Constantino aborda a direita paternal, mas já existe uma direita crítica. Eis um bom conflito dialético.

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Rodrigo Constantino escreveu um texto sobre liberdade de expressão. Concordo com quase a integralidade do artigo, que pode ser lido aqui. Não há muito a comentar, a não ser recomendar a leitura, mas preciso apontar um ponto grave de discordância, que está neste parágrafo:

Se a direita pensa que a esquerda está equivocada, a esquerda pensa que a direita é maligna. E esse monopólio da virtude tende a levar ao radicalismo: se estou combatendo o mal, então posso até usar meios condenáveis.

Discordo amplamente da visão de que a “direita pensa que a esquerda está equivocada”. Na verdade, essa é a visão de direita que eu denomino como direita paternal. Ou paternalista. É uma direita que insiste em considerar o oponente não como um oponente real, mas como um “filho” necessitando de um conselho.

Mas já existe uma parte da direita que se coloca em oposição à direita paternal no momento de observar o adversário. Tenho atribuído um nome a essa direita: crítica. Ou seja, a direita crítica. É uma direita que visualiza seu adversário como ele é, não a partir de boas intenções imaginárias.

Por exemplo, imagine que um sujeito tenha sido preso ao vender um bilhete premiado da loteria. Um crítico considera que o sujeito deve ser preso por fraude. Um paternal irá dizer que o sujeito não conseguiu concretizar o sonho de transformar alguém em milionário por ter vendido um bilhete premiado, talvez por erro, ou qualquer outro motivo.

Da mesma forma, um direitista paternal irá dizer que “o socialismo fracassou”, mas um direitista crítico saberá que o socialismo deu certo de acordo com suas reais intenções, que é a de construir totalitarismo. São visões diametralmente opostas.

É importante que existam essas visões opositoras de direita, para que possamos começar o estudo dialético de lado a lado. Eu já me coloco como um direitista plenamente crítico. A meu favor, conta o fato de que eu consigo prever com facilidade os próximos passos do adversário. Outro ponto a meu favor é que eu jamais me “decepciono” com as armadilhas do oponente. Na verdade, são apenas passos esperado de um jogo que eu já prevejo, de acordo com as intenções reais do inimigo.

Os paternais, por outro lado, parecem estar sempre “surpresos” com as armadilhas oponentes. É normal que se sintam assim. Há um conflito entre visualizar alguém como “um coitado enganado” e alguém que acabou te armar uma arapuca contra você. Os paternais tendem a ter alguns rompantes de fúria, pois às vezes se sentem surpresos com esses passos do inimigo.

Vale lembrar que não considero Constantino um paternal em sua totalidade. Creio que ele possui componentes de criticismo em sua abordagem. Mas isso tende a ser problemático, pois a mistura de paternalismo e criticismo gera pequenos “colapsos” narrativos, e até frames desestruturados. É como se fôssemos falar de um “hospital”, que deveria ter médicos, enfermeiras e estetoscópios como parte de narrativa, e de repente começássemos a falar de venda de hambúrgueres. Eis o colapso: estamos falando de um hospital ou de uma lanchonete? O mesmo tipo de colapso tende a acontecer quando confundimos paternalismo e criticismo. Numa hora o paternalista diz que “o esquerdista é um iludido” e no momento seguinte diz “ele é um mau caráter totalitário que quer complicar a sua vida”. Mas ambos os atributos são conflitantes.

Acho que é hora de estabelecermos uma pressão dialética sobre a visão paternalista de direita, pois argumento que ela pode nos tornar incapazes de prever os próximos passos da esquerdinha e da extrema-esquerda. Ademais, o paternalismo afrouxa nosso discurso. Em outros termos, o paternalismo é uma visão de direita que adota a fé cega na crença. Lembre-se que a fé cega na crença, no âmbito do socialismo, significa a descrença no socialismo, mas junto com a crença, sem respaldo por evidências, em que o oponente acredita “no socialismo, com boas intenções utópicas”, e não como um artefato para tomar o poder. Novamente, é uma visão excessivamente caridosa do adversário.

Vale notar que citar o paternalismo de alguém não é o mesmo que desqualificá-lo. John Gray é um de meus autores preferidos, mas é paternal em vários momentos. Gosto muito de autores como Michael Oakeshott e Isaiah Berlin, já citados, mas ambos são paternais até a medula. Ludwig von Mises e Friedrich Hayek merecem todo respeito e admiração, mas são paternais. No material destes autores, não vemos combate político, mas algo como se fossem pais de direita dando conselhos aos filhos de esquerda. Por outro lado, se discordei algumas vezes de Olavo de Carvalho no que diz respeito a táticas, especialmente em 2015 (embora eu concorde com sua abordagem atual), devo reconhecer: ele é um crítico quase em sua plenitude.

Discordo também de Constantino quando ele diz: “monopólio da virtude tende a levar ao radicalismo: se estou combatendo o mal, então posso até usar meios condenáveis”. Há controvérsias. Na verdade, o uso de meios condenáveis é parte inerente do ser humano, mas este aspecto se manifesta principalmente quando não existem consequências. Ou melhor, o dano. É o que chamo de linguagem do dano.

Quer dizer: a esquerda não usa tantos meios condenáveis por ter “crença na perfeição” – na verdade, esse é outro discurso paternalista, vindo principalmente de Michael Oakeshott -, mas porque seu adversário da direita não joga o jogo político em escala suficiente. Quando a direita alcançar o nível de jogo da esquerda, a tendência é que o barbarismo esquerdista seja reduzido, pois isto começará a “custar caro” para eles.

Em síntese, numa visão crítica do esquerdismo, devemos aumentar a postura crítica e o nível de jogo contra o oponente. Com isso, os atos bárbaros da esquerda começarão a ter um preço um tanto “desagradável” para eles. E assim, por medo de sofrerem danos políticos, tentarão violar menos a liberdade de expressão alheia. Eis, em uma casca de noz, uma visão crítica de nossa luta contra a esquerda totalitária, que agora se manifestou por completo nos Estados Unidos, e já se manifesta há tempos no Brasil.

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3 COMMENTS

  1. Essa falta do “custar caro” para a esquerda é, na minha opinião, a pior falha dos seus críticos. Sinto um misto de pena e raiva das pessoas envolvidas com movimentos sociais, porque admiro e apoio a coragem deles em enfrentar essa dominação esquerdista na política, nas universidades, na impressa, etc; mas fico com raiva quando eles vão a debates e apanham sem revidar; acho lamentável. Como vc mesmo deixou claro no texto, querem mostrar pra todo mundo como os esquerdistas são truculentos; esquerdistas reclamam de uma suposta violência direitista quando eles não perdem a chance de agredir fisicamente. Esses “direitistas” acham que comprometem o discurso da esquerda apenas mostrando como eles são pacíficos e a esquerda é truculenta; como se a esquerda não soubesse disso e não fosse truculenta propositalmente. Não se defendem, porque se revidarem serão chamados de….truculentos. Não conseguem sequer respaldar a causa com a legítima defesa. No caso do Milo em Berkeley, a imprensa noticiou “nas entrelinhas” que a violência contra ele foi necessária para impedir o pior……o pior seria uma palestra onde um gay fala sobre liberdade de expressão…Eles sempre vão justificar qualquer atitude deles, mesmo que eles tirem a vida de alguém, então, parem de apanhar a toa!!!!!
    Parecem contaminados pela mesma bactéria que faz com que Marco Antonio Villa diga que o Lula não é um socialista porque se aliou a grandes empresas, ou seja, fez um governo de direita. Se ele fosse um “socialista puro” teria pensado no bem do povo; como não o fez, quis enriquecer ilegalmente, tornou-se de direita. Com gente assim, sendo considerada referência contra o esquerdismo, nossa angústia vai prosseguir por muito tempo. Eu acho que a direita paternalista, na verdade, direita não é.

  2. Luciano, mas o próprio Constantino, em artigo recente intitulado “Por que a esquerda defende a “desmilitarização da polícia?”, faz a distinção entre os idiotas úteis (que você denomina “funcionais) e as lideranças de má-fé. Veja:

    “Na República Sindical que é nosso país, sob domínio da esquerda, é simplesmente insuportável que a PM esteja fora disso. O sonho desses esquerdistas é que cada policial fosse exatamente como os “professores” do ensino público, em sua maioria capachos dos sindicatos ou militantes disfarçados que fazem proselitismo ideológico e lavagem cerebral nos estudantes. É uma questão de controle. Como Bene Barbosa resumiu: “Tática de dominação e controle. Só isso!”

    Claro, falo dos líderes da esquerda, ou seja, dos oportunistas safados que sabem muito bem o que estão fazendo e possuem uma agenda por trás de cada ato pensado. Não entram nessa lista os idiotas úteis, os românticos bobocas e infantis, que pintam unhas de branco pela paz ou usam camisetas com a pomba que o comunista Picasso eternizou como símbolo do pacifismo, desenhada em uma litografia de presente para o assassino Stalin.

    Esses “pensam” mesmo que policiais com flores em vez de armas fariam muito mais pela paz, e nem o caos anárquico no Espírito Santo é capaz de fazer tal crença balançar. É uma questão de necessidade, pois essa turma vive no mundo da estética, e imaginar seres humanos como figuras santificadas, cantando de mãos dadas “Imagine”, faz parte da personalidade fraca e covarde dessa gente, massa de manobra dos canalhas.

    Mas a liderança não é nada boba. Sabe o que está em jogo. Defende bandidos como “vítimas da sociedade” e policiais como os “algozes da sociedade” porque querem fomentar o crime e enfraquecer a lei, tomando o controle do monopólio da força pelo estado. É tudo parte de um esquema totalitário de poder.”

    • Otimista,

      Esse é o colapso de frames que eu mencionei. Observe que em um momento ele fala da esquerda “enganadora” e no momento seguinte ele fala da esquerda “enganada”. Mas no trecho que eu citei, ele menciona “a direita” como um todo e “a esquerda” como um todo. O que ele diria que representa a esquerda? Os enganados ou os enganadores? Em termos de consciência de classe, ou é um ou é outro. É por isso que citei o exemplo do hospital e da hamburgueria. A estética adotada pelo Constantino é muito complicada e reflete pelo menos um paternalismo misturado com criticismo. Complicado.

      Abs,

      LH

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