Ciro Gomes e a nova frente de esquerda: qual o real potencial disso tudo?

Assim como a direita que chegou ao poder se encontra em confrontos internos entre setores – ao menos cinco, sendo eles neoconservadores, conservadores, liberais clássicos, liberais “só na economia” que não gostam de ser chamados de neoliberais e libertários -, o mesmo ocorre com a esquerda.

As principais esquerdas que temos hoje são a esquerda trabalhista (estilo PDT), a extrema esquerda bolivariana (do PT e sua turma), a esquerda politicamente correta (mais distribuída no PSOL), a extrema esquerda leninista (o PCO, que tem a melhor teoria política, mas é pouco ouvido, por sorte) e a esquerda globalista (estilo Rede, que adota tons do politicamente correto). Tal como na direita, existem algumas misturebas (por exemplo, adeptos do politicamente correto na Rede ou até em movimentos como LIVRES, que transita entre direita e esquerda), mas isso é do jogo.

O que podemos notar é que existem duas dessas esquerdas que já tiveram ou possuem algum poder, mas encontram problemas: a esquerda politicamente correta está desgastadíssima por não atender as demandas populares (soa elitista demais). Já a extrema esquerda petista se queimou por escândalos de corrupção. Basta reparar que a Internet ficou em euforia com a cacetada dada por Gabriela Hardt em Lula.

Detalhe: o setor politicamente correto bota a lenha na fogueira da Lava Jato e quer ver petistas em chamas. O pau está torando, embora na esquerda exista uma correlação de forças mais equilibrada (que está um tanto desequilibrada na direita, mas isso pode mudar).

Isso abre espaço, é claro, para uma esquerda de tons mais ligados à social democracia, que sempre ficou no meio do caminho com o PSDB. Por mais que se vendesse como um partido social democrata, as políticas tucanas tendiam a uma mistura de liberalismo social com um tanto da social democracia. Com Doria ganhando espaço no PSDB, o liberalismo social tende a avançar. Quer dizer, o PSDB poderia ser praticamente um partido de centro.

Focando na esquerda, nota-se que, como o PSDB está um tanto esvaziado (e ainda decidindo sua direção), há um espaço para uma social democracia – que irá definir seu nível de profundidade de acordo com o desempenho do novo governo -, Ciro Gomes parece ter um discurso menos frágil nesse momento.

Como os petistas são o partido de esquerda com maior bancada na Câmara, o ideal para essa esquerda (além do bolivarianismo) faça coalizão. Ciro não perdoa o fato de que o PT articulou a posição de neutralidade do PSB na eleição.

Por outro lado, o PT também está em crise interna, pois o fracasso de Fernando Haddad não foi bem digerido. Há muitos setores internos que buscam sair da dominação de Lula, que já não consegue insuflar as massas como no passado.

Ciro Gomes fala que o PT precisa fazer a auto crítica, desgastando ainda mais o partido de Lula: “Precisamos criar uma frente não oportunista de guarda dos interesses da institucionalidade democrática, porque o PT introduziu uma retórica de que a democracia brasileira estava em risco. Nós não vemos assim até o presente momento”.

Em torno de Ciro estão reunidos líderes do PSB, PDT e PCdoB se reuniram em Brasília para discutir a atuação deles na Câmara, sem a participação do PT. Juntos, todos esses partidos formariam um bloco de 69 deputados federais. Ciro também conversa com Marina Silva, da Rede.

A política dos chimpanzés

Tenho comentado bastante nesses dias sobre o estudo das coalizões pela dinâmica social. Para isto, vou citar um texto que resume o livro “Chimpanzee Politics”, do primatologista Franz de Waal, que aborda as “lições” que os chimpanzés podem nos dar sobre política, e isso vale tanto para a direita como para a esquerda. No fundo, vale para qualquer luta por poder em grupos na espécie humana. (Não quero aqui superestimar o papel da psicologia evolutiva, que é contestável em algumas extrapolações, mas pode ser eficiente para análises mais restritas das dinâmicas de grupo)

Falaremos especificamente da seguinte dica: “quando estabelecer alianças, escolha alguém mais fraco e não mais forte que você”.

Um chimpanzé que quer ascender ao posto mais alto precisa de amigos, de aliados e, sobretudo, de uma estratégia.

Como explica Frans de Waal, os primatas formam coalizões de conveniência, que mudam continuamente.

“Se temos um grupo com três machos e um deles é extremamente forte, os outros dois tenderão a se aliar contra o mais forte. Eles sabem que, caso se unam ao macho mais forte, acabarão convertidos em um acessório de poder.”

“Por outro lado, se um deles se une a um macho tão fraco quanto ele, então formará uma aliança que será essencial para a coalizão”, explica o especialista.

E é assim que se formam as coalizões de partidos políticos criados por humanos, conforme disse à BBC Simon Hix, professor de ciência política da London School of Economics and Political Science (LSE), do Reino Unido.

“Por exemplo, se temos três partidos em um parlamento, um grande e dois pequenos, a coalizão mais óbvia seria a do partido grande com um dos pequenos.”

“Mas previsões mostram que é mais vantajoso que dois partidos pequenos se unam, se juntos puderem garantir mais de 50% dos votos, porque, neste caso, poderão dividir o poder entre si.”

“Se um dos partidos pequenos formasse a coalizão com o partido grande, este dominaria o pequeno e teria muito poder em suas mãos”, completa o professor.

Os chimpanzés também adotam outras estratégias políticas muito similares as dos humanos.

“Quando um macho idoso deixa de ter condições de continuar como macho alfa, ele começa a procurar e a preparar um macho jovem para ser o futuro líder. E esse macho pode terminar se tornando o novo macho alfa”, diz Waal.

“Também vemos isso ocorrer com seres humanos, com todos esses políticos velhos que continuam tendo enorme influência sobre um partido.”

E Hix acrescenta: “Na política democrática, vemos que muitas vezes o líder de um partido nem sempre é a pessoa com mais poder dentro desse partido. (Uma pessoa) É líder de um partido durante pouco tempo, enquanto as figuras políticas poderosas se mantêm no partido durante 15 ou 20 anos”.

O professor explica que são esses políticos poderosos que, na prática, conduzem as legendas. “Não querem à frente do partido alguém que possa ser mais poderoso que eles”.

Ciro Gomes claramente é o líder de esquerda que hoje encontra menor poder de rejeição, bem como é o que teve uma ótima votação.

Claro que os petistas estão dizendo por aí que uma “coalizão sem o PT não funcionaria”, mas Ciro parece ter se tornado forte o suficiente para liderar uma coalizão, soando menos “perigoso” para os demais partidos de esquerda como seu líder.

Uma esquerda que não dependa tanto do politicamente correto e não esteja queimada por escândalos de corrupção é o tipo de esquerda com maior potencial neste momento. A distância do PT – reclamação vinda de muitos petistas – é apenas uma estratégia que parece bem útil neste momento.

De resto, a direita deve torcer para que eles briguem mais um pouquinho enquanto Jair Bolsonaro se estabelece no poder.

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7 comentários em Ciro Gomes e a nova frente de esquerda: qual o real potencial disso tudo?

  1. Vem cá, Luciano: Sabendo-se hoje da imundice que estão envolvidos muitos dos líderes religiosos como Silas Malafaia e Magno Malta – esse envolvido até em escândalo de tortura contra um inocente -, você ainda compartilha daquele pensamento que os representantes da direita atualmente defendem a liberdade?

    Me lembro de uns anos atrás ter dito aqui no seu site (ou no antigo, não lembro) sobre o gramscismo protestante; coisa que você chegou até me zoar.

    Sabendo-se hoje da putaria desses líderes protestantes dentro da política, e sabe-se lá mais o que essa gente está envolvida, parece que eu estou acertando…

  2. Ciro Gomes prometeu mudar pra outro país se Bolsonaro ganhasse. Como é mentiroso e não cumpre promessas , continua aqui. É da escória política.

  3. Pra mim o PSOL é extrema esquerda bolivariana assim como o PT, o que os diferencia é que o PT é pragmático.

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