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A grande fome de Mao explica a direita atual

Flavio Gordon, aparentemente com razão, evocou um código moral que diz que “defender a censura a favor da esquerda é errado”. Ele fez isso para criticar um post de Marlos Apyus. Como podemos ver abaixo:

Agora vamos voltar no tempo e observar o que Olavo de Carvalho disse a favor da censura a este blog:

Então vamos avaliar: aqueles da direita que hoje criticam Marlos Apyus por apoiar a censura de divergentes são os mesmos que nada disseram em relação a Olavo de Carvalho ter apoiado a censura contra outro direitista. 

Que fique claro: não sei o posicionamento do Flavio Gordon na época. Mas é fato que tem muita gente que muita gente ficou pianinho e não falou nada quando Olavo fazia isso. Mas agora, quando é o Marlos, então não pode. Um amigo até me comentou: parece que Flavio não soube dos jogos envolvendo o uso da intimidação contra Apyus e como tem gente na direita que se diverte vendo a censura atingir pessoas que deles divergem, mesmo estando no espectro da direita. Assim, Flavio Gordon estaria justificado em sua indignação, mas, infelizmente, não há um sistema de valores coerente na direita para que a própria reclamação seja efetiva. 

Então vamos falar da grande fome imposta por Mao na China. 

Resolvi fazer uma análise do esquema moral relacionado ao que aconteceu nessa época, quando, intencionalmente, o ditador chinês causou a morte de 45 milhões de pessoas entre 1958 e 1962. 

Entre os livros recomendados estão A Grande Fome de Mao, de Frank Dikotter, Hungry Ghosts, de Jasper Becker, e Tombstone: The Untold Story of Mao’s Great Famine, de Yang Jisheng e Edward Friedman.

O detalhe é que as pessoas morriam de fome não por faltar comida, mas porque a comida passou a ser utilizada como arma para forçar as pessoas a cumprirem as tarefas atribuídas pelo Partido. 

Nos registros oficiais do PC chinês, há o caso de um homem que foi forçado a enterrar vivo seu filho de 12 anos, por ter roubado grãos. O pai morreu de desgosto poucas semanas depois. Níveis absurdos de violência foram utilizados para levar cidadãos a fazerem coisas que não fariam em condições normais. 

Havia casos de pais que trocavam seus filhos, para poder se alimentar deles, já que seria insuportável praticar canibalismo com os próprios filhos. Guardas chegavam a matar mais de uma dezena de pessoas por dia só por espancamento, e nem sabiam mais explicar porque faziam isso. Os sistemas de valores de toda uma população de um país gigantesco foram alterados para novos referenciais.

Em termos técnicos, Mao capitalizou enquanto manteve o poder. Só que ficou numa posição muito favorável na correlação de forças, e, por isso, conseguiu explorar ao máximo as capacidades de vantagem no auto-engano, exclusivismo total e normalização da imoralidade.

Claro que sempre há risco de instabilidade no sistema. Por quatro anos, não foi apenas uma carnificina que aconteceu na China. Foi um colapso moral, pois o que cada cidadão fazia com o outro era unicamente focado na sobrevivência.

No caso da direita brasileira, não falamos de genocídio, mas a dinâmica social do poder se aplica a qualquer contexto onde grupos de seres humanos precisam discutir auto-interesse mas também coexistir.

O ditador podia condenar milhões à morte por inanição, mas, em público, todo mundo dizia que ele era o supra sumo da virtude. Mas depois quando os cidadãos começaram a canibalizar uns aos outros, por qual sistema de valores você poderia dizer que estavam errados?

Hoje é fácil julgar as coisas do lado de fora e dizer que os cidadãos foram imorais. Mas o código moral havia colapsado. O tecido social se rompeu.

Assim, Flavio Gordon poderia até reclamar, mas, infelizmente, hoje ele não conseguiria explicar porque apoiar censura seria algo errado apenas num caso específico. Falamos de uma direita que, em alguns casos, vai morrer de rir se a censura for aplicada por um outro direitista, desde que interesses específicos estejam sendo atendidos. Em outros casos, temos gente que não se manifestará. Restarão alguns poucos a reclamarem. 

Por exemplo, quando Olavo defendeu em público a censura contra outras pessoas da direita, raros se pronunciaram. Agora é tarde, pois esse comportamento se disseminou (o auto-interesse passa a dar tom), e tanta tolerância já provocou um colapso no sistema de valores, tal como ocorreu na China. O benefício passa a ser medido pelo momento e pelo auto-interesse. Muitas vezes, as opiniões publicadas acabam sendo puro fingimento.

Apesar de tudo, a China hoje é um país onde há certa estabilidade nas relações sociais. Isso também pode acontecer na direita um dia. Mas é preciso começar a pensar as coisas em termos de sistemas de valores que possam ser aplicados de maneira geral. Enquanto a indignação com a censura depender do lado em que estiver o censor, fica difícil defender uma luta efetiva pela liberdade de expressão. 

Vale assistir o documentário abaixo:

Twitter: https://twitter.com/lucianoayan

Facebook: https://www.facebook.com/ceticismopoliticosc/

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