“A maioria dos historiadores diz que nazismo é de direita”. Pior ainda…

Ouço: “ainnn, o nazismo é de direita sim, pois há um consenso entre historiadores de que é”.

Temos vários problemas nessa afirmação.

Para início de conversa, historiadores se preocupam com a narrativa dos eventos, e, muitas vezes, a narrativa tem viés.

Ademais, os historiadores no máximo deveriam fornecer boa parte do INSUMO para análise dos eventos, mas não teriam sequer como julgar os eventos pelo aspecto comportamental.

Outro problema é que, por falta de conhecimento em guerra política – que a direita só foi adquirir, em parte, com Horowitz, enquanto a esquerda já possuía este conhecimento há muito mais tempo – nem teríamos historiadores de direita dispostos e aptos a combater a guerra de rótulos.

Vamos avaliar como a Revolução Francesa é narrada por historiadores.

O historiador costumeiro dirá que o povo se revoltou porque não havia pão e a crise estava devastadora. E aí, por pressão, em nome de ideais como “liberdade, igualdade e fraternidade”, tocou o terror. Como resultado, surgiram vários direitos, etc…

Bem, é uma história, de fato. E também uma “estória”. Pode ser inspiradora para muitos. Certamente é, mas não do jeito que alguns pensam. É inspiradora como aprendizado de uma dinâmica.

O que aconteceu foi diferente. Anos antes, a dificuldade de Luís XVI em ter filhos com Maria Antonieta gerou muito burburinho e insatisfação na base. Para piorar, num momento de crise terrível, o rei mexeu demais na base, tudo isso enquanto as contas do país iam para o vinagre. Em outros termos, Luix XVI tinha mais bocas para alimentar – porque a base se ampliou -, e menos grana no cofre.

Para quem já viu o vídeo “Rules for Rulers”, que aborda os eventos políticos pela ótica da teoria do seletorado, recomendo este vídeo de sequência, que fala especificamente de como funcionam as transições de poder em dinastias.

Uma análise crítica mostra que, se juntarmos os elementos, a base de Luix XVI o destituiu. Quando o rei perdeu o apoio do exército, sua queda se tornou iminente.

O detalhe é que o sistema de Terror implementado pelos jacobinos saiu um pouco da previsão da nova base de apoio (que continha elementos da base anterior, como o Exército). O problema é que Robespierre começou em estilo trator, como líder do novo governo, mas foi perdendo o controle. Por exemplo, quando criou teorias da conspiração contra boa parte de sua base, como tentativa de ficar no poder. Nisto, foi muito menos competente do que outros de seus sucessores, tais como Stalin, Castro e Mugabe, que ficaram décadas no poder totalitário.

Outro exemplo de como historiadores maquiam os fatos para criar narrativa é como narram o Massacre da Vendeia. Até hoje tem muito historiador que diz que o povo da Vendeia foi “ingrato com a revolução que os libertava”. Bem, eles viviam na pindaíba, e sentiram que sua situação piorou depois da revolução. Deveriam ficar gratos com o quê? Para piorar, era um povo profundamente religioso, ficando insatisfeitos com a perseguição aos padres (aliás, esse foi um dos eventos que ajudou a criar o clima para a derrubada de Nicolae Ceausescu na Romênia). Para piorar, ainda estavam sendo forçados a lutarem no Exército.

A liderança da Vendeia fez os cálculos (erradamente) e decidiu que não iam topar. Foram para a revolta. O resultado foi um genocídio onde toda a Vendeia foi destruída. Praticamente todos morreram, incluindo mulheres e crianças. Quase 300 mil mortos, a maior parte deles a sangue frio. Para a narrativa ficar bonita, historiadores tendem até a criar teorias sobre “um monstruoso mal-entendido, um incrível fenômeno de ingratidão, absurdidade e injustiça”. Ou seja, conversa mole pra boi dormir, útil para vender narrativa e ativar alguns frames, mas que não tem conexão com a realidade da própria ação política.

Aliás, Robespierre durou muito pouco no cargo. Por sua instabilidade, foi guilhotinado. Mas depois dos eventos da Vendeia, havia potencial até para – se ele fosse mais controlado e tivesse mais sangue frio – transformar França numa Cuba, num Zimbabwe ou numa China maoísta. O pessoal já até havia adquirido o sangue frio para o genocídio muito rapidamente.

Então podemos ver que os historiadores tradicionais servem para nos trazer fatos, mas sempre anexados a narrativas e metáforas. É preciso filtar os fatos e “limar” as metáforas. Aí sim podemos julgar os fatos de acordo com modelos da ciência política.

Ah, e quanto a Hitler e o nazismo? Bem, isso é um assunto para outro post, mas, por enquanto, podemos dizer que o nazismo é de esquerda por se encaixar perfeitamente na definição técnica de luta por poder principalmente no Estado e em aliança com grupos que justifiquem a coerção estatal, em oposição à luta por poder principalmente no mercado e em aliança com grupos que tendem à associação voluntária. Nisto, era apenas uma adaptação de vários elementos do jacobinismo, do marxismo, do fascismo, do sindicalismo soreliano (que muitos tentam esconder do povo) e de elementos do nacionalismo alemão.

Mas em termos de lógica do poder, não se diferenciava muito dos outros modelos da extrema esquerda. Ah, mas por que era “extrema” esquerda? A razão é simples: o foco estava na ação política forte, que se baseia no jogo de soma zero, e por isso, não admite coexistência com o lado derrotado. Tal como Stalin e Robespierre fizeram.

Os elementos da história são uteis para análises neste tom, mas, de novo, é preciso fazer um trabalho de “limar” as metáforas (que impedem a análise realista dos interesses) e as ficções adicionadas para dourar as próprias narrativas. Ou seja, historiadores são uteis como PARTE dos elementos para a análise, mas não como juízes da ação política relacionada aos eventos.

Logo, deixar a decisão de julgamento na mão de historiadores é insano. É apelo à autoridade, pois eles não tem autoridade para julgar eventos no âmbito político. No máximo, colaboram com informações. Se existiu junção para criar um conceito que se sustenta apenas no uso de metáforas, junto com a insistência na “tese do consenso”, isso é motivo adicional para suspeitar do julgamento.

Abaixo, deixo de novo o primeiro vídeo da série “Ruler for Rulers”, que fala um pouco de como se interpreta a ação política pela ótica da teoria do seletorado, o que não tem absolutamente nada a ver com que os historiadores te contam:

Twitter: https://twitter.com/lucianoayan

Facebook: https://www.facebook.com/ceticismopoliticosc/

3 comentários em “A maioria dos historiadores diz que nazismo é de direita”. Pior ainda…

  1. Luciano, o que precisa ser verificado e, principalmente precisa se fazer entender é que esses “historiadores” possuem viés de esquerda, e no caso dos historiadores alemães, principalmente os que atuaram durante o período da guerra fria, deve-se fazer entender que eram simpatizantes do comunismo, ou até mesmo espiões da Alemanha Oriental Comunista infiltrados no Ocidente fazendo a tradicional propaganda política comunista contra o Nazi-Fascismo e o Capitalismo.

  2. Que mané nazismo de direita! Isso é conversa de professor marxista, como todos os professores o são nesse país até então desgovernado. Agora com o Capitão na Presidência a história vai ser passada a ser contada como as crianças devem aprender.
    O nome do partido nazista é Partido dos Trabalhadores, isso já derruba completamente qualquer tese de professorzinho marxista mamador de tetas do governo. Com o Presidente Jair Bolsonaro a realidade desses marxistas mudará.

  3. Eu tenho uma regra na vida, muito util. Qualquer texto com “Aiiinnn” não vale meu tempo e parte do pressuposto que eu seja idiota.

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