Será que deveríamos ter prestado atenção aos escritos de Alinsky em 71 para evitar que este 26/03 desse em água?

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Para início de conversa, eu quero parabenizar o esforço feito pelos grupos democráticos que hoje foram se manifestar. Também entendo que priorizar a pauta da derrubada do voto em lista fechada foi uma ótima ideia, ainda que tardia. Não quero que este post seja um apontamento de culpas, mas um chamado à reflexão, pois entendo que principalmente os movimentos deram uma resposta ao clamor de muitos de seus seguidores. Tentaram fazer o melhor com o que tinham em mãos, mas se algo não deu certo, é bom que todos façamos uma reflexão.

O fato é que as manifestações deste 26/03 foram um fiasco, bem ao contrário das históricas manifestações pelo impeachment. A pergunta é: qual a razão para o fracasso?

Talvez a resposta possa ser encontrada no livro Rules for Radicals, escrito em 1971 por Saul Alinsky e tratado por este blogueiro que vos escreve como um dos pilares da moderna guerra política.

A décima terceira das regras para táticas de Alinsky dizia: “Escolha o alvo, congele-o, personalize-o e polarize-o”. Ele queria nos lembrar que não adiantava fazer ações contra “a prefeitura”, mas sim contra um prefeito em específico, ou contra “a classe política”, mas sim contra um representante específico desta classe. Para buscar amigos, indivíduos escolhem outros indivíduos. Vale o mesmo para identificar inimigos: são outros indivíduos.

As manifestações pelo impeachment foram um sucesso pois tinham como alvo Dilma e seu comparsa Lula. Era fácil apontar as culpas deles e o que representavam. Porém, falar “da classe política” é algo muito mais vago. As pessoas já estão acostumadas a repelir a classe política, com a diferença de que a intensidade dessa repulsa agora é muito maior. Mas isso por si só não gera movimento.

Talvez um ensinamento que fique para nós é o mote por trás da crítica ao voto em lista fechada. Por exemplo, foi dito que a lista fechada era um problema pois iria eternizar “a classe política”. Mas outra tese poderia ser aventada: a lista fechada é uma requisição de gente como Lula e seus sicários da extrema-esquerda para controlarem o poder. Esta última tese se encontra amparada pelos fatos, uma vez que a origem de todas as demandas por lista fechada está em partidos como PT, PCdoB e PSOL.

Outro problema é sair em “defesa da Lava Jato” e “defesa de Sérgio Moro”. Mas defesa de quê? Da chuva? Das enchentes? De furacões? De uma manada de rinocerontes?Novamente, não temos um inimigo personalizado. Ora, se Sérgio Moro precisa ser defendido é das ameaças constantes de Lula e Ciro. Em suma, as ameaças tem um nome, e não estão “na classe política” em geral.

Algo que talvez pudesse ser colocado em pauta é uma futura manifestação questionando a Lava Jato pelo privilégio dado a Lula, que ainda não foi preso, enquanto outros, como Cunha, Odebrecht, Eike e Cabral estão na cadeia.  Ora, se queremos justiça para todos, por que Lula está solto? Então quer dizer que a justiça não é mais para todos? Isso poderia dar um bom mote…

Tudo que estou dizendo aqui parece que nos mostrar que hoje temos “duas direitas” em luta, em termos de brigas escolhidas:

  1. Aquela que luta contra a classe política
  2. Aquela que luta contra a extrema-esquerda, representada por Lula e Ciro, e que está doidinha para voltar ao poder em 2018

Quem optar pela briga (1) terá que lidar com o fato de que dificilmente terá inimigos personalizados, reduzindo assim a chance de engajamento. Quem sabe não precisamos definir mais claramente nossos inimigos para as próximas batalhas? Quem lê este blog sabe que eu faço parte daquela direita que tem um objetivo claro: não deixar a extrema-esquerda retomar o poder em 2018 e ir, durante essa luta, tirando poder dessa gente aos poucos, apoiando demandas como a PEC do Teto, a regulação da terceirização e o fim do imposto sindical.

Acredito que aqueles que defendem que a luta não é essa, mas contra a classe política em geral, devam ter suas hipóteses de combate testadas. Mas ao que parece, neste 26/03, hoje foi um dia no qual a luta “contra a classe política” não ecoou suficientemente. Foi o primeiro dos testes.

Creio que novas discussões deveriam ser feitas pela direita em relação, principalmente, à definição do inimigo. O feedback dado por este 26/03 deve nos orientar nesse sentido.

Em tempo: acabo de ver que Ronaldo Caiado disse a Madeleine Lackso, do Antagonista, que não há “clima” para o voto em lista fechada. Neste caso, mesmo que a manifestação tenha tido baixa aderência, este seria um ótimo resultado. Mas devemos desconfiar principalmente daqueles que costumam capitular para a extrema-esquerda. Por isso, pode ser uma boa ideia exigir que os deputados formalizem que não irão votar pela lista fechada em número suficiente para derrubar a proposta.

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19 COMMENTS

  1. Também achei. E me parece que a inclusão dessas pautas com tendência a gerar muita discórdia (a Reforma da Previdência, p.ex.; muitas pessoas são radicalmente contra, outras até a aceitam, desde que os políticos, governantes e autarcas não sejam privilegiados etc) não deveriam ser elencadas nesse tipo de movimento, senão – em lugar de se focar em coisas mais palpáveis – vira assembleísmo e bate-boca fora de controle. Posso até estar equivocado, mas acho que muito da redução de “público” foi causado por esse cansaço / desânimo

    • Também penso assim. Tem pautas que não cabem em uma manifestação, principalmente quando não há muito acordo a respeito delas. Ouvi muitas pessoas dizendo que não foram porque o MBL é favorável a Reforma. Deveriam ter no máximo focado em duas pautas fortes e bem trabalhadas previamente.

    • Não fui à manifestação porque sou radicalmente contra a Reforma da Previdência! Acho que foi essa pauta sem cabimento que definiu o fiasco da manifestação do dia 26/03. Todos os meus colegas de trabalho também justificaram suas ausências com base nessa pauta ridícula.

  2. Lista fechada poderá ser um tiro no pé para esses partidos enlameados. Eu jamais votaria no PMDB e seus aliados na votação em lista fechada e, sendo sincera, nem sem lista. Procuraria um Novo partido e tentaria levar muitos votos para esse novo partido. Talvez o pt conseguisse alguma coisa com o voto dos seus fanáticos.

  3. Essa reflexão me parece bastante correta. Alguns esquerdistas tem tentado descartar as reivindicações da direita justamente usando esse ponto: que sua única força estava em ser genérica. Dessa forma, antes de servir como reflexão, os textos desses autores servem para tentar desviar o foco do outro lado, fazendo com que ele se dirija exatamente para os pontos que o levarão à derrota.

  4. Qual é o maior inimigo desse pais nesse momento? Não é o Lula? Porque não focaram nele e em sue prisão em? Quanto a generalizar a classe política,isso não leva a nada.Defender reformas da previdência? Ora,façam-me o favor! Nosso foco é ver Lula na cadeia e ainda assim não iremos enfraquecer totalmente a esquerda como queremos porque a direita brasileira,sem um liderança séria e comprometida de verdade COM O POVO BRASILEIRO,fica dando mais e mais munição para a esquerda em 2018.E o que o Rena disse? “Fechamos com o PSDB,DEM e PMDB!”.ME PARECE QUE ACABOU!

  5. Boa lembrança a de Alinsky, Luciano. Com a deposição de Dilma e a consequente ausência de um inimigo forte em comum, os diversos segmentos da direita se afastaram e hoje defendem cada qual o seu próprio território. E essa situação se agrava ainda mais com a proximidade das eleições de 2018. De certa forma era esperado que fosse assim. O que não pode acontecer, e acho que alguns não percebem o risco que corremos, é o crescimento ou a volta de um governo de esquerda. De qualquer forma, grande ou pequena, a manifestação aconteceu e torço para que Caiado esteja certo.

  6. Pauta extensa demais e genérica demais. Sem contornos definidos. Líderes dos movimentos já babando as bolas do Dória (um socialista fabiano). Comecei a sentir um cheirinho enjoado de centro-esquerda nessa manifestação. Vontade zero de participar.

  7. Discordo quanto a quantidade de pessoas presentes hoje. Superou as expectativas. Veja clipes e fotos na minha pg ou do VPr. A imprensa como sempre se esmerou em diminui-la. No G1 fizeram cobertura na Paulista pela manhã, quando o pico foi as 16 hs.

  8. Prezados amigos,

    É, a guerra política tem feito muitas vítimas mesmo. Duvido de que, se as manifestações tivessem sido de esquerda, teríamos, hoje, blogueiros de esquerda alardeando que elas foram um fiasco. Reinaldo Azevedo, por exemplo, está cantando, em prosa e verso, o “fracasso” das manifestações.O cara está numa alegria só.

    Bem, talvez o exemplo desse desinformante não sirva, pois ele fez campanha aberta contra as manifestações desde o início. Ele, como se sabe, é o máximo que se permite de representação da direita no Brasil. Ou seja, é um socialista-fabiano, e isto equivale a dizer que é um adepto da direita que não é “xucra”, mas, sim, domada e domesticada pelos tucanos. O resto é tudo “xucro”, de extrema-direita.

    Como diria FHC, o tucano-mór, “assim não dá, né”?

  9. Eu também não concordei com essa manifestação pela forma que foi feita, mas acho que se deve tirar algo de bom

    Esse algo de bom é que apesar da manifestação ter levado um baixo número de pessoas as ruas, ainda assim teve uma quantidade maior que a feita pela extrema. Isso mostra de qual lado a população está e mostra que por mais que a extrema tente, a direita (xucra quem sabe) sempre será mais forte

    É para esfregar na cara de qualquer esquerdista que tentar diminuir esta manifestação.

  10. O problema é que apesar de tanto desemprego boa parte da população ainda está empregada e voltaram a comprar sua cerveja, seu churrasco de linguiça ou galeto, para ver o futebol aos domingos com os amigos. As passeatas contra Dilma só aconteceram porque o brasileiro não conseguia fazer mais isso. Assim que ela saiu e a economia estabilizou (vejam só um pouco) o brasileiro perdeu o foco.
    A realidade é que podem chorar mas ele vão impor qualquer reforma e o povo vai continuar feliz com seu futebol e carnaval e talvez só quando virarmos uma Venezuela é que esse povo saia na rua pedindo a cabeça dos políticos, talvez.

  11. Gostei bastante desse análise e concordo q a personificação é uma tática das esquerdas q dá certo. Tá aí a baixa popularidade de Temer para provar isso. Eles são contra as reformas, mas conseguem passar à população que elas só existem por culpa de Temer. Isso ocorreu também durante a luta pelo impeachment. A direita conseguiu colocar a crise econômica, a corrupção generalizada na conta do PT – muito disso graças a Lava Jato. O problema é q essas pautas mais complexas não são tão fáceis de personificar. Como personificar a luta pelo direito de ter uma arma, por exemplo? Tudo bem que dá pra colocar a culpa do desarmamento e do aumento da violência da conta do Lula, afinal ele foi o responsável mesmo. Mas, para chegar a colar esse rótulo no Lula é preciso um trabalho de convencimento da população, mostrar que o desarmamento é um perigo a vida das pessoas, mostrar que a vida do cidadão comum vive sob constante ameaça e que isso é culpa sim do desarmamento civil e, posteriormente, culpa do Lula que pregou impôs tal ideia.

    Indo nessa direção, do trabalho de convencimento da sociedade, gostaria que o Luciano fizesse uma análise pelo seguinte ponto de vista:
    Já ficou claro que a sociedade só se mobiliza quando existe uma pauta de grande impacto e que surja de uma indignação geral. O impeachment e a Lava Jato são exemplos disso. O cidadão comum foi às ruas protestar por essas causas porque entendeu que Dilma e a corrupção eram responsáveis pela crise, por ele estar comprando menos no supermercado ou estar desempregado.
    Baseado nessas constatações, não seria necessário também trabalhar em cima de uma pauta principal, como o Voto em lista fechada, para mostrar a sociedade e ao cidadão comum, que um projeto desses aprovado é um real perigo e como ele pode afetar sua vida? Quais estratégias usar para gerar uma comoção social em torno de uma pauta como essa afim de produzir uma grande mobilização?

  12. Exato, o povo só de casa em multidão para derrubar alguém. Sem dar nome aos bois, sempre será um fiasco.

    Se fosse uma manifestação para derrubar o Renan ou a favor de Lula na prisão, teria tido mais sucesso com certeza.

    Sem contar que temas como “lista fechada”, “voto distrital”, “foro privilegiado”… convenhamos, será chega a 3% o percentual da população sabe o que é isso ?

    Foco! Foco! Foco! (contra o inimigo)

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