Dá pra ir além da proposta de alunos gravarem aulas e enfrentar, de vez, a doutrinação

Créditos para imagem: Exame

Como sabemos, a deputada estadual Ana Campagnolo sugeriu a alunos que filmassem aulas para identificar doutrinação contra Jair Bolsonaro. Nada mais do que o previsto em tempos de guerra cultural, que tem como um dos seus objetivos o ambiente escolar.

O MP processou a deputada, mas a coisa tende a se virar contra a extrema esquerda, pois não deve demorar para que isso ative a vontade de aprovar o Escola sem Partido em âmbito nacional. Na disputa de forças, a ação do MP tem tudo para se converter num tiro que sai pela culatra.

Sobre a ideia de gravar aulas, é extremamente válido, embora isso deixe algumas pessoas incomodadas. Porém, mesmo diante do incômodo, a demanda dos pais e alunos contra a doutrinação é real. Não é possível ignorar os diversos casos de abusos contra alunos, tudo sendo feito a portas fechadas. Pode-se questionar a medida proposta por Ana Campagnolo em um estado onde as gravações não são permitidas por lei, mas a demanda é real, bem como a indignação diante dos abusos.

Uma proposta mais ampla contra a doutrinação

Dá pra ir além da proposta de Ana Campagnolo. Por exemplo, uma ideia de projeto de lei seria garantir o direito a gravação de todas as aulas e, mais ainda, obrigatoriedade de gravação por parte da instituição de ensino. Poderiam ser colocadas 2 câmeras (isso é baratinho hoje em dia) em cada sala de aula, para evitar que as imagens estejam indisponíveis caso uma delas não funcione. Se algum aluno se sentir incomodado ou coagido, que possa requisitar a gravação depois ou até acessar todo o conteúdo na web.

É importante lembrar que escola pública não deveria ser ambiente para que um profissional (pago com dinheiro público) possa ficar dentro de uma sala de aula, a portas fechadas, fazendo exatamente o que quiser, e sem ser questionado por isso. Se essa medida de gravar aulas é repreensível, e ainda assim temos o problema da doutrinação, qual seria a proposta dos críticos? Não vale citar a proposta da extrema esquerda dizendo para “não fazer nada”. Algo deve ser feito.

A gravação das aulas não seria uma pauta necessariamente pró-direita, uma vez que a doutrinação tem dois tons principais: (1) pensamento anti-direita, (2) pensamento pró-esquerda politicamente correta. A verdade é que esse tipo de esquerda tem atrapalhado tanto a direita como a extrema esquerda tradicional. Muitos já notaram que as pautas identitárias tem afastado as pessoas das discussões reais sobre problemas reais.

Uma vantagem da gravação obrigatória integral das aulas é que isso reduziria a tensão depois de um determinado tempo. Com a gravação seletiva, alunos podem gravar uma parte da fala do professor e expô-la na Internet de forma descontextualizada. Nesse caso, professores teriam, aí sim, muitos motivos para reclamar. Mas, com a gravação integral das aulas, o professor teria mais chances de se defender das situações em que é acusado ao passo em que é citado fora do contexto.

Outra vantagem é que a gravação obrigatória das aulas reduziria custos, pois muito conteúdo bom poderia ser acessado de graça. Imagine aulas e mais aulas disponíveis gratuitamente para as pessoas. Se tudo já está sendo bancado por dinheiro público, por que não?

O aluno pode chegar reclamando em casa, e o pai dizer: “ok, vou entrar no site da tua escola e assistir a aula 3, da qual você está reclamando”. Às vezes o aluno pode até estar de implicância. E sobre as aulas que o aluno não entendeu a explicação direito, ela pode ser acessada de novo.

Medo injustificado

O medo de “perseguição” seria injustificado, uma vez que se todas as aulas em escolas públicas são obrigatoriamente gravadas, todos são iguais perante a lei. Não há “perseguidos” num ambiente em que todos são tratados isonomicamente. Não teremos mais professores sequer podendo reclamar de perseguição. Como benefício adicional, eles teriam menos chance de serem desrespeitados ou até agredidos em aula, principalmente por causa das gravações.

Já ouvi o argumento de que isso seria igual a um Big Brother. Sim, seria mesmo. Mas o Big Brother só é um problema para a investigação de atividades particulares. Por exemplo, ouvir tuas ligações. Filmar sua vida privada. Mas para atividades públicas pagas com dinheiro público (e que não dependam de privacidade, como investigações policiais), isso é uma necessidade, desde que a regra seja aplicada isonomicamente.

A regra, é claro, não deveria ser aplicada a escolas particulares, pois os donos poderiam alegar quebra da privacidade de conteúdo particular. Mas para universidades e escolas públicas, a regra moral é outra. Todos os pagadores de impostos pagaram por aquilo, logo não há “conteúdo autoral” da escola pública que não possa ser acessado por outros.

Não é absurdo algum definir que a vida de servidor público – em certas atividades e em local de trabalho – deveria ser imediatamente sujeita a maior escrutínio. Eu me solidarizo com os professores que não gostarem da ideia, mas atividades públicas devem ter algum ônus, principalmente em troca do benefício da estabilidade.

Em tempo: quando vou ministrar palestras, geralmente digo para as pessoas gravarem, pois sempre uso exemplos novos e respondo as perguntas da plateia, que me permitem até abordar novos aspectos do tema. Há até uma palestra importante que fiz (com alguns alertas) em maio que até hoje ninguém encontrou a gravação. Acho uma pena. Medo de gravação de exposição de conteúdo público por quê?

Sobre palestras privadas

Claro que existem palestras privadas, que não poderiam ser gravadas, principalmente para análise tático-estratégica. Mas isso não é função das aulas em escola pública. Portanto, a questão da existência de exposições tático-estratégicas não é um argumento contra a gravação de aulas em escolas públicas.

Aliás, fiz o questionamento a uma professora da escola pública: “Está tendo uma conversa sobre gravações de aulas em escolas públicas. Uma deputada estadual fez a sugestão. E se a discussão virar a ideia da gravação obrigatória de todas as aulas?”.

Resposta que recebi: “Isso é ótimo! Tem que fazer isso mesmo. Tem muito professor vagabundo e que fica enrolando e que vai mudar de atitude desse jeito. Você não imagina que judiação, que pena… ver os alunos precisando de ensino e essa gente enrolando. E também tem muito aluno vagabundo e que desrespeita professor e que vai pensar duas vezes em ir bater no professor. Quem teve essa ideia?”.

É isto aí. É uma ideia. O frame parece ser poderoso e os interesses atendidos são vastos. O que não podemos é deixar de ter a discussão sobre como resolver, de fato, o problema de alunos coagidos em salas de aula por terem opinião divergente daquela do professor que decidiu doutriná-lo e, pior, pela via da intimidação.

4 comentários em Dá pra ir além da proposta de alunos gravarem aulas e enfrentar, de vez, a doutrinação

  1. Allan ferreira da Silva // 5 de novembro de 2018 às 8:04 pm // Responder

    Excelente ideia! Posso compartilhar o link?
    Aproveite e apresente a ideia ao presidente eleito para que possa ser formulado pelo futuro ministro da educação PL nestes moldes.
    Sigo acompanhando as matérias.

  2. Perfeito a análise!
    Isso sim é uma ótima ideia pra quem se interessa em colocar uma educação de verdade no nosso país.

  3. Volto aqui a comentar o assunto com outra visão, acabo de ler que uma medida mais eficaz e justa seria a apresentação de outras versões no ensino público, se é ensinado sobre o socialismo, ensina-se o capitalismo e suas vertentes através de um profissional no assunto, se é ensinado que houve uma ditadura militar no brasil, ensina-se também que foi necessário o regime militar por conta da intenção de dominação comunista no Brasil.
    Seria este um método de revolução “contracultural”, apresentando diferentes ideologias aos alunos, sem pender apenas para um lado, bastando aos estudantes analisarem e decidirem.

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