É preciso entender de uma vez por todas: a culpa não é da vítima que deu carona, mas do assassino

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Acredite se quiser: após o assassinato imperdoável de Kelly, de 22 anos, por Jonathan (que havia sido beneficiado por uma “saidinha”), existe um considerável número de pessoas que interrompe o debate moral e penal para estabelecer um debate sobre segurança, dizendo que a garota “correu o risco ao dar carona”.

Isso é a culpabilização da vítima, onde se desvaloriza a vítima de um crime considerando-a responsável pelo acontecido.

A esse respeito, Michele Fransan escreve muito bem:

Não existe prática mais comum no mundo inteiro que a carona. Carona barateia os custos, te leva ao local mais rápido, te leva a lugares onde só automóvel tem acesso. É um sistema muito usado por universitários e sim, eu já andei de carona várias e várias vezes por sinal. Há pessoas que são vítimas dos seus caronas? Há sim e temos até o exemplo da primeira serial Killer americana. Assim, como temos vários exemplos que os caronas eram conhecidos das vítimas. Assim como se morre num caixa de supermercado, numa padaria, ao atravessar a rua, no ônibus, num acidente, ou numa bala perdida.

Aliás, há menos morte envolvendo caronas, que mortes envolvendo ônibus, ou meios de transportes por conhecidos. Não é dar carona que é o problema, quando se fala isso é como dizer que a arma é culpada do crime, ou o automóvel que atropela é se comportar idêntico a tudo que criticam, é uma estupidez e um desconhecimento de que a carona é um meio super utilizado aqui no Brasil. É perigoso? Claro que é. O que não é perigoso neste país? Mas quantos crimes você já ouviu falar envolvendo caronas no Brasil? Dizer que a corona é suicídio, que é morte programada, é de uma bobagem bem provinciana. Coisa de quem nunca foi estudante ou morou fora do país.

Falar contra a carona, não vai reduzir a impunidade, só vai tapar ainda mais o sol com a paneira. Mas isso é praxe no Brasil, somos provincianos demais para não jogar a culpa no lado errado.

É isto aí.

Ao pessoal que entra no debate – que é exclusivamente focado em aspectos morais e penais – para transferir a discussão sobre “a falta de cuidado da vítima” está simplesmente ignorando os assuntos reais em pauta: a leniência da Justiça, que a partir da “lei da saidinha” permitiu que Jonathan matasse Kelly.

Até compreende-se que algumas pessoas estejam tão revoltadas com o ocorrido que, para obter inconscientemente o alívio psicológico, lançam parte de culpa para a vítima. Isso não tem utilidade nenhuma. A revolta popular deve ser catalizada na direção correta, que são aqueles que criaram leis que permitissem a “saidinha”. É essa a lei que deve ser revogada.

Para este tipo de debate é preciso se despir da arrogância de querer falar sobre “os critérios de segurança” para as vítimas. Esse tipo de discussão não ajuda e geralmente vem de gente que não conhece a vítima a fundo para saber porque ela usava as caronas. Depois soubemos que ela economizava dinheiro para um casamento. Quer dizer: a arrogância de querer gerenciar a vida da vítima (para dizer se ela deve pegar carona ou não) vai por terra.

Sendo assim, vamos focar: o debate é unicamente sobre aspectos morais e penais. Gestão de riscos pessoais é outro assunto e ninguém tem autoridade para definir se a garota deveria usar o recurso da carona ou não. Menos arrogância e mais empatia com a vítima, por favor.

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4 COMMENTS

  1. Será necessário que uma jovem linda e esperançosa tenha perdido a vida por prestar um favor humanitário, tenha perdido a vida pra que nós que ainda restamos tenhamos que julgá-la, condená-la? O Brasil perdeu seu rumo, hoje vivemos numa tão dependência da justiça para estarmos vivos ou mortos.

  2. Esquerda, direita, este é o foco de hoje! Onde estão os “caras pintadas”, o “gigante adormecido” a turminha com a camisa da seleção de futebol? ..”vamos fazer festinha na Av. Paulista”! Massa de Manobra espúria! Formadores de Opinião espúrios! Somos todos culpados! O segredo é não se omitir, não é? Senhores Manipuladores? Pois bem, aqueles que se omitem (não participam desta “parafernália”) são menos culpados, pois aqueles que colaboram para o tempo em vão são diretamente culpados! Essa ficha não vai cair? Nunca? Não se luta por ideias ou ideais oriundos de Fulano(s) ou Beltrano(s)! A luta deve ser pela causa, como esta que vitimou essa Garota! Lutemos pelo devido retorno dos impostos, pela nossa assistência, pela nossa cultura, pela nossa saúde, pela nossa segurança! Vocês que usam até a morte da Garota para manipularem percebam que são bandidos iguais qualquer político (todos) que carregam assassinatos perversos (diretos e “indiretos”) nas costas!

  3. As únicas pessoas que eu li recriminando sobre a moça ter dado carona foi quem escreveu este texto e outra pessoa que escreveu outro texto falando o mesmo, que ‘as pessoas’ estavam recriminando ela por ter dado carona. Li esta notícia em um monte de lugares e não vi uma pessoa sequer falando esta besteira baixa. Será que precisa inventar pra escrever um artigo?

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