A tal “tática do confronto para conquistar eleições” veio para ficar

O site de Luís Nassif (que é pró-PT) publica um texto de Arnaldo Cardoso, com o título “A tática do confronto utilizada para conquistar eleições e para governar”.

Ele comenta o caso de Matteo Salvini, na Itália: “Nesta última semana na Itália, marcada pelo acirramento do confronto do governo com a Comissão Européia que novamente rejeitou o orçamento apresentado para 2019 e deu início a um processo de sanção contra o país, que pode resultar em multa de € 3,4 bilhões, pesquisa de opinião mostrou que o partido de extrema direita Liga Norte continua em ascensão na aprovação da população, inclusive em regiões onde tradicionalmente a esquerda e a centro-esquerda recebiam maior apoio, como é o caso da Emília Romagna”.

Ele lembra que “a aprovação da performance da Liga Norte hoje no governo parece se sustentar em medidas como a de redução de impostos, do controle de imigração e do avanço da proposta para a criação da renda da cidadania, além do sentimento continuamente estimulado pelo discurso de Salvini de defesa do nacionalismo, patriotismo e autonomia em relação a questões diretamente ligadas a idéia de soberania nacional, enfraquecida no processo da integração regional européia que levou ao deslocamento do poder decisório para instituições supranacionais do bloco. O apoio a Liga Norte tem provindo de empresários, classe média e parcelas da massa de trabalhadores italianos que se sentiam abandonados pelo poder central”.

Mais:

O principal condutor da tática do confronto na campanha eleitoral, Matteo Salvini, que agora acumula os cargos de Ministro do Interior e de Vice-Primeiro Ministro, tem se afirmado a cada dia como a cara do novo governo tanto para o público interno quanto externo.

No Parlamento, as votações também seguem tensas deixando transparecer também dificuldades entre os dois partidos da coalizão governista, chegando até a ameaças de rompimento, dada a maior radicalidade do estilo Salvini. Isso ficou mais explícito na votação do projeto anti-corrupção, uma das bandeiras do M5S durante a campanha eleitoral. Apresentando várias propostas de emendas a Liga Norte ameaçava desfigurar o projeto. Ao final o projeto foi aprovado, com incisivas intervenções de Salvini ordenando a retirada de propostas de emendas, demonstrando a importância de sua liderança para manutenção da aliança que sustenta o governo.

Também há outra medida avançando no Parlamento: o Decreto de Segurança, que visa regular a imigração.

O texto diz que “a tática do confronto mantida no discurso de Salvini, tem encontrado também nos recursos das novas tecnologias, especialmente das redes sociais, um meio de disseminação que tem se mostrado até então eficiente para a manutenção da coesão entre seus apoiadores”.

A mais arrojada aposta de Salvini está nas próximas eleições européias que ocorrerão entre os dias 23 e 26 de maio de 2019 quando ocorrerá a eleição de deputados que representam os países membros da União Européia no Parlamento Europeu. Há uma série de articulações em que Salvini se faz presente, buscando eleger uma liderança da direita nacionalista populista para o Parlamento Europeu, capaz de mudar os rumos do projeto europeu. A História nos ensina que os desdobramentos desses processos europeus tendem a transcender o próprio espaço europeu e, portanto, é justo que motivem a preocupação de todo o mundo.

Agora vamos aos fatos.

Conforme o autor Michel Maffesoli, não vivemos em uma era de individualismo, mas cada vez mais na era das tribos dentro do contexto das comunidades emocionais. Assim, o ser humano é o mesmo da idade da pedra, com a diferença de que tem mais conhecimento à sua distribuição, bem como é restrito pelas contingências da vida em sociedades complexas, o que reduz a brutalidade nas interações.

Mas a necessidade de se controlar a testosterona (e até ver seus níveis subirem) segue no cérebro humano. O hardware é o mesmo da idade da pedras.

Na era em que a comunicação na Internet se tornou dominante, as pessoas estão prontas para exacerbar sua rivalidade diante de inimigos. Com as comunidades emocionais – ou seja, as pessoas se sentem em grupo mesmo não estando unidas fisicamente e sem nenhuma afinidade entre elas a não ser um conjunto específico de valores – em alta na era da Internet, é claro que esses sentimentos seriam aproveitados politicamente.

A extrema esquerda aproveitou esse tipo de sentimento há mais de um século, pois se comunicava com massas de pessoas via sindicatos, unindo pessoas em torno de uma rivalidade. Isso porque foram os autores da extrema esquerda que desenvolveram melhor narrativas para utilizar os frames embutidos no cérebro que entram em ebulição diante da rivalidade nas questões políticas.

Mas na era da Internet, as comunidades emocionais de diversas outras maneiras se juntam e sindicatos não são a única forma de agremiação política. O estímulo à rivalidade na política é o combustível para manter unidas essas comunidades emocionais. Em outras palavras, você já pode desligar um pouco de assistir futebol e lutas do UFC e ver sua testosterona subir na Internet na discussão de tretas políticas.

A diferença é que agora a direita descobriu aquilo que apenas a extrema esquerda fazia. Estamos em uma era em que o confronto dita a ação política. No fundo, isso é apenas o reflexo da democracia.

Agora precisamos lidar com isso, nos adaptar e também, é claro, confrontar os excessos de ambos os lados. Mas até para isso será preciso entrar em confronto. Que isso ocorra, preferencialmente, em ambiente democrático.

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1 comentário em A tal “tática do confronto para conquistar eleições” veio para ficar

  1. Ótimo comentário. Tenho pensado bastante sobre as eleições para presidente de 2022. Se acabar a reeleição ou se Bolsonaro ficar enfraquecido, a única forma de vencermos é lançando um candidato que seja muito atuante nas redes sociais e que vá constantemente para o conflito. Penso que temos que definir até 2020, para termos dois anos de tempo para a campanha. Claro que se Bolsonaro fizer um bom governo e estiver forte junto ao eleitorado, poderemos lutar pela reeleição dele. Mas temos que ter um plano B, mais um ou dois nomes fortes, capazes de fazer bonito no ringue. Que comecem os jogos!

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