Parte 2: mais 25 rotinas pró-escravidão desmascaradas

No dia 18 de novembro, publicamos o texto “Alerta de textão: refutação de 20 rotinas pró-escravidão de médicos cubanos”. Ao final do texto, acrescentei: “Se tiverem novas rotinas, me enviem, por favor. É possível que exista uma parte 2 para este post. O nível da argumentação petista definitivamente bateu no fundo”.

Os leitores coletaram sugestões de outras 25 rotinas. Então lá vamos nós…

#21 – “Cuba faz cooperação com 66 países pelo mundo”

Isso não é um bom argumento a favor do uso de médicos cubanos em sistema análogo à escravidão. Decerto outros países do mundo aceitam esse tipo de contratação, mas nem todos os países possuem atribuem o mesmo valor a liberdade. Logo, é esperado que vários países ainda aceitem a escravidão, assim como aceitam apedrejamento de apóstatas e violência contra mulheres e homossexuais. O argumento dizendo que “outros países aceitam” é pífio.

#22 – “Cuba é vítima de bloqueio econômico e precisa de dinheiro”

O bloqueio econômico a Cuba sempre foi superestimado para justificar o colapso econômico causado pelo socialismo pleno no país. Um texto do Mises Brasil, inclui esta parte reveladora:

Já no ano de 1992, o embargo adquiriu caráter de lei e, em 1996, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a chamada Lei Helms-Burton, a qual proibiu os cidadãos americanos de realizar negócios dentro da ilha ou com o governo cubano — embora desde muito antes a justificativa para o embargo tenha sido a ausência de liberdades civis e as violações dos direitos humanos realizadas pelo regime cubano.

Ainda hoje, o povo de Cuba majoritariamente acredita que a causa de todas as suas penúrias é o bloqueio. Eu também pensava assim, até ter presenciado algo que me fez pensar seriamente a respeito.

Em 1997, eu trabalhava como assessor jurídico de uma empresa que atuava no ramo do comércio exterior, e qual foi a minha surpresa quando constatei que a empresa Alimport (Empresa Cubana Importadora de Alimentos), responsável pelo nosso comércio exterior, estava importando produtos agrícolas diretamente de produtores dos Estados Unidos. Estranho, não?

Ou seja, no ano de 1996 foi aprovada a Lei Helms-Burton e, um ano depois — quando já era notícia diária em Cuba e no resto do mundo a aprovação da dita lei —, pude constatar, repito, que se estava importando produtos agrícolas diretamente do Império Americano.

Isso, contudo, não era dito pelos meios de comunicação em massa do meu país.

Porém, há mais. No ano de 1999, o presidente Bill Clinton “endureceu o bloqueio”, proibindo as filiais estrangeiras de companhias americanas de negociar com Cuba a valores maiores do que US$700 milhões anuais. Entretanto, no ano 2000, o próprio Clinton autorizou a venda de certos produtos “humanitários” a Cuba.

O fato é que, paradoxalmente, não apenas os EUA têm estado entre os cinco principais sócios comerciais de Cuba, como também, se não bastasse, têm sido os principais fornecedores de produtos agrícolas para a ilha.

E mesmo que Cuba ainda precisasse de dinheiro, isso não justifica a escravidão. Se aceitássemos esse argumento, a escravidão no Brasil não teria sido proibida.

#23 – “Sem o dinheiro dos médicos cubanos, Cuba terá problemas em financiar seu sistema de governo”

Isso nunca poderia ser um argumento a favor da escravidão, mas contra! Se não financiarmos trabalho escravo em Cuba, o socialismo pleno fica difícil de ser mantido. Talvez isso pudesse gerar até mais pressão para dificultar a vida da ditadura. Bem, assim como não se recomenda financiar o crime, não se deve financiar ditaduras. Nem sempre isso é possível, por questões comerciais. Mas quando é possível, é sempre boa notícia.

#24 – “Os médicos podem escolher ou não trabalhar”

Considerando que profissionais de medicina de Cuba fogem para outros países – como Estados Unidos – para poderem viver a vida de cidadãos livres, essa afirmação é quase uma piada.

#25 – “Existem intermediários no negócio; logo, Cuba não é culpada por escravizar pessoas”

Sim, existem intermediários. Mas se todas as partes do negócio estão cientes das condições dos médicos cubanos (e são responsáveis por essas condições), a transferência de responsabilidade não se aplica. Moralmente, pelo menos, todos envolvidos tem parte de responsabilidade.

#26 – “O governo cubano é responsável pela assistência aos médicos cubanos no Brasil e isso é um atenuante”

Não é atenuante. Na história da escravidão, os senhores sempre cuidaram da assistência aos seus escravos, pois precisavam deles para trabalhar. A assistência não deve estar associado à trabalho coercitivo, a não ser, é claro, na situação em que falamos de presidiários. Se os cubanos recebem assistência, ao mesmo tempo deveriam ter a chance de rejeitá-la, bem como rejeitar o modelo de trabalho e fecharem contatos com quem quiserem. Sem isso, não há atenuante moral algum.

#27 – “A educação é de qualidade e de graça para todos em Cuba e isso justifica o sistema”

Novamente temos o problema de justificar a escravidão a partir do assistencialismo. Não é mérito algum dar algo de graça para pessoas sem liberdade. Só há mérito em dar algo de graça a pessoas envolvidas em alocação voluntária de esforços.

#28 – “A taxa de rebeldia dos cubanos é pequena”

Isso pode ser explicado pelo medo que eles sentem e pelo fato de as famílias ficarem no país. A vida de quem tenta se rebelar e não consegue se torna um horror. É esperado que a taxa de rebeldia seja pequena. E aí podemos até lançar uma crítica a Jair Bolsonaro. Se o apoio for mais incisivo aos médicos cubanos (para se libertarem), a taxa de rebeldia seria ainda maior. Mas não sabemos qual o cálculo político feito pelo novo governo. Fato é que uma baixa taxa de rebeldia não é bom argumento a favor da escravidão.

#29 – “Os demais países que adquirem médicos cubanos não exigem o Revalida”

E daí? Este é um problema moral deles. Se existem regras específicas no Brasil quanto ao Revalida, somos um país soberano. Há profissionais brasileiros reclamando (e com razão) da falta de isonomia. Aliás, temos uma matéria mostrando que a ditadura cubana proíbe que façam o Revalida. Os dados foram trazidos pelo Huffington Post Brasil. Sem a chance de ter o Revalida, os médicos cubanos não possuem as mesmas chances que os demais médicos. Terrível.

#30 – “A OMS reconhece o modelo de contratação cubana”

Falácia da autoridade. Se a OMS reconhece esse modelo de contratação, isso é ponto negativo para a entidade.

#31 – “Os bancos ficam com boa parte da renda dos brasileiros, então é igual escravidão”

Existem algumas rotinas que ultrapassam qualquer limite de afronta ao bom senso. Essa é uma delas. Alguém pode reclamar das taxas de juros dos bancos. Isso é normal. Mas a relação entre clientes e bancos não é coercitiva. Quem quiser guardar dinheiro no colchão, pode fazê-lo. Quem quiser usar bancos e fazer investimentos, pode sair ganhando dinheiro. Em suma, a rotina é tão maluca que eu nem deveria estar escrevendo coisas tão óbvias. Fica aqui apenas como referência.

#32 – “Os críticos não ligariam se os médicos viessem de outros países”

A invenção de motivos obscuros (quando eles não são comprovados) para os outros é uma impostura intelectual. Se é verdade que os críticos não ligariam se os médicos viessem de outros países, bastaria fazer o teste. Porém, há médicos de outros países (em menor quantidade), que se submetem ao Revalida. Isso não deixa espaço para críticas. Enquanto isso, há espaço de sobra para críticas aos médicos cubanos. Por isso, os últimos deveriam fazer o Revalida e poder fazer contratos diretamente como todos outros.

#33 – “Quem critica a exploração dos médicos cubanos é hipócrita”

O ser humano, em geral, consegue ser hipócrita várias vezes por dia. Seja ele de direita ou esquerda. Porém, mesmo que existam hipócritas entre os críticos da escravidão (assim como existem hipócritas entre os defensores), a extrema esquerda é que não consegue lançar uma argumentação lógica sequer a favor da manutenção de um sistema de escravidão. Viver dependendo de falácias é mais uma característica da hipocrisia humana. Nesse quesito, a extrema esquerda está ganhando de lavada.

#34 – “O programa Mais Médicos priorizou a contratação de médicos graduados no Brasil”

Sim. Priorizou. Em um primeiro momento, não conseguiu número suficiente. O programa deve ser revisado. Isso não justifica a escravidão.

#35 – “Sem os médicos cubanos, é possível ter um apagão na saúde”

É realmente possível, mas isso não justifica a aquisição de trabalho escravo. Justifica o aumento de pressão tanto sobre o governo que está terminando como sobre o governo que está chegando. Mas justificaria também a contratação direta dos médicos cubanos. Não há como justificar moralmente a escravidão.

Médicos cubanos são encaminhados aos locais onde atuarão, no programa Mais Médicos

#36 – “Cuba é um país soberano, e nada do que ele faz com seu povo pode ser questionado”

O fato de países serem soberanos não implica que não possam ser criticados e nem deixar de receber sanções. Quando existem negociações entre países, é possível lançar sanções contra países por violações aos Direitos Humanos, por exemplo. A soberania de países não significa que não se pode questioná-los. Aliás, se existem negociações entre países, é possível que regras sejam impostas durante essas negociações. Isso não tem nada a ver com violação de soberania nacional.

#37 – “Médicos cubanos ganham muito bem em comparação com os que moram na ilha”

Ganham mesmo. Lá ganhariam muito menos e viveriam muito pior. Mas é justamente esse sistema que estamos combatendo. Na história da escravidão, sempre existiram escravos em melhores ou piores condições. Mas o fato é que todos estão sem opções. O argumento #37 fornece mais um motivo para sermos contra a escravidão de médicos, pois isso é o financiamento da miséria para os que vivem em Cuba.

#38 – “A retenção de 70% do valor dos cubanos é similar à lógica do FIES: retribuição pela formação”

Novamente temos a confusão entre contratação voluntária e retenção coercitiva de recursos a partir de trabalho forçado. Não há absolutamente nenhuma comparação entre retenção de valor a partir de contratação voluntária e retenção forçada.

#39 – “Os médicos assinaram contrato para o programa, então críticas não são válidas”

Os espertinhos que dizem isso só se “esquecem” de dizer que o contrato foi fechado em um país totalitário, que tem plenas condições de usar a máquina estatal contra os que não assinam o contrato. Mas é exatamente essa coerção que estamos criticando. É esperado que tenham assinado contrato mesmo. E tem mais: um contrato assinado em Cuba não revoga as leis contra escravidão no Brasil.

#40 – “Quem usa plano de saúde não tem moral para apoiar o fim da escravidão”

Típica chantagem moral que busca fugir do assunto e ludibriar o público. Quem tem condições de usar planos de saúde também paga impostos para financiar a saúde pública. Logo, tem como exigir que o dinheiro seja bem aplicado. Como já vimos anteriormente (na refutação à rotina #12), os planos de saúde são baseados na alocação voluntária de recursos.  E como já dito na refutação à rotina #7: “É evidente que os petistas podem usar matérias mostrando pessoas felizes após receber atendimento dos médicos cubanos. Não temos como questionar a felicidade legítima dessas pessoas, que, em muitos casos, não possuem noção da imoralidade que fez com que médicos brasileiros não estivessem trabalhando em sua região”.

#41 – “A disponibilidade de médicos é insuficiente”

O governo já abriu edital para preencher as vagas. Se não conseguir, receberá críticas. Então, este é, de fato, um problema a ser resolvido. De qualquer outra forma. Menos com o uso de trabalho escravo.

#42 – “Quem fala da escravidão de cubanos não se importa com a escravidão já existente no Brasil”

Esse é o tipo de rotina que se autorefuta com os fatos, como já visto neste texto expondo a falácia de Leonardo Sakamoto: “Ora, se ele citou casos de trabalho escravo que resultaram na libertação dos escravos, então o problema já foi resolvido. Mas ao mesmo tempo, não é possível libertar os médicos escravizados por Cuba. Ou seja, esse é o problema atual que precisa ser resolvido. Para piorar, isso é financiado com verba pública, o que amplifica ainda mais o problema moral. Ao citar os casos de pessoas de trabalho escravo que foram libertadas, ele nos dá um motivo adicional para lutar pela libertação dos escravos cubanos”.

Em síntese, se hoje há vários casos de pessoas libertadas ao realizar trabalho análogo à escravidão, então já superamos o problema da tolerância à escravidão. Agora é preciso fazer o mesmo diante da escravidão de médicos cubanos.

#43 – “É falso que médicos podem trazer famílias para o Brasil, pois isso não está escrito em lugar algum”

Falácia da ampliação indevida. Aqui o argumentador finge que algo só pode acontecer “se estiver escrito”. Mas seria burrice se a ditadura cubana escrevesse algo assim, até porque o ser humano não gosta de produzir provas contra si próprio quando isto não é necessário. Mas o fato é que podemos comparar a presença de familiares de médicos cubanos no Brasil com a presença de familiares de médicos de outros países. Os relatos de médicos cubanos muitas vezes são assustadores, como mostrava essa matéria do R7 em 2014. Uma médica disse: “Tenho família em Cuba. Se eu for considerada desertora e traidora da pátria ficaria proibida de ver minha família por dez anos”.

#44 – “Bolsonaro já quis proibir famílias de cubanos no Brasil”

Esse é o famoso caso de “dois erros não fazem um acerto”. Se cometeu este equívoco moral no passado, hoje propôs algo bem diferente, e deve ser elogiado por isso. A pressão política sempre é positiva. Porém, o lado que não arreda pé é o da extrema esquerda, que não liga para o fato de que as famílias de cubanos são proibidas de vir junto com os médicos.

#45 – “Os críticos são culpados pelo retorno dos médicos a Cuba”

Não adianta falsificar a realidade. Vamos rever o que está na matéria do IG de 14 de novembro: “O governo de Cuba anunciou, nesta quarta-feira (14), sua retirada do programa Mais Médicos. Com o objetivo de levar profissionais da saúde para o interior do Brasil, o programa contava com a participação de cerca de 9 mil atendentes cubanos. Em comunicado à imprensa, o ministério da Saúde de Cuba creditou a decisão às críticas do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), que diversas vezes questionou a capacidade dos cubanos em atuar no Brasil. Ao todo, participam do programa Mais Médicos 18 mil profissionais – cerca de 47% deles, vindos da ilha socialista”.

Fato: Cuba é a única culpada pelo retorno dos médicos a Cuba.

Acho que já deu, não?

Creio que com esse texto (junto ao anterior) já esgotamos os pacotes de falácias. Pode ser que surjam falácias novas aqui e ali, mas aí podemos tratá-las individualmente. Com cerca de 45 falácias já refutadas, fica claro que a extrema esquerda não tem como se defender nessa questão. A atitude dessa tropa não configura apenas um déficit de fatos e argumentos, como também um déficit moral.

Twitter: https://twitter.com/lucianoayan

Facebook: https://www.facebook.com/ceticismopoliticosc/

1 comentário em Parte 2: mais 25 rotinas pró-escravidão desmascaradas

  1. Lí uma justificativa da escravidão esses dias assim:
    – “Sacanagem ficar com 70% do salário e repassar só 30% pro médico! Cuba? Não. UNIMED! Simples assim!!!! ”

    Fiz uma comparação com base na rotina #38:
    – A Unimed sendo uma cooperativa de médicos, seus associados são os donos, logo distribuem totalmente o lucro das cobranças de mensalidade a eles próprios. Mas gostei do seu post, vai passar essa vergonha no débito ou no crédito?

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: