Mentiram para você sobre questões morais de esquerda e direita

Estive num debate com um seguidor de Olavo de Carvalho – que alega ter sido marxista um dia – e ele me afirmou que, de acordo com as afirmações de seu guru, que “nenhum comunista presta” e que “todos eles só usam as pessoas em seu benefício”. Bem, para quem alega já ter sido marxista no passado (como eu fui), isso soa claramente falso. Quem realmente conviveu entre marxistas – mesmo deixando de sê-lo no futuro – não teria como fazer afirmação tão bizarra sobre a “imoralidade inata e absoluta” dos marxistas.

Vamos aos fatos, pela dinâmica social.

A capacidade inata para moralidade está no ser humano, bem como a capacidade para imoralidade, em certas condições. Um dos modelos mais simples e bastante aplicável à política é o SMORC, ou Simple Model of Rational Crime. Dan Ariely, no livro “The Honest Truth about Dishonesty” amplia o SMORC para situações do cotidiano. Mas, para questões políticas, ele é suficiente. Obviamente, estamos falando de 98% da população. Tiramos da análise aqueles 2% de psicopatas.

O que se pode dizer com segurança é que métodos como o uso de discursos de desengajamento moral ampliam a capacidade de prática da imoralidade em pessoas normais, ou seja, que não são psicopatas, mas podem se comportar como se fossem. Outro fato notório é que historicamente podemos identificar os componentes de desengajamento moral presentes na maior parte das obras marxistas, bem como em obras de autores que inspiraram a revolução francesa, momento histórico implementador da primeira forma de esquerdismo.

Podemos definir esta “capacidade” nos seguintes termos: obtenção de resultados a partir da superação das regras tradicionais de moralidade. Isso significa “fazer mais coisas” do que seriam feitas se a moralidade tradicional (ou aceitável, no ambiente social) fosse adotada. Assim, o desengajamento moral amplia a capacidade de superação da moralidade. Consequentemente, amplia o comportamento imoral.

O discurso populista (seja ele qual for) é fonte potencial de métodos discursivos para o desengajamento moral. Como apenas um dos sete componentes do desengajamento moral, temos a desumanização de oponentes. As técnicas de “nós contra eles”, exploradas principalmente no populismo, dão o tom para a desumanização (e demonização) de oponentes. Logo, ampliam a capacidade de superação da moral tradicional.

Porém, o discurso populista já não é mais exclusividade da extrema esquerda há várias décadas. Pode-se dizer que os mesmos interruptores do desengajamento moral acionados pela extrema esquerda já podem ser acionados por setores de direita. Mesmo assim, é fato que a direita ainda não possui a mesma capacidade de superação da moral que a extrema esquerda, e nem é recomendável que isso aconteça. Mas, em certos aspectos, essa capacidade já é vista em vários momentos.

A combinação de fatores como “razão populista” (conforme mostrou Ernesto Laclau), discurso de ódio, incapacidade de coexistência com divergentes, censura e desengajamento moral serve como uma bomba relógio que habilita a prática de qualquer imoralidade. Mas os componentes que habilitam essa prática são parte da mente incorporada, podendo ser ativados de acordo com as condições disponíveis. O autoritarismo, bem como o totalitarismo, depende da combinação destes métodos, especialmente pela incapacidade de coexistência com divergentes. (Sobre desengajamento moral, recomendo a leitura da obra “Moral Disengagement”, de Albert Bandura)

Sempre que um esquerdista defende o linchamento público de pessoas inocentes, o faz por ser um psicopata ou, na maioria dos casos, estar sob os efeitos dos componentes acima citados. Mas direitistas também podem praticar o mesmo tipo de imoralidade, caso estejam sob as mesmas condições e os mesmos interruptores mentais sejam ativados. E foi assim que vimos a perseguição de inocentes após a facada em Jair Bolsonaro. Algumas pessoas que nada tinham a ver com o atentado foram perseguidas em suas vidas pessoais. Exibir evidências para vários dos linchadores virtuais que a vítima era inocente não era suficiente para fazê-los parar. Eis aqui a capacidade de superar a moralidade tradicional sendo também praticada pela direita.

Só que isso também não significa que a direita seja tão imoral que a esquerda. Na verdade, para qualquer teste científico que fizermos sobre instâncias da capacidade de superação da moralidade tradicional, encontraremos mais exemplos vindos da esquerda do que da direita e muito mais exemplos ainda vindos da esquerda de perfil marxista. Mas também muitos exemplos vindos da esquerda de perfil politicamente correto.

Mas por que isso acontece? Simples. É que seus arquitetos intelectuais estão mais acostumados a explorar os componentes que habilitam a superação da moralidade tradicional em pessoas normais (ou seja, aquelas que não são psicopatas).

Todavia, não dá para dizer que a luta da direita contra a esquerda é uma luta entre “mocinhos e vilões”. Se não ficarmos de olho, veremos direitistas usando comportamentos imorais tais quais os esquerdistas. Só que estes sabem revidar e, com o tempo, podem fazer essas práticas de imoralidade custarem caro. Mas o próprio discurso dizendo que “nenhum marxista presta” é uma instância de desumanização, além de um dos componentes principais do desengajamento moral. Ao dizer que “nenhum marxista presta”, sem ter evidências para isso, alguém está apenas apertando um botãozinho em seu cérebro para que você entenda, inconscientemente, que o inimigo está desumanizado e, portanto, tudo pode ser feito contra ele. É bem possível que alguém esteja manipulando suas emoções para poder, aí sim, praticar imoralidades à vontade.

Caso você tenha ficado surpreso com o surto de fake news vindo de ambos os lados das militâncias nas últimas eleições, isto se explica pelo SMORC. Sim, a capacidade de transcender a moralidade tradicional está presente na mente incorporada em ambos os lados. Se a esquerda praticou mais genocídios ao longo da história, isto decorre principalmente do modelo mais totalitário de poder utilizado por eles – que amplia a capacidade de materializar ações advindas da superação da moralidade tradicional – e do uso mais constante de métodos como:  discurso populista, discurso de ódio, incapacidade de coexistência com divergentes, censura e desengajamento moral (em especial, a desumanização de oponentes). (Sobre desumanização, recomendo o livro “Less than Human”, de David Livingstone Smith)

Não é preciso desumanizar os oponentes para denunciar moralmente – e com contundência, utilizando as boas técnicas da guerra política – os atos cometidos por eles, bem como todas as vezes em que eles transcendem as regras morais básicas para coexistência.

Exemplo do desengajamento moral na direita – caso Olavo e Haddad

Dentro da direita, temos o exemplo negativo de Olavo de Carvalho, que chegou a declarar que Fernando Haddad teria defendido o incesto:

A informação foi exposta publicamente por vários meios como sendo falsa. Isso explica o fato de o post ter sido deletado pelo autor. Mas mesmo assim, conforme lemos no E-Farsas, Olavo seguiu mantendo sua posição a partir de argumentos mais furados que tábua de pirulito. Veja o que ele disse depois:

Existem várias afirmações aí em cima que não se sustentam. Por exemplo, a de que Haddad estaria “subscrevendo integralmente” o programa pregado pela Escola de Frankfurt. Para início de conversa, nenhum frankfurtiano precisa “subscrever integralmente” coisíssima alguma, já que os filósofos da Escola de Frankfurt possuem sérias divergências entre eles. Ademais, não existe nenhum programa da Escola de Frankfurt para ser “subscrito”. Cada um usa aquilo que for conveniente, e a teoria crítica é muito ampla. Se usássemos o mesmo argumento de Olavo, todo “olavete” teria que ser responsável por “subscrever integralmente” todas as afirmações que ele faz, o que seria insano. Ademais, a tal “sociedade erótica” não pregava incesto, sendo no máximo a aplicação da tese vista no livro “Totem e Tabu”, de Sigmund Freud. Não há nenhuma prescrição de atividade sexual específica ali.  Mesmo que alguém decida interpretar pejorativamente a tese de Horkheimer, seria preciso muitos saltos indutivos para atribuir qualquer afirmação prescritiva sobre a atividade sexual para Haddad. Seja como for, temos falácias para encobrir a informação falsa original.

Mas o curioso é ver de novo a generalização até mesmo na defesa de Olavo: “comunistas sempre escrevem de maneira a que seus textos sejam compreendidos…”. No fundo, autores comunistas apenas escrevem há mais tempo sobre a dinâmica do poder e podem ser entendidos claramente em seus textos. Se nos opomos ao comunismo, não é preciso inventar intenções inexistentes nos adversários. Mas é clara a generalização como mais uma instância de demonização. Podemos questionar os comunistas pelo que eles escrevem e pelos seus atos. É o suficiente. Não é preciso inventar intenções inexistentes sobre eles e nem apelar a teorias da conspiração.

Exemplo de postura combativa distante do desengajamento moral – Arthur do Val e Kim Kataguiri

Não quero dizer que Arthur do Val e Kim Kataguiri sejam os únicos praticantes da boa guerra política sem a necessidade de recursos potencializadores da prática de imoralidade na política. Mas vou citar o trabalho dos dois, pois os conheci em maiores detalhes. Lembro também que há excelentes atuações na boa prática da guerra política tanto no MBL, como em outros movimentos (como Vem Pra Rua e Nas Ruas), em outros partidos e em diversos outros casos. Também há atuações elogiáveis na guerra política de outros setores, e isso inclui parte do setor neoconservador (até porque nem todos concordam com os métodos discursivos de Olavo, e até alguns de seus leitores o seguem parcialmente, então nem mesmo podemos generalizá-los).

Mas voltemos ao caso de Arthur do Val e Kim Kataguiri. Fato é que ambos – sendo o primeiro eleito deputado estadual em SP e o segundo eleito como deputado federal – não usam técnicas para demonizar e desumanizar oponentes.

Abaixo temos o quadro dos componentes do desengajamento moral que, quando agrupados, potencializam a prática da imoralidade:

É muito difícil visualizar os componentes acima na prática política de Arthur e Kim. Mas isso não impede que eles possam usar o forte questionamento moral diante das atitudes do oponente. Não impede que os adversários sejam ridicularizados. Não impede que se aponte o dedo na cara de quem está praticando uma imoralidade.

Veja,por exemplo, esse show de ridicularização quando Arthur foi vestido de perestroika em uma universidade, num dos vídeos que não canso de assistir:

Ou quando Kim Kataguiri transformou Guga Noblat em pó:

Nota-se que quase todos os recursos da guerra política podem ser praticados sem depender do desengajamento moral. No fundo, eles possuem efeitos mais duradouros, pois fornecem poucas brechas aos seus adversários. Já quem apela ao desengajamento moral pode ser moralmente cobrado (no presente ou no futuro) com mais facilidade. Não vai demorar para a questão da alegação relativa a “defesa do incesto por Haddad” ser cobrada moralmente.

Conclusão

Vamos resumir o que vimos neste texto, pois a análise da capacidade de superação da moral – nos termos da dinâmica social – será abordada mais vezes por aqui. Até o momento temos os seguintes pontos:

  1. É falso dizer que todos os comunistas são imorais e mentirosos em essência
  2. Essa informação não é baseada em evidências e serve como generalização para desumanização (e demonização de oponentes)
  3. Junto a diversos outros componentes (vistos no desengajamento moral e em métodos complementares), esse próprio discurso amplia a capacidade de aplicar a imoralidade contra oponentes
  4. Isso torna, então, a acusação generalizante de que “todos do lado oposto são imorais” uma forma de encontrar brechas para o comportamento imoral contra eles
  5. Mas olhando pelos estudos da sociologia e da psicologia social (bem como a dinâmica social), podemos entender que a imoralidade é uma capacidade humana, como parte da mente incorporada (e aqui a ciência cognitiva nos ajuda nesse sentido). (Outra dica de leitura é “The Most Dangerous Animal”, também de David Livingstone Smith)
  6. Uma análise dos discursos históricos e seus efeitos – como genocídios e diversas outras formas de violação dos Direitos Humanos – pode mostrar, sim, que a esquerda tem feito maior uso da imoralidade na ação política do que os direitistas, mas principalmente porque seus arquitetos intelectuais apertaram mais vezes (e com maior domínio técnico) os interruptores (na mente das pessoas) que habilitam esse comportamento, o que lhes fornece uma “vantagem” (por poder fazer mais coisas que os outros, restritos por padrões morais)
  7. Mas os mesmos componentes que ativam a imoralidade em esquerdistas podem ser ativados em direitistas, em especial por algumas vertentes que tem explorado o populismo de direita

Por isso mesmo, é bom termos ciência de que dá para praticar a guerra política sem se igualar ao inimigo e ainda por cima adquirir vantagem enquanto se expõe a imoralidade alheia. Mas a utilização dos mesmos recursos que o outro abre brechas perigosas, que podem ser exploradas pela esquerda (que vai cobrar o preço da imoralidade alheia), podendo causar danos à direita tanto em médio como longo prazo. Em alguns casos, isso causa danos já no curto prazo.

Em tempo: no fundo isso embasa muito do que eu já tinha escrito quando analisei o livro “Rules for Radicals”, de Saul Alinsky, para ser reconstruído para a direita, em 2012. Eu havia escrito que todo o método alinskiano poderia ser utilizado pela direita, sem que isso tivesse que derivar em práticas de imoralidades nos mesmos tons que víamos nos adversários. Mas na época eu ainda não tinha me aprofundado na dinâmica social, o que amplifica a análise das potencialidades e vulnerabilidades humanas.

5 comentários em Mentiram para você sobre questões morais de esquerda e direita

  1. Luciano, deveria fazer um post com todas as recomendações de leitura e explicando o motivo pelo qual deveríamos ler cada livro. Dá pra notar que você aprendeu muito nesse tempo em que ficou off. Seria muito bom ver a sua nova recomendação de leitura.
    Abraços.

    • Olá André, beleza?

      É uma boa ideia. Vou fazer sim.

      Sim, eu tenho focado muito em material de dinâmica social. Muita coisa mesmo. A abordagem fica mais encorpada. Mas lembro que os livros de David Livingstone Smith já tinham citados em meu livro “Liberdade ou Morte”, de 2015. Mas tenho lido muito mais coisa sobre dinâmica social desde então também.

  2. Allan Ferreira da Silva // 8 de novembro de 2018 às 6:18 pm // Responder

    Esse análise da dinâmica social na guerra política é algo esclarecedor.
    Obg pelo conteúdo compartilhado.

  3. Luciano, gostaria de entender como as pessoas que são como massas de manobras, e até mesmo aquelas leigas que fazem parte do senso comum, aceitam como normal as atitudes praticadas pela extrema esquerda, como por exemplo:
    – O MST invadir propriedades privadas e depredar, matar, destruir plantações sem sofrerem repulsa da sociedade.
    – Agressões feitas por universitários de extrema esquerda a outros alunos que se expõe como de direita, e os primeiros nada sofrem, seja repulsa dos colegas que estão inerentes as discussões.
    Temos vários exemplos de atitudes desumanas da extrema esquerda contra uma pessoa ou grupos e são até noticiados, mas muitas pessoas aceitam sem ficarem indignadas, como se estivessem anestesiadas, ou fosse algo “moral” na sociedade.
    Percebo que é preciso estimulá-las a perceberem o perigo que as ronda, ou do risco delas sofrerem as mesmas consequências, já lí você falar sobre o senso comum na sociedade, mas muitas que seguem alguma religião, que tem uma moral definida, aceitam este tipo de atitude.
    Isso tem haver com o que você diz sobre recompensa, seja ela financeira, como não querer se descolar do grupo de amigos ou do trabalho, acabam aceitando como moral e até apoiando. Ou também seria pela própria insegurança, afetado por baixa auto-estima ou seja lá pelo que?

    • Esse é o desengajamento moral, que faz as pessoas normais aceitarem barbáries. Esse fenômeno pode acontecer entre direitistas também, mas a esquerda usa melhor o desengajamento moral. E a prova social – que é buscar não se descolar do grupo social – é um dos vários motivadores para isso.

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