Constantino se incomoda com rotulagem da Folha. Pena que a maior culpa está com a direita.

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Imagine a seguinte situação, que já trouxe por aqui, mas vale revisar. Considere que num jogo de basquete, o teu time está perdendo por 50X0. Em vez de reparar que está dentro de um jogo, no qual o encestamento de bolas é o que gera pontos, você chega na beira da quadra e diz: “Esse pessoal não tem jeito mesmo. Eles ficam com a mania de jogar essas bolas no cesto. Que coisa, não é?”. É quando dizemos: “Ei, você não percebeu que a cada vez que eles encestam a bola são dois pontos? É por isso que eles estão ganhando de 50×0. É hora de você começar a encestar bolas também”.

Mas, como já visto no passado, temos direitistas “indignados” porque a Folha resolveu rotular Marcelo Freixo de esquerda e Lula de centro-esquerda, enquanto rotulou Jair Bolsonaro de “extrema-direita”. Constantino escreve o seguinte:

O viés esquerdista da nossa imprensa tem sido tema recorrente por aqui, pois é um dos principais obstáculos que precisamos vencer para colocar o Brasil na rota do progresso. Esse viés escancarado é prova de nosso atraso, e demonstra o sucesso da estratégia esquerdista de ocupar esse espaço nas últimas décadas.

Parte desse sucesso é justamente o fato de que muitos sequer se dão conta do fenômeno, achando mesmo que nossa imprensa é “de direita”, após forte propaganda enganosa da extrema-esquerda. Os socialistas chamam de “PIG” – Partido da Imprensa Golpista – veículos como Folha de SP e Globo, que possuem claramente um viés de esquerda. E muitos caem na ladainha.

Após décadas de lavagem cerebral, eis o resultado que essa turma radical conseguiu: a extrema-esquerda desapareceu do mapa, assim como a direita. Ambas não mais existem. Em seu lugar, surgiram apenas a esquerda e a extrema-direita. Tudo aquilo que é extrema-esquerda, inclusive defensores do carcomido comunismo e do nefasto socialismo, tornaram-se simplesmente “esquerda”, enquanto basta ter alguma pegada mais à direita mesmo para ser classificado como “extrema-direita”.

Essa matéria da Folha comprova isso. Reparem que até o PCdoB e o PSOL, partidos que defendem abertamente o bolivarianismo, são retratados como “esquerda”, enquanto o PT e Ciro Gomes, que também flertam com o modelo venezuelano e que adoram o sindicalismo radical do Brasil, são vistos como “centro-esquerda”. O partido que efetivamente é de centro-esquerda, o PSDB, se torna “centro-direita”, e Bolsonaro, claro, carrega a pecha de “extrema-direita”.

Ele está bravo basicamente porque o adversário dele está encestando bolas, enquanto ele não faz isso. Posso estar equivocado, mas não me lembro de textos do Constantino definindo o Lula, Marina e Ciro como de extrema-esquerda. Mas o pior não é isso: é que, enquanto a direita deveria estar treinando seus formadores de opinião para sempre rotularem o inimigo de extrema-esquerda – ou seja, encestar bolas – eles aparecem na beira da quadra e dizem “ei, mas eles não param de nos rotular de extrema-direita e se rotulam como centro”. É bizarro!

Revendo o que escrevi em julho de 2016 sobre o tema:

Ora, está bem claro então que existe um código na guerra. Um código vai além das regras. Inclui também as boas práticas. Por exemplo, no futebol a regra diz para um jogador de linha “não meter a mão na bola”. Mas para além dessa regra, também existe a seguinte boa prática: “não fique discutindo filosofia no momento em que você está sofrendo pressão em seu campo”. Isto não é uma regra. Nada impede de você ficar fazendo poesia enquanto deveria estar focado no jogo. Mas mesmo que não seja uma regra, isso é uma boa prática. Assim, um código vai além das regras: inclui também as boas práticas.

No código da guerra política, uma boa prática é rotular o seu adversário. E quando o rótulo “ultra” ou “extrema” é lançado sobre seu oponente, isso significa que sua chance de ser percebidos como “o moderado” aumenta, pois o cérebro humano trabalha por referencial. Se há alguém rotulado como extremista, logo deve haver alguém que seja o mais “moderado” (e a maioria do eleitorado tende ao centro) […]

O problema maior não é a extrema-esquerda rotular direitista de “extrema-direita”. O problema é o espanto que algumas pessoas de direita sentem enquanto eles fazem isso. Não é normal sentir essas sensações. Não é sequer justo com o nível de conhecimento adquirido sobre o jogo político que já temos. A impressão que eu tenho destes questionamentos é a de um sujeito que entrou em campo para jogar futebol. Após o adversário estar ganhando por 5×0, o sujeito questiona: “Puxa, mas que mistério é esse que os faz ficarem jogando bolas na rede? Que absurdo isso, não acham?”. Enfim, enquanto o adversário faz a parte dele, é tratado como “estranho”. E aquele que não faz sua parte se acha ainda no direito de considerar um “absurdo” que o outro time esteja metendo uma goleada nele. É o rabo abanando o cachorro, convenhamos…

Em suma, a pergunta “onde está o conservador normal?” não é uma problema do esquerdista que está jogando o jogo. A obrigação dele é jogar. E isso eles fazem. E bem. O que resta ao direitista é começar a jogar o jogo. Então, oara começar, o mínimo que se espera é começar a jogar o jogo. E nem estou falando de “jogar bem” (pois isso vai demorar algum tempo). Mas pelo menos é preciso jogar. Digamos que seja um jogo “normal”, sem nada de excepcional.

Isto vale para a realidade de todos os confrontos da vida (de qualquer tipo). Um amigo lembrou este modelo de questionamento: “Por que os assaltantes me assaltam e os jogadores do time oponente jogam as bolas dentro daquele aro o tempo todo? Cadê os bons jogadores que me abraçam e me fazem carícias? Onde estão os ‘jogadores normais’ que não ficam pegando essa bola na mão? Cadê o assaltante que pede para eu lhe dar as coisas voluntariamente?”

Esta é nossa situação atual: o adversário faz a parte dele e alguns de nós se espantam com isso, e, enquanto não fazemos nossa parte, essas mesmas pessoas acham isso normalíssimo.

Só não podemos mais admitir que pessoas inteligentes resolvam se espantar diante de ver um adversário lançando sobre eles o rótulo de “extrema-direita”, o que, no fundo, é apenas instância do jogo. Ao mesmo tempo, precisamos questionar, as vezes até duramente, pessoas do nosso lado: “Quando é que você vai começar a rotulá-lo de extrema-esquerda?”. E mais: “Quando é que você vai parar se se espantar quando ele te rotula de extrema-direita?”.

Melhor dizendo: “Se o seu adversário está fazendo a parte dele, quando é que você vai começar a fazer a sua parte?”.

Ou seja, o problema não é que a Folha rotule seus inimigos de “extrema-direita” e aqueles ao seu lado de “centro”. Isso é jogo bem jogado. Coisa de gente que “sacou” como funciona esse tipo de rotulagem. Eles estão fazendo o trabalho deles. O problema é a direita que ainda se recusa a rotular gente como Freixo, Lula, Ciro e Marina como de extrema-esquerda.

Repito a pergunta que fiz há tempos:  “Se o seu adversário está fazendo a parte dele, quando é que você vai começar a fazer a sua parte?”.

Em tempo: Jair Bolsonaro não é de “direita”. É algo entre centro-direita e centro-esquerda, principalmente pela mania estatólatra da família (como se viu na semana passada com o voto contrário de Flavio Bolsonaro à privatização da CEDAE)

Em tempo (2): Este blog é o pioneiro na rotulagem incisiva de pessoas como Lula, Ciro e Marina como “extrema-esquerda”. Sei que às vezes cansa fazer isso quase sozinho. Mas alguém tem que começar, não é mesmo?

Em tempo (3): A mensagem subcomunicada por Constantino é grave. Ao mostrar espanto pela rotulagem, ele deixa a própria rotulagem ser percebida como algo “imoral”. Mas não é assim que a direita deve perceber a rotulagem. Ao contrário: a direita tem a obrigação de rotular o seu inimigo, coisa que não está fazendo. Não é produtivo criar a noção de que “há um mundo de gente malvada que saem rotulando a gente”. O objetivo deveria ir na contramão: nós deveríamos ser os “malvadões” que rotulam o oponente.

Abaixo estão as imagens da propaganda da Folha, que, como já disse, está fazendo a parte dela no jogo político (resta saber quando a direita vai fazer sua parte nesse jogo de rotulagem):

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5 COMMENTS

  1. Não teve um caso, há alguns anos, de alguém que em uma rede social, comentando acerca dos apoiadores do aborto, chamou uma das líderes do movimento de aborteira e que, por conta disto, foi denunciado e processado por difamação? Sinceramente não recordo os detalhes, mas que houve, houve.

    • Infelizmente no Brasil não existe liberdade de expressão, é a legislação falha somada a interpretações ideológicas a favor da esquerda e contra a liberdade.

  2. A direita no Brasil não tem influencia midiática, apenas blogs alternativos, mesmo que eles acertassem nos rótulos, não iria mudar muita coisa pois iria estar, como no ditado popular pregando para padres.

    Em tempo Bolsonaro sempre rotulou factualmente o PT de extrema esquerda e terroristas, enquanto que o “centro e centro-direita” vive querendo pegar credito do extremo esquerdismo da extrema esquerda.

    Quem quiser vencer as eleições como direitista vai ter que comprar briga com a mídia. Não existe alternativa se não esta.

  3. A Guerra tem de ser travada em diversas frentes. É preciso rotular adversários, não há dúvida. Mas é preciso tembém amplificar suas mazelas, denunciar seus crimes, desmascarar seus atores. E é aí que entra a nada gloriosa Falha de S.Paulo. Há de cobrar-lhe as escritas abjetas, denunciar suas falsidades, apontar suas preferências. No mínimo, constrangê-la a assumir seu esquerdismo empedernido. Nesse sentido, Constantino tem razão, se a Falha se diz isenta, sempre inclinada a dar o outro lado, devemos sim apontar o viés esquerdista da matéria. Inclusive devemos cobrar o Ombudsman sobre a maquinação ridícula publicada. Cobrar-lhe que assuma o esquerdismo, ou assuma seu baixo nível intelectual na definição do espectro político.

  4. Concluímos que há duas manobras (não excludentes) a fazer:

    (1) expor a hipocrisia da mídia esquerdista em distorcer as palavras para manipular a percepção das pessoas;

    (2) utilizar palavras mais fortes e precisas para reajustar a percepção das pessoas;

    O pessoal já está fazendo a primeira, falta fazer mais a segunda.

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