O caso do ex-assessor: seletorado e política para adultos

No momento em que muito se discute sobre a questão política envolvendo o ex-assessor de Flavio Bolsonaro, vejo muita gente da direita apelando a metáforas infantis e buscando, quase sempre, ignorar as questões que realmente estão em jogo. 

Por isso, pode ser útil aplicar a teoria do seletorado, que simplesmente é a forma mais adulta para interpretar os lados na guerra política em qualquer contexto. 

Observe que a teoria do seletorado não resume o que defino como dinâmica social da guerra política. Mas é um modelo útil como suporte para medir como estão os lados na guerra. Isso porque antes de definir os frames, as ações, entender as ideologias, os setores e modos de ação, é preciso entender como os grupos em disputa estão posicionados. 

A primeira coisa a se compreender, conforme a teoria do seletorado, é que não estamos discutindo termos abstratos como “a nação” ou “o Brasil” ou “a direita” (ou “a esquerda), mas sim discutindo pessoas, que, representam, mais ou menos, o seletorado.

Basicamente, devemos usar a fórmula:

(a) coalizão vencedora – a que define quem fica no cargo
(b) seletorado real – os grupos representados
(c) seletorado nominal – todo o povo

Quem define o jogo está em (a), com foco em (b). A partir de (a) existe, então a decisão: onde vai estar o dinheiro?

Na base de Jair Bolsonaro, estão, por exemplo, empresários focados no livre mercado. O objetivo ali é ganhar dinheiro no mercado, o que é legítimo, principalmente depois que tantos empresários focados em regulação – ex. JBS, Odebrecht, etc. – foram os que mais ganharam. 

Outro aspecto da base é a liderança da mídia neoconservadora, que quer  ganhar dinheiro formando opinião. Alguns buscam cargos no governo.  

Aliás, vale lembrar que as tretas internas da direita – que escalaram acima do limite nos últimos 30 meses – eram apenas disputa de espaço na coalizão vencedora para a ala da formação de opinião. Quando Nando Moura batia em Arthur do Val, isso era disputa de espaço na base. Quem foi indicado pelo presidente como formador de opinião e ganhou mais views e fez mais negócios? A teoria do seletorado responde…

Outros setores da base são importantes de serem mensurados. Existem uns 4 ou 5 setores a mais aí, por exemplo, os militares, que tem sido mais controlados. Existem corporações. Representantes de grupos religiosos estão na base. E daí por diante. Em termos de ganhos, praticamente tudo já está precificado.

O sistema é democrático, ainda que o núcleo seja um tanto restrito. É preciso ficar de olho na movimentação dessa base. Caso apareçam escândalos de corrupção, estes serão avaliados pelos setores da base em termos de cálculo político.

Crise significa maior tensão na base. A entrada de mais setores na base também gera tensão e treta interna. São mais bocas para alimentar.

A regra vale tanto para regimes comunistas como direitistas, democráticos como ditatoriais.

No caso das denúncias, precisamos avaliar qual o custo para a coalizão vencedora, junto ao valor que receberão.

Se a coalizão vencedora decidir cobrar mais pelo apoio, significa que as denúncias do ex-assessor geraram dano. Caso contrário, dá para seguir em frente. Até o momento, parece que a base não se mexeu muito e o cálculo não mudou. Por isso, parece que a base faz a seguinte análise: se juntarmos as denúncias com o clima de boa popularidade, não é preciso emitir ainda uma nova fatura. 

Assim, vão esperar surgir novas denúncias para decidirem novos movimentos. Vale lembrar que apoio a um governo com denúncias de corrupção custa mais caro. 

Abaixo um vídeo de 20 minutos (ative a legenda) para entender como funciona a dinâmica de poder. Não chega a meia hora de vídeo, mas é suficiente para fazer muita gente avançar uns 10 anos na saída de uma infância política para uma fase adolescente, e, quem sabe, até uma fase adulta. 

Antes de assistir o vídeo, um alerta: ele começa falando das ditaduras e depois evolui para as democracias. Então não precisam ficar assustados. Podem assistir tranquilos:

Espero que possamos, cada vez mais, discutir política como adultos. E não apenas com o uso de metáforas infantis que nublam os reais conflitos de interesses. 

A vantagem: depois da transição, a chance de se decepcionar é praticamente nula. 

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1 comentário em O caso do ex-assessor: seletorado e política para adultos

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