Desengajamento moral explica novos ataques perversos a Rachel Sheherazade

Poucas pessoas tem sido vítimas de maiores injustiças de dentro da direita do que Rachel Sheherazade. Decerto ela fez críticas ao candidato Jair Bolsonaro, mas nenhuma delas justifica ataques fora de qualquer proporção.

Na época de seu noivado, Rachel foi acusada de não ter ideia própria. Alegaram que ela estava sendo manietada pelo noivo. Tempos atrás, o relacionamento terminou. Agora estão utilizando o fato de ele ter uma nova namorada para dizer que Rachel deveria ter vergonha de ter abandonado “seus ideais” em “busca de macho”.

Isso já não é shaming. É violência psicológica do pior tipo.

Claro está que alguns setores da direita saíram do controle. Se acostumaram tanto em usar a intimidação contra divergentes que seus alvos ficam estupefatos diante da baixeza. É preciso falar, portanto, do desengajamento moral.

Desengajamento moral também para a direita

Um dos mitos que acreditei no passado – e posteriormente abandonei – é o de que apenas a esquerda é inerentemente perversa, enquanto que a direita teria uma boa tendência à moralidade. Mas o fato de eu ser de direita não implica vender essa ilusão.  Já escrevi sobre isto aqui. Se eu sou de direita, também posso encontrar imoralidades praticadas do lado de cá.

Ultimamente, eu tenho feito algumas críticas ao setor neocon da direita – críticas que foram guardadas durante o período eleitoral -, e pode até dar a impressão de que estou generalizando. Não, não estou. Eu sempre escrevo a expressão “alguns”, e não falo de todos.

Como não abordo a questão pela ótica de “mocinhos e bandidos”, já deixei bem claro que talvez o surto de desengajamento moral vindo de alguns neocons tenha a ver com a disparidade na correlação de forças. Em razão desta disparidade na correlação de forças, o grupo dominante tende a superar a moral. Isso levará a mais instâncias de desengajamento moral.

Ademais, conheço vários neocons que discordam da liderança. Só que muitos não podem falar nada, pois morrem de medo. Há muitos liberais e conservadores clássicos que também morrem de medo. Não dão um pio, pois temem perder seguidores. Há uma estrutura claramente organizada (que já dá para mapear com análise de redes) envolvendo: (1) cadeias de solidariedade, (2) estrutura de indicação mútua, (3) exclusão de divergentes. Assim, entendo o medo daqueles que não concordam, mas não falam nada.

Este fenômeno também tem como ser explicado pelo uso de padrões do desengajamento moral na linguagem da liderança, uso de linguagem inflamatória, radicalização no mecanismo in-group e out-group, retórica contra coexistência com a divergência (inclusive interna) e daí por diante.

Todos os fenômenos comportamentais são explicáveis via dinâmica social. Em suma, todos os comportamentos que ficamos assustados ao visualizar na esquerda mais extrema podem ser reproduzidos pela direita. Os interruptores que ativam esses processos mentais estão codificados na mente incorporada. Falarei da mente incorporada muito em breve.

Um quadro do desengajamento moral

Prestem atenção neste quadro, referente ao desengajamento moral (conforme teoria de Albert Bandura). Diante de algo imoral que está sendo cometido (ou incentivado), observe instâncias destes discursos.

(1) Diante da conduta repreensível, observamos:

  • Justificação moral
  • Comparação vantajosa
  • Rotulagem eufemística

(2) Diante dos efeitos danosos causados, temos:

  • Minimização, deleção ou “reframing” das consequências

(3) Diante da discussão sobre a vítima, temos:

  • Culpabilização da vítima
  • Desumanização

Quanto aos pontos (1) e (2), temos outros dois padrões de discurso:

  • Transferência de responsabilidade
  • Difusão de responsabilidade.

Visualizando na prática o desengajamento moral

Por exemplo, quando um inocente sofre um linchamento público, é possível usar todos os padrões:

  • Justificação moral: “O que a vítima fez é imoral”
  • Comparação vantajosa: “Mas olha o que a vítima fez perto do que fizemos”
  • Rotulagem eufemística: “O que fizemos com a vítima não é agressão, mas uma lição”
  • Minimização, deleção, ou reframing das consequências: “Não aconteceu nada com a vítima, apenas algumas críticas, oras”.
  • Culpabilização da vítima: “A culpa é da vítima, que fez (a), senão não teria acontecido (b)”.
  • Desumanização: “A vítima nem é gente, oras”
  • Transferência de responsabilidade: “Ninguém é responsável pelos ataques à vítima”
  • Difusão de responsabilidade: “Todo mundo está atacando a vítima, então nem dá pra culpar ninguém, certo?”

Então, vamos avaliar o caso envolvendo Rachel Sheherazade. O fato é que ninguém sabe os motivos internos do casal. Não sabe os motivos da separação. Ademais, é uma forma desrespeitosa e cinicamente condescendente dizer que Rachel só adotou determinadas posições “por causa de homem”. Por isso, não faz sentido expor questões que pertencem à intimidade do casal desta forma. Agir assim é uma forma desumana de atuação política, principalmente diante de alguém que lutou do lado da direita por tanto tempo, tendo discordado em alguns pontos.

O desengajamento moral não serve para descrever as atitudes imorais, mas os discursos que justificam coisas percebidas por imorais por cerca de 98% das pessoas, que mesmo não sendo psicopatas podem agir temporariamente como se fossem. Os 2% restantes da população são compostos de psicopatas. Obviamente, não dependem do desengajamento moral para justificarem atrocidades.

O desengajamento moral serve para descrever os discursos usualmente utilizados para justificar comportamentos imorais por pessoas que tem um senso de moralidade. Assim, a pessoa se “desengaja” de padrões morais aceitáveis. Com os mecanismos do bode expiatório junto aos aspectos do desengajamento moral, dá para fazer qualquer coisa e chegar ao nível dos piores esquerdistas que vemos.

Alguns exemplos:

Agora é só testar: basta questionar moralmente aqueles que estão fazendo esses ataques e, em muitos casos, você visualizará discursos de desengajamento moral.

A tese do desengajamento moral não foi feita para tratar de monstros morais, mas sim de pessoas normais que – estimuladas por discursos de propaganda projetados por arquitetos sem qualquer senso moral – se desengajam de qualquer sistema moral padrão para justificar qualquer coisa.

2 comentários em Desengajamento moral explica novos ataques perversos a Rachel Sheherazade

  1. Banalizar agressões é injustificável! Aliás, até aceitas se e como fruto de muita indignação.
    Agora, tanta teoria sobre o fato, parece um mimimi intelectual que 90% ou mais dos “agressores” nem entenderão.

  2. Isso Paulo, não entenderam mesmo. Falta de educação, agressões verbais, etc, não são inerentes à opção ideológica de ninguém. Faz parte do caráter (ou falta dele), de cada um. Vamos achar isso em qualquer lado.
    O que parece mesmo é que o autor(a), ao criticar tanto os extremistas de direita, não quer aceitar que eles possam existir dentro da direita. É como se todos devessem ser “puros”.
    Pois, que fiquem sabendo: Não somos!

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