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A Arte da Seita Política – 1 – Introdução

Esta série relembra os velhos tempos do blog, que, em 2011 e 2012, apresentou detalhadamente autores como David Horowitz e Saul Alinsky. Em 2013, abordamos em profundidade a metodologia de controle de frame. Em 2014, foi feita uma análise das eleições daquele ano com base nos métodos da guerra política.

Infelizmente, hoje em dia vários destes métodos tem sido utilizado por cultos destrutivos, que tem destruído a identidade de seus participantes em nome de projetos obscuros e particulares de poder. Alguns ataques internos ocorridos dentro da direita atendem aos padrões de seitas.
Certamente isso trará muita vergonha futura para a direita.

Como eu tive participação na introdução dos métodos da guerra política para a direita brasileira, também deve ficar claro que nunca apoiei a perda total da honra e da moral no debate público. Sempre defendi a ideia de que códigos mínimos devem ser adotados. Para fazer a política da desonra e da normalização da imoralidade, seria preciso usar muita repressão e violência, em sistemas autoritários, o que pode trazer sérios danos não apenas à imagem da direita no futuro, como riscos aos próprios participantes do jogo.

Desse modo, é bom que fique claro que é vergonhoso notar que métodos da guerra política tem sido utilizados por pessoas da direita indispostas a parâmetros mínimos de civilidade e comportamento democrático. Por essas e outras razões, este ensaio é uma forma de me redimir (um pouco), mas também de ampliar a base de conhecimento para formas mais extremas de jogo político. [Evidentemente não estou dizendo que atuei em qualquer formação de seitas desse tipo, mas sim que vários de seus integrantes utilizam métodos apresentados por aqui, mas para fins diferentes, é claro]

Em essência, quem for de direita e quiser jogar a guerra política no território democrático também deve estar preparado para entender que hoje existe o conceito de seita política, que adota boa parte dos padrões de seitas como as de Jim Jones, David Koresh e Reverendo Moon na ação política, agindo de forma neurótica, autoritária e completamente alheia a qualquer chance de debate racional. Inicialmente com 13 textos, a série A Arte da Seita Política explicará como este método opera, quais os vieses da mente eles exploram, que rotinas utilizam, como se organizam e como convertem tudo em objetivos autoritários de poder, que apenas refletem o autoritarismo inerentes às próprias seitas mais radicais.

Se alguém está preocupado com citações individuais, fiquem tranquilos: esta série focará em metodologia. A ideia não é apenas estudar seitas políticas em vigência, mas prever esses padrões. [farei a citação a indivíduos específicos neste primeiro texto, mas, nos restantes, a prioridade será para a metodologia]

Abordagem

Reverendo Moon

Em termos de abordagem multidisciplinar, o ideal é focarmos em achados da psicologia social e dos estudos das heurísticas e da mente humana, além de adicionar ao pacote a análise de alguns autores específicos dos estudos sobre seita. De Steven Hassan, as fontes consultadas incluem “Combating Cult Mind Control” e “Freedom of Mind”. De Rick Ross, temos “Cults: Inside Out”. “World Famous Cults & Fanatics”, de Colyn & Damon Wilson, é outra das fontes. Mais alguns: “Inside Out”, de Alexandra Stein; “Cracking the Cult for Therapistas”, de Bonnie Zieman; “The Guru Papers”, de Joel Kramer; “Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personality Change”, de Flo Conway e Jim Siegelman e, com não poderia deixar de faltar, “Cults in Our Midst”, de Margaret Thaler Singer.

Se esses são apenas alguns dos autores na análise dos métodos de seita, também adotaremos mais de 100 livros relacionados ao estudo e análise dos vieses da mente. Isso porque normalmente os autores tradicionais estudam como as seitas funcionam, mas pouco falam dos vieses da mente que eles exploram. Assim sendo, a conexão dos métodos e dos discursos nos permitirá desenhar respostas mais efetivas e prever cada comportamento discursivo adotado por eles.

  • O pior e mais destrutivo padrão hoje em dia é o idioma midiático, que prostitui a linguagem.
  • A metalinguística do discurso é invenção de um picareta insano que só enxerga a política em todas as ações sem poder distinguir entre identidades e meras metáforas
  • Todo garoto que aprendeu a lidar com softwares antes de dominar a linguística será sempre um imbecil dominado.
  • Na Nibéria, todo aficionado de uma certa área da ciência interpreta na linguagem dela tudo o que se diz do mundo. Isso é falta de sabedoria.
  • O problema com os meus críticos é sua total incapacidade de entender a diferença entre qualquer discurso e o discurso doutrinal filosófico.
  • Para eles, tudo o que se diz é teologia.
  • Isto é o mais grave analfabetismo funcional que existe.

Todas as áreas grifadas demonstram o uso dos quantificadores universais em conjunto com a estereotipagem. Mas discursos tão estereotipados assim contém altas chances de serem fraudulentos. Quando alguém diz que “todo (a) será sempre (b)”, isso fala sobre todos mesmo? Será que isso sempre acontece? Baseado em quais fontes? Geralmente, gurus não darão respostas, mas essa linguagem tem efeitos profundos na mente de incautos.

Em tal nível, o uso de estereótipos e quantificadores universais é a exploração das áreas mais primitivas do cérebro humano. Isso porque o ser humano, por ser uma máquina de sobrevivência, precisa ter reações emocionais rápidas para sobreviver aos perigos. Manipuladores da mente se aproveitarão disso para usar linguagem 100% estereotipada. Nesses cinco prints, não temos análise política séria, mas o estímulo à amidala.

Segundo afirma Rush W. Dozier Jr. Em “Why we hate?”, junto com o hipotálamo e o hipocampo, a amídala compõe o sistema límbico, área do cérebro que controla a emoção e a motivação. Emoções como ódio, raiva, medo, alegria e amor são disparadas pela amídala, quase sempre inconscientemente e instantaneamente.

Por causa dessa limitação, esse sistema primitivo não tem condição de pensar além de estereótipos. Como Dozier Jr. escreve, “a lógica primitiva só compreende a proposições generalizadas”. É assim que categorias gerais, como “animais”, ou categorias de nível médio, como “cobras”, são compreendidas, mas o mesmo não acontece com categorias mais específicas, como “colubrídeas”.

Sem capacidade de notar a diferença, o sistema neural primitivo registrará marcadores somáticos [e você entenderá tudo isso nos demais textos dessa série] com base em estereótipos, potencializando medo, fobia e o ódio. O detalhe é que, neste estágio, as pessoas podem ficar paranoicas, neuróticas e serem movidas em qualquer direção. Com a estereotipagem, o sistema límbico pode rejeitar novas informações ao concluir que “todos (a) são bons” ou “todos (b) são maus”. Segue-se daí que boas e más qualidades do indivíduo observado se tornam irrelevantes para quem estiver acometido por mensagens desonestas que exploram esses vieses.

Ao longo desta série, não focaremos apenas em como os manipuladores exploram esses vieses, mas principalmente em como neutralizá-los. Obviamente, este corpo de conhecimento vai sempre se ampliando, pois as lideranças das seitas vão buscar se adaptar, mas há limitações nesse processo. Ao final, incluiremos também um pacote de rotinas, tanto para a liderança como para os seguidores, scripts utilizados [como as histórias que os gurus contam], os esquemas para subversão da realidade e da moralidade, como fazem para fraturar o senso de identidade de seus seguidores e daí por diante.

Mas por que?

Algumas pessoas poderão perguntar: mas por que um guru utilizaria métodos tão desonestos assim? Bem, existem diversas razões para a formação de cultos radicais. Elas podem incluir principalmente a manutenção de um grupo de pessoas leais e dedicadas atuando com o líder para ajuda-lo a atingir os objetivos particulares dele e de poucos eleitos. Comandando um grupo de pessoas que acredita em seus valores, a liderança poderá realizar experimentações criativas, mudando de opinião a todo momento, pois trabalhará com pessoas cuja identidade está fragmentada. Evidentemente, tudo isso pode ser usado como instrumento de poder, envolvendo bens materiais, conexões sociais e, enquanto tudo isso acontece, garantir a admiração destes seguidores, que servirão como uma “linha de frente” para justificar toda e qualquer coisa que o líder fizer.

Para facilitar o entendimento, nesta série trabalharemos com personagens fictícios, exatamente para facilitar a aquisição do método. Então falaremos do guru Oliveira, que atua liderando um culto neofascista, populista, nacionalista e neoconservador no país africano da Nibéria, que vive momentos de transição de um regime social democrata para um governo de direita. Oliveira conseguiu nomear alguns assessores e tem atuado com foco na manutenção do poder, mas com métodos pouco nobres. [Falaremos bastante de Oliveira e suas peripécias nos próximos textos dessa série]

Falando em nobreza, este tem sido um dos grandes danos causados na ação política pelo uso de seitas: como são criados grupos voltados apenas para uma liderança, com base na submissão, os valores morais são geralmente invertidos. Como adicional, muitas mentes doentias acabam sendo atraídas para esse ambiente. Pode até ser que alguns seguidores sejam “low profile”, mas são normalmente exceções. O fato é que hoje em dia assistimos a um show de baixeza política de um grupo que decididamente não aceita a convivência social básica. Ao entender como uma seita desse tipo funciona, ganhamos o benefício de não ficarmos mais impressionados com nenhuma de suas atitudes.

Se hoje em dia muitos estão assustados com o surto de linchamentos online praticados por uma seita que desenvolveu um modo virtual de agir, após esse ensaio a ideia é que esses eventos não sejam mais surpreendentes. Se não são mais surpreendentes, podem ser compreendidos por aqueles dispostos a uma ação política mais focada na coexistência e na democracia. Isso vale para a maior parte dos comportamentos dessas seitas, principalmente porque isso não passa do uso de métodos de seita no ambiente virtual.

Observe também que defendo o uso dos métodos da guerra política, mas sempre defendi limites. Utilizar rotulagens, framing e humor, além de saber posicionar melhor suas ideias, sempre é algo que defenderei. Todavia, levar isso às raias do convívio antissocial, que gera riscos de ruptura sistêmica, são outros quinhentos.

Desta feita, como eu sempre escrevi sobre guerra política, este também é um material relacionado ao tema, mas principalmente direcionado aos que se adequam às formas de ação política mais democrática, como liberais e conservadores. Claro que sempre há espaço para os extremistas, em qualquer sistema democrático. Mas como eles adotaram o modelo de seita política, evidentemente não desejarão mais coexistir. Motivo adicional para os compreendermos como eles funcionam. Se esta série é algo que eu devia ter escrito uns 3 anos atrás, me redimo agora. [detalhe: todos os roadmaps para os 13 textos estão prontos, mas a tendência é que sejam publicados principalmente nos fins de semana]

A seguir

No próximo texto dessa série, quando realmente pisaremos no acelerador (indo alem de breves exemplos), falaremos como é a dinâmica de uma seita política. Como eles se dividem? Qual a hierarquia? Uma vez que não há dinheiro para todo mundo, como alguns se dão bem (inclusive financeiramente) enquanto outros apenas recebem manipulação emocional? Por que se sujeitam a isso? Como eles são incorporados à ação política? Qual o papel do autoritarismo no esquema? Pontos como esse serão vistos no próximo texto, “A dinâmica da submissão”.

Continua em A Arte da Seita Política – 2 – Dinâmica

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3 comentários em A Arte da Seita Política – 1 – Introdução

  1. Orgasmo de Cavalo // 2 de abril de 2019 às 2:13 am // Responder

    O astrólogo geriátrico é o Jim Jones da Virgínia. O homem é um psicopata, e os seus seguidores seguem à risca todas as recomendações desse homem medíocre e patético. O Olavo sempre foi um débil mental, uma pessoa doente da cabeça.

  2. Essa série vai virar livro como você o fez na sua obra LIBERDADE OU MORTE? Ficaria como dica para um futuro livro. Abraço!

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