Mordaça em Mourão pode ter efeito reverso

Segundo Políbio Braga, o presidente eleito Jair Bolsonaro impôs uma espécie de “lei do silêncio”ao seu vice, Hamilton Mourão. O jornalista também diz que o general não ficou muito feliz com isso.

Alguns aliados mais próximos teriam dito para o militar adotar uma postura mais discreta.

Como ainda lembra Braga, Mourão sempre disse que não queria ser um figurante. Mas alguns interlocutores – ainda segundo Braga, que fique bem claro – teriam dito que ele não deverá ter espaço para atuar no governo.

“Pelo desenho atual da estrutura, a Vice-Presidência não terá secretarias subordinadas ou atribuição pré-definida”, escreve o jornalista.

O jornalista ainda lembra que, caso Lula (ex-presidente) ou Collares (ex-governador) fossem consultados, ambos diriam o seguinte para o presidente eleito Jair Bolsonaro: “Não cometa o erro de deixar o vice solto, sem nada para fazer, porque ele passará o tempo todo conspirando para derrubá-lo”. 

Ele explica que Lula passou para o seu vice José de Alencar o ministério da Defesa, enquanto Collares nomeou seu vice João Gilberto para a secretaria da Ciência e Tecnologia. Segundo Braga, nem um nem outro tiveram tempo para conspirar contra o ex-presidente e o ex-governador. 

O detalhe é que nem seria preciso pensar na recomendação de Braga, pois nem haveria motivos para lançar desconfiança sobre Mourão. Mas, num clima de guerra fratricida, alguém poderá lançar esse tipo de desconfiança. Mensagens enviesadas já serviram para criar um clima ruim. 

Em suma, alguém poderá ficar sob suspeita de conspirar sem ter tomado qualquer ação nesse sentido. Como detalhe adicional, Mourão tem alta reputação entre seus pares, que constituem parte fundamental da base de apoio do novo presidente. 

Alguns poderiam dizer: “então basta não lançarem desconfiança sobre Mourão”. Mas nós sabemos como a pulsão política funciona, não é mesmo? A desconfiança certamente é lançada nos corredores. Isto é, deixar Mourão sob mordaça pode ser interpretado como falta de confiança. Não demora para algumas pessoas o chamarem de “pouco confiável”. Se alguém não fez um movimento para merecer esse diagnóstico, o clima piora. 

Em grupos sociais, a entrega de atribuição é vista como forma de confiança. Por isso mesmo, dar espaço para Mourão se encaixaria como algo que poderia aumentar o capital político de Bolsonaro. Até porque aquele que não estende a mão demonstrando confiança pode ser visto, em retorno, como merecedor de pouca confiança. 

Mas cada um é cada um. Os riscos estão aí e cabe a cada um gerenciá-los de acordo com o cálculo político adequado. 

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