Tretas internas do PSL não deveriam surpreender ninguém

Quem está surpreso com a escalada das tretas na direita – com o vazamento de conversas de WhatsApp, ou seja, ação que só poderia vir de gente de dentro do partido – talvez tenha esquecido muito do que foi escrito neste blog. (Na verdade, muita coisa foi escrita em meu perfil no Facebook entre 2017 e início de 2018, antes de o perfil Luciano Ayan ter sido censurado)

Por isso recomendo o livro O viés otimista, de Tali Sharot, que explica tecnicamente as razões pela qual os símbolos da guerra política são medo e esperança (como dizia David Horowitz). A autora não focou em política, mas seu estudo permite compreender claramente o processo.
O fato é que o ser humano foi programado evolutivamente para ser otimista. Isso resulta de uma série de vieses da mente, como por exemplo, o poder da recordação (capacidade de recordar só aquilo que nos agrada, de acordo com os marcadores somáticos) e o poder da expectativa (que explica porque a sexta-feira traz sensações melhor do que o domingo, para a maioria das pessoas pesquisadas, mesmo que a sensação real de descanso esteja mais presente no domingo do que na sexta).

O recurso da viagem mental no tempo é considerado uma das maiores maravilhas codificadas no cérebro humano.  Ele permite que possamos imaginar o passado e visualizar um futuro. Tudo baseado em imagens mentais. Em relação ao passado, podem ser enganosas. O mesmo se diz das imagens mentais criadas sobre o futuro. Ninguém acreditaria numa utopia se não fosse o poder da mente de visualizar um futuro meramente imaginado. 

O viés do otimismo – que empacota os três vieses acima, e muitos outros – tem a utilidade de dar esperança às pessoas, mesmo quando os fatos não comprovem isso. Por isso pode induzir as pessoas a erros de avaliação. Como efeito positivo, gera motivação.

Assim, meramente o viés do otimismo – utilizado de forma enganosa, como muitas vezes acontece, mas nem sempre – já ajuda a explicar como alguns tenham imaginado que “tudo correria bem” na divisão dos espaços internos em relação ao novo poder. Na verdade, já dava para apontar riscos sérios de que a coisa tenderia a descambar e ser mais desgastante. Não era possível garantir que “ia dar merda”. Mas era óbvio que os riscos estavam aí. 

Quais eram os riscos?

Desde 2011, este blog tem focado em estudar a dinâmica da guerra política. Lá se vão sete anos de estudo focado. Aqui o objetivo não é estudar filosofia ou a ciência tradicional, mas sim a dinâmica da guerra política. 

Só fui fechar o sistema completo nos últimos cinco meses, pois eu buscava a explicação da origem da esquerda (e da direita) não pelos discursos, mas a partir da dinâmica social. 

Nesse meio tempo, foram mapeadas 12 capacidades do poder, que nos dão uma ideia de como os grupos políticos se dividem e podem ter resultados. Não é o foco falar disso agora, pois é um tema complexo que requer tempo (e estou planejando uma palestra especificamente para falar disso, e talvez traga o vídeo aqui). Mas dá para falar de algumas dessas capacidades, sendo a primeira capacidade o código.

Enquanto capacidade, código significa um conjunto de valores claros que consiga ser facilmente explicado em vários níveis do poder. Ou seja, é preciso que sejam difundidos os valores, regras de conduta e sistemas de crenças que unifiquem o grupo. Por exemplo, quando um petista jamais fica a favor da privatização, ele sabe explicar os motivos para isso, já intuitivamente, pois está no “código”.

A capacidade de ter um código significa maturidade política, não dos indivíduos que estão lutando pelo poder, mas da categoria maior que atende por esquerda, ou pelo menos o setor da esquerda.

Quando os movimentos de rua davam o tom da ação política de direita, ainda havia uma percepção clara de algo próximo a um código, mas isso se perdeu com o sentimento de antipolítica, que foi aproveitado desde 2016.

O Efeito Calígula

Desde 2016 estamos vendo que, dentro da direita, não há limites nas guerras de “todos contra todos”. As alianças com a extrema-esquerda para atingir alguém da direita se tornaram o padrão em certos momentos. 

Era por isso que eu criticava a questão do Alexandre Frota dizer em público que levaria a marca do MBL. Da mesma forma, era exatamente por isso que eu dizia que Olavo de Carvalho não deveria ir para o vale tudo contra seus opositores se valendo de sua audiência cativa. Isso cria, aos poucos, a noção de que é o correto a se fazer. 

Claro que é normal que existam sabotagens na política. Mas essas sabotagens não podem ser declaradas como válidas em público. Em suma, existe a diferença entre um escravo trair um irmão, entregando-o ao escravagista, e se orgulhar em público de ter feito isso. No melhor dos cenários, as sabotagens deveriam ser escondidas, e não declaradas em público. Mas se forem declaradas, serão normalizadas. Logo, isso não apenas significa a ausência de um código de conduta claro, mas o estímulo a um pseudocódigo, dizendo que tudo é permitido. 

É normal que alguém queira proteger seu espaço. Mas não deveria ser aceitável normalizar o comportamento imoral em público, principalmente nas questões internas. A normalização da imoralidade está entre o que defino como parte das quatro últimas capacidades mais “macabras” da política. Estas são: exclusivismo, polarização, vantagem no auto-engano e desengajamento moral. Quando isso é utilizado até mesmo nas guerras internas, é sinal de que a coisa está feia e que até mesmo há dificuldades de se unir contra o inimigo fundamental. Claro que é importante ter algum nível de polarização na guerra política, bem como um certo nível de exclusivismo. Mas é preciso ter cuidado ao usar isso internamente e acabar quebrando pontes.

É por isso que jamais alguém como Rui Costa Pimenta iria declarar em público que estaria roubando a marca do PSOL, por mais que critique o partido o dia todo. Há um código na extrema-esquerda. Eles perderam a batalha pelo poder, mas isso é resultado das circunstâncias (e do fato de o último governo petista ter perdido sua base de apoio, cometido estelionato eleitoral, ser pego em pedaladas e ficar desmoralizado no processo de impeachment, além de desgastado pela Lava Jato). 

Seja lá como for, esse será um governo repleto de situações desgastantes como essa relacionada aos vazamentos de conversas de WhatsApp, pois muitos ali chegaram com estímulos deste tipo, e suas bases também possuem esses estímulos internalizados em suas mentes. Como Antonio Damásio disse, são os marcadores somáticos, que não se desativam tão fácil. 

Uma amiga me disse: “será que é tão difícil lavar essa roupa suja em casa?”. Ela argumentava, com razão, que essa disputa de poder, explícita, é péssima. 

Eu diria que, infelizmente, é difícil. Pois provavelmente alguém ali se sentiu acuado e entendeu que precisava fazer aquilo para sobreviver. Se não há código de conduta, entende-se que cada um deve fazer tudo que estiver ao seu alcance para sobreviver. 

Como os marcadores somáticos já foram ativados não apenas nos jogadores – como principalmente em suas bases -, não é algo que possa ser desativado tão cedo. O pseudocódigo que diz que tudo é permitido está lá. Mesmo que inconscientemente, esses pseudocódigos serão ativados diariamente para reações diante dos eventos de mundo. Agora é principalmente uma questão de pulsões, que, na psicanálise, “são processos dinâmicos que fazem o organismo tender a uma meta, que suprime o estado de tensão ou excitação corporal que é a fonte do processo”. Quer dizer: ninguém vai se preocupar em brecar com medo de capotar, até porque dentro do carro capotado estarão os outros, e não tanto eles próprios. Já são 30 meses de prática do vale tudo normalizado em público. Agora essas são as regras do jogo.

Eu não sou religioso, mas vale lembrar o que está na Bíblia, em Marcos 8:36: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”. A direita chegou ao poder, mas perdeu sua alma ao levar ao extremo as guerras internas sem nenhum código. O pseudocódigo visto é quase uma adaptação de Crowley: “Faze o que tu queres há de ser o todo da lei”. 

É por isso também que não busco bodes expiatórios, pois o problema vai além de Joice ou Olímpio. Se não há regras, tudo pode ser feito. Logo, não há sequer padrões para diferenciar certo ou errado.

A verdade nua e crua é que nada disso pode ser visto como surpreendente. Talvez possamos aprender com tudo que está acontecendo. Ou não.

Em tempo: isso não significa que o governo vai descambar. Na verdade, será um governo com desgastes. Como a popularidade está alta, existe lenha pra queimar. No fundo, esse barraco todo talvez não seja uma tragédia. Mas é de atitudes assim que virão as maiores fontes de desgaste. 

3 comentários em Tretas internas do PSL não deveriam surpreender ninguém

  1. Nara Rosangela Rodrigues // 8 de dezembro de 2018 às 9:31 am // Responder

    Quem és tu? para mim tu te expressas como se fosse o senhorzinho (de mais ou menos 90 anos) avariado.

  2. Melhor esse barraco agora do que em janeiro.

  3. Faço minhas as palavras do cara que colocou esse vídeo da Joice…

    “Mano do céu que merda é essa”

    https://twitter.com/RickSouza/status/1071866936621977600

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