A campanha de Bolsonaro dominou o uso do efeito manada, mas existem riscos pela frente…

O maior de todos os méritos da campanha de Jair Bolsonaro hoje também apresenta o maior risco ao candidato. Como em quase tudo na vida, não existem estratégias perfeitas, pois todas elas trazem riscos que devem ser gerenciados.

A campanha de Bolsonaro é fundada principalmente na exploração do efeito manada, cujos efeitos foram muito bem estudados por Solomon Asch em seus experimentos sobre conformidade social. (E que fique bem claro: em termos de análise da guerra política, a utilização e entendimento deste fenômeno é algo elogiável, de modo que não estão sendo feitas objeções morais ao seu uso)

Em essência, o ser humano é como todos os demais animais. Por questões de sobrevivência, o subconsciente das pessoas está programado para não ficar de fora da manada, o que acarretaria riscos à sobrevivência. Com isso, vem a vontade de “pertencer a um grupo”, principalmente o grupo com maior chances de vitória.

A campanha de Bolsonaro foi a que melhor compreendeu esse princípio. Por isso, quase todas as mensagens da campanha são feitas no sentido de gerar o clima de que “a vitória é inexorável” (e que “vai ser no primeiro turno”). Como os experimentos de Asch mostraram, a maior parte das pessoas se deixa afetar por essas mensagens e tende a se juntar ao grupo, mesmo que discordem de algumas ideias. Muitos irão até reformatar suas ideias pelo senso de pertencimento ao grupo.

Montar uma campanha sobre esses princípios significa explorar o efeito manada.

É por isso que vemos tanta “análise” que mais parece torcida. Se Bolsonaro decidir arrotar durante um debate, alguns de seus apoiadores dirão: “Isso é uma baita mitada. É por isso que vai ser no primeiro turno!”. Mensagens assim são emitidas não por transmitirem análises realistas, mas para passar o clima (ao público) de que ele precisa se “juntar ao time vencedor”.

Ao entendermos a dinâmica desse processo, pode parecer que Bolsonaro escolheu uma estratégia invencível, certo? Mas não é bem assim, pois a exploração do efeito manada pode se tornar viciante. Alguns grupos podem perder o controle de seu uso, tornando-se como aqueles traficantes que cometem o erro de “se drogar com a própria mercadoria”.

Com isso, o próprio núcleo da campanha podem expurgar pessoas que apontem os riscos existentes no caminho, uma vez que o próprio apontamento de riscos enfraquece a imagem daquele que “certamente irá vencer”.

Observem bem. Quando trazemos alguns riscos à mesa, estamos automaticamente confrontando a mensagem de que a vitória está garantida. Mas uma vez que “a vitória está garantida”, por que se preocupar com os supostos riscos?

Nota-se, portanto, que esse é o lado mais curioso da exploração do efeito manada. Se algumas pessoas que usam esse esquema de discurso se viciam no próprio método, podem começar a ignorar os riscos que surgem pela frente. Por isso, o maior risco do uso excessivo do efeito manada é uma possível incapacidade de identificar os riscos.

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