É certo demitir as pessoas que “pediram a morte” de Marisa? A resposta precisa ir além…

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Já ouvi falar de três ou quatro casos de pessoas que foram demitidas por falarem que “Marisa merecia morrer” ou coisas do tipo. Dois desses casos se referem a médicos, que chegaram ao cúmulo de quebrar a ética profissional, revelando dados de exames. Outro chegou a sugerir que deviam desligar os aparelhos de Marisa.

Obviamente, os petistas utilizaram a indignação sistematizada para exigir a demissão dessas pessoas. Cada demissão era seguida por comemoração petista nas redes. Todos os demitidos foram expostos como troféus, até porque destruir a vida de alguém – eliminando dessa pessoa até o seu meio de vida – é uma demonstração de poder. É só ler autores como Marquês de Sade e René Girard para entender como o processo opera.

Vou listar alguns exemplos de casos retirados dos blogs petistas (que são aqueles que expõem os demitidos ou potencialmente demitidos como troféus):

A pergunta que alguns do nosso lado fazem é: “É certo causar a demissão de pessoas por frases emitidas em momentos de indignação?”.

Esse é um tipo de questionamento infantil. Assim, qualquer resposta como “sim” e “não”, de bate pronto, seria igualmente infantil. Cabe aí um “depende”. E do que depende? Do capital político. Assim, cada situação é diferente.

Sejamos francos. Não dá para defender politicamente alguém que tenha dito coisas como “Marisa merece morrer” ou “já que está no hospital, que morra logo”.

E a defesa da liberdade de expressão, como fica?

A defesa da liberdade de expressão dos muitos direitistas atacados pela extrema-esquerda é um empreendimento promissor quando politicamente a causa é boa. Defender Rachel Sheherazade dos ataques do fascismo cultural é fácil. Por exemplo, como Rachel pôde ser ameaçada de censura apenas por compreender os motivos de uma população vitimada pela violência urbana? Não é difícil expor a monstruosidade de quem tentou censurá-la. Expor como abominável a censura tentada contra Jair Bolsonaro e Levy Fidelix também é produtivo. Bolsonaro tende a sair como mártir pela liberdade de expressão se o STF o punir por ter dito que “Maria do Rosário não merece ser estuprada”. Uma ação de R$ 1 milhão movida contra Levy Fidelix – por ter dito que “aparelho excretor não reproduz” – foi derrubada nesta semana. Enfim, lutar pela liberdade de expressão dessas pessoas, mesmo possamos discordar delas em um ponto ou outro, é causa promissora. Mas é completamente diferente defender alguém que pede a morte de outra pessoa, principalmente em situações de vulnerabilidade e alta comoção dentro das hostes oponentes.

É preciso ter claro: uma coisa é defender a liberdade de expressão. Outra, bem diferente, é se posicionar ao lado de pessoas que fizeram discursos indefensáveis sob todos os aspectos.

Pode-se argumentar: “Mas Luciano, a extrema-esquerda às vezes diz que deseja a morte de seus oponentes em público”. Sim, é verdade, mas eles lidam melhor com o desengajamento moral, enquanto seus adversários não são treinados para promover denunciação em volume, de modo a causar demissão daqueles que tenham feito tal tipo de declaração.

Quer dizer: a extrema-esquerda às vezes deseja publicamente que seus adversários morram (enquanto na maior parte das vezes eles dissimulam, espertamente). Mas mesmo quando eles soltam a língua, já são treinados para se defender melhor das consequências políticas deste tipo de discurso. Ao mesmo tempo, a direita não tem coordenação nem volume para fazê-los (ainda) pagar o preço dessas declarações.

O que é, enfim, um verdadeiro ataque político?

Outra coisa: ataque político efetivo não é dizer “quero que morra”, em direção ao seu adversário. Reconhecer isso é ainda mais importante e em nosso contexto de direita que não possui a hegemonia e nem sabe utilizar o desengajamento moral para justificar a violência contra opositores. Como já disse antes, a esquerda sabe fazer isso. Nós não sabemos. Temos a grande mídia em coro defendendo a violência contra Milo Yiannopoulos. A direita não teria estômago para fazer isso.

Desta feita, é preciso entender que um ataque político de verdade vai além de sentir raiva e falar qualquer bobagem. Um ataque político inclui demonstrar como seu oponente odeia os pobres, é cruel, não tem coração e coisas do tipo. Não tem nada a ver com dizer “torço para que morra”.

É preciso aprender o básico sobre ataques políticos, que são como quaisquer ataques em combate. Um bom ataque na guerra tradicional é aquele que gera baixas no seu oponente. Do mesmo modo, um bom ataque na guerra política é aquele que causa danos ao inimigo. Um verdadeiro dano é um ataque à reputação do adversário. Mas dizer “quero que morra” não causa nenhum arranhão na reputação do inimigo. Ao contrário: aumenta o capital político dele, que pode se exibir como vítima e a você como um monstro.

Em resumo, aqueles que disseram “Marisa tein mais eh ki morrê” o fizeram sabe-se lá porque, mas não tinham como obter nenhum capital político a partir de suas ações. Como resultado, três ou quatro pessoas estão demitidas e ninguém em sã consciência irá defende-los.

A superação da fase do “sentiu, falou”

Sei que não é possível fazer com que a guerra política gere conscientização da maioria das pessoas – pois só um público mais restrito é capaz de assimilar o jogo, e, daí, influenciarão a maioria -, mas esse tipo de atitude que vimos é coisa da pior extração de alienados quanto aos jogos políticos. São declarações típicas da fase até os 7 anos de idade, período limite em que as pessoas ainda operam pelo mecanismo “sentiu, falou”.

Por exemplo, até mesmo pessoas de 10 a 12 anos de idade não saem dizendo, em público, que querem pegar nos peitos das garotas e, no caso das mulheres, pegar nos pintos dos garotos. Em vez disso, pessoas nessa fase já criam jogos conscientes para adaptar sua linguagem ao que é socialmente aceitável. As pessoas normais saem da fase “sentiu, falou”.

É claro que mais ultraesquerdistas querem que seus adversários morram do que o contrário. Mas ao que parece a direita ainda tem muita gente na fase do “sentiu, falou”. Já a extrema-esquerda sente algo, pensa na comunicação, idealiza um resultado e daí fala.

Tente imaginar a seguinte situação. Você e seus amigos vão para a balada tentar ficar com a mulherada. Daí um de seus amigos, ao ver uma HB10, diz: “Ei, você é muito gostosa, quero te comer, e não paro de pensar nisso. Me dá? Me dá?”. Obviamente, ela tende a sair de perto, e todo o grupo pode sair rejeitado pela balada, virando motivo de troça. E não vão comer mais ninguém na noite. A era do “sentiu, falou” sempre causa danos.

Pessoas que adotam o “sentiu, falou”, na verdade, não estão aptas a estabelecer interações sociais e nem permanecer em empregos. No mundo real, nós mesmos estigmatizamos estas pessoas, pois só tentem a nos prejudicar. Pessoas assim nada acrescentam a qualquer grupo e sempre são úteis ao seu inimigo.

Podemos até supor que os três ou quatro demitidos não ficam na fase do “sentiu, falou” em suas vidas, caso contrário dificilmente teriam até mesmo conquistado os empregos nos quais estavam. Mas, para discussões políticas, eles agiram como se estivessem na fase do “sentiu, falou”. Ou seja, são bebês políticos.

Eles foram destruídos porque não jogaram absolutamente nada, diante de oponentes que sabiam jogar o jogo. Simplesmente, pagaram o preço do mais absoluto “não jogo”.

Conclusão

Façamos a pergunta de novo: “É certo causar a demissão de pessoas por frases emitidas em momentos de indignação?”. Na ótica da extrema-esquerda, isso não apenas é certo, como essencial no jogo político. Eles se encontraram em momento de ressentimento e aproveitamento de indignação, que pode ser direcionada em uma direção. Encontraram adversários que disseram coisas tão indefensáveis que ninguém teria coragem de defendê-lo, mesmo dentro do exército oponente. Eram alvos perfeitos para empreendimentos de destruição de vidas.

E do nosso lado? Talvez a resposta é que, neste caso, tenha sido um castigo merecido. Carlos Andreazza havia feito uma mensagem importantíssima, que certamente não foi lida pelos infelizes:

carlos_andreazza

É simples demais: na guerra tradicional, nós rejeitamos aqueles que entreguem munição farta para nosso adversário. Sabemos que essas pessoas são um perigo ao grupo. Vale o mesmo na guerra política.

Devemos ter tolerância com aqueles ao nosso lado que ainda estão na infância política. Vamos ajudá-las a chegar na adolescência política. Mas quando a coisa chega ao nível de bebês políticos, não dá para tolerar mesmo.

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3 COMMENTS

  1. Sou médica, não li o que os médicos escreveram e vou dar minha opinião baseada no que entendo por ética:
    1- SE um médico disse que Marisa merecia morrer, tem que levar muita porrada, mesmo. Um médico não pode julgar um paciente, nenhum paciente. Se pudesse julgar, os condenados no corredor da morte morreriam todos de pneumonia;
    2- SE os médicos comentaram o caso da Marisa com outros médicos, não tem problema, pq às vezes o médico quer ouvir outra opinião, para ajudar o paciente;
    3- Desligar o respirador é o procedimento no caso de morte cerebral. Se o paciente continuar a respirar sozinho, vai ter vida vegetativa e continua a ser tratado.
    Se para de respirar, o coração para em 2 minutos, e a morte é constatada. Isso geralmente é feito com o consentimento da família.
    Minha opinião sobre Marisa: ela sabia que tinha um aneurisma e devia ter se tratado há 10 anos, quando era mais jovem, e não tinha as complicações atuais, como trombose, hipertensão.
    Tb acho que não deveria ser decretado luto oficial pela morte dela.
    Deixei de ver o seriado House pq num episódio um médico mata um paciente que era um ditador africano e o House sabia de tudo. Um médico não pode julgar um paciente, ponto.

    • Foi bem até a parte do House. A premissa do seriado era justamente essa: um médico fictício viciado, antissocial e que faz o que lhe dá na telha.

      Aliás, House foi baseado em Sherlock Holmes – e todas as características estão lá.

      Se fosse para aplicar a moral no seriado, você deveria ter parado de assistir após o 1º episódio. Ou depois do episódio onde entrou o policial Tritter (aquele caso do termômetro).

      Adicionalmente, quando esse episódio foi ao ar, a série já estava decaindo em matéria de qualidade (a trama entre os personagens já não estava mais tão coesa quanto era antes, relegando personagens já desenvolvidos para o 2º plano). Isso sim foi motivo para parar de assistir.

  2. Não tem como defende-los por suas colocações, não por estas frases propriamente ditas, pois entende que na profissão deles não é aceitável estes tipos de sentimentos, defenderia com facilidade qualquer outro que não ocupasse visibilidade, mas sendo eles médicos, mesmo um “dr. ninguém” não pode se expressar com tanta estupides, tem mais é que serem punidos.
    “Aqueles que disseram “Marisa tein mais eh ki morrê” o fizeram sabe-se lá porque, mas não tinham como obter nenhum capital político a partir de suas ações.”, o que podemos afirmar é que não da mais para ninguém dizer que não quer fazer ou praticar politica, uma bela lição para população que fica inertes diante de tantos movimentos, hostis ou não, da esquerda ou da direita.

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