A direita errou em sucumbir demais a Olavo e agora é tarde

Olavo está sendo triturado pela esquerda porque escolheu seu destino. Assim, precisamos novamente falar um pouco de dinâmica social para explicar a situação atual de desgaste que ele vem sofrendo. 

Duas teses importantes são auto-percepção e gerenciamento de impressões. A última é de Erving Goffmann, criador da disciplina de análise de frame ainda no começo dos anos 70. O autor chegou a elaborar o termo “encenação de virtude” décadas ainda de ele ser utilizado para tratar os SJWs.

No fundo, o ser humano gerencia impressões no momento de declarar suas ideias. A tendência natural é que a pessoa que vê riscos de sofrer dano em razão de seu comportamento tende a moderá-lo. Logo, ela faz um cálculo – muitas vezes inconsciente – para definir o comportamento adequado. Há sempre um “ajuste fino” em relação ao que é possível ou não fazer. 

Mas o que é que restringe o comportamento? Simples. A capacidade de ser questionado por outros. Esta é a base tanto da tese da auto-percepção como do gerenciamento de impressões. Uma pessoa vai avaliar suas atitudes a partir de um cálculo de custo-benefício dos resultados esperados. Se as pessoas tendem a lhe dar um puxão de orelha, haverá uma contenção. Se as pessoas tendem a dizer “amém” para tudo, não haverá contenção alguma. 

Curiosamente, Olavo de Carvalho ensinou muitos de seus alunos – eu não era um deles, mas como ouvia o True Outspeak, lembro de ter aprendido com isso – sobre a tese da Espiral do Silêncio, que fala de como um grupo hegemônico pode fazer outro grupo se calar. Outra forma de entender isso – aí pela minha abordagem – é pela análise de correlação de forças em capacidades como “controle do fluxo de informações” e “controle de frame”.

Foi daí que cunhei o termo Espiral do Delírio, que complementa a tese de Elisabeth Noelle-Neumann. Basicamente, a espiral do delírio é o espaço que um grupo pode ocupar e falar bobagens à vontade. Mas por que isso acontece? Por que o outro lado, que poderia lhe questionar, se calou. Logo, o sistema de gerenciamento de impressões do animal humano libera o direito de falar bobagem. Intuitivamente, o lado dominante percebe a oportunidade.

E aí existe mais uma capacidade de poder, que só pode ser utilizada em momentos específicos: “vantagem no auto-engano”. Isso significa a capacidade de obter capital político para si próprio a partir do auto-engano que o beneficie (temporariamente, ao menos), ou mesmo de mentiras deliberadas que se aproveitam do auto-engano dos outros. Em suma, quem consegue jogar o adversário na espiral do silêncio, automaticamente pode ficar na espiral do delírio, e aí, em determinadas condições, obter vantagem no auto-engano.

A liderança do setor neocon escolheu sua tática: jogar todos os seus divergentes da direita dentro da espiral do silêncio. Logo, pôde exercitar a capacidade de obter vantagem no auto-engano. Quase ninguém da direita tinha coragem de questionar. O resultado disso é que, nos últimos anos, vimos o número de sandices se avolumar.

Vamos a um mero exemplo que acabei de coletar num dos vários perfis de Twitter que estão divulgando vários printscreens das “tretas” alimentadas pelo setor olavete. Falemos de quando Francisco Razzo foi pentelhado meramente por ter dito que Olavo de Carvalho era um dentre vários que atuavam para formar a direita (ou seja, não seria o “pai da direita”), além de dizer que não tinha ele como uma de suas principais influências. A pauleira envolveu até o Gustavo Nogy, que meramente apoiou Razzo.

A pergunta que fica: como é que um importante formador de opinião pode tomar uma atitude dessas – em público, e isto sempre deve ser ressaltado – sem tomar um puxão de orelha de boa parte de seus seguidores? A resposta é óbvia: muita gente se sente intimidada a questionar comportamentos assim. Não iria demorar para que a pessoa codificasse, em sua própria mente, que não há limites para o que possa ser feito nas redes sociais, mesmo no relacionamento com outras pessoas de direita. 

Há quem diga que a pessoa poderia se auto controlar por si própria. Mas a realidade é outra. No fundo, inconscientemente alguém vai seguir os limites que são impostos pelo meio. É praticamente como se o ser humano não tivesse livre arbítrio, pois vive de pulsão. Existem pulsões na direção do exercício das capacidades do poder. 

Vamos a outro exemplo de quando Olavo de Carvalho chegou a apoiar a censura a este blog:

Olavo de Carvalho sabia exatamente que a lei brasileira protege o direito de alguém usar pseudônimos. A Constituição proíbe o anonimato, e não o uso de pseudônimos. Nunca fui criticado por usar pseudônimos enquanto não discordava de teses centrais do Olavo. Ao criticar algumas teses, bandos foram ativados para acusar: “olha o fake, olha o fake”. 

Claramente era um fingimento, pois tive conversas com vários desses seguidores que nunca viram problema na utilização de pseudônimo antes que eu discordasse de Olavo de Carvalho. Mas, em duplo padrão, isso passou a ser “problema” depois que dele discordei em várias teses, principalmente a da estratégia das tesouras e da excessiva importância dada ao Foro de São Paulo, bem como questionei a falta de apoio claro ao impeachment. 

Voltando ao vídeo acima (de julho deste ano), a maioria de seus principais discípulos tinha plena ciência de que as informações sobre o uso de pseudônimo não eram coerentes. Mesmo assim, ninguém o repreendeu por isso. As pessoas simplesmente não tem coragem de dizer na cara dele mesmo diante do lançamento de informações falsas.  

Eu entendo isso. Muitos tem medo. Temem sofrer linchamento público, como ocorreu com mais de uma dezena de pessoas que divergiram.  Não fiquei chateado com nenhum amigo que peidou na farofa. Entendo a dinâmica. Mas havia algo ainda mais macabro: o comportamento de linchamento público não era feito nas sombras, mas estimulado publicamente em perfis do Facebook. Havia a normalização da atitude imoral. 

Qualquer um sabe que é inaceitável que um direitista – principalmente na liderança – defenda a censura a outro direitista, assim como qualquer um sabe que é inaceitável que um escravo entregue outro escravo ao escravagista. Mas nem isso foi contestado.

Por que isso acontece?

Bem, é preciso dizer que Olavo de Carvalho parece estar em posição confortabilíssima dentro da direita. Muita gente que hoje discorda tem medo de sofrer linchamento público. Isso ajudou a gerar temporariamente uma correlação de forças muito favorável. Em suma, liberais e conservadores tem medo de divergir da principal liderança neoconservadora. Em muitos casos, a relação já não tem mais nada de sadio: é uma relação de submissão pelo medo. 

Mas o mesmo não acontece diante de esquerdistas, pois aí o território é outro.

Quando alguém lança os outros na espiral do silêncio – e foi isso que aconteceu dentro da direita, a partir da liderança neocon -, tende a utilizar uma capacidade sinistra: a vantagem no auto-engano. Com isso, a pessoa pode cair no Efeito Calígula (termo que elaborei ainda em 2012 para explicar melhor Saul Alinsky para a direita), que é a condição em que suas imoralidades podem gerar risco.

Seja lá como for, Olavo de Carvalho conseguiu a proeza de ficar na Espiral do Delírio ao dominar a direita, mas não tem o mesmo controle sobre os esquerdistas. Diante deles, ficou vulnerável ao Efeito Calígula. Isso significa que há pessoas motivadas a escarafunchar os absurdos que ele escreveu.

Repetindo a dinâmica, para que não pairem dúvidas: Olavo conseguiu o benefício de lançar outros direitistas na Espiral do Silêncio no que tange ao discurso de ideias – em territórios onde ele esteja, bem como os seus adeptos. Em consequência, ficou na Espiral do Delírio, que é consequência imediata deste processo. Como risco quase inevitável, sucumbiu ao Efeito Calígula, que dá margem à exploração por seus adversários.

A ironia é que aqueles que poderiam ter dito a ele “ei, Olavo, segura um pouco aí na capacidade de vantagem no auto-engano” foram silenciados por turbas de fanáticos. Agora os esquerdistas estão aproveitando as brechas que ele só pôde aproveitar por ter conquistado território na direita via esmagamento da divergência.

E agora que ele se tornou indefensável, tem gente que vem falar em defendê-lo? Mas com vários argumentos delirantes que tem sido publicados nos últimos tempos – do tipo que faria Alex Jones parecer um aristotélico -, é praticamente impossível fazer isso sem sair queimado. 

Mas, ao contrário do que muitos poderiam pensar, não vou colaborar com a esquerda nesse sentido. Mas não dá para sair defendendo alguém que nunca prezou a convivência pacífica com outros divergentes da direita. Isso fez muito mal à produção de ideias na direita. Há muita gente séria que foi excluída dos debates simplesmente por discordar de Olavo. A discussão sobre a imoralidade praticada nesses processos de degredo de divergentes é de arrepiar os cabelos. 

No meu caso, quando eu defendia o direito de discordar respeitosamente de Olavo – mesmo que para isso tivesse que dizer que algumas teses fossem indefensáveis e comportamentos fossem deploráveis -, achava que isso poderia gerar discussões produtivas na direita. Infelizmente, eu estava errado. Nunca foi possível discutir táticas seriamente na direita. 

Esta é a política como ela é. A dinâmica social prevê até as consequências sobre quem não quis dividir espaço com outros direitistas que divergiam. Agora o processo de desgaste – não apenas de Olavo, mas também algo que pode respingar em outros setores da direita – é irreversível. Claro que não vou prever o futuro – pois essa não é boa prática de analistas técnicos -, mas algumas condições já estão dadas. 

Em tempo: eu não disse que Olavo está errado ao escolher seus interesses em termos de busca pelo poder. Quem define suas prioridades é o indivíduo de acordo com seu cálculo político. Ele já tem idade suficiente para definir suas prioridades e suas metas. Quando eu digo que a “direita errou” falo em linhas gerais, especificamente quanto aos que normalmente repreenderiam a conduta imoral, mas se calaram. Acontece. 

Para finalizar, que fique aqui o quadrinho do desengajamento moral, conforme teorizado por Albert Bandura (e a dica para este texto sobre o assunto):

10 comentários em A direita errou em sucumbir demais a Olavo e agora é tarde

  1. 🤔🙄😏 muito blá blá blá para justificar uma crítica …

    • Eu não estou “justificando” nada, mas explicando como a dinâmica funciona. Esse é o objetivo deste blog, oras. Tem outros que podem esconder dos leitores os motivos pelos quais as coisas acontecem.

  2. A direita errou em sucumbir demais a Olavo, ao americanismo e ao sionismo.

    Tava na cara que essa direita brasileira americanizada idiota iria fazer merda devido a bajulação aos Estados Unidos, e em alguns momentos, até mesmo ao sionismo. Essa direita brasileira americanizada é tão incompetente e preguiçosa que não consegue nem desenvolver uma ideia ou pensamento utilizando a cultura nacional.

    Sempre tem que pegar a cultura americana como parâmetro!
    Deu no que deu.

    Olavo de Carvalho é fruto desse americanismo fajuto que tenta ridicularizar tudo aquilo que não pertence a eles. Poderíamos desenvolver nossas próprias ideias e pensamentos, e porque não dizer: Até mesmo um tipo diferente de governança.

    Mas vai falar isso para brasileiros iludidos com a imagem dos Estados Unidos, onde muitos até acham mesmo que republicanos (na maioria) ou democratas (na minoria) irão nos salvar de tudo e de todos.

  3. Luciano Ayan, continuo aprendendo muito com teus posts. Obrigada. O que estou estranhando são os comentaristas deste post, não parecem estar dizendo “coisa com coisa”. Abraços.

  4. Antipetista inveterado // 8 de dezembro de 2018 às 3:36 pm // Responder

    Olavo se Carvalho sendo “triturado” pela esquerda? Acho um exagero da sua parte. Esses ataques mais ferozes e frequentes por parte da esquerda nos ultimos dias são apenas um reação natural ao protagonismo que ele alcançou com o novo governo, ao ponto de indicar até dois ministros para o futuro gabinete Bolsonaro! Essa reação da esquerda já era esperada. Mas tenho de concordar com uma coisa: o fanatismo dos seguidores do Olavo e a intolerância dele para com quem não concorda 100% com suas ideias é uma tragédia. Causou e vem causando muito mal a direita brasileira. Uma atitude mais tolerante por parte do Olavo e de seus seguidores beneficiaria toda a direita. Vamos precisar disso pelos próximos quatro anos.

  5. Excelente texto! Eu sou direita e acompanho gente como o Olavo, e esse artigo realmente faz refletir. Nem deveria ser surpresa que o Olavo errou e tem defeitos. Além do mais, ninguém é perfeito. Nos últimos tempos decidi ler e ver o que as outras alas da direita tem a dizer, e isso deixou minha mente mais aberta. A verdade é que, infelizmente, Olavo e outros pensadores alinhados à ele, estão fazendo muitos das pessoas da direita cair no neoconservadorismo sem saber. Principalmente os evangélicos, que apoiam e se ajoelham frente ao Estado de Israel. Como católico, aprendi que nós cristãos não devemos apoiar, e nem sequer é possível reconhecer esse Estado. Isso não quer dizer que seja a favor da Palestina e os muçulmanos, muito pelo contrário. Enfim, parabéns ao artigo.

  6. ADRIANA DA CUNHA E SILVA // 8 de dezembro de 2018 às 9:53 pm // Responder

    Olavo é estranho, vive falando em Estratégia das Tesouras. Mas, neste caso, ele deveria estar lutando para destruir a tesoura velha de esquerda, e substitui-la por uma tesoura nova de direita, em que uma das pernas da tesoura seria os neocons e a outra perna seria uma outra corrente da direita. Mas não. Ele quer que os neocons fiquem sozinhos. Sozinhos contra quem? Contra o PT? E depois da queda do PT, contra quem? Contra o PSOL?

  7. Quem tá te obrigando? // 8 de dezembro de 2018 às 11:24 pm // Responder

    Nara // 8 de dezembro de 2018 às 8:58 am // Responder
    Luciano Ayan, continuo aprendendo muito com teus posts. “”””””Obrigada””””””””. O que estou estranhando são os comentaristas deste post, não parecem estar dizendo “coisa com coisa”. Abraços.

  8. Olavo pornser ex comunista e estudar o comunismo acabou por se contaminar. Ele sempre faz isso. O ex comunista ressurge das finas e começa a metralhar com rotulagens absurdas.

  9. Tanto um qto outro criaram esse pedestal de mármore, só que Olavo ainda é muito mais pé no chão e muito mais culto .

    O trabalho de Olavo sozinho, foi fantástico, quebrou muito do domínio da esquerda e não vejo ninguém ter o alcance que ele teve facilmente com seu intelecto.

    Fez com que muitos começassem a amadurecer para a direita e se identificar.

    Incomodou e incomoda muito aos esquerdistas, desmascarando-os facilmente.

    Mas esse joguinho de ego aí já encheu.

    Hora de parar com esse amadorismo, Olavo massacrado pela esquerda, onde?

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