Toda análise política adulta se baseia na correlação de forças. Veja a fórmula.

No amontoado dos vários tipos de análise política, existem duas principais que vemos nos dias atuais. Uma visa embutir propagandas em forma de supostas análises. Outra, muito rara na direita, é a análise que fala dos conflitos de interesses. Mas uma forma de análise técnica realmente adulta é aquela que trata tanto os conflitos de interesses na esquerda como na direita.

Para início de conversa, devemos entender que a política fala apenas de poder. O que ocorre é que os diferentes caminhos pelos quais se busca o poder podem granjear mais ou menos liberdade, bem como podem ampliar o tamanho do Estado ou reduzi-lo.

Política para adultos

Em termos adultos, esquerda é busca/manutenção de poder principalmente no Estado e em estruturas coercitivas. Direita é busca/manutenção de poder principalmente no Mercado e em associações voluntárias. Obviamente, é possível existir coerção na direita, pois é da natureza humana. Mas falamos de tendências.

Ao explicar a razão pela qual as pessoas querem o poder, Ives Gandra Martins Jr. explicou, em seu livro “Uma Breve Teoria do Poder”, que, desde os tempos primitivos, o homem deseja o poder por um instinto de sobrevivência e de comando. A decisão de servir ao público é um efeito colateral, mas não necessário. Na essência da luta pelo poder, está a luta pela sobrevivência a qualquer custo, em patamares inimagináveis, em razão das ambições dos que o procuram.

Se existem serviços públicos prestados, eles decorrem da pressão lançada contra os políticos e donos de poder. Mas o objetivo, em essência, é o poder pelo poder. Sempre caminhando em par com o instinto de sobrevivência, a força reside no exercício do poder. Como nas primeiras tribos (e em demais espécies animais), o mais forte termina por impor sua liderança por respeito inspirado nos adversários e receio que estes tinham de enfrenta-lo. Era uma época em que o enfrentamento poderia levar à morte ou submissão absoluta do desafiante.

Uma fórmula para a correlação de forças

O poder flui através de quatro canais, conforme o modelo de Moises Naim (bastante simples e pragmático): (a) coerção, (b) recompensa, (c) código, (d) mensagem. O primeiro item é óbvio. O segundo relaciona-se a como é possível recompensar os que o ajudam a se manter no poder. O terceiro item fala de como os códigos morais são utilizados pelos que tem poder. O último item fala da capacidade de propaganda.

Durante todos esses anos de estudo da guerra política, busquei ampliar essa análise a partir da dinâmica social. Recentemente, compilando todos esses estudos, elaborei uma fórmula para avaliar a correlação de forças:

Entre os fatores, o primeiro nível é a capacidade de representar grandes grupos de pessoas. O segundo fala do nível em que se pode implantar desejos no seu público. A utopia é o grau máximo que se pode alcançar. O terceiro fator é o nível de exclusivismo, que mede o grau em que seu discurso exclui os outros. O quarto fator fala da intensidade da polarização adotada. O nível de vantagem no auto-engano significa a capacidade de utilizar discursos enganosos, aproveitando os vieses da mente humana (que são o seu eleitorado). O item 6, como não poderia deixar de ser, é o nível de aproveitamento dos canais de poder (já citados). Por fim, o sétimo nível é o de conhecimento da dinâmica: isso significa o grau de conscientização política daqueles envolvidos no processo (em relação aos interesses de poder).

O oitavo item é a própria correlação de forças, que medirá como estão posicionados tanto direita e esquerda, bem como cada setor estará posicionado dentro de seu espectro político. Assim, queremos saber como um setor da esquerda estará posicionado em comparação com um ou mais setores da esquerda, e como um setor da direita estará posicionado em comparação com um ou mais setores da direita.

Na fórmula, os itens (2) e (3), respectivamente nível de exclusivismo e de polarização, definem a ação política. Conforme Raymond Aron, ela pode ser ação política fraca e ação política forte. Uma ação política fraca coexiste com os derrotados e busca negociar. A ação política forte visa exterminar os inimigos, de qualquer forma. Isso se relaciona também à correlação de forças.

Qual o nível de imoralidade tolerado?

Quando a esquerda se torna autoritária/totalitária, isso significa que o setor que está no poder adotou a ação política forte e ficou em correlação de forças extremamente favorável em relação aos demais (inclusive dentro da esquerda). Quando a direita se torna autoritária (sem tantas condições de ser totalitária, pelo uso menor do Estado), a mesma regra funciona: ela adotou a ação política forte e ficou em correlação de forças extremamente favorável em relação aos demais (inclusive dentro da direita).

Assim, todas as questões humanas (como moralidade, liberdade) são inerentemente dependentes da correlação de forças. Correlação de forças equilibrada dentro da direita e da esquerda definem se teremos ou não democracia. Por exemplo, quando um genocídio cometido pela esquerda aconteceu ao longo da história, encontramos a razão está no uso da ação política forte e na disparidade absurda na correlação de forças.

Agora, basta você entender em que setor da direita você se encontra. Por exemplo, no Brasil temos os neoconservadores, os liberais clássicos, os liberais “só na economia”, os libertários, etc.

Dentro de direta ou esquerda, sempre há uma luta interna a ser medida pela correlação de forças. Essas direitas possuem lideranças. Algumas delas podem negociar com o poder central e influenciá-lo. Elas prometem coisas aos grupos que representam. Elas definem o nível em que excluem ou não os discursos adversários. Definem também o nível de polarização. Caso usem mentiras em excesso (como teorias da conspiração, como, por exemplo, dizer que “Moro é agente da CIA”, como fizeram os petistas) podem adquirir vantagem no uso do auto-engano. Podem atuar em plena consciência da dinâmica do poder ou não.

O ideal, para a democracia, é que exista correlação de forças. A história da política pela ótica da dinâmica social é uma história da correlação de forças.

Para finalizar, há dois itens de suporte à análise na fórmula. Um é o SMORC (ou simple rational of rational crime), que define o nível de imoralidade que pode ser praticado na luta pelo poder. Quanto mais favorável alguém estiver na correlação de forças, mais imoralidade poderá praticar. Assim, é preciso tomar cuidado.

O segundo item é a Janela de Overton, que é utilizado para medir os espaços existentes para ocupação política. Por exemplo, um setor pode crescer pela via mais extrema. Logo, há espaços intermediários para setores mais adeptos à coexistência. Leia mais sobre a Janela de Overton aqui.

O vídeo abaixo permite entender os perfis psicológicos do público de direita e de esquerda, com base no material de Jonathan Haidt (que escreveu “The Righteous Mind”). Antes de assistir o vídeo – que é ótimo – tome cuidado para entender que ele fala apenas do público, e não dos arquitetos do poder. Quer dizer: o público pensa em coisas diferentes das quais pensam os que lutam pelo poder. A entrega de valor para o público é um efeito colateral da luta pelo poder, mas isso também é definido pela correlação de forças.

A partir disso, podemos utilizar essa fórmula para prever se como o próximo governo (ou qualquer um, seja de esquerda ou direita) vai atender o público, e se ele será democrático ou não. Isso tudo depende, de novo, da correlação de forças.

Algumas pessoas tendem a dizer que “estamos todos juntos”. Na verdade, a ideia de “todos juntos” só existe quando a correlação de forças estiver mais ou menos equilibrada. Em situações de alto desequilíbrio, há uma relação “mestre-escravo” que sempre termina bem para o primeiro e mal para o segundo. Não importa se você é de direita ou de esquerda para que a fórmula funcione.

Em tempo: alguém pode achar que isso tudo é maquiavélico demais. Ao contrário. Ignorar a correlação de força é a melhor forma de propiciar os graus mais altos de imoralidade que a mente humana pode alcançar. Não é preciso depender da imoralidade para equilibrar a equação. Mas permitir seu desequilíbrio total é a melhor forma de incentivar a imoralidade na política. Os genocidas sempre agradeceram aos que se despreocuparam com o equilíbrio na correlação de forças.

No próximo post, falarei dos 5 setores da direita e dos 5 setores da esquerda mais relevantes, na lógica da correlação de forças.

2 comentários em Toda análise política adulta se baseia na correlação de forças. Veja a fórmula.

  1. Toda analise política é hipocrisia. Você mesmo admiti isso quando fala em ocupação de espaço etc e tal.

    No áudio abaixo discordo de alguns pontos, mas achei interessante por ser uma analise simples, popular e interessante:

    • Mas qual contradição tem em (1) falar sobre ocupação de espaços e (2) apresentar uma fórmula para medir a correlação de forças pela ótica da dinâmica social?

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