O slogan “Armas Pela Vida” faz todo o sentido, mesmo que o articulista do Zero Hora se rasgue de fúria

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Um tal de Paulo Germano escreveu um texto bizarro com o seguinte título: “Não importa se você é a favor ou contra as armas: o slogan ‘Armas pela Vida’ não faz sentido”.

A peça não tem a menor lógica e, portanto, deve ser desconstruída.

Comecemos:

Em primeiro lugar, não sou contra o direito de alguém ter uma arma para se defender — desde que a arma fique em casa e que o sujeito tenha treinamento e aptidão psicológica para usá-la. Restrições ao calibre são cruciais também: não faz sentido legítima defesa com uma metralhadora que derruba avião.

Preste bem atenção neste ponto: Paulo Germano diz que não é contra o direito de alguém ter uma arma para se defender “desde que a arma fique em casa”. Quer dizer, a pessoa não deve ter o direito de se defender se estiver fora de casa, local onde a vida geralmente é menos segura. É claro que ele pertence àqueles que são contra a liberação e, por estratégia, estabelecem critérios para tornar a liberação inviável. São narrativas do tipo “olha, pode usar, mas só se for dentro de casa” ou “olha, pode usar, mas só com um limite de calibre” (o que facilitaria a vida do bandido). Ou seja, ele é contra, mas lança truques para fingir que é a favor.

Dito isso, julgo-me isento para considerar o slogan Armas pela Vida uma sandice. Como disse o meu amigo Caue Fonseca, daqui a pouco alguém funda o movimento Orgias pela Castidade. Ora, armas são pela morte, ainda que a morte seja em legítima defesa. No domingo, a partir das 15h, o grupo fará um ato contra o Estatuto do Desarmamento no Parcão.

Ele não é um “isento”. Ele é um isentão, que é aquele que possui uma agenda específica (contra armas) e tenta “desarmar” o senso crítico dos leitores. A técnica é simples: distanciamento da propaganda da fonte.

O detalhe, é que slogan “Armas pela Vida” faz todo o sentido por conter um aspecto moral: é uma preocupação com as vítimas potenciais de crime e que podem atuar em legítima defesa. Ou seja, se Paulo Germano optou por proibir uma pessoa de usar armas na rua e esta pessoa é vítima de um criminoso, isso significa que o articulista do Zero Hora escolheu pela maior chance de ocorrer a morte desta vítima. Já o defensor do uso de armas escolheu pela circunstância em que esta potencial vítima possa aumentar a chance de salvar sua própria vida. Logo, o lema “Armas pela Vida” é importante.

A foto acima mostra, da esquerda para a direita, os vereadores Valter Nagelstein (PMDB), Mônica Leal (PP), Comandante Nádia (PMDB), Mendes Ribeiro (PMDB), Wambert Di Lorenzo (PROS) e Felipe Camozzato (Novo) — além de um dos coordenadores do movimento, Pedro Meneguzzi — protocolando na Câmara a abertura da Frente Parlamentar Armas pela Vida. O debate sobre o fim do Estatuto do Desarmamento é legítimo, mas precisa ser tratado de forma séria e racional, não com paixões e demagogia. O logotipo do grupo é um revólver dentro de um coraçãozinho. Todos sabemos — contrários ou favoráveis ao estatuto — que revólveres fazem corações pararem.

É o exato oposto do que Paulo Germano afirma. A proibição do uso de armas pode ceifar a vida uma pessoa que quer usar armas e é uma potencial vítima de crime. Ora, então é a escolha pela maior chance de matar esta potencial vítima. Dar a essa pessoa o direito de usar armas é uma opção em favor da vida dessa pessoa.

A falácia de Paulo Germano é óbvia. Trata-se do famoso estratagema erístico conhecido como “ampliação indevida”, pelo qual alguém cita uma versão exagerada do argumento de alguém, refuta essa versão exagerada e finge ter refutado a versão original. Germano criou em sua mente o lema “Armas pela Vida Absoluta” – ou seja, uma situação que não permite a possibilidade de auto-defesa e nem mesmo do assassinato, o que é inviável –  e o refuta, fingindo ter refutado o lema original, “Armas pela Vida”.

Uma vez que o lema “Armas pela Vida” especifica a vida da potencial vítima (e o direito desta potencial vítima de lutar por sua vida, reduzindo as chances dela morrer) ele é moralmente e logicamente aplicável. O slogan “Armas pela Vida” só perderia o sentido se ao mesmo tempo em que as pessoas fossem proibidas de usar armas fosse garantido o direito das potenciais vítimas de jamais perderem suas vidas nas mãos de um criminoso, situação que jamais aconteceu na história humana e nem possui chances de acontecer.

Goste ou não Germano de reconhecer, o lema está certíssimo: “Armas pela Vida”. A diferença é a opção pela vida das potenciais vítimas que querem se defender. Germano que escolha quais vidas ele quer proteger. Isso não é nada bom…

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5 COMMENTS

  1. Não achei o texto dele tão ruim, até concordo quanto a necessidade de haver um controle para liberar armas, especialmente um teste psicologico. Quanto a utilização de armas fora de casa, a questão é que o bandido as usa fora de casa, assim, auto defesa implicaria o uso desta também fora de casa.
    Porém, a maior falácia do texto dele é “Todos sabemos — contrários ou favoráveis ao estatuto — que revólveres fazem corações pararem.” A verdade é que armas não fazem os corações pararem, mas as pessoas que manuseiam essas armas. A arma não é apenas objeto de morte, mas principalmente um objeto de ameaça, e com isso, um objeto de segurança. A intenção de portar uma arma é exatamente não necessitar utilizá-la uma vez que dificilmente alguém vai se meter de besta com alguém portando algo como um revolver. E o bandido irá avaliar duas vezes antes de fazer um arrastão com um cara que pode puxar o gatilho antes que o bandido possa sumir.

    • Testes psicológicos e psiquiátricos, quando usados em concursos públicos são frequentemente alvos de recursos e eventualmente o candidato reprovado apenas no psicológico acaba sendo admitido por força de decisão judicial.
      Um carro é tão perigoso quanto e você só tem que responder uma prova de múltipla escolha, um teste básico de coordenação motora e um exame prático de 5 minutos.
      Só a parte prática de um teste de tiro é muito mais longa que qualquer uso real dela, exceto se estiver numa guerra.
      As restrições existentes são demasiadas e ilógicas, especialmente a de calibres.
      O argumento que as armas servem para evitar a tirania é justificado ao estudar a história. Quem estabeleceu esse regulamento draconiano (o R-105) foi Getúlio Vargas, após tomar o poder através de um golpe armado.
      Precisamos derrubar esse estatuto para retornar o poder ao povo.

  2. Ora, se um grupo acredita que a legislação mais liberal em relação às armas implica em diminuição na violência (e eles até tem bons argumentos para isso, embora eu mesmo não vá tão longe), esse lema é uma conclusão lógica. Ele é tão válido quanto a expressão “paz armada”. Pela mesma argumentação do repórter, uma paz armada seria impossível, já que armas servem para fazer guerras. Esse raciocínio ignora o paradoxo de que estados e indivíduos mais podem dissuadir outros de iniciarem a agressão. Quando o risco é muito grande, o crime se torna menos atrativo.

    Para defender esse ponto, o repórter traz para si o ônus de provar que mais armas significam necessariamente uma sociedade com mais mortes.

  3. A curiosidade que tenho é se permitido a posse e o porte de armas, haveria alguma restrição? Emprego fixo, residência fixa, negativas, avaliação psiquiátrica e psicologica, treinamento obrigatório? A venda só se daria após o cidadão ter um documento comprovando sua capacidade técnica, psíquica e legal em ter uma arma? O que entende-se por “sem restrição”? Me lembro do meu pai com dois .38, e qual a proposta? Maior calibre? Armas de assalto? Vejo muita gente falar em liberar, mas voltaremos a lei antiga, da década de 80, ou libera geral? Eu sou curioso pela proposta, pois acho que deve haver sim uma flexibilização do porte e posse, mas defendo restrições do tipo de arma e qual o perfil do cidadão que as teria.

  4. Os defensores do armamento civil estão facilitando o trabalho da mídia infelizmente ao dar evidência às eventuais mortes por arma de fogo em caso de revogação do estatuto. Isso deveria ser um assunto muito menos frequente do que a PRESERVAÇÃO da vida, tanto da vítima quanto do assaltante. Ora sabemos que, nos países em que armas são liberadas, as mesmas são utilizadas sem disparo na ordem de 25 vezes mais do que envolvendo disparo. Isso é uma agenda positiva a meu ver em relação a liberação, mantendo longe o foco em quem deve morrer ou coisa parecida. Vendo a discussão nesses termos em praticamente todas as intervenções de armamentistas, fica a duvida se conseguirão manter a liberação e resistir ao contra-ataque da mídia, que noticiará incessantemente cada morte com arma de fogo como consequência da liberação. Te convido Luciano a olhar com o devido cuidado sobre a discussão sobre o desarmamento e o seu efeito sobre o senso comum da população. No estágio atual o desarmamento civil já não consegue manter-se de pé por muito tempo. A discussão já está ganha para o lado armamentista. O caso é se o lado vitorioso está se preparando ou não para o contra-ataque desarmamentista, e a preparação deve começar já para que os danos sejam minimizados. A estatística de uso de arma sem disparo ou sem vítimas deveria estar sendo abordado muito mais vezes (inclusive em forma de vídeos compartilhados em redes sociais) do que o uso de armas que venham a resultar em vítimas.

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