Não é mais possível retroceder na questão do Escola Sem Partido, gostem ou não

As discussões em relação ao Escola sem Partido tem motivado debates inflamados. A extrema esquerda, é claro, rejeita a proposta mais do que rejeita a peste. Mas a proposta encontra rejeição até dentro de setores da direita.

Alguns dizem, não sem um tanto de razão, que a proposta pode ser explorada por setores mais autoritários para impor sua agenda em salas de aula, tentando substituir uma doutrinação por outra e levando a perseguição de professores.  Todas as preocupações são factíveis e devem ser endereçadas, mas, felizmente ou não, o debate não pode mais ser interrompido.

É preciso levar em conta uma série de fatores que se apresentam nos dias de hoje. Por exemplo, o alto fluxo de informações habilitado pelas redes sociais. Ademais, temos a alta carga de desconfiança gerada contra os professores. Do lado dos doutrinadores, há vários casos de desafio e desrespeito contra os pais e alunos que reclamam. Ou seja, é uma postura belicista de ambos os lados. A postura incisiva dos doutrinadores obviamente só podia ter um resultado: a amplificação da revolta dos pais de alunos.

Os setores da direita críticos ao Escola sem Partido podem até argumentar que “é melhor deixar pra lá” ou “tirar o Estado dessa decisão, deixando tudo a cargo dos pais, que devem conversar em casa com os filhos”. Tudo bem que apresentem esses argumentos, sem deixar de lembrar que as preocupações são lógicas e, em certo aspecto, justificáveis. Mas elas ignoram o ponto principal: os fatores relacionados à desconfiança dos pais e alunos, ao desafio lançado pelos doutrinadores e a revolta que isso gerou de volta nos demandantes. Nada disso vai sumir apenas pedindo pra “deixar pra lá”.

Há um equívoco ao propor soluções que ignorem a natureza humana. O clima bélico não pode mais ser refreado, a não ser com uma medida que resolva os conflitos de interesses no momento.

A proposta por orientar alunos a filmarem as salas de aula é problemática no que diz respeito à violação de uma lei que proíbe tais gravações. Luis Felipe Pondé, que é contrário ao projeto Escola Sem Partido, disse: “Não sou simpático a lei, sou simpático ao barulho que a lei está fazendo”. Mas mesmo esse barulho gera as consequências que apontei, que não podem mais ser resolvidas se não for com uma lei.

Leia mais da matéria do JC com Pondé:

Para ele, a lei pode dar abertura para excessos, mesmo que tema seja verdadeiros, seja nas escolas ou nas universidades. “Eles não só pregam, montam colegiados de lobby, que atrapalha a carreira de aluno em mestrados e doutorados, dificultando aprovação de bolsas. “A universidade está longe de ser um espaço onde as pessoas bateriam no peito e diriam ‘eu sou ético'”.

O uso dos celulares como ferramenta nessa vigilância é classificado como gerador de um ambiente de falta de confiança na sala de aula. Ele compara a convocatória da professora com o veículo de comunicação Mídia Ninja, ao usarem celulares para filmarem manifestações em 2013. “Seja no Mídia Ninja, seja na professora ninja, eu acho que as duas formas podem produzir um ambiente de instabilidade institucional”, ressalta.

Enfim, o ambiente de instabilidade já está dado, e nisto Pondé está certíssimo. Agora é preciso definir o que pode ser feito para que a instabilidade seja pelo menos gerenciável.

E aí retomo a sugestão de estabelecer uma lei que obrigue todas as escolas públicas a gravarem todas as aulas. Com a gravação obrigatória, nenhum professor poderia reclamar de ser perseguido, pois a regra seria aplicada isonomicamente. Isso evitaria gravações seletivas, que podem tirar o professor de contexto. Também daria mais segurança aos alunos. Mas certamente tem gente que seguirá reclamando até mesmo desta proposta. Mas aí inevitavelmente o que virá será bem pior, pois o clima belicista gerou sentimentos e moldou identidades de luta que não vão se evaporar do dia pra noite.

Sem soluções mais moderadas (e com maior chance de estabilidade), virão as soluções mais extremas, com maior risco.

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