O “despertar” de Mario Sabino veio tarde demais e já não é mais viável voltar atrás

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No vídeo que veremos ao fim deste post há uma reunião de pauta do Anestesista (indicada pela leitora Nádia). Ali é possível ver Mario Sabino “indignado” a partir dos 27 minutos.

Que o anestesista Sabino me desculpe, mas dá para comprar isso, pois eles  foram avisados por mais de 1 mês que isso iria acontecer. Não podem alegar surpresa. Nesse sentido, os outros dois anestesistas estão sendo mais coerentes e mantendo a posição.

Durante mais de 1 mês nos venderam a ideia de que “Joesley também vai entregar o Lula”. Agora, para não ficar tão feio, Sabino muda o frame para “Joesley tem que entregar o Lula”, mas isso é contradição: se antes era certo que ele iria entregar o Lula, porque agora se muda para dizer que ele tem que entregar? Quer dizer que a informação de que era “certo que Lula seria delatado por Joesley” era uma mentira? Enfim, a emenda fica pior que o soneto. Fica melhor manter a narrativa anterior.

Algumas questões precisam ser simplificadas em termos de “nós contra eles”, para facilitar o entendimento.

O fato é que pouca gente se posicionou a favor de Temer, em números significativos. Com razão, pois Temer não se defende e ainda por cima está com ficha suja.

Assim sendo, os dois grupos em confronto nos últimos dias foram pró e contra a impunidade de Joesley.

O que pediam os grupos?

  • GRUPO ANTI-IMPUNIDADE -> Exigia a manutenção de todas as evidências já coletadas,ou seja, ninguém que já foi delatado sairia livre. Mas, ao mesmo tempo, se exigia a revisão do acordo de impunidade para que Joesley fosse pressionado a ter que delatar Lula no futuro e, mesmo assim, não receberia total impunidade.
  • GRUPO PRÓ-IMPUNIDADE -> Inventou a mentirinha de que as evidências já coletadas seriam canceladas e todos acordos futuros seriam prejudicados. Com esta narrativa, disseram que o acordo de impunidade de Joesley teria que ser mantido. Como se sabe, isso já o desobriga de apresentar qualquer evidência contra Lula, pois se ele já ganhou total impunidade sem entregar as provas contra Lula, por que precisaria fazê-lo agora?

O grupo pró-impunidade ganhou e agora terá que lidar com o ônus de suas escolhas.

Não sei os motivos particulares que levaram o pessoal do Anestesista a “fechar” com Janot, e não me importa, pois isso seria especulação sem provas. Mas, em termos históricos, esse é um tipo de ação que custa um preço, como avisei que custaria.

Está aqui um dos vários motivos pelos quais Joesley não vai entregar Lula: os eventos entre Joesley e Lula ocorreram antes daqueles relacionados a Temer. Assim, é tolice acreditar que “Joesley precisa de 120 dias para encontrar as provas”. Ele já deveria ter essas provas. A velocidade com que as provas contra Temer foram apresentadas e a lentidão da apresentação das provas contra Lula provam que a enrolação é apenas para que o povo esqueça de cobrar daqui a alguns meses, já que as provas contra Lula não aparecerão.

É fácil suspeitar que o acordo com a PGR só tenha dado total impunidade a Joesley por um único motivo: ele deveria entregar inimigos do PT e livrar os chefes do partido, que o financiou com grana do BNDES. Agora não adianta mais dizer que Joesley “tem que delatar Lula”. Se o fizer, seria até burrice.

Esse jogo já acabou e o PGR venceu. Infelizmente, a história lembrará que durante 5 semanas o Anestesista deu total apoio a este processo, que visava atingir um inimigo do PT e ajudar o partido totalitário. Leite derramado.

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2 COMMENTS

  1. Pois é. Foi uma derrapada inexplicável. O Antagonista vem pregando a prisão do molusco há tanto tempo, mas perdeu uma grande oportunidade de reafirmar sua convicção.

  2. Ótima análise! Tenho uma dúvida em relação aos antagonistas: será que a mudança de discurso do Mário Sabino não foi apenas uma questão de marketing do site, para recuperar seu nicho de mercado? Desde o início, a maioria dos leitores dos antagonistas, entre os quais me incluo, não engoliu a operação Janot/Joesley. Muita gente abandonou o site, como já havia feito com Reinaldo Azevedo, e cancelou a newsletter. Como tudo é business, tendo a acreditar que os antagonistas adotaram a estratégia manjada do good cop, bad cop.

    Quanto aos efeitos de uma anulação do acordo de impunidade perpétua da JBS, lembro um precedente da Lava Jato: o ministro-relator Teori Zavascki não aceitou e devolveu à PGR o acordo de delação premiada do ex-deputado Pedro Correa (PP/PE). Depois de minuciosa análise do material, Zavascki entendeu que Correa havia feito uma série de denúncias contra empresários e políticos, entre os quais, os ex-presidentes Sarney, Collor, FHC e Lula e a então presidente Dilma, sem apresentar provas consistentes. A preocupação do então relator da Lava Jato foi evitar que as acusações de Corrêa manchassem reputações e, depois, não fossem devidamente comprovadas ao final dos processos judiciais delas decorrentes.

    Dar 120 dias para que Joesley entregue as provas é de um ridículo atroz e quase criminoso. Quer dizer que, neste faroeste caboclo, atira-se primeiro, pergunta-se depois? E por atira-se primeiro, entenda-se derruba-se o presidente da república! “Apenas” isso. Daqui a quatro meses, Rodrigo Janot nem será mais o PGR – seu mandato termina em meados de setembro. Então, ficamos assim: Janot derruba Temer, vai para casa e o próximo PGR que se vire para limpar a sujeira toda.

    Pergunta final sobre a (des)memória do povo – e da imprensa: quem ainda se lembra das delações devastadoras de João Santana e Mônica Moura? Quem ainda se lembra de cobrar o IP do email de “Iolanda” que o Google foi instado a fornecer? Pois é, ninguém!

    “A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.” KUNDERA, Milan. No Livro do Riso e do Esquecimento

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