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Bolsonaro deve estar rindo com o caos e muitos não perceberam

Segue um trecho do Editorial do Estadão, de hoje:

Está claro que, nessas circunstâncias, o vice Hamilton Mourão deveria ter assumido o cargo, pois há diversas decisões à espera do aval do presidente, como a formatação da reforma da Previdência, para ficar só na mais importante. No entanto, Bolsonaro optou por manter-se no cargo mesmo sem ter condições para isso.

Não se conhecem as razões de tal decisão, mas consta que os filhos de Bolsonaro, cuja opinião é determinante para o presidente, não se dão bem com o vice-presidente. O ruído entre eles ficou ainda mais acentuado quando Hamilton Mourão resolveu dar opiniões sobre temas caros aos Bolsonaros – disse, por exemplo, que era contra a mudança da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, uma promessa de campanha. Além disso, Mourão está tentando construir uma boa relação com a imprensa, contra a qual os filhos de Bolsonaro dedicam grande virulência. Em resumo, a relação do entorno do presidente com Mourão é de desconfiança. Num país em que tantos vices assumiram o cargo de presidente por vacância, isso tende a alimentar todo tipo de especulação.

Assim, o governo hoje é exercido por alguém sem condições de saúde para tal, sofrendo influência direta e ampla dos filhos – que não receberam um único voto para presidente nem ocupam cargos de ministros. O exercício da Presidência pelo vice-presidente deve respeitar o que diz a Constituição, e não o que ditam os filhos do presidente. Não se trata de uma questão familiar, mas institucional.

Bolsonaro precisa o quanto antes se dar conta de que não está mais em campanha, quando todos os problemas do País podiam ser “resolvidos” por meio de slogans digitados em redes sociais, sob orientação dos filhos. Governar é muito diferente de tuitar: demanda presença, articulação, lucidez – isto é, tudo o que Bolsonaro, convalescente e a reboque dos filhos e dos aliados mais radicais, ainda não conseguiu oferecer ao País.

Muitos estão achando que este editorial é bastante incisivo, mas é frouxo até a medula. O problema é que o editorial é paternal, ou seja, trata conflitos de interesses como se fossem conflitos de entendimento.

Por exemplo, o Estadão diz que “a relação do entorno do presidente com Mourão é de desconfiança”, mas será uma desconfiança real ou um puro teatro para criar uma situação de caos e distrair as pessoas das questões reais?

Um editorial que fosse mais crítico, e menos paternalista, poderia questionar: “Qual a aptidão de aceitar riscos do jogador?”. Neste caso, o jogador principal é Jair Bolsonaro. Uma vez que o presidente tenha aceitado que a criação do clima de acirramento (provavelmente artificial) seja útil para capitalização política, pode significar que ele esteja se divertindo com a situação bizarra que alguns de seus aliados criaram.

Por exemplo, como está a correlação de forças nas guerras internas da base? O que podemos esperar é que Bolsonaro tenha feito seus cálculos corretamente. Ou, talvez, seria melhor nem esperar isso, dependendo de qual cálculo for.

Suponha que Bolsonaro deixou as chaves brigarem, e o setor autoritário saia vencedor. Nesse caso, é melhor que o Bolsonaro meta os pés pelas mãos e a agenda desse setor não avance.

Quando o Editorial fala que “Mourão deveria ter assumido o cargo” pode estar se esquecendo de que, para os grupos que querem a crise, Mourão deveria ter ficado de fora do cargo mesmo. Para quem quer estabilidade, Mourão deveria ter ficado no cargo.

Ao ignorar os interesses dos diferentes grupos em conflito, o texto do Estadão é apenas uma manifestação de desejo.

Considere que, se o vice participasse da formatação da reforma, isso tiraria poder dos que estão lutando para desmoralizá-lo, pois aí seria uma relação estilo Trump-Pence. Mas se Jair estiver investindo todas as fichas no conflito, essa relação amistosa talvez não seja interessante.

Se o objetivo for o acirramento total, aí Bolsonaro calculou bem, pois sabia que teria MAVs criando a narrativa. A partir disso, qualquer coisa que Mourão fizer será tratada como “traição”.

Podemos até sugerir que,  no uso do duplo padrão como nunca se viu na política (por parte dos MAVs neocons), é arriscadíssimo qualquer movimento do Mourão até abril.

Nota-se que dois de seus filhos estão esticando a corda e medindo forças. Então, pelo nível de riscos que estão dispostos a aceitar, vão até onde der.

Para entender o nível de paternalismo do texto do Estadão, observe esta cena do filme Mad Max (de 79):

Imagine agora que, neste cenário, o sujeito que escreveu o texto diria que Knight Rider “devia entender que não está dirigindo conforme se deve” e que “devia ser mais precavido”. Mas o próprio personagem se diverte com o caos.

Não estamos sugerindo que tudo termine numa tragédia, mas é essencial que os setores interessados na estabilidade digam: “está na hora de parar com essa bagunça”. Sem isso, o resultado é a ausência de preocupação com qualquer consequência.

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