O segredo de Nando Moura está em bater em quem não reage… até na direita

Algumas pessoas me questionaram sobre os métodos de alguns neoconservadores, que passam boa parte de seu tempo batendo nos outros (e preferencialmente em liberais). Aqueles que se surpreendem com isso estão esquecendo a dinâmica do ataque na política, pois, como disse David Horowitz, “o agressor geralmente prevalece”.

A pergunta me foi feita após um ataque gratuito de Nando Moura ao MBL, que lançou um vídeo falando sobre Stan Lee:

Nando Moura apareceu nos comentários com um ataque abaixo da linha da cintura:

O curioso é que Nando Moura diz tudo isso, mesmo tendo apoiado um deputado estadual que faz parte de um partido que acabou de chegar ao poder, ou seja, atrás de cargos, alianças ou negócios com o Estado. Em suma, o famoso duplo padrão. Mas a dinâmica social também tem uma explicação para isso: quando se encontra tranquilo na correlação de forças (e usa o desengajamento moral), alguém tende a viver em duplo padrão.

De imediato, já vi alguns leitores dizendo que Nando Moura “se equivocou” ou “não entendeu o vídeo do MBL”. Bem, isso é paternalismo, ou seja, a análise focada em conflitos de entendimento enquanto, na verdade, falamos de conflitos de interesses. O paternalismo é a forma mais infantil de análise política.

Por isso, vamos a algumas expressões paternalistas que geram risco e confusão:

  • “atitude (x) é desnecessária”
  • “esse comportamento (w) é perda de tempo”
  • “(a) não deve ter lido direito para dizer (b)”
  • “a intenção de (c) não vai levar a (d)”
  • “essa confusão (k) é muito chata”

E assim, sucessivamente, sempre vemos frases ignorando os interesses daqueles envolvidos nos conflitos. Mas quando se fala em atitude desnecessária, deve-se questionar: necessidade de quem? Se um comportamento é perda de tempo, então por que alguém dedica esforços a este comportamento? E será que aqueles que “não leram direito” no fundo não queriam distorcer intencionalmente o que o outro escreveu? Quando se fala que uma intenção não vai levar a um resultado, a pergunta é: intenção de quem? Por fim, se uma dada confusão é “muito chata”, será que ela soa chata para quem está promovendo a confusão?

Voltando à dinâmica social, o fato é que o cérebro humano é codificado para se proteger. O cidadão comum pensa assim. Por isso, ele procurará aqueles que defendem melhor seu território, para ficar abaixo desses defensores. Mas este “defensor” só será percebido assim – em nível subconsciente – pelo potencial de bater não apenas nas ameaças, como também em outros supostos líderes mais fracos (que ao serem agredidos são representados como “menos capazes de defender território”). A verdade nua e crua é que o ser humano é uma máquina que luta por sobrevivência. Esta necessidade está gravada no hardware humano.

Os youtubers neocons entenderam bem essa dinâmica (que eu havia explicado há uns 5 ou 6 anos atrás). Mas também descobriram algo bizarro: os liberais não reagiam. Por isso, os neoconservadores do Youtube optaram por sair batendo até mais em liberais do que em esquerdistas. Mas no fundo batem em todo mundo. No fim das contas, a baixaria se estabeleceu tanto porque após tantos ataques (só de um lado), a correlação de forças já ficou bem desfavorável para os liberais.

Não surpreende notar que, enquanto estão batendo, assistem seus acessos aumentarem. É principalmente por este motivo que eles esmagaram a concorrência nas eleições. O detalhe é que os neoconservadores não representam a campanha de Jair Bolsonaro, mas encontraram nela seu “escudo” para saírem atacando outros direitistas. Ao ocuparem espaço pelas vias da agressão política (geralmente baixa e focada principalmente no caráter do inimigo, agora redefinido como “os liberais”), também venderam ao público a imagem de que eles é que representam o bolsonarismo. Teve até muita gente que caiu na armadilha e decidiu ficar contra Bolsonaro apenas porque apanhou de neocons. Convenhamos: é jogada de mestre dos neocons.

Quando alguém se surpreendeu com o ataque de Nando Moura no canal do MBL, não entendeu o código: ele estava simplesmente buscando um tanto de novos seguidores pro seu canal. Quem apanha (sem reagir), obviamente ficará com muito menos gente. Se quiserem, façam a conta dos inscritos. Em suma: a vida é dura. Quem quiser recuperar o espaço perdido vai ter que bater forte e agir de maneira organizada. Há um espaço para youtubers do outro lado que cheguem batendo no mesmo nível.

Pode ter alguém que se sinta incomodado com os ataques de Nando Moura. Para estes, recomendo a reflexão: até que ponto vocês incentivaram esse comportamento por não reagirem? A passividade sempre é um estímulo à agressão. Se no futuro liberais apanharem de cassetetes nas ruas, talvez seja preciso lembrar: “em que ponto incentivamos essa agressão ao não reagirmos aos ataques feitos no Youtube?”. A falta de reação nos ataques virtuais pode fazer a coisa descambar para a violência física.

A lição que fica é que, em vez de negarmos a política, é preciso compreendê-la em sua integridade. Se alguém se sente desrespeitado por Nando Moura, bata de volta. Mas bata em intensidade e atingindo o oponente no caráter (não falamos apenas de “refutações aqui e ali”). Depois de uma dezena de revides, surge o respeito natural.

Tem quem acredite que isso vai gerar revolta do outro lado. Ao contrário: somente aí o outro lado vai te respeitar. Eu respeito o conteúdo produzido por alguns autores neoconservadores – por exemplo, um de meus livros preferidos é “Beautiful Losers”, de Sam Francis -, mas somente na medida em que o neoconservador me respeita, mesmo eu não sendo um deles. No dia em que liberais entenderem que respeito é algo que se exige, haverá maior equivalência na correlação de forças.

Sem uma correlação de forças equilibrada, até a própria democracia brasileira corre riscos. Como expliquei aqui, o autoritarismo depende de que a correlação de forças se torne desfavorável para um dos lados. Mas se os liberais não lutam para que exista uma correlação de forças equilibrada (por terem decidido não reagir aos ataques neocons), então essa capitulação pode complicar nossa democracia. Ou seja, dependemos de uma possível reação de liberais aos ataques para que exista uma estabilidade no jogo democrático.

Nando Moura está fazendo o papel dele (pela ótica da dinâmica social). Cabe aos seus adversários liberais – e não falo aqui apenas de MBL, pois a surra moral tem sido generalizada, e lançada também contra o NOVO e o LIVRES – fazerem o seu papel também. Como eu disse, a guerra política é dura. Entendê-la como ela é significa visualizar a política de forma adulta.

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