O discurso da “nova política contra a velha política” já nasceu velho

Já estou vendo fortes críticas contra a escolha de Kassab para o governo Doria. Bem, isso é sinal de que tem gente que ainda está na campanha, quando na verdade os resultados das urnas já foram fechados em 28 de outubro.

Um dos mitos criados durante a campanha é o de que haveria uma “nova política” e que não seria preciso negociar com figuras tradicionais do Congresso. Mas era óbvio que tudo isso não passava de jogada eleitoral. É a famosa demagogia usada em período de campanha.

Dizem que o discurso de que “somos a nova política contra a velha política” foi o que esteve por trás da primeira vitória de Lula como presidente. Bem, ao menos em parte também foi por isso que ele foi eleito. Mas um dia a campanha acaba.

Decerto tem muita gente honesta e sincera que realmente acredita na “nova política”. Mas no fim das contas, aqueles que forem eleitos terão que governar pela mesma política de sempre. A única coisa que se espera é que avancem suas agendas e não sejam corruptos.

Nomes tradicionais do mesmo naipe de Kassab também vão integrar o governo de Jair Bolsonaro. Ou pelo menos estarão envolvidos em negociações. Veremos muita gente que já fez alianças com PT no passado e já abandonaram aquele barco. Se não for assim, não há governo.

Lélis Douglas escreveu, no Facebook:

Alguns colegas estão “decepcionados” com o PSL por estar fazendo aliança com o MDB e assim está repetindo a velha política. Bom, preciso de dizer algumas verdades:

1. Em 1995, os gastos previdenciários foram de R$ 32,5 bilhões. Em 2017, foram de R$ 545,7 bilhões. Aumento de 1.580% em 22 anos.

2. Caso os gastos previdenciários mantenham esta exponencial tendência de crescimento — e manterão caso não haja nenhuma reforma, pois seu principal problema é demográfico, e a população está envelhecendo —, a lei do teto de gastos só poderá ser cumprida se houver um forte corte nas demais despesas do governo.

3. Considerando que nenhum governante, nem mesmo Bolsonaro, terá a coragem de mexer com os interesses da poderosa e privilegiada casta do funcionalismo público. Ou seja, o teto será furado e, o que poderá gerar grandes turbulências no mercado de títulos públicos, de juros futuros e de câmbio.4. Sem a reforma das aposentadorias e sem um enxugamento do tamanho do Estado, os custos com Previdência e pessoal chegarão a 100% do orçamento em menos de uma década. A dívida pública bruta pode atingir 140% do PIB em 2030, quando não haverá mais o bônus demográfico para retirar o país da armadilha da renda média baixa. Com isso, infelizmente, o Brasil, apesar de ser uma das 10 maiores potências do planeta, estará condenando a ter crescimento medíocre, abaixo da média global, porque o Estado não terá recursos para investir em mais nada.

5. Do total de 513 deputados da câmara federal, precisamos de 320 votos para aprovar a reforma da previdência.

6. O PT conseguiu eleger 56 parlamentares, enquanto o de PSL colocou 52 deputados federais na Câmara, ou seja, precisamos agregar mais de 268 votos de outros partidos.

7. Se o PSL não conseguir aglomerar os partidos necessários em torno da reforma da previdência, o país entrará em uma espiral de dívida e não conseguirá crescer, gerar emprego, renda e Bolsonaro vai responder por crime de responsabilidade fiscal.

Então, se você torce pelo bem do país pare com esse discurso de ‘decepção’ e reze para que o MDB e os demais partidos unam-se ao PSL.

Mas há uma alternativa para se fazer alianças sem negociação com figuras carimbadas da política: apostar no autoritarismo e no uso da máquina para constranger parlamentares. Aí seria a velha política ao quadrado.

O fato é que a campanha já acabou e é preciso governar. Muitos brasileiros estão preocupados com o futuro, e não tanto com as agendas ocultas de gente que optou pela demagogia e por viver em duplo padrão, no que a direita brasileira está se especializando.

A nova política de hoje é a velha política de amanhã, até porque a natureza humana não muda. Se não praticarem corrupção e não usarem autoritarismo, já está bom demais. No fim das contas, é como o ciclo da vida, em que os novos se tornam velhos um dia.

Lugar do mito do Peter Pan é só na literatura infantil, no teatro, no cinema e nos desenhos da Disney.

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