Sem uma análise setorial, não há política adulta e provavelmente você está sendo enganado

Suspeite de qualquer análise política de direita que não mencione a expressão “setor” (ou algo do tipo) em pelo menos algum momento. Pode até ser que a pessoa não esteja fazendo isso de forma intencional para enganá-lo. Neste caso, ela foi enganada por alguém que a dominou intelectualmente e está passando o embuste adiante, conscientemente ou não. Dá no mesmo em termos de resultados.

A extrema esquerda normalmente não comete esse tipo de impostura. Quer dizer: em muitos casos eles tratam seu público de forma respeitosa.

Podemos ver isso em um vídeo de Rui Costa Pimenta, de 8 de outubro, em que ele usa a expressão “setor” (para avaliar setores da esquerda) no mínimo umas 10 vezes em 18 minutos. Este é um exemplo de como um analista da extrema esquerda trata seu público como adultos.

Obviamente eu não concordo com as terminologias de Rui Costa Pimenta (até porque ele é da extrema esquerda, logo um inimigo fundamental de alguém de direita), mas o que importa no vídeo é como ele cita os setores dentro da esquerda, mostrando, assim, vontade de conscientizar seu público em termos políticos:

A sorte da direita é que a extrema esquerda não o ouviu suficientemente.

O que importa para nós é que, do mesmo modo, para alguém de direita tomar uma posição política consciente, precisará compreender a origem, o princípio fundados e os interesses de cinco ideologias de direita:

  1. liberalismo
  2. neoliberalismo
  3. conservadorismo
  4. neoconservadorismo
  5. libertarianismo

Falaremos disso em detalhes nos próximos posts, mas já é bom antecipar. Quando se fala em entender cada um dos setores, não é apenas entender o que dizem alguns de seus teóricos no Brasil. O ideal é buscar os autores que servem como fontes originais dessas ideias. Assim, poderemos compreender o que deu fundamento e inspirou a criação de cada uma dessas ideologias. Alguns grupos podem misturar os interesses de cada uma das ideologias e até adaptá-los. Mas ainda assim é preciso compreendê-los em seus interesses. (Em tempo: já me disseram que conservadorismo não se qualificaria como “ideologia”, mas, em termos técnicos, não há como fugir disso. Pode até ser uma ideologia sem tons revolucionários, claro)

Sem isso, alguém vai se surpreender diante daquilo que não deveria causar surpresa alguma. Lembre-se que consciência política significa compreensão dos conflitos de interesses. Quanto menor a ilusão no entendimento desses conflitos de interesses, maior o nível de conscientização política. Simples assim.

Aquele que reagir de forma raivosa diante de qualquer tentativa por essa conscientização, provavelmente está interessado na falta de conscientização política dos outros. Só que identificar os interesses dos outros não é desrespeitá-los. Se fosse assim, toda negociação comercial seria desrespeitosa. Mas esconder os interesses para enganar os outros é geralmente uma picaretagem.

Há algumas pessoas que dizem em público odiar Maquiavel apenas porque temem que suas próprias intenções sejam compreendidas. Em suma, quanto mais pessoas mais lerem Maquiavel, menor a vulnerabilidade aos truques deste interlocutor. Claro que tem gente sincera que não gosta de Maquiavel, mas também existem vários que criticam a leitura de Maquiavel, pensando: “isso é bom demais, mas é melhor que seja só pra mim; quanto mais eu desestimular o outro a ler isso, mais eu ganho”. Fique de olho no comportamento. Sempre.

Vamos ilustrar, então, um caso de “surpresa” diante de ações políticas recentes, lembrando que, antes de alguém ficar decepcionado com as atitudes do Major Olímpio (ao ter apoiado Márcio França), recomendo que a pessoa se decepcione com suas próprias expectativas em relação a ele. A questão não é sobre as atitudes do Major, mas como alguém pôde ter esperado que essas atitudes não iriam ser adotadas. O problema está em quem alimentou falsas expectativas. O fato é que o senador recém-eleito está fazendo o que tem que fazer. Política é isso. Luta por interesses específicos. Quem não mapeou esses interesses antes tem que voltar pra casinha e fazer reflexão. Ponto para o Major. Lição para quem não entendeu o jogo.

Com uma análise setorial dos conflitos de interesses e pensando na dinâmica social, as pessoas dificilmente terão decepções desse tipo. Em suma, só se decepcionará quem quiser.

Eu bati várias vezes na tecla há mais de um ano – ainda no perfil foi censurado – dizendo que era importante fazer uma análise dos interesses de cada setor dentro da direita. Quem quis acreditar na ideia de “uma visão geral de direita” (quando estava puramente sofrendo chantagem emocional) o fez por desconhecimento do interesse de cada setor, ou por puro oportunismo.

É como em uma cena do filme “Dennis, O Pimentinha” (de 1993), em que o Sr. Wilson zoa um menino vesgo, enganando-o. Ao assistir uma brincadeira de esconde-esconde dos meninos da rua, o Sr. Wilson simplesmente deu a direção errada ao garoto, prejudicando-o no jogo. A Sra. Wilson diz: “que isso, o menino ficará decepcionado”. No que o Sr. Wilson responde: “É bom para ele se acostumar, pois terá muitas decepções pela vida”. Ignorar os conflitos de interesses é algo que sempre levará a decepções.

Seja lá como for, vamos entender a importância da análise setorial.

  1. Imagine que 10 escravos entrem num barco junto com 10 escravagistas. Os primeiros querem ficar livres ao fim da travessia. Mas os últimos querem escravizá-los quando chegarem lá.
  2. Logo, temos dois “setores” no barco.
  3. O primeiro setor (dos escravos) precisará entender que a travessia deve ser interrompida em um dado momento, e que eles precisarão agir, e até se separarem. O último lado, no entanto, entende que a questão da existência de “setores” nem é interessante de ser abordada. Ou seja, é interessante para os últimos que os primeiros não façam qualquer tipo de análise setorial e nem percebam a existência dos diferentes setores.

Fica óbvio que toda análise política que não considera os setores envolvidos se encaixa em uma de duas situações: (1) é coisa de criança, (2) é coisa de adulto malandro, que quer tratar o seu público feito criança.

Em breve, faremos uma análise setorial da direita, não somente com base em seus discursos, mas com base em seus interesses claramente demonstráveis em atos. E assim será possível tomar decisões políticas conscientes.

5 comentários em Sem uma análise setorial, não há política adulta e provavelmente você está sendo enganado

  1. O que você acha do Filipe G. Martins?

      • Sem querer parecer impertinente, mas você desenvolver melhor e dizer o porquê? Acho que quem acertou até os estados em que o Trump venceu, bem como os candidatos do segundo turno das eleições brasileiras com dois anos de antecedência merece algum crédito.
        Aproveitando o ensejo, quando o novo livro será lançado?

      • Os resultados da eleição americana são os mesmos da análise do Nate Silver. E dizer que Alckmin não tinha chances era o óbvio. Ademais, há erros graves em análises para França e Inglaterra. Mas eu vejo que análise política não é só tentar “acertar resultados” (principalmente quando se atua próximo a estrutura partidária). Ali está mais para uma variação do Efeito Forer, que os astrólogos usam para dizer que “acertam sempre”.

  2. Um bom artigo. Dentro do sistema político governamental vigente as visões dos setores, seja pela esquerda ou direita, a curto e médio prazo, desembocam nos mesmos objetivos. E estes por sua vez atendem os interesses dos mandatários do poder nos setores executivo, legislativo e judiciário. Os interesses do povo …. são interesses de crianças.

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