Quem quer derrubar Temer precisa dizer quem entra no lugar. Senão, não há mobilização.

0
122

Algumas pessoas questionam: por que as pessoas não vão para as ruas para depor Michel Temer assim como foram às ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff? A explicação é mais simples do que parece.

Como explica Manuel Castells em seu ótimo livro Redes de Indignação e Esperança, os movimentos são originalmente baseados na indignação, mas precisam lutar por alguma esperança. Sem os dois componentes, não há ação.

Por exemplo, imagine que Dilma Rousseff tivesse sido eleita tendo Lula como seu vice. Nenhum movimento pró-liberdade iria às ruas, pois saberia que o fim de seu mandato resultaria num governo ainda mais autoritário.

Evidentemente o processo de impeachment foi motivado por um crime de responsabilidade praticado para presidente, mas não haveria mobilização se fosse para sair das mãos de um bicho feio para cair nas mãos de um bicho horrível.

Quem lutou pelo impeachment de Dilma sabia que o fim de seu mandato resultaria num governo repleto de contradições, mas nem de longe um governo que vizava nos transformar em uma Venezuela por meio da corrupção. A alternativa Temer era melhor do que gente como Dilma e Lula.

Acontece que mesmo que Temer não tenha viés totalitário (o maior perigo do governo petista), está mais enrolado que namoro de vesgo. Seu governo alega ser vítima de perseguição por parte de Janot (o que é evidente), mas só é possível perseguir alguém judicialmente porque essa pessoas deixou brechas. Claro está que não se deve dizer que Temer é santo.

Entretanto, ninguém se mobiliza por sua saída, mesmo que ele tenha tanta rejeição quanto Dilma em sua pior fase. A razão parece óbvia: Dilma foi retirada do poder por uma alternativa melhor (e as reformas de Temer já demonstram um governo melhor para os brasileiros), mas aqueles que pedem a derrubada de Temer não disseram ainda quem querem colocar no poder.

Caso o projeto seja realmente derrubar Temer, a melhor forma de fazê-lo seria divulgar a alternativa, mesmo que fosse incerta. Algo como: “Queremos derrubar Temer e que Jobim [ou Jereissati, ou Maia] assuma e temos 90% de chances de conseguir isso”.

A partir daí, as pessoas podem começar a se mobilizar e avaliar se o futuro proposto é melhor. Focar apenas na corrupção não é o suficiente. As pessoas querem uma vida melhor, e colocarão a corrupção em segundo plano se o motivo principal não for apontado.

É hora de aqueles que pedem diariamente a renúncia de Temer começarem a dizer quem querem colocar em seu lugar. Isso caso queimam que as ruas ronquem de novo, é claro.

Anúncios

Deixe uma resposta