O que é preciso para que um governo se torne autoritário? Seja ele qual for…

Durante a campanha, a direita disse que o governo petista seria uma “reedição da Venezuela”. Do outro lado, petistas disseram que Bolsonaro seria uma “ameaça à democracia”. Mas tudo isso, é claro, não passava de propaganda. Ambas propagandas foram bem feitas, diga-se de passagem. E a obrigação de contestar as alegações do outro é do adversário. Fato.

Mas o que a dinâmica social nos diz sobre como uma democracia é ameaçada num cenário atual (em que o poder não é obtido pela via das armas, mas pelo voto)?

Um dos discursos mais infantis na política é acreditar, de forma apriorística, que um governo que chega ao poder está automaticamente “interessado no futuro do país”. É o contrário: são as condições que o farão se interessar ou não pelo futuro do país.

Salvo raras exceções, esse não é o interesse das pessoas, mas sim o interesse de autopreservação. Sim, desculpe eu contar a realidade para vocês: o ser humano é uma máquina biológica restrita pelas leis da biologia.

Certamente, as pessoas que chegam ao poder podem, sim, entregar algo de valor para o povo. E para fazer isso, aquele que chegou ao poder fará a pergunta: “como está a correlação de forças a meu favor ou contra?”.

Se a correlação de forças estiver equilibrada, ele vai ter que entregar alguma coisa. Caso exista esse equilíbrio e ele não entregue nada, será atacado pela oposição mais facilmente, e também atacado por outros setores de seu espectro político. Ou seja, aí ele terá que entregar algo para permanecer no poder.

Mas se a correlação de forças estiver desequilibrada, a tendência é o autoritarismo, e, nos piores casos, o totalitarismo. E daí, com a restrição do fluxo de informações, o governante não precisará entregar muita coisa. Veja os casos de Nicolás Maduro e Recep Erdogan. Aliás, eu escrevi isso já em meu livro “Liberdade ou Morte”, de 2015.

Então se alguém acha que basta dar poder para alguém e dormir, então é melhor se preparar para virar escravo. O melhor é entender a lógica do poder e saber que as entregas de valor ao povo são baseadas em uma análise de correlação de forças daquele que chegou ao poder.

Aquele que está pronto para lidar com uma correlação de forças mais equilibrada tem mais tendência de entregar alguma coisa. Aquele que luta obsessivamente para desequilibrar de modo totalmente desproporcional a correlação de forças a seu favor, terá menos atrito contra ele, logo menor necessidade de entregar alguma coisa.

Em suma, se você quer que alguém se preocupe com o Brasil, primeiro se pergunte se você não deixou que a correlação de forças ficasse muito desfavorável a um lado ao qual você não pertence. Se a correlação de forças está desfavorável, lute para equilibrá-la, tanto na relação entre esquerda e direita, como principalmente dentro dos setores da direita.

Caso contrário, aquele que chegou lá não tem motivos para se preocupar com o futuro da nação, pois terá poder para submeter o povo à sua vontade, mesmo devastando o país.

Sad but true. Isso vale para qualquer país, qualquer governante em qualquer momento.

Em relação ao PT, havia mesmo chances de que o país se tornasse uma Venezuela. Mas eram chances pequenas. Fato é que a postura de Fernando Haddad beirou o pusilânime em alguns momentos, chegando até a parabenizar o adversário após a derrota, quando não havia clima para conversa vinda de nenhum dos lados.

É difícil transformar o país numa Venezuela quando não se tem energia mental para ficar contra a coexistência com os adversários.

Análises sobre discussões internas do PT mostram que Haddad poderia ser obrigado – até por setores mais moderados, que querem substituir Lula e passar uma borracha nos tempos mais autoritários de Dilma – a “tucanizar” seu governo, principalmente para garantir o apoio de gente como Ciro Gomes e a turma do PSB.

Vencemos um projeto de extrema esquerda sim, mas que estava capitaneado pelo setor mais “frouxo” do lado de lá. No fim, foi um adversário frágil. Mas esse era o tipo de coisa que não podia ser dito em tempo de campanha, é claro. O setor mais “tucano” do PT iria vencer caso Haddad chegasse ao poder.

Mas agora que a eleição foi vencida, há um risco de que exista autoritarismo no governo de direita? Bem a princípio parece que não, principalmente pela escolha dos ministros. Mas se a correlação de forças dentro da direita que apoia o governo ficar desproporcional, tudo isso pode mudar. Mas isso é assunto para próximos posts.

Ou seja, para que exista uma democracia, seja em um governo de esquerda ou de direita, é preciso observar como está a correlação de forças não apenas entre o governo e a oposição, mas dentro dos setores do lado que chegou ao poder.

Se a correlação de forças estiver muito desfavorável para os setores que pensam mais em democracia, a coisa tende a enfeiar. Se esta correlação de forças estiver equilibrada, é preciso negociar muito mais, o que força a entrega de valor.

A Venezuela se transformou em uma ditadura principalmente porque os setores mais totalitários do chavismo venceram outros setores. Tanto que hoje existem chavistas que foram obrigados a fugir do país.

Assim, mesmo em um governo de direita (e não apenas diante de um governo de esquerda), é preciso ficar de olho na correlação de forças.

A análise moral na política é baseada na correlação de forças. O resto é querer viver na infância política.

2 comentários em O que é preciso para que um governo se torne autoritário? Seja ele qual for…

  1. Helio Simões Teixeira // 5 de novembro de 2018 às 6:04 pm // Responder

    O que é direita no Brasil? Existe algum Partido?

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