento das patranhas aumentar.

O que sobrará para a esquerda? Simples: a censura. É aí que estarão nossos maiores desafios em 2017.

Em tempo: por que escolhi a imagem de João Santana para o post? Simples: ele é um mestre da desconstrução e do uso de narrativas. Não teria vida tão fácil depois que a direita descobriu as palavras “desconstrução” e “narrativa”.

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