A sensacional entrevista do procurador Villela – esmagando Janot – é apenas o começo dos problemas do ex-PGR

1
345

A Folha publicou uma entrevista sensacional com o procurador da República Ângelo Goulart Villela, que lembrou que Janot fez o acordo de delação com a JBS no intuito de derrubar Temer e impedir a nomeação de Dodge para substitui-lo na PGR. Seja lá como for, não conseguiu nem uma meta nem outra. Hoje Dodge assumiu.

Os defensores de Janot que ainda mantém sua fé – ou são oportunistas – podem dizer que Vilella não merece crédito por ter ficado preso por 76 sob suspeita de vazar à JBS informações do MP.

Porém, o próprio Janot já usou delações de condenados para atingir seus alvos. Logo, podemos fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras. Se delações de investigados valem contra adversários de Janot, valem contra ele também. Portanto, não há espaço para mimimi…

Vamos ler com atenção o que Vilella diz, explicando a razão para ter ficado todo esse tempo em silêncio: “A prudência, diante de tudo que estava acontecendo comigo, o procedimento heterodoxo de apuração que eu estava sendo submetido pelo meu acusador, recomendava que ficasse quieto até que acabassem as flechas ou os bambus”.

Outro momento divertido é quando Vilella fala sobre outra coisa que já suspeitávamos. É o fato de Janot ter declarado que vomitou quatro vezes ao saber da prisão do ex-amigo. Tudo parecia bobagem, como se vê nas palavras de Villela: “Acho que é ‘media training’ [treinamento para lidar com a imprensa], não só essa frase mas outras de efeito que ele anda falando. Não pretendo desqualificar o meu acusador, mas essa frase infeliz demonstra que ele quis mostrar um lado humano que no meu caso ele não teve. No dia em que pede a minha prisão, ele me pediu um favor no TSE, numa questão de multas, algo que não tinha nada a ver com minhas atribuições. Na verdade, eu já estava grampeado, ele pede para uma pessoa me ligar em nome dele para agradecer ‘a força’. Então, não acredito que vomitou quatro vezes”.

Sim, só os janotistas acreditam. Ou fingem acreditar.

A motivação de Janot na Operação Patmos está aqui: “Isso tem uma motivação bem clara. Janot interpretou que eu havia mudado de lado também para apoiar a Raquel Dodge, a principal e mais importante adversária política dele. No Encontro Nacional de Procuradores da República, em outubro do ano passado, início de novembro, o Janot soltou uma frase que me chamou a atenção. Estavam eu e mais alguns colegas, poucos, e ele falou: ‘A minha caneta pode não fazer meu sucessor, mas ainda tem tinta suficiente para que eu consiga vetar um nome’. E ele falava de Raquel, todo mundo sabia”.

Sobre as metas de Janot: “O Rodrigo quis usar uma flecha para obter duas vitórias. A gente sabia que Raquel seria a pessoa indicada. Eu fui tachado por Rodrigo como se tivesse me bandeado para o lado dela. Esse era um alvo da flecha. O outro era que, derrubando o presidente, e até o nome da operação era nesse sentido –Patmos, prenúncio do apocalipse–, ele impediria que Temer indicasse Raquel. Não tenho dúvida alguma que houve motivação para me atingir porque, assim, ele [Janot] lança uma cortina de fumaça, para mascarar essa celeridade de como foi conduzida, celebrada e homologada uma delação tão complexa, em tempo recorde. Ele tinha pressa e precisava derrubar o presidente. Ele tinha mais cinco meses de mandato, e faz, então, um acordo extremamente vantajoso ao Joesley, de imunidade, diante de um material que levaria à queda do presidente. Essa pressa, para ficar mascarada, vem com um discurso de que a atuação imparcial de que estava cortando da própria carne. Ele me coloca ali como bode expiatório e me rifa. Nem quis me ouvir. Fui preso com base em declarações contraditórias de dois delatores, em uma pseudoação controlada”.

Aqui estão os interesses políticos de Janot, segundo Villela: “Considero que Rodrigo, valendo-se da informação que estava no Congresso no sentido de que a indicação de Raquel era dada como certa, viu na JBS a oportunidade de ouro para, em curto espaço de tempo, derrubar o presidente da República e assim evitar que sua principal desafeta política viesse a ocupar a sua cadeira. Não quero aqui entrar no mérito das acusações, mas apenas destacar que a motivação de Rodrigo, neste caso, conforme cada vez mais vem sendo relevado, foi eminentemente política. O Rodrigo tinha certeza que derrubaria o presidente”.

Quer mais algo vergonhoso sobre Janot? A forma como ele usava o software Telegram: “Nós tínhamos um grupo de Telegram que se chamava ‘Gabinete PGR’, com poucas pessoas, alguns assessores. Rodrigo falava pouco. E vez ou outra alguém tecia comentário sobre a Raquel. Tudo no campo político. Mas o Rodrigo se referia à Raquel com uma alcunha depreciativa para demonstrar que estavam em lados totalmente opostos na política interna”.

Eis a alcunha usada: “bruxa”.

Que nível, que nível…

Segundo Villela a informação está no celular apreendido. Ei, queremos ver o que está neste celular.

Por fim, Villela desmascara um mito divulgado pelos janotistas (o de que Dodge poderia barrar a Lava Jato): “Não. Qualquer um que entrasse não teria como mudar a Lava Jato”.

Cada frase dita por Vilella deve abrir uma frente de investigação.

Nuvens carregadas pairam sobre a cabeça de Janot.

Vai ser divertido. E libertador.

Que venha o caos, não é?

A Justiça só será feita de fato quando Janot for responsabilizado pelas empresas vendidas pelos irmãos JBS nos meses em que o acordo de total impunidade estava valendo.

Anúncios

1 COMMENT

Deixe uma resposta