É um erro definir o “bolsonarismo” como massa unificada. A coisa é mais complexa do que isso…

Fui citado num texto de Augusto de Franco – que eu respeito – como se eu fosse um integrante do “bolsonarismo”. O fato é que apoiei o voto em Bolsonaro, principalmente por que do outro lado estava o PT. Mas nada de “bolsonarismo”. Sou independente. Ou seja, posso apoiar várias pautas que o governo quiser (ou puder) levar em frente, sem precisar dar cheque em branco.

Mas veja esta parte importante do texto em questão:

Bolsonaristas são os antiglobalistas conspiracionistas e anticomunistas macarthistas (como os olavistas), os monarquistas tradicionalistas e religiosos fundamentalistas (tipo TFP), os militaristas-intervencionistas e os jacobinos antagonistas defensores da antipolítica da terra arrasada. A estes se juntam legiões de jovens jihadistas, com pouco trato intelectual e nenhuma experiência política democrática, que funcionam como correias de transmissão dos primeiros nas mídias sociais e que tomam a disputa política como uma espécie de guerra religiosa.

Os demais eleitores de Bolsonaro, ainda que possam ter votado no capitão para impedir a volta do PT ao governo, ou para renovar “tudo isto que está aí”, ou com medo do agravamento do problema da segurança ou porque, tendo mentalidade conservadora nos costumes, acreditaram na narrativa bolsonarista (de que a esquerda é composta de comuno-larápios que querem trair a pátria, sabotar a nação, decretar a morte de deus, destruir a família monogâmica e a religião como esteios da civilização ocidental cristã, transformar seus filhos em gays, pervertê-los com o uso de drogas, criminalizar os policiais e as forças da ordem e soltar os bandidos, principalmente Lula), não são, pelo menos por enquanto, bolsonaristas.

Vejamos alguns exemplos de bolsonaristas, que se intitulam como direita ou nova direita, mas que seriam melhor classificados como de extrema-direita (se esses conceitos ainda fizessem algum sentido). Os bolsonaristas não são conservadores, liberais-conservadores ou de direita, como são Felipe Pondé, João Pereira Coutinho e Reinaldo Azevedo – pessoas com alta civilidade, que convivem bem com a democracia. Eles são, em geral (pois sempre há exceções), reacionários, retrogradadores.

Bem… em primeiro lugar, é claro, Olavo de Carvalho (seus antigos discípulos, como Rodrigo Gurgel e Flávio Gordon e os demais olavistas do médio clero – muitos dos quais citados a seguir, em ordem alfabética): Alexandre Borges, Allan dos Santos (Italo Lorenzon e a turma do Terça Livre), Ana Paula, Bia Kicis, Bruno Garschagen, Carla Zambelli (e a turma do Nas Ruas), Diogo Mainardi, Felipe Moura Brasil, Flavio Morgenstern, Filipe Martins (e a turma do Senso Incomum), Jair Bolsonaro (pessoalmente, não como presidente, sua famiglia – Flávio, Carlos, Eduardo – e seus generais Mourão, Heleno, Oswaldo, Aléssio, Bini, etc.), Janaina Paschoal, Joice Hasselmann, Kim Kataguiri (e a turma do MBL que se converteu ao bolsonarismo depois de alguma resistência inicial: Renan Santos, Alexandre Santos, Pedro D’Eyrot, Arthur Moledo do Val, Fernando Holiday), Leandro Ruschel (e a galera do Brasil Paralelo), Luciano Ayan, Luiz Philippe de Orleans e Bragança (e a turma do Acorda Brasil e outros monarquistas), Maçons do grupo Avança Brasil (e outros adeptos de ordens templárias, iniciáticas, esotéricas, de natureza hierárquica), Marcelo Reis (e a turma do antigo Revoltados Online), Nando Moura, Padre Paulo Ricardo (e outros católicos fundamentalistas tipo TFP), Renato Tamaio (e a turma do SOS Forças Armadas), Ricardo de Aquino Salles (e a turma do Endireita Brasil), Roger Moreira, Silas Malafaia (e outros bispos ou pastores evangélicos, inclusive o bispo Macedo – este, provavelmente, mais por oportunismo).

O que deve ficar claro aí é que não dá para definir hoje um suposto “bolsonarismo” que unifique todo mundo, principalmente porque a direita está fraturada pelas guerras internas que ocorreram nos últimos 30 meses. Assim, colocar MBL e Olavo numa lista única é algo insustentável. Há muita gente com diferentes visões do mundo aí.

Decerto há riscos de autoritarismo, mas isso depende do nível de disparidade na correlação de forças. O fato é que conservadores, liberais e libertários se deram mal, enquanto os neoconservadores prevaleceram. Há muita gente se submetendo por causa de medo de patrulha. Os neoconservadores hoje atuam de modo mais organizado nas redes, em estruturas de apoio mútuo.

Mesmo aqueles que se submetem, sabem em seu íntimo que estão fazendo isso para evitar maiores problemas. Mas não há uma “unidade” de pensamento aí. Dentre os diversos setores da direita, nenhum outro foi tão esmagado quanto o setor liberal. Claro que existe muita gente séria entre os neocons, mas não se pode negar que o neoconservadorismo tem como inimigo o liberalismo. Logo, se a correlação de forças permanecer desproporcional, estes vão se enrolar feio. Mas aí cabe aos liberais disputarem seu espaço.

Esse processo de ataque contínuo aos liberais pôde ser visto nas diversas campanhas de assassinatos de reputação lançadas por algumas pessoas do setor neocon – não todas, claro, pois tem muita gente séria por lá – contra grupos e partidos como LIVRES, MBL e NOVO nos últimos 30 meses. Mas a coisa só descambou para esse nível de desrespeito porque a correlação de forças ficou desfavorável para os liberais. Mas até alguns conservadores sofreram com isso.

A coisa é tão absurda que hoje muitos liberais estão dialogando pelas categorias impostas por algumas pessoas mais raivosas do setor neocon (que inclui gente séria). Surgiu aí o termo “liberal na economia e conservador nos costumes”. Só que o liberalismo é feito para abarcar vários aspectos da sociedade, incluindo também a liberdade política e a liberdade de expressão. Se alguém frisa apenas o liberalismo “na economia”, é porque talvez esteja pensando nos limites autorizados pelo neoconservadorismo. Melhor seria se usassem o termo liberal-conservador, que abarca o liberalismo em sua plenitude, dialoga com o setor conservador.

Aliás, nem sou um opositor natural do neoconservadorismo. Um de meus livros preferidos é “Beautiful Losers”, do autor neoconservador Sam Francis, que questionou a falta de combatividade de conservadores norte-americanos. O liberalismo preza a coexistência, mas o neoconservadorismo brasileiro tem se mostrado o menos apto de todos os setores da direita para coexistir com demais direitistas. Novamente, isto não é uma regra geral. Há neoconservadores que convivem com a divergência, assim como alguns liberais que esqueceram os princípios originais do liberalismo e chegaram até a apoiar censura de divergentes.

Aquilo que Augusto de Franco menciona como “o bolsonarismo” seria melhor definido como o neoconservadorismo tupiniquim, que não representa toda a candidatura de Jair Bolsonaro, mas luta para vender a ideia de “representação do Bolsonaro”. Isso pode ser explicado porque o neoconservadorismo se deu muito mal durante os movimentos de rua pelo impeachment de Dilma. Enquanto o setor neocon falava em “revolução civil” ou qualquer outra coisa, os movimentos liberais e conservadores optaram por derrubar Dilma. Para lutar pelo protagonismo, que parecia perdido, era preciso procurar algo novo.

Desde então, o setor neoconservadorismo encontrou na campanha de Bolsonaro o seu escudo perfeito. Podiam agir para recuperar seu espaço atacando outros setores da direita e, se alguém fosse se defender, diriam: “você está contra o Bolsonaro”. Bela jogada. Como nenhum dos grupos liberais optou por se defender adequadamente, foram tendo suas reputações danificadas. Muito da submissão que hoje existe diante da liderança neocon é fruto do medo. Mas os espaços de poder ainda estão sob disputa. E essa disputa deve ser feita principalmente a partir de posicionamento, disputa de narrativas, organização virtual, núcleos de solidariedade e controle de frame.

Abordarei tudo isso em mais detalhes em breve, mas deve ficar claro que empacotar todo mundo que apoia o governo como “representantes do bolsonarismo” é algo falho. A direita continua sendo plural, mas com a correlação de forças desproporcional há uma preocupação. Se outros setores da direita não se preocuparem em recuperar o espaço perdido, teremos ampliada a disparidade na correlação de forças. Nesse caso, o autoritarismo é a consequência inevitável. Mas nem tudo está perdido.

Tem muita gente de diversos setores na base de apoio do governo Bolsonaro e muitos fazem ressalvas a grupos extremistas que falam em “destruir opositores”. O problema está, de novo, na correlação de forças, que deve ser estudada e tratada. Se essa correlação de forças ficar mais equilibrada, há chances de que exista maior estabilidade e menores serão os riscos para a democracia.

Em tempo: as escolhas de ministros ainda não refletiram a perspectiva neoconservadora. Quer dizer: o “jeitão” do time de ministros ainda não reflete a visão de mundo neocon, que continua sendo a força de direita mais presente nas redes sociais.

1 comentário em É um erro definir o “bolsonarismo” como massa unificada. A coisa é mais complexa do que isso…

  1. Não, não, Luciano, pra ele você é bolsonarista simplesmente porque defende a “guerra por outros meios”. Pra ele isso é suficiente pra fazer de você um totalitário. E, como totalitário que defendeu Bolsonaro em ocasiões específicas, você é parte da “extrema-direita bolsonarista”.

    Eu já respeitei o Augusto um dia, mas já tem tempo que ele vive em um ciclo de histeria que comprometeram em muito a sanidade mental dele. Ou isso, ou ele está sendo desonesto para tentar manter a coerência do discurso em que investiu por tanto tempo. E nunca conseguiu dar um passo além de falar abstratamente sobre “democracia” e sobre ser “resistência democrática”. É a triste morte intelectual de mais alguém que poderia ser muito útil ao Brasil. Muitos morreram nesse processo, e certamente outros ainda irão falecer intelectualmente.

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