A Arte da Seita Política – 2 – Dinâmica

Continuação de A Arte da Seita Política – 1 – Introdução.

Entender as seitas políticas por uma perspectiva da dinâmica social é compreender para que servem suas ações, seus processos, como se organizam, por que se sustentam desse jeito, quais aspectos da natureza humana aproveitam e os motivos para as técnicas adotadas.

A partir desse segundo texto, teremos a companhia de um personagem, Oliveira Citiwala, guru de um líder político em um país chamado Nibéria, de 130 milhões de habitantes. Uma das características deste país é o alto desenvolvimento da rede de computadores, motivo pelo qual Oliveira conseguiu estabelecer um culto político online. Isso nos dará todas as características necessárias para exemplificação, pois os cultos online são um fenômeno mais arrojado dos tempos atuais. Como vantagem, permitem uma observação mais ampla dos eventos.

Ao longo dessas páginas falaremos mais um pouco das características do culto criado por Oliveira e sua relação com o poder, visto que estudá-la é essencial na abordagem sobre seitas políticas. Como base para os trabalhos, foram feitos estudos sobre seitas online com base em pesquisas de crenças e práticas do culto, lista dos “gatilhos” utilizados, conversas com ex-membros, observação da ação política, lista de jargões e frases, avaliação da estrutura hierárquica em ação e daí por diante.

Desprogramação

Muito já se escreveu sobre como fazer a “desprogramação” de pessoas em relação a cultos. Todavia, muitos desses autores enfatizam um trabalho sério e demorado, usualmente com terapia presencial. Na abordagem de cultos online, isso é impraticável, dado que estamos lidando com pessoas com as quais não teremos uma interação presencial que possa ser marcada por confiança.

Em virtude disso, a ênfase desta análise está no entendimento do comportamento de um culto político online. Por isso mesmo, o objetivo é entender profundamente quais são os mecanismos adotados pelos gurus, por seus escolhidos, como funcionam as relações com os detentores do poder, além de como se comunicam com seus discípulos e a própria massa em torno do culto. Ademais, temos a questão da ocupação de espaços e a relação com ex-membros do culto, com aliados, inimigos e o público neutro.

No mundo dos cultos não focados essencialmente na Internet, é bem provável que várias pessoas deixem o grupo cedo ou tarde, pois em um certo momento se sentirão demasiadamente oprimidas. Numa seita online isso também pode acontecer. Mesmo assim, é pura ilusão esperar que a maioria das pessoas abandonem o culto, pois ele depende de verdadeiras fraturas na identidade de seus adeptos, que sentirão um baita vazio ao deixarem o ambiente no qual se acostumaram à submissão.

É como apontava Gustave Lebon, que, em 1985, disse que as massas tendem a priorizar pessoas que os iludam, para serem dominadas, e ficam furiosas quando alguém tenta destruir essas ilusões. Vieses da mente relacionados ao Efeito Backfire, investimento emocional e diversos outros (que abordaremos por aqui, mas apenas em próximos textos) explicam porque, após se submeter, alguém age feito ouriço brabo diante de quem tenta livrá-los das crenças que o submeteram.

Outro fator que pode levar pessoas a abandonarem uma seita é que, na prática, quase todos os seus integrantes tiveram que abdicar do seu “eu” autêntico para se submeterem a pessoas egocêntricas como os gurus e seus escolhidos, além de vários dos discípulos que ambicionam se converterem em “escolhidos”. De mais a mais, o comportamento de uma seita é previsível e ficará ainda mais previsível durante esta série de textos. Em geral, as seitas não entregam o que prometem, convertendo-se em outro fator que pode tirar as pessoas de lá.

Mesmo assim, por ser uma análise sobre seitas políticas online, a ênfase não está tanto na desprogramação (que abordaremos ao final), mas na libertação das pessoas dos efeitos da seita, isto é, visando principalmente aqueles que estão do lado de fora, dado que seitas políticas tendem ao autoritarismo, como veremos no texto 3 (“Submissão”). Sem autoritarismo, não há espaço para uma seita política. Logo, os efeitos autoritários impactam as ações políticas do dia a dia, gerando motivos adicionais para investigação.

De todo jeito, visando mais um desmascaramento do que a tradicional desprogramação (no estilo “um a um”), podemos agora entender quais os diferentes tipos de seitas e como classificaremos as seitas políticas online.

Tipos de seitas

Falar em seitas e cultos, em geral, é muita coisa. Outro termo adotado é grupo de alto controle. Bonnie Zieman, no livro Crack the Cult Code for Therapists, lembra que os grupos de alto controlem querem “limitar o acesso dos membros a pessoas, instituições e informações que contradizem seus ensinamentos”. Adicionalmente, “eles também querem limitar o envolvimento dos membros em outros projetos que possam absorver seus interesses e energias”.

A terrível consequência disso é que muitos membros acabam vivendo como ignorantes e agindo de maneira pouco sofisticada no caminho do mundo. Geralmente se tornam rudes, vulgares e até antissociais ao lidar com pessoas de fora do culto. Em outro ponto assustador, uma parcela considerável dos membros pode ignorar qualificações relacionadas ao mundo exterior, exatamente porque elas vão bater de frente com os ensinamentos do guru.

Como uma consequência disso, diversos membros podem se complicar em sua vida pessoal enquanto participam do culto. É por isso que existem casos de pessoas depressivas ao abandonarem esses locais, pois elas ficarão com a sensação de ter passado muito tempo na vida em culto e perderam oportunidades de crescimento.

No exemplo de Oliveira, o guru principal da direita niberiana orientava seus alunos a não darem a mínima para o ensino universitário, bastando para elas consumirem suas extensivas aulas dadas em uma plataforma de ensino à distância. Segundo Bonnie, há uma razão para gurus agirem assim. Ela afirma uma verdade mais do que óbvia:

Nos institutos de ensino superior, além do assunto ensinado, os estudantes universitários aprendem a pensar, a analisar, a avaliar, a comparar e contrastar, a pensar de maneira criativa e crítica. Os cultos gastam uma quantidade excessiva de tempo trabalhando para controlar as mentes de seus seguidores – influenciando-os a aceitar, cumprir e obedecer. Eles não querem adeptos que aprendam a pensar criticamente, avaliar e questionar. Assim, eles são fortemente desestimulados a ficar longe de centros de ensino superior, no que tendem a cumprir e obedecer.

Obviamente, falamos aqui de grupos de alto controle. Nem sempre é assim: alguns cultos são mais do que suaves, como o culto às motos Harley Davidson. Segundo Thomas N. Ellsworth, os participantes deste culto querem participar de algo que é diferente (e os destaque na manada), demonstrar ousadia e determinação perante os outros, adotar um estilo de vida particular, participar de comunidades, se sentirem “pertencentes” a grupos de pessoas com gostos similares e valorizar a liberdade.

É evidente que “cultos light” desse tipo estão em todos os lugares na época da cultura fã, conforme apontada por Henry Jenkins, que explica como fãs de Star Trek e da série Matrix foram se reunindo, abrindo novas oportunidades para cultos online. Mas, novamente, quase sempre, falamos de algo “light”.

Para simplificar a abordagem, Steven Hassan menciona que esses métodos nem sempre são danosos e, às vezes até podem ajudar pessoas, por exemplo, a parar de fumar, sem alterar quaisquer outros de seus comportamentos. Todavia, quando o culto começa a afetar mais aspectos da vida da pessoa, os riscos de submissão danosa aumentam. Além de tudo, Hassan aponta que “o controle mental torna-se destrutivo quando o local de controle é externo e é usado para minar a capacidade de uma pessoa pensar e agir de forma independente”.

Hassan escreve que o controle da mente, nos cultos mais destrutivos, “procura nada menos do que perturbar a identidade autêntica de um indivíduo e reconstruí-lo à imagem do líder do culto”. No modelo BITE (behavior control – information control – thought control – emotional control) desenvolvido pelo autor, são os quatro pilares que devem ser observados para avaliar se estamos ou não diante de um culto destrutivo. Mesmo que isso será desenvolvido mais detalhadamente nos textos 3 e 4 esta série, os quatro pontos devem ser levados em mente:

  • Controle do comportamento
  • Controle da informação
  • Controle do pensamento
  • Controle emocional

Os dois primeiros pontos estão principalmente relacionados à submissão, pelo controle dos comportamentos e da informação, enquanto os dois últimos mais próximos à manipulação da emoção, pelo controle do pensamento e das próprias emoções em si.

Pode-se querer classificar qualquer igreja neste tipo de culto, até porque a expressão “culto” é normalmente adotada por lá. Porém, se existe bastante liberdade às pessoas, os critérios não se aplicam, tornando-se difícil qualificar esse ambiente como uma usina de produção de comportamentos antissociais. Por esse motivo, temos que “filtrar” melhor do que estamos tratando.

Considere o caso do culto de David Koresh – pseudônimo para Vernon Wayne Howell -, cuja história terminou quando o FBI organizou o Cerco de Waco, após uma investida do Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explsites. Ocorrido em 19 de abril de 1993, um grande incêndio foi causado intencionalmente por Koresh na sede dos seguidores do Ramo Davidiano, no Monte Carmelo, em Waco, Texas. Koresh morreu no incêndio, junto a mais 54 adultos e 21 crianças.

Tempos antes, durante as negociações com a polícia, tivemos este diálogo, conforme visto no livro The Ashes of Waco: An Investigation”, de Dick J. Reavis:

Koresh: “De acordo com abertura do quarto selo, o que Cristo revelou que viria?”

FBI: “Um cavaleiro sobre um cavalo.”

Koresh: “E qual é o seu nome?”

FBI: “Morte.”

Koresh: “Agora, você sabe o que significa o nome Koresh?”

FBI: “Prossiga…”

Koresh: “Significa morte”.

 

Nota-se que cultos assim podem terminar em suicídio, muitas vezes sendo chamados de “cultos suicidas” ou cultos “crash and burn”. Outros exemplos são o caso de Jim Jones, que terminou com 909 membros mortos, a maior parte por suicídio. Em 1997, o culto da Ordem do Templo Solar levou a cerca de 74 suicídios, em vários eventos na França, Suíça e Inglaterra.

Em 1997, 39 seguidores do Heaven’s Gate (ou Portões do Paraíso) se suicidaram no Rancho Santa Fé, na California. Estes últimos acreditavam que estavam “saindo de seus casulos humanos” enquanto aguardavam chegada do cometa Hale-Bopp. Alguns membros do grupo chegaram a se castrar voluntariamente, meses antes, acreditando que já estavam preparando uma vida sem gênero que os aguardaria após o suicídio. Coisa triste, coisa muito triste.

A pergunta é: por que estes cultos colapsam? A razão é que a própria estrutura de culto, levada aos seus níveis mais extremos, pode também levar ao extremo no uso do narcisismo por parte do guru. Se é evidente que o autoengano perfaz boa parte dos cultos mais intensos, todos esses fatores são levados à estratosfera em cultos que tendem ao suicídio. Tal nível chega o narcisismo do guru que ele raramente admitiria ser pego vivo, preferindo cometer suicídio e levar vários outros consigo, até para que os participantes não possam se arrepender no futuro de terem participado e, assim, manchar sua imagem.

O culto criado por Oliveira na Nibéria certamente não se encaixaria na categoria dos cultos suicidas, mas também é fato que compreende vários aspectos vistos ali. Criado como uma forma de unificar adeptos de uma direita de tons neofascistas, reacionárias e até neoconservadores, o culto de Oliveira depende fortemente do narcisismo de seu líder.

Existem dois atributos importantes que podem ser atribuídos ao culto de Oliveira. Um é o componente “político”, o que significa que, embora englobe até aspectos espirituais, abrange várias outras temáticas relacionadas a pontos diversos da vida dos discípulos, mas principalmente fala da questão política. No pior dos casos, cultos políticos podem englobar grupos terroristas, motivando atentados com homens bomba. Mas, por sorte, não parece ser o caso de culto de Oliveira.

O segundo componente é o aspecto “perseguição”. Cultos políticos não têm tendência ao suicídio, mas se tornam tristemente conhecidos por perseguirem as pessoas que abandonam o grupo. Desenvolvem métodos para intimidar os dissidentes e, com isso, também acabam ganhando fama e atemorizam os outros. Como lemos no artigo “Brainwashing and the Persecution of ‘cults’”, de Thomas Robbins e Dick Anthony, os números de pessoas perseguidas são extensos em vários cultos desse tipo.

Isso acontece porque o culto depende da manutenção da autoestima dos participantes, mas também da repressão. Pensando em “bloco”, são instados pelo guru a irem atrás dos que saíram, pois estes podem lançar críticas aos tempos que estiveram no culto (e explicar as decepções). Se estes ex-membros – tratados como “apóstatas” – existem em grande número isso poderia abalar a autoestima de quem permanece.

Um culto político, então, possui todos os mecanismos de controle já vistos, além de depender de um líder extremamente narcisista e de elementos de autoritarismo e perseguição de dissidentes. Esses são fatores necessários para que o culto se mantenha. Curiosamente, alguns niberianos passaram a se incomodar com atos de perseguição instados por Oliveira a cada vez que ele fosse criticado. Geralmente reagiam como neste depoimento, de Abduma:

É inacreditável que Oliveira seja uma pessoa tão egocêntrica, incapaz de admitir qualquer crítica, após a qual ele se torna irascível e indisposto a qualquer forma de diálogo. Se ele desse mais espaço às opiniões alheias, iria propiciar discussões melhores.

Lamentavelmente, Abduma não entendeu absolutamente nada, pois, para ser um guru de um culto político extremista, o narcisismo é considerado um atributo essencial (aliás, para qualquer tipo de culto mais intenso). Se fôssemos realizar uma lista básica das habilidades para líderes de culto (e até seus escolhidos), um dos principais seria o alto grau de narcisismo. Veremos os motivos para isso em maiores detalhes, mas o fato é que nenhum culto se sustenta sem a crença de seus integrantes de que são especiais, mas, para isso, eles precisam seguir alguém que é percebido como mais especial do que eles. Para exibir essas características, as pessoas mais narcisistas são extremamente mais hábeis. Em síntese, se Oliveira não fosse narcisista, talvez nem teria montado um culto político, em primeiro lugar. Abduma simplesmente ouviu o galo cantar e não sabe onde.

Evidentemente, as características de cultos políticos também podem ser vistas em outros tipos de cultos radicais. Também podem ser vistas em mini cultos, que são quase iguais aos cultos políticos (que costumam ser amplos), mas mudam em termos de tamanho. Menores, possuem pequena infraestrutura e núcleo reduzido. Como Oliveira possui 4.390 alunos catalogados em seu curso online, e possui mais de 304.000 seguidores em seu perfil no Twitter (e números similares nas outras redes sociais), é óbvio que ele não possui um “mini culto”.

A diferença do “mini culto” é que, por possuir menos pessoas, pode mudar de direção muito facilmente. Por exemplo, um “mini culto” pode ser criado para defender uma ideia religiosa. Se não der certo, pode mudar pra a venda de produtos tipo Herbalife. O que é imutável e pertencente a todos os tipos de culto é a lealdade entre os membros, a atitude elitista e irmandade entre os seguidores.

Obviamente, os membros de clubes Harley Davidson se sentem superiores ao resto da humanidade, mas dificilmente vão sair perseguindo quem sair de lá. Por outro lado, membros de cultos políticos podem se tornar máquinas de neurose e obsessão, virando guerreiros na perseguição aos dissidentes. Já os membros de culto suicida podem acabar se matando pelas ordens do guru. Nota-se que as seitas políticas radicais ficam na “coluna do meio”. Não esperamos que eles se explodam, mas vão aporrinhar muita gente.

A seguir, falaremos da estrutura básica de um culto do tipo político, que é o que abordaremos até o fim desta série (mesmo que passemos a citar exemplos dos cultos mais radicais, pois alguns padrões são ótimos para mapeamento de suas versões mais extremadas).

Estrutura de um culto

Considere o culto de Oliveira Citiwala, que possui o guru, cerca de 40 “escolhidos”, 4.390 alunos que pagam mensalidades e uma base de seguidores habituais de 300.000 pessoas (que leem seu material diariamente ou assistem seus vídeos), além de outros participantes que aderem de uma maneira ou outra as suas ideias. Além disso, existem os participantes do núcleo do poder, o público em geral e os espaços ocupados. Núcleo do poder significa aqueles que ocupam espaços de poder (incluindo cargos eletivos) e que podem propagar suas ideias e nomear seus escolhidos e às vezes até alunos. O público em geral é o universo de pessoas que são afetadas, considerando políticos, influenciadores e cidadãos comuns, que podem ser classificados em amigos, inimigos ou aliados. Evidentemente, ex-membros são classificados como inimigo. Por fim, existem os “espaços”, que são posições na mídia, nas redes sociais, nas escolas e na indústria cultural, além de espaços em diversos outros cargos, incluindo cargos públicos.

Eis o esquema:

Em relação ao guru, ele ocupa o topo da cadeia, devendo ter o poder de definir quem são os “escolhidos”. Estes “escolhidos” são como aqueles que significam um núcleo reduzido e são muitos poucos em quem o guru pode realmente confiar. São estes, e apenas estes, que entendem a ambição do guru em detalhes.

Para desconstrair (mas nem tanto), um exemplo do filme Lord of Illusions, de Clive Barker:

Qualquer guru que queira um bom e duradouro resultado deverá escolher a dedo estes poucos eleitos, pois não adianta apenas que a pessoa seja hábil em termos de conhecimento. É preciso que ela esteja disposta a manter segredo em relação aos objetivos do guru. Esse processo de seleção é árduo e duradouro, geralmente demorando anos até alguém ser “selecionado” e integrar este seleto círculo.

Por exemplo, Oliveira tem entre seus escolhidos Jean-Baptiste, que se tornou um membro da equipe do presidente. Para que Jean-Baptiste pudesse ter a confiança de ser um portador das ideias do guru no governo, não é algo que ocorre do dia para a noite. Jean-Baptiste se torna participante de um núcleo de poder e, por isso, pode ouvir do guru dicas como “manipular as ideias alheias” ou “confundir os incautos”, que dificilmente ele falaria de forma tão clara em suas aulas ou nos posts de Twitter e Instagram. Claro que ele dará algumas dicas, geralmente cifradas, mas os tais “segredos inconfessáveis” ficam com esses poucos eleitos.

Os “escolhidos” geralmente funcionam como “clones” do guru e adotam até técnicas de escrita similares. Eles entendem cada decisão do mestre. Alguns testes que os gurus podem fazer para selecionar estes “clones” é testar a ambição deles e tirar de suas mãos projetos em que se interessem. Caso se mostrem pacientes quando são avisados que “ainda tem algo a aprender”, mesmo tendo visto a cenourinha, eles vão conquistando a confiança. Como diz o ditado, paciência é virtude neste processo de seleção.

Outro fator de análise para os escolhidos é a priorização daqueles que conseguem realizar um objetivo sem receber as instruções diretamente. Se eles retornarem pedindo por mais instruções, é sinal de que não estão prontos. Se eles perderem o foco em disputas políticas internas, também pode ser um sinal de que precisam esperar mais um pouco. É claro que os escolhidos promoverão até expurgos, mas é necessário estar em linha com os objetivos do guru. Como se percebe, a disciplina é fundamental nesta fase.

Já falando dos aprendizes e alunos, estes receberão muito conteúdo e mensagens a granel, mas obviamente não receberão todos os detalhes, pois isso seria entregar o ouro pro bandido. A massa também receberá grandes doses de conteúdo, mas não entenderá profundamente do que se trata. Detalhe: um escolhido é também um aluno, mas com um status especial em relação aos demais.

Falando dos que estão fora do culto, a relação com o núcleo de poder não pode ser explícita, mas sim daquele tipo apresentado externamente como “meramente inspirador”. A razão para tentar esconder os laços é que reduziria o risco de que o governo seja associado às perseguições executadas pelo grupo bem como aos discursos extremistas. Geralmente, alguns resultados efetivos se observam na nomeação de pessoas para cargos e até na ajuda a conquistar eleitores para parlamentares. Dificilmente um culto elegeria um presidente, até por seu extremismo, mas um guru pode assumir a liderança do comando mental da presidência pela dominação psicológica de pessoas próxima ao líder máximo ou até mesmo tentar usurpar os méritos pela eleição do presidente.

Por que ele faria isso? Porque, pelo controle do imaginário de grupo e pelo poder de intimidação da seita, ele pode focar principalmente na construção de imagem de “condutor espiritual” das forças no poder. A própria percepção gerada por esta encenação já amplia o poder. Como veremos em vários outros textos dessa série, a relação é tensa e pode levar à ruptura, pois a natureza dos cultos políticos é extremista e depende de submissão, o que significa a humilhação pública de políticos apoiados por eles que não “fiquem dentro do quadrado”.

Em relação ao público em geral, há pleno ataque aos inimigos, mas também gera problemas com os aliados temporários, pois os membros do culto sempre considerarão aqueles que se aliaram a eles, mas não pertencem ao culto, como inferiores, e entenderemos isso melhor ao observar os pilares que “plugam” o guru aos seus súditos.

Em síntese, nesse esquema, Oliveira é o guru, que possui cerca de 40 escolhidos, vários dos quais com cargos no governo. Outros podem ficar de fora, mas atuando em diversas parcerias. De resto, temos os alunos, que assistem o curso 2 vezes por semana, com 2 horas de aula cada. A “massa” é compreendida por todos os demais seguidores. Outro detalhe é que alguns alunos podem atuar como “escolhidos de segundo escalão”, mas isso aumenta o trabalho de gerenciamento e gera riscos. De fora do culto, temos o núcleo de poder, que são todos aqueles que estão relacionados aos cargos, eletivos ou nomeados. Por exemplo, o Reverendo Moon tinha fortes conexões com membros do Partido Republicano e criou um jornal, The Washington Times, em 1982.

Steven Hassan, ex-seguidor de Moon e estudioso de cultos, conta que se lembra de ter sido convidado na década de 1970 a jejuar por três dias nos degraus do prédio do Capitólio dos EUA para a eleição de Richard Nixon, “porque Deus queria que Nixon fosse presidente”, segundo a igreja. Hassan também conta:  “Realmente, Moon queria influenciar os estabelecimentos e ele queria ser aceito pelos agentes de poder”. O Washington Times seria uma forma considerada perfeita para Moon exercer essa influência.

No caso de Oliveira, na Nibéria, ele conseguiu colocar vários de seus alunos em meios de comunicação independentes da Internet, e até alguns que possuem proximidade com ele em meios de grande escala, mas isso pode gerar inveja e ressentimento dos membros que não entraram nos grandes meios.

O pilar do culto

Basicamente, todo culto depende da seguinte relação entre o guru e os que estão abaixo dele: que é baseada na exploração, com base na submissão e instilação de senso de elitismo. Isto quer dizer que os membros do culto precisarão achar que são superiores ao resto da humanidade. Se isso não acontecer, eles ficarão desanimados, pois não investirão tantas emoções em algo que não lhes dá algo em troca. Mesmo que a sensação seja artificial, o que importa é que ela seja sentida.

Para criar essa estrutura de sentimentos, que é a força motriz para os projetos de poder do guru, existirá um plano não revelado (conhecido totalmente por ele, e parcialmente por seus escolhidos) e um plano auxiliar, que é revelado aos seus súditos.

Considere, então, itens em um plano interno:

  • Colocar número (x) de pessoas em posições de poder
  • Obter liberação de (y) em termos de verbas para amigos
  • Adquirir maior reputação para aumentar a base de alunos e seguidores
  • Manutenção da reputação

Se todos os fatores acima geram riscos, principalmente a partir da sua aplicação, o fato é que eles não podem ser declarados às pessoas, a não ser os poucos escolhidos. Já aos alunos e seguidores pode ser apresentado um plano com itens assim:

  • Conquistar a supremacia da cultura niberiana
  • Criar uma “elite de sábios” para a Nibéria
  • Reverter as degenerações do mundo moderno
  • Criar uma elite de estudiosos de ciência filosófica, que deixará todos os outros no chão

Neste caso, uma parte dos objetivos é fantasiosa, mas serve para manter a inspiração das pessoas. Mas, em geral, o que conta são os objetivos do líder. Obviamente, estes objetivos não são entregues em todos os detalhes à massa de alunos e seguidores. Isso porque poderá gerar ressentimento e inveja, além de uma percepção de que estão sendo feito de trouxas.

Assim, todo o pilar de um culto é baseado em dois fatores, que são:

Em relação à exploração, isso significa que o guru deve usar seus adeptos conforme sua conveniência para atingir seus objetivos. No caso de Oliveira, ele começou estudando a colonização niberiana por um país europeu e entendeu que a independência do país causou um surto de esquerdismo na nação. Sua tese se baseia em criar uma “elite de sábios” para a Nibéria, ocupar espaços na mídia, nas artes e no governo e, com isso, recuperar a “cultura maior” que a Nibéria teria perdido. Embora isso seja parte de plano externo (e, portanto, nem todo verdadeiro), ele se ampara sob uma constatação real – de que a esquerda vencera as cinco eleições anteriores -, mas complementadas por diversas teorias da conspiração, mais furadas que tábua de pirulito.

Oliveira age assim por ter um plano de exploração de seus adeptos. Como já vimos, os escolhidos conhecem parte do plano e abocanham ótimos benefícios, mas a maior parte recebe benefício basicamente subjetivo. Eis então que chegamos ao segundo ponto da equação: senso de elitismo.

Os seguidores não conseguirão perceber que estão sendo explorados caso acreditem que eles são uma “elite”. Porém, só acreditarão que são uma elite se acreditarem que aqueles posicionados acima deles são uma elite ainda maior. Por essas e outras, um aluno deve considerar um dos “escolhidos” como superior a ele, bem como todos considerarem o guru como extremamente superior, quase como um Deus na Terra.

Durante esse processo, os gurus, durante esse processo, atuarão como “pais substitutos”, como se quisessem ajudar seus súditos. Devem fazer pose de pessoas amáveis em certo momento, mas também agirem com agressividade e lançar mensagens explorando a culpa e a vergonha dos adeptos. Seu narcisismo deve ser cultivado, pois é isso que dará aos adeptos o senso de que seguem um líder especial. Nesse sentido, o guru irá desqualificar qualquer um que estiver em seu caminho, além de contar vantagem de forma que possa parecer até doentia para quem estiver de fora mas funciona para os que já estão emocionalmente controlados.

Há uma emoção forte pela qual passam os adeptos, que é estarem submetidos à medição de valor, por parte do guru, apenas pelos seus próprios padrões. Isso garante uma aura de instabilidade para as decisões dele, mas ativa mais fortemente as emoções, como veremos no capítulo 4. O guru também deverá converter seus defeitos em valor, pois está criando uma personalidade superior.

No caso de Oliveira, ele é conhecido por peidar durante suas transmissões em público. Eis o motivo: ele não consegue controlar a flatulência devido a uma doença incurável. Por isso, ele criou um lema de que uma “elite de sábios” não deve ter medo nem de peidar em público, uma vez que isso demonstraria extrema autoconfiança. Por consequência, vários de seus adeptos começaram a peidar por todos os lugares. Esse é um exemplo de como o narcisismo estratégico de um guru pode ser útil para dominar psicologicamente as pessoas.

Recentemente, um jornal publicou uma crítica a diversos alunos de Oliveira, que sempre tentam humilhar os que estão próximos. Todavia, esse é um efeito esperado da estrutura de culto, onde os adeptos serão treinados para se sentirem superiores às pessoas que estão fora. Esse tipo de sensação ajuda as pessoas se sentirem especiais e únicas, além de unificar internamente os membros do grupo. Durante as reuniões de grupo, eles sempre se sentirão como “parte de algo especial”.

Para isto, consideremos as necessidades humanas fundamentais, conforme Maslow.

As necessidades fisiológicas e de segurança ficam entre as mais básicas. Cultos online não limitam muito isso, embora tragam algumas restrições que trataremos nos próximos capítulos. Oliveira, por exemplo, critica o sexo fora do casamento, o que deixa envergonhadas algumas pessoas em diversas situações. Um de seus adeptos defende que a masturbação é algo que traria um castigo visto de uma entidade demoníaca chamada Damballa.

Subimos para a necessidade de pertencimento (ou amor/relacionamento), preenchida pela participação em um novo grupo de pessoas com as quais poderá se relacionar. Na Internet, isso também gera prova social, com ele ficando até em um núcleo restrito de compartilhamento de conteúdo. Um membro do grupo de Oliveira conta que tinha 607 pessoas no Twitter e, 3 meses depois, passou a ter 5.000. Ele está muito feliz.

Temos também a necessidade de estima, que é satisfeita, pelo menos em expectativa, com a noção de que ele se torna parte de uma elite, diferente dos que estão fora do culto. No fim da lista, temos a necessidade humana da mais alta hierarquia, que é a necessidade de auto atualização. Foi para isso que Oliveira criou seu curso, onde ensina seus alunos em diversas “artes”.

Obviamente, eles são orientados a ignorar o conteúdo que está nas universidades, pois diz que “todas são inúteis” e que o conhecimento verdadeiro está apenas com ele. Como veremos, isso é quase sempre falso, até porque as verdadeiras estruturas de conhecimento são validadas. Mesmo assim, por causa da doutrinação, seus adeptos não o contestam e seguem se sentindo superiores ao resto do mundo.

De qualquer forma, em relação a esta necessidade humana, Maslow lembra que este é o “desejo de se tornar tudo que alguém é capaz de ser”. Consequentemente, os adeptos são orientados a estudarem profundamente o material ensinado pelo guru, que isso os tornará um dos comandantes da cultura da nação niberiana.

Logo, um guru deve sempre atuar com a exploração dos adeptos conforme sua conveniência, mas fazê-los se sentir parte de algo muito especial em relação ao mundo. Isso também explica como, mesmo atuando de forma dogmática e submissa, eles se sentirão superiores a qualquer outro que está fora do grupo. Decerto os escolhidos capitalizam muito bem, mas como os recursos são finitos, a maior parte receberá a ilusória sensação de “ser algo mais” do que o resto da humanidade e isso lhes basta. É assim que cultos conseguem ir avançando os interesse de seu guru e seus escolhidos.

Processos e conteúdo

Essa estrutura toda se move principalmente por conteúdo, mas ele não funcionaria adequadamente se não fosse um processo. No caso do processo, falamos de como a mensagem é entregue. Em relação a conteúdo, é o que alguém diz. Importante, para o guru, é saber se cada mensagem dita (o conteúdo) está em linha com o processo estabelecido por (como a mensagem é entregue). Obviamente, este processo deve estar alinhado a um objetivo.

Nessa linha, Oliveira realmente impressiona e criou um verdadeiro sistema filosófico que é descrito em 68 livretos, que ficam entre 100 e 250 páginas, escritos deste 1985. Tecnicamente é um sistema filosófico que diz refutar quase tudo que foi produzido na filosofia iluminista. Como veremos nos capítulos 5, 6, 7 e 8, a doutrina é basicamente falsa e o sistema filosófico é piada no meio acadêmico. Mas seus adeptos acreditam, pois são orientados a acreditar que os filósofos da academia atual e os estudiosos da Nibéria, nas academias, são adeptos do marxismo, satanismo, pedofilia, globalismo e, portanto, querem tirá-los “do caminho”. Segundo Oliveira, tudo que dizem é falso.

O que estamos vendo aqui é um conteúdo que atende a um processo – manter a imagem do líder em alta, reduzir a capacidade de questionamento, aceitar a autoridade e adotar uma ideologia política autoritária – que se manifesta através de mensagens. É um processo de bombeamento contínuo.

É por isso também que, nas redes sociais, Oliveira escreve entre 30 a 100 mensagens por dia. Quase nada é aleatório, pois sempre atende a um processo com objetivo claro. Por exemplo, um de seus pupilos, Pio, foi exonerado em um ministério. Isto motivou Oliveira a escrever diversas mensagens atacando o suposto culpado pelo seu percalço, Habimana. Essas mensagens, promovidas diariamente duas 3-4 dias, foram feitas para rotular Habimana como se fosse um marxista, satanista, pedófilo, globalista e, portanto parte de uma conspiração para tirar “a nova elite cultural” do poder.

Com isso, Pio, seu pupilo, foi ajudado e Habimana foi demitido. Embora todas as mensagens eram puramente inventadas, além de serem baseadas em teorias da conspiração, seguiram a lógica dos gurus, que criam todo e qualquer conteúdo com base em um processo que deve atender a um objetivo. Muitas vezes o conteúdo é circular, repetitivo (e deve ser assim), mas, em ritmo bate-estaca, serve para que os membros fiquem empolgados diante de seus objetivos.

Resumo

Num resumo do que vimos aqui, falamos de seitas políticas e, para sermos bem específicos, com foco na atuação online. Isso nos levará a uma abordagem mais arrojada. Entendemos a estrutura desse tipo de culto, principalmente na lógica do guru, de seus escolhidos, alunos e a massa de seguidores, além de sua relação com os núcleos de poder e o público, incluindo aliados e inimigos. No pilar do culto, vemos que tudo se direciona à exploração dos membros pelo guru, que, em troca, deve se esforçar ao máximo para garantir que eles tenham um senso de elitismo, sem o qual não se sentirão especiais. Isso dependerá de um alto nível de narcisismo do líder, que contagiará a tropa. Toda a comunicação deve ser desenhada para atender aos objetivos do guru. Sendo assim, não há comunicação “descompromissada”, mesmo que esteja travestida de análise filosófica. A falsa complexidade do esquema pode ser utilizada para alimentar algumas necessidades psicológicas do time.

Nos próximos 2 textos dessa série, vamos entender como funcionam os processos de submissão e, depois, os processos de manipulação de emoção. A partir de agora, cada texto também virá acompanhado de um pacote de rotinas utilizadas para cada um dos itens. É nessa linha que o próximo texto falará de submissão.

Continua em A Arte da Seita Política – 3 – Submissão

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5 comentários em A Arte da Seita Política – 2 – Dinâmica

  1. A expensão e crescimento do culto, bem como a popularização de algumas de suas doutrinas (antes vistas como inovadoras, agora comuns) não criaria dificuldades em manter o senso de elitismo?

    • Sim, este é um risco. Falarei mais disso no sexto capítulo, sobre a doutrinação e a contínua retroalimentação. O detalhe é que, mesmo diante deste risco, alguns tendem a se fechar ainda mais, e pode ter um momento em que o culto se reduz em tamanho.

  2. o olavismo é assustador pq eles estão no nível da extrema-esquerda em conhecimento de guerra política/assertividade/etc, mas actually sabem usar a lógica e entendem os interesses da população (diferentemente dos comunas)

    a esquerda foi dizimada nas eleições pq defende bandeiras absurdas e claramente nocivas à sociedade (feminismo, luta de classes, estatismo). e o povo sempre soube que essas ideias eram merda, mas votavam anyway pq literalmente não havia candidatos sérios além dos petistas

    como os olavistas, com sua agressão implacável, monopolizaram o ataque ao esquerdismo, a população acha que eles são os verdadeiros heróis. enquanto os liberais perderam espaço e reputação, por serem menos assertivos, e hoje são até taxados de esquerdistas (!) quando fazem uma oposição moderada ao olavismo. só veja o que aconteceu com Kim Kataguri

    ao meu ver, não tem nenhum outro grupo que possa contestar os neocons politicamente. só resta torcer para que eles não consigam poder suficiente para transformar o Brasil numa Hungria

    • Espero não estar subestimando, mas acredito que os neocons não possuem inteligência o suficiente para se perpetuarem por muito tempo no centro das atenções. O Nando Moura por exemplo, que é um neocon bastante influente, está com a relevância bem baixa. É óbvio que seus bajuladores continuam aos seus pés pedindo por ordens, mas ele está tendo que recorrer às estratégias antigas de arrumar briga com pessoas mais influentes que ele (a mais recente é o Padre Fábio de Melo) para ver se assim chama atenção novamente.
      Ninguém aguenta chapa brancas por muito tempo. O canal dele virou uma assessoria de imprensa do Bolsonaro, só serve para puxar o saco do governo. Já passou vergonha nessas pois como o governo Bolsonaro é baseado no falar “A” de manhã e negar com todas as forças o mesmo “A” de tarde, Nando Moura já fez vídeos tirando leite de pedra para defender alguma decisão anunciada do governo que logo em seguida o governo voltou atrás.
      Acredito que ninguém aguenta por muito tempo essas táticas manjadas deles de inventar inimigos e viver de xingar. Claro que sempre haverão os servis, mas creio que cada vez mais pessoas saíram dessa Matrix, digo isso por já ter presenciado bastante disso acontecer.
      Mas isso não significa em momento algum que devemos deixá-los fazendo seu freak show e não desmascarar nem atacar, muito pelo contrário.

  3. Ai-5 censura geral e irrestrita. // 12 de abril de 2019 às 11:15 pm // Responder

    Eu concordo com o juliano ayan, só a censura pode “cercar” o caminho certo.

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