Por que é bom para o Brasil ter uma direita independente?

Hoje, no Brasil, temos o conceito de “direita independente”, que é aquela direita que apoia apenas algumas pautas do governo, sentindo-se livre até para descer o sarrafo quando suas pautas não são atendidas.

Essa direita não tem compromisso com agendas de grupos que pertençam ao governo e que não sejam de seu agrado. Por exemplo, essa direita independente não viu problemas em apoiar Olavo de Carvalho na crítica aos deputados que viajaram à China (especialmente por causa do “software de monitoração”), mas também baixou o porrete nas declarações de Steve Bannon sobre Paulo Guedes.

Por outro lado, há uma direita 100% adesista. Em geral vemos blogs como Terça Livre, Conexão Política e canais como Nando Moura. Tirando uma ou outra crítica aqui e ali, estão totalmente alinhados com o setor neocon que dá o tom do governo. Logo, quase sempre se tornam justificadores de quase tudo que Bolsonaro e seus filhos fazem.

Tanto a direita independente quanto a direita que aderiu 100% ao governo influenciam muita gente. Logo, muitas emoções estão envolvidas nesse embate de frames.

Porém, a dinâmica mostra o seguinte: é muito bom, para a maior parte das chaves do governo, que exista essa direita independente. Muita gente pode ficar com raiva dos independentes, mas a própria existência destes evita o colapso do sistema. A pergunta é:por que?

É simples: a lealdade tem um preço. Na maior parte dos casos, há benefícios para os formadores de opinião que aderiram 100% ao governo. Por exemplo, uma indicação do presidente significa no mínimo duplicar ou triplicar os inscritos em um canal. Ser replicado quase sempre pelo presidente e seus filhos vai significar a multiplicação por 10 no número de seguidores. E isso aumenta as rendas. Fora o fato de que há expectativas de obtenção de cargos e recebimento de verbas.

Todavia, para eliminar a direita independente, será preciso incluir mais formadores de opinião no rol destes beneficiados. E quem conhece a direita neocon – que dá base aos formadores de opinião 100% alinhados – sabe que eles vivem brigando na disputa interna por poder. A presença de novos players, especialmente nesse momento, só aumentaria a instabilidade do sistema.

Em suma: há muita gente que critica a direita independente. Mas é óbvio que as chaves mais espertas e menos precipitadas (tipo Paulo Guedes e Sérgio Moro) sabem que a compra de mais lealdade – ou seja, a postura de 100% de apoio, sem qualquer crítica – vai aumentar o número de jogadores disputando espaço e benefícios dentro do governo. Nisto, é muito provável que esta base ampliada de formadores de opinião brigue internamente entre eles.

Ou quem não se lembra de vários desses formadores de opinião que hoje estão na base do governo fazendo assassinato de reputação de formadores de opinião liberais? Isto é, eles na verdade não querem mais gente lá dentro. E, no fundo, hoje é até bom que seja assim.

O que se nota na direita independente é: “Podem ficar com a ocupação de espaços de mídia dentro do governo; isso não nos interessa. Briguem entre vocês, se for preciso”.

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1 comentário em Por que é bom para o Brasil ter uma direita independente?

  1. É bastante deprimente ver o que o canal do neocon Nando Moura se tornou. É basicamente uma assessoria de imprensa do governo. Tudo que o Bolsonaro faz, lá está ele justificando, elogiando, engrandecendo. Mesmo que sejam coisas visivelmente ruins, lá está ele advogando. Se resumiu a isso. Se recolheu a esse papel.
    Nem considero Terça Livre um canal influente pois mesmo abrigando o debate entre o Nando Moura e o Arthur do Val em 2016 não conseguiu crescer. É irrelevante. Mas é outra assessoria de imprensa do governo de fundo de quintal.
    São a blogosfera estatal que ao invés de ser do PT agora são do Bolsonaro.

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