A Arte da Seita Política – 3 – Submissão

Continuação de A Arte da Seita Política – 2 – Dinâmica

Neste terceiro texto da série “A Arte da Seita Política” o objetivo é compreender o fenômeno da rendição, mecanismo sem o qual nenhuma seita se sustenta.  Queremos saber o que faz pessoas adultas tratarem outras pessoas adultas de forma completamente submissa e reverencial, lembrando a relação entre pajés e índios. Em sociedades tão propícias a difusão do conhecimento isto se torna ainda mais alarmante, pois o modelo de seita reverencial segue operando mesmo diante de alto volume de conhecimento para não sucumbirmos. Se assim o é, pode ser preciso detalhar a coisa um pouco mais.

Antes de começarmos, convém limpar o território e sanar duas dúvidas apontadas no texto anterior. Primeiramente, alguém questionou a definição de “culto online” e se isso não diverge um pouco das táticas de isolamento físico dos cultos tradicionais. Na verdade, o “culto online” é apenas uma forma moderna dos cultos tradicionais, pois a única diferença do primeiro é que não existe a restrição física direta. Todavia, a exposição das pessoas nas redes sociais praticamente habilita o mesmo tipo de restrição vista em muitas seitas tradicionais.

Faltou clareza também quanto a diferença entre “culto” e “seita”, mas por aqui os dois termos são tratados como a mesma coisa (vários autores divergem nesse sentido, mas não é nada muito problemático). Claro que não estamos esmiuçando fenômenos como o culto a Star Trek, o culto aos filmes da Marvel ou o culto às motos Harley Davidson. Focamos em estruturas extremamente rígidas e hierárquicas com base na exploração, por parte de um guru, e um inabalável senso de elitismo, por parte dos membros, com todos os riscos sociais advindos, como comportamento antissocial, autoritarismo, extremismo político, desengajamento moral, divulgação de teorias da conspiração e daí por diante.

Em relação à “rendição”, faremos algo diferente neste texto ao enfatizar a análise em um livro específico, “The Guru Papers”, escrito por Joel Kramer e Diana Alstad. A razão para isso é que – diferentemente dos demais livros sobre seitas – este se dedica basicamente a estudar a associação entre a mentalidade autoritária e a estrutura das seitas. Nos demais livros, isso é considerado um no meio de vários aspectos. Mas Kramer e Alstad discordam: o modelo autoritário de pensamento está no cerne da submissão de alguém a seitas. Neste caso, submissão mental acontece quando alguém aceita que uma única fonte determine tudo no que alguém deve acreditar. Submissão e rendição serão adotados de forma similar aqui, pois a rendição psicológica é uma forma de submissão sugestionada psicologicamente.

Pense no caso de um leitor de filosofia, discutindo vários autores e julgando-os por sua relevância, mesmo tendo preferência por um deles. Não há submissão nisso. Em outro caso, considere um sujeito que se rende a um filósofo em especial, recusando-se até a ler autores que o contradigam. Neste caso, temos um exemplo claro de submissão intelectual. Em todo e qualquer aspecto da realidade, gurus dependerão da submissão plena de seus adeptos e isso pode incluir não apenas questões intelectuais como espirituais. É nesta submissão que o guru explora todos os interruptores da mente de seus adeptos, movendo-os na direção em que desejar, sem o menor senso crítico por parte de seus alvos.

A raiz da submissão

Na base do ser humano, está a capacidade criativa, motivando-a na investigação do mundo, onde cria hipóteses e compartilha seu conhecimento com outros. Falar em criatividade é também falar em exploração da realidade, onde interagimos com os outros. Para que isso seja feito, as pessoas precisam acreditar em si próprias, cientes de que suas opiniões e ideias importam. Em termos simples, ela decide participar do mundo.

Evidentemente, este processo é repleto de tropicões, mas tudo isso é parte do aprendizado. É pela exploração que as pessoas questionam leis vigentes e reclamam dos políticos. Dispostas a apresentar suas próprias ideias, vão monitorando as respostas dos outros para avaliar se estão no caminho certo ou mesmo abrindo novos caminhos.

Eu não estou dizendo aqui que os filtros mentais relacionados à criatividade e exploração do mundo são adequados a todos os momentos da vida. Por exemplo, quando estamos aprendendo sobre como a elaboração de uma tese científica e nem temos noção de como funciona o método científico, é melhor esperarmos para entender a estrutura de apresentação de uma tese antes de falar bobagem. No melhor dos cenários, devemos nos submeter conforme nossa conveniência, mas apenas em situações específicas até nos sentirmos prontos a explorar o mundo.

Por outro lado, a estrutura de “guru -> discípulo” não é aberta à exploração, nem que a vaca tussa. Teses, conceitos e dogmas propagados pelo guru não são questionados. Tudo começa quando o guru, por diversas vias, retira toda a crença que as pessoas têm em si próprias, sujeitando-as à manipulação. Em relação a Oliveira Citiwala, um de seus alunos/discípulos, Joseph Matunde, relatava o seguinte em um texto publicado em seu blog:

Minha vida mudou completamente após conhecer Oliveira, pois eu não sabia absolutamente nada a respeito da associação do marxismo e do globalismo com as crenças vudu inseridas na cultura niberiana. Hoje eu entendo como fui tão iludido por tanto tempo. Meus olhos se abriram e não posso mais deixar de notar que, sem Oliveira, eu seria um cego prestes a cair da ponte a qualquer momento.

O que mostra este relato? Mostra que, em um certo momento, foi retirada do discípulo toda sua autoconfiança para que, aos poucos, ele fosse confiando numa fonte única que lhe daria pouco a pouco a confiança de que ele necessitava. Isso cria a sensação de dependência do guru, que deve ir alimentando-o continuamente com pílulas de conhecimento.

Como você deve se lembrar, o texto anterior mostrou que o guru se baseia na exploração de seus discípulos. Em troca, estes discípulos devem sentir o clima de elitismo ao se submeter a ele. Porém, se o guru aceitar dividir espaço com outros pensadores ou pessoas de seu ramo de atuação, esta submissão não ocorrerá. Para que essa doutrinação prossiga, dia após dia, existe um processo, com objetivo claro, e um conteúdo que deve estar em linha com este processo.

No plano do guru, certamente está a submissão intelectual de seus adeptos. Exatamente por isso, diariamente ele precisa rebaixar toda e qualquer outra fonte de conhecimento externo, de modo que seus adeptos se sintam especiais por estarem recebendo informações da verdadeira fonte de conhecimento, ou seja, o próprio guru. É por isso que todos os dias Oliveira posta em suas redes sociais mensagens deste tipo:

Toda a academia niberiana não tem a menor condição de avaliar uma única linha de meus escritos, pois não sabem compreender absolutamente nada. Eu, apenas eu, trouxe o conhecimento da verdadeira direita niberiana ao país. Eu, somente eu, sei exatamente os motivos que levam as pessoas a serem vítimas dos vampiros marxistas. Além de mim, ninguém sabe como demolir todas as estruturas que unificam globalismo e marxismo para sugar as almas de vocês.

Diariamente, isso é repetido em ritmo bate-estaca, como parte da doutrinação. Mas quando a pessoa que nunca conheceu os escritos e textos de Oliveira encara isso da primeira vez, a sensação é a que se espera, caso acredite nestas palavras: a completa retirada da autoconfiança do sujeito. Em essência, ele é manipulado a se sentir como aquele que “não sabe nada” e, portanto, vai aprender com aquele que tudo sabe. Este processo inicial é um tanto fascinante para aqueles que adentram à seita e traz profundo impacto emocional, pois alguém é jogado imediatamente para baixo para, aos poucos, ser puxado de volta para cima, mas isso só irá acontecer se ele estiver junto com o guru.

Observadores externos costumam se impressionar com as mensagens de Oliveira, sempre arrogantes, mas a verdade é que sem essa arrogância (geralmente simulada) ele não conseguirá adequar seu conteúdo ao processo de submissão. É por isso que não haverá uma discussão real do conteúdo do mestre. Em vez disso, ele massageará diariamente seu próprio ego para causar a sensação nos discípulos de que sua nova ovelha está diante da única e absoluta fonte do conhecimento final.

Em resumo, a retirada da autoconfiança do adepto, principalmente na fase inicial, é pré-condição para que ele esteja sujeito à manipulação, principalmente ao fazê-lo deixar de acreditar em si próprio. Isto descreve exatamente a brecha para imposição da mentalidade autoritária do guru: a fratura da autoconsciência e da autoconfiança de seus adeptos.

Estudar o autoritarismo em cultos é estudar a manutenção e obtenção do controle da mente. Gurus sabem como explorar isso, primeiramente por dominar o uso do viés da conformidade social, como podemos ver no vídeo abaixo, para facilitar tudo:

Aos poucos, teremos mais detalhes de como isso funciona. Por enquanto, precisamos ter em mente como qualquer forma de autoritarismo ideológico é baseada em mecanismos pra promover quebra da autoconfiança e exploração das pessoas que agora estão sujeitas à manipulação.

Para que isso cole, a pessoa deve acreditar que a mudança pela qual ela passará vem de uma pessoa com acesso especial ao conhecimento. Desse modo, pessoas que exigem validação do conhecimento não são vistas com bem-vindas. Se o guru usar uma teoria da conspiração e o adepto pedir fontes específicas – que não existem -, ele poderá ser rapidamente “enquadrado”. Como se sabe, pessoas receosas de entregar as fontes para suas alegações costumam ter interesses investidos e é claro que o guru não quer que a exposição destes interesses.

Mentalidades que rejeitam formas autoritárias de poder costumam ser um problema para estes gurus, dado que a própria estrutura mental autoritária é necessária para que o processo funcione. Olhando para os discípulos, falar em estrutura mental autoritária é falar de alguém que exige que os outros se rendam ao mesmo guru ao qual ele se rendeu. Tudo isso enquanto ele segue submisso ao guru. É por isso que podemos dizer que membros de seita são como escravos psicológicos que se irritam ao ver pessoas livres.

Estruturas assim são hierarquizadas, mas geralmente isso é feito de forma arbitrária. Não estamos tratando aqui da hierarquia militar ou da hierarquia empresarial ou mesmo da hierarquia de conhecimento nas academias (por exemplo, onde um bacharelado pode se converter em mestrado para somente depois em um doutorado). Tratamos de estruturas hierárquicas que não são discutidas e validadas externamente. Por exemplo, há uma hierarquia entre pai e filho, o que é naturalíssimo. Submeter-se a um guru da forma que uma criança pequena se submete a autoridade do pai já é uma hierarquia injustificada.

Uma vez que alguém aceite este tipo de situação, a própria fragilidade na autoconsciência ajuda a ignorar como o poder flui pela hierarquia. Não demora para testemunharmos casos de complacência moral, onde certo e errado deixam de fazer sentido. São momentos o discípulo acha mais importante proteger a ideologia para justificar a hierarquia do que argumentar racionalmente.

Hierarquia significa apenas uma forma de estruturar o poder, como vimos no texto anterior com a cadeia iniciada no guru, seguida pelos escolhidos, passando pelos alunos e, por fim, chegando à massa seguidora. Autoridade é a forma de exercer o poder, o que não necessariamente significa autoritarismo. Já quanto ao autoritarismo, este é um modo de se exercer a autoridade na hierarquia para cercear questionamentos e objeções, geralmente punindo quem meramente discute esta autoridade. A partir do ponto em que as pessoas aceitam a crença de que devem obedecer sem questionamento para receberem benefícios (muitas vezes, apenas psicológicos) por estar na seita, isto é autoritário.

Historicamente, as relações humanas autoritárias ampliam as chances de que os detentores do poder em nível mais alto explorem as pessoas que estão embaixo. Tal como em qualquer sistema de governo autoritário, são utilizados prêmios e punições, manipulação da culpa, exploração da vergonha alheia e até fornecimento de perdão (para aqueles desgarrados que desistiram de questionar), como forma de “ensinamento”.

Como parte de um autoritarismo inconsciente, algumas pessoas buscam pelos salvadores conforme o hardware humano. Assim que identificamos uma relação “guru > discípulo”, notaremos como isso é uma forma de autoritarismo extremo. Para o discípulo, o guru não é mais visto como um exímio intérprete da realidade, mas alguém capaz de alterá-la, quase como se fosse um Deus na Terra. Se as religiões fornecem propósito, identidade, comunidade e significado, falta a elas a presença de um guru, que, em Terra, deve fazer as pessoas se submeterem.

Voltando-nos ao exemplo de Oliveira, ele coloca a religião como parte fundamental de seu sistema, mas apenas porque suas teses perderiam sentido sem este componente religioso. Por esse motivo, Oliveira chega a rejeitar o conceito de Estado Laico, definindo que sua interpretação sobre a Igreja Católica é a única aceitável.

Mas por que os gurus levantam tantas emoções? Isto porque, como animais sociais, existe uma predisposição humana a se submeter a uma autoridade como parte do processo de alinhamento a um grupo social. No pertencimento a um grupo de “ungidos”, surge uma paixão extrema por aquele que fez sua “conexão” com o culto. Por essa razão, a submissão a um guru é uma das mais poderosas formas de controle mental disponíveis atualmente. Depois que alguém passa a aceitar que um único ser humano sabe fundamentalmente o que é melhor para os outros, começa um processo autoritário. Se isso é aceito, abre-se uma cadeia de padrões inevitáveis que o submeterão à exploração.

Como veremos a partir de agora, boa parte deste autoritarismo é ensinado, resultante de uma vontade interior de obedecer a alguém ou algo percebido como mais poderoso ou moralmente superior ou de maior conhecimento. Esta forma de submissão deve ser vista como “uma virtude”. A seguir entenderemos como esse processo se origina desde a infância, o que deixará clara a sedução encontrada na submissão.

A sedução da submissão

A raiz da submissão está na infância, era em que as crianças se sentiam superpoderosas, isto é, como o centro do universo. Crianças pequenas não se preocupam com seu futuro e não se arrependem do que fizeram no passado, além de não se preocuparem com a morte. Nessa época, as crianças sabem que seu poder também depende do suporte de alguém que as guie, conforme a figura do pai. Estados mentais deste tipo ficam registrados no subconsciente, gerando forte emoção.

Especialmente se a vida da pessoa adulta for repleta de percalços, pode surgir a necessidade de um “retorno” a esse estado já conhecido. Nem é preciso dizer que essa sensação é subconsciente, pois qualquer pessoa ficará enfezada se você lhe contar que ela está apenas recobrando sensações infantis.

Se na infância a criança acha que pode tudo, sempre se baseando em uma autoridade, isso também ocorre por questões de sobrevivência. Se as crianças não se submetessem à autoridade dos pais ou de professores, seriam presas fáceis em um mundo cruel.

Isto deixa registrado no cérebro o viés de autoridade, que é a tendência de atribuir maior precisão às opiniões de uma figura de autoridade e aumentar a predisposição de se deixar influenciar por ela. O poder desse viés é tão grande que estudos sobre ele deixaram o mundo estarrecido em 1961 quando Stanley Milgram realizou seus experimentos mostrando que 75% das pessoas dariam um choque letal em alguém caso fossem orientados por figuras percebidas como autoridade. Uma boa referência para leitura é o livro “Obedience to Authority: An Experimental View”, escrito pelo próprio Stanley Milgram em 1974. Mas para os apressados, o vídeo abaixo (de apenas 8 minutos) explica bem o processo:

Observe que nem sempre o viés é problemático, principalmente em estruturas não autoritárias. Por exemplo, é normal respeitarmos a autoridade de um acadêmico conhecido. Por outro lado, um tanto de ceticismo nos fará comparar seu material com o dos outros. Se podemos considerar que um filósofo nos traz uma nova perspectiva sobre um tema, também somos capazes de comparar sua filosofia com a dos outros.

Não estamos aqui questionando a existência das figuras da autoridade e sua importância, mas a submissão sem questionamento a elas. A preocupação está principalmente na utilização de sistemas conceituais nos dizendo que a submissão à autoridade deve ser total, distante dos relacionamentos típicos da fase adulta, mas próxima das sensações da fase infantil.

Ademais, quando alguém se entrega a uma autoridade que lhes diz o que é certo isso pode fazê-lo se sentir mais virtuoso. Tão logo você esteja confuso e em conflito, dizem Kramer e Alstad, “a conformidade com a programação pode fazer com que você se sinta imediatamente melhor”.

Assim como acontece com as crianças, o ato de obediência deve parecer desinteressado, com isso operando em um nível profundo. Similarmente a como as crianças são elogiadas pela obediência, podem ser chamadas de egoístas quando desobedecem. Por conseguinte, quando alguém se entrega a uma autoridade e depois é recompensado por isso irá sentir novamente as poderosas sensações da infância.

Ao buscar forçar ou sugestionar a submissão a autoridade de forma sistemática, o guru visa fazer o discípulo sentir os estados mentais existentes na infância. Por esse princípio, deverá criar uma imagem similar a de um “pai” ou “mestre”, capaz de levar a pessoa de um estágio a outro, devendo ser visto como elemento impulsionador para que a pessoa ultrapasse qualquer fronteira. Isso vale tanto para gurus espirituais ou filosóficos, mas eles podem misturar as duas coisas.

No sistema filosófico de Oliveira, a coisa é simples, mas todos elementos são incorporados para discutir todo e qualquer aspecto da vida da pessoa, de forma que seus alunos o consideram um conselheiro para toda a vida. Oliveira discorre sobre como as pessoas devem seguir sua carreira, como devem estudar, como devem tratar suas relações pessoais, como devem ambicionar as coisas e, é claro, como interpretar sua filosofia. Todas as narrativas são manufaturadas ele ser visto como uma figura paternal.

Não causa espanto algum que Oliveira tenha criado a imagem de “pai da direita niberiana”, mesmo que seja apenas um de seus estudiosos pelo país. Se na Niberia existem diferentes setores ideológicos, mesmo assim Oliveira alega que todas as ações da direita niberiana não existiriam se não fosse sua influência. Ajudou-o nesse sentido o uso de um slogan – “Oliveira acerta sempre” – que seus discípulos utilizam como um mantra. Por que isso? É que funciona para que a sensação de uma figura superior se conecte com as expectativas carregadas desde a infância.

Muitas vezes a pessoa se sente infeliz em seu trabalho, mas retorna às sensações infantis ao assistir as aulas de Oliveira, quando se sente próximo a uma figura de conhecimento descomunal, a quem encara como um “pai”, alguém que nunca erra e que certamente o levará a um futuro melhor. O discípulo começa a ouvir as orientações de Oliveira para todo e qualquer aspecto de sua vida, mudando seu comportamento, suas relações e seu modo de ver a vida.

Isso não iria funcionar nem um pouco caso Oliveira não tivesse criado, a partir de muito trabalho e narrativas ficcionais, a ideia de que “nunca erra”. Evidentemente, essa imagem seria quebrada se ele encarasse seu trabalho como qualquer outro filósofo, o que abriria as portas para a comparação com os outros. Em vez disso, cria a imagem de que ninguém em seu país é capaz de entendê-lo em sua profundidade.

Tão profundo é este efeito que várias vezes seus discípulos dizem que “Oliveira acerta sempre” a respeito de um tópico, mas ao serem instados a dar detalhes não conseguem sequer citar a referência. Ficou famoso o caso de um evento ocorrido na capital niberiana, onde um jovem, Marcelo Niyonagira, palestrou durante 10 minutos sobre como Oliveira interpretou adequadamente a filosofia de Maquiavel, refutando-a por completo. Questionado a respeito de uma parte específica dos trabalhos de Maquiavel, não conseguiu citar nenhuma, pois não havia lido nem uma página.

Este é um claro exemplo de crença cega na autoridade do guru. Mesmo que passem por situações constrangedoras como essa, muitos dizem, quando questionados, que estão “sempre estudando e aprimorando” seu conhecimento, mas, curiosamente, este conhecimento não é comparado com outras fontes. É assim que o clichê “Oliveira nunca erra” é aceito.

Em outras situações, temos o viés da confirmação, que pode ser consultado em várias fontes, entre elas o livro “The March of Folly: From Troy to Vietnam”, de Barbara Tuchmann. Basicamente, isto significa interpretar ou favorecer uma informação que já se adequa à uma crença existente. O vídeo abaixo, de apenas 4 minutos, pode ajudar no entendimento deste bug da mente:

Por óbvio, este efeito é maior para as crenças de maior profundidade emocional, mas, sob questionamento, o apego ao guru pode até aumentar. É exatamente esta profundidade que é explorada na imagem de um “pai” ou “mestre”. Assim, para que a pessoa sinta as emoções mais profundas, recuperando sensações de sua infância, é preciso:

  • Uma figura de autoridade (como um pai ou mestre, ou ambos)
  • Noção de que o discípulo tem muito poder para ser libertado, mas apenas com base nesta figura de autoridade
  • Entregar toda a orientação, em diversos aspectos, como se fazia na infância
  • Entendimento de que ele irá superar limites que os que estão de fora não superarão

Conjuntamente, todos esses itens devem estar presentes na relação “guru -> discípulo”. Sempre recobrando estados emocionais infantis, isso ajuda a entender porque muitas pessoas se seduzem por sistemas autoritários. Se isto é previsível, também é fato que a ação de rendição psicológica em cultos também obedece a padrões previsíveis, pois tratam de aspectos da vida humana, independentemente de a qual cultura alguém pertença.

Decerto as pessoas ficarão irritadas diante desta constatação: é que a decisão de submissão é principalmente emocional e subconsciente. Na busca pelo retorno a um estágio em que pode ambicionar qualquer coisa, que pode tudo, que há alguém que o oriente nesse sentido e que há alguém pronto a leva-lo pelos braços ao futuro ambicionado, surge a “faísca” gerando a paixão irracional de um discípulo pelo guru. Tendo ultrapassado este ponto, começa a girar a esteira da exploração. Igualmente é um truísmo lembrar que, se a vida atual da pessoa tiver mais problemas, o contraste com essas emoções tende a ser ainda maior.

Quando observamos alguém se vangloriando exageradamente dos feitos de seu guru, com base em fantasias, no fundo a pessoa está protegendo suas próprias emoções, que podem ser quebradas a cada vez que a autoridade do guru é desafiada. Se esta autoridade é quebrada, todos os elos da cadeia se quebram, ou seja, pela ótica do discípulo, tendem a cair ideias como a de que ele próprio tem muito poder a ser exercido, que está no caminho acerto e que irá superar os limites. Para ele, conhecer as falhas de seu guru é algo muito pior do que ouvir que seu filho é burro. Também é por isso que discípulos podem entrar em surto diante dos críticos do guru.

Iluminismo

Se há algo de que gurus não gostam é o período Iluminista, época de extremo questionamento à autoridade. Isso não muda o fato de que o próprio iluminismo ajudou a promover algumas crenças falsas, mas também instilou a ideia de que autoridades espirituais, morais e políticas deveriam ser questionadas.

Todavia, não foram os iluministas que deram o pontapé inicial nessa era de questionamento, mas os protestantes. Com a Reforma Protestante, Martinho Lutero rejeitou a ideia de que deveríamos nos submeter a uma única autoridade na interpretação da Bíblia. Na época, era a Igreja Católica, que usava este poder para sustentar os monarcas no trono. Para se ter uma ideia, os sacerdotes, aliados ao rei, usavam até a regra contra a usura para convencer as pessoas a aceitarem a limitação da atividade comercial. Uma hora alguém ia atinar para esse detalhe, e assim Lutero o fez. Outros pontos também foram observados em sua reforma.

Com o estabelecimento do Estado Laico, grupos religiosos específicos perderam vida fácil no uso do estado para impor sua religião aos outros. Observe que isso não é dizer que a Igreja Católica era autoritária por si própria, mas que em certos períodos históricos aliou-se ao poder convertendo sua ação em autoritarismo religioso. O surgimento do Estado Laico desafiou este tipo de autoritarismo, dependendo do questionamento à autoridade, afirmando que poderiam haver outras interpretações da Bíblia e que não havia mais uma única autoridade para dizer qual era a interpretação correta.

Pela dinâmica social, o Iluminismo é apenas a sequência da Reforma Protestante, mas agora levado para demais aspectos da vida política. Consequentemente, não era apenas a autoridade religiosa entrando na alça de mira dos questionadores, mas também o direito hereditário dos reis, o sistema monárquico como um todo, as restrições dos direitos individuais e daí por diante. A requisição por direitos iguais, independentemente de religião, etnia ou sexo, se tornou base das ideias iluministas.

Não importa aqui tratar possíveis críticas filosóficas a certos pensadores iluministas (e elas existem aos borbotões), mas é importante observar a mudança gerada na sociedade. Boa parte dos religiosos aceitou bem essa mudança e até podemos dizer que o Ocidente não é caracterizado apenas por uma cultura religiosa, mas pela união desta cultura com a abordagem iluminista para a política.

Isso modificaria toda a cadeia de conhecimento, especialmente com base no questionamento à autoridade. Não demoraria para trabalhos científicos passarem a ser disponibilizados para serem contestados não por apenas alguns eleitos, mas por todos que quisessem consulta-lo. A estrutura de conhecimento sairia das mãos de alguns poucos sábios e mestres, indo para as academias. Bacharéis, mestres e doutores passariam a adotar métodos para validar suas publicações e teses. Nas universidades e demais ambientes de ensino, até mesmo elementos de validação do conhecimento seriam utilizados a rodo.

Surgido nos anos 50, um desses métodos é a Taxonomia de Bloom, utilizada por muitos cursos universitários. Uma fonte é o próprio livro de Benjamin S. Boom, “Taxonomia dos objetivos educacionais” (vols. 1 e 2), lançado no Brasil. Em um esquema de seis níveis, cada assunto integrado à grade de ensino de um curso pode ser descrito em escala de 1 a 6. O vídeo abaixo, de 5 minutos, explica bem como funciona:

Considere o que já temos nesse ambiente pós-iluminista: questionamentos às autoridades infalíveis, uso do método científico, esquemas de validação de conhecimento (ex. Taxonomia de Bloom) e afins. Obviamente, ficou bem difícil para que os antigos “mestres” se tornassem detentores de todo o conhecimento, já que o próprio conhecimento deveria ser testado e comparado aos outros. Quer dizer: um professor universitário poderia ser comparado a outro que seguisse a mesma grade de ensino. 

O que sabemos que é esse tipo de ambiente se tornou mais propício para as democracias modernas. Naturalmente, a própria democracia é fragilizada vez por outra, mas já nos acostumamos a entender o valor de um sistema democrático, de um ambiente de validação de conhecimento, do uso do método científico e demais aspectos inerentes à sociedade ocidental.

A verdade, porém, é que mesmo nesse cenário ainda temos enraizado no hardware humano a disposição para aceitar estruturas mentais autoritárias. É assim que, mesmo na época atual, gurus fazem a festa na mente de discípulos na exploração desses sentimentos enraizados. Seja lá como for, há uma clara “rixa” entre gurus e esses modos de conhecimento adotados após o Iluminismo.

Não é por outra razão que o sistema filosófico de Oliveira foi estruturado para dizer que filósofos modernos como Kant, Descartes e quaisquer outros que tiveram muita influência no Iluminismo (e depois) são falsários. Faz isso criando uma interpretação bizarra dos escritos desses autores, pois é preciso sugestionar os discípulos a rejeitarem as estruturas conceituais iluministas. É por isso também que rejeitam teorias científicas estabelecidas. Oliveira chegou ao de promover a teoria da terra plana e dizer que Albert Einstein e Niels Bohr eram completos charlatães. Como detalhe, o passado curricular de Oliveira é omitido. Como ele mora na França (de onde ensina seu curso online), é difícil para as pessoas conseguirem dados a respeito de sua formação acadêmica, mas uma coisa é certa: ele jamais apresentou títulos acadêmicos.

Observe que Oliveira depende do aceite de uma estrutura autoritária, pois a própria seita política é autoritária em essência, além do relacionamento “guru > discípulo” ser autoritário. Se os seus alunos perderem muito tempo valorizando autores iluministas, discutindo seriamente teses científicas e respeitando o ambiente acadêmico, não estarão tão submissos a ele. Por isso, Oliveira os orientou a acreditar que todas as universidades da Niberia não produzem conhecimento algum.

Entre as informações falsas, divulgou que 87% dos estudantes universitários niberianos eram analfabetos funcionais. Ao ser refutando várias vezes por essa afirmação – dado que o número real era de 11% -, Oliveira sempre queria matar o mensageiro, soltando cobras e lagartos para cima dos questionadores.

A rejeição a estruturas conceituais adotadas no Iluminismo, então, é uma forma pela qual o guru mantém sua aura de dono do conhecimento superior, sem a qual ele não terá a submissão de seus adeptos. A ideia relativista de que o conhecimento pode evoluir continuamente incomoda muito os gurus, que precisam ter a palavra final. A mera noção de que um professor pode ser comparado a outro é intolerável para ele. Pensando nisso, Oliveira criou um curso que não tem fim e nem ementas disponíveis para consulta. Pedir para avaliar o conteúdo do curso pela Taxonomia de Bloom? Nem pensar.

Em vez disso, Oliveira instrui seus alunos a abandonarem as conexões mundanas com o “conhecimento inferior”. Basicamente, o aluno deve se sentir mais apto a obter um conhecimento “superior” a partir do guru pela rejeição a fontes de conhecimento vindas da universidade, da pesquisa acadêmica e daí por diante. Funciona quase como fazem outras formas de seitas místicas, sempre com “ciência alternativa”, pois a questão não é discutir as teorias em si, mas aceitar um modo de pensamento alheio às formas de validação de conhecimento por outras partes.

Esta validação de conhecimento é o que colocaria o guru em comparação com vários outros. Nenhum guru de ensino vai querer que suas ementas sejam todas comparadas por outros professores. Evidentemente, suas teses não poderão ser comparadas com outras teses acadêmicas. Se isso acontecer, sua autoridade será quebrada e ele terá que dividir a autoridade com os outros. Se fizer isso, não conseguirá mais submeter seus discípulos que, como já vimos, dependem de considera-lo extremamente superior a qualquer outro ser humano da era presente.

A vontade de se submeter

Uma cadeia de submissão depende de duas partes, pois o poder é sempre relacional. As pessoas não possuem poder, mas sim “poder em relação a (x)”. No caso do relacionamento entre gurus e discípulos, o guru deve controlar seus discípulos, enquanto estes devem se render.

Nas relações humanas tradicionais, o melhor dos cenários é que ambas as pessoas possuam níveis de controle em suas vidas de acordo com as possibilidades legais e restrições de ambiente. Por exemplo, todos podem escolher que livros querem ler (ao menos em suas horas de lazer), que filmes deseja assistir e que argumentos vai adotar. Isso significa controle. Obviamente, temos vieses da mente, mas podemos duelar com eles.

Numa estrutura tradicional, poderemos ter vários estudantes de filosofia com influências diferentes, que vão discutir um assunto. Muito provavelmente, cada um escolheu as obras que quis ler, as influências que selecionou e qual o nível de valor dado a cada. Quando essas pessoas discutem, há uma grande troca de conhecimento, que muitas vezes é livre.

É o contrário do que ocorre na estrutura “guru > discípulo”, quando o primeiro determina até os livros que cada um deve ler, incluindo a ordem em que isso deve acontecer. Não surpreende que seja normal observar membros de uma seita citando sempre os mesmos autores, como se não existissem backgrounds diferentes. Quase sempre serão autores referenciados pelo guru. Nas seitas místicas, é a mesma coisa. A busca de conhecimento e experiência é sempre feita de forma a limitar as opções do discípulo.

Novamente, isso tem mais de uma razão, sendo uma delas dificultar a aquisição de conhecimento que possa contestar sua imagem de infalibilidade. Outra é a capacidade de sugestionar as conclusões as quais seus adeptos devem chegar. No elo mais fraco (o do discípulo), estes sempre ávidos por recomendações culturais dadas pelo guru. Elas farão isso porque querem seguir seu modelo e aprender o que ele aprendeu, mesmo nutrindo a crença de que ele é insuperável.

Oliveira diz que seus alunos devem ler no mínimo 100 livros por ano. Muitos não conseguem. Outros superam esse número, mas geralmente vão atrás dos livros que estão na lista daqueles indicados por ele. Nos chats e bate-papos costumam comentar sobre os livros que leram e, é claro, como chegaram às mesmas conclusões que o guru.

Sem surpresa, na trilha para a submissão alguém deve se render às influências, sugestões e orientações diversas de alguém que considera mais sábio. Um guru mais hábil tratará de criar toda uma linha de indicações de modo a preencher a mente de seus adeptos, que dificilmente buscarão outras fontes que o contradigam. O que importará, para eles, é que estejam seguindo o “caminho determinado” pelo guru.

Mesmo assim, o guru, se for hábil, vai criar a perspectiva de que, ao segui-lo bovinamente, alguém estaria tendo o controle sobre sua vida. Preste atenção: o conhecimento fornecido pelo guru é apresentado como algo que vai fazer o discípulo conseguir controlar mais sua vida. Esta é uma das maiores mágicas do guru: criar pessoas que acham que estão aumentando seu nível de controle, quando na verdade estão perdendo-o cada vez mais.

Segundo Kramer e Alstad, “a submissão é uma das forças mais poderosas e estados emocionais em que um ser humano pode tocar. Paixão significa literalmente abandono, deixar ir; assim, a entrega é um caminho para a paixão. É possível se render a muitos aspectos da vida: uma pessoa, um ideal, uma arte, uma religião, um sistema político, a revolução e até o momento da vida. A rendição é tão potente precisamente porque transfere o controle para uma arena que é livre, ou mais livre, dos dramas internos e dos conflitos envolvidos nas decisões pessoais. Se eu entregar meu coração a você, então estar com você se torna central em minha vida. Se eu der minha vida à música, realização espiritual, seja o que for, então isso dita meu movimento. Torna-se o foco da minha vida, o que elimina muitas escolhas tornando tudo secundário. A rendição é uma parte básica da vida, assim como o controle. O que está sendo examinado e questionado é a entrega como parte do controle”.

O potencial desta submissão se vê no fato de que a história dos gurus é também uma história de escândalos e, mesmo assim, muitos de seus discípulos não desistem dele. Alguns se envolvem em escândalos sexuais, outros em explorações financeiras, abusos de poder e até uma vida vulgar e desregrada. No caso de Oliveira, ele vive escrevendo as palavras “buceta” e “caralho” em todos os lugares. É conhecido por falar palavrões e perseguir politicamente os outros.

Certo dia, Oliveira designou vários de seus discípulos para irem atrás de uma jornalista, Julia Ruvarashe. Ex-adepta, ela foi xingada pelos seus discípulos – agindo em bando – de “vagabunda” e “cadela”. Fizeram montagens pornográficas com ela e espalharam por todos os cantos. Enquanto isso, Oliveira se vangloriava em seu perfil de Twitter dizendo que tudo isso era merecido, pois ela disse numa entrevista que “as ideias de Oliveira eram pseudocientíficas”.

Ao ser questionado, Oliveira alegou que nada aconteceu de grave com Julia, que teria praticado coisas gravíssimas como difamá-lo, o que chamou de “crime terrível”. Também disse que ela é que merecia ser processada. Enquanto isso, todos os seus adeptos mimetizavam as mesmas narrativas do guru, manifestando fúria irracional e incontrolável contra Julia.

Isso acontece porque os discípulos já estão no estágio em que dependem emocionalmente das crenças no guru. Se o consideram como moralmente infalível, é claro que suas falhas serão vistas como exemplo de superioridade moral. O cérebro humano é hábil para a dissonância cognitiva e o duplo padrão, mecanismos que o guru explorará a granel.

Elaborada por Leon Festinger em 1957, a tese da dissonância cognitiva explica bem esse processo. O vídeo abaixo, de quase 6 minutos, ajuda:

É também pela dissonância cognitiva que o guru conseguirá quebrar regras morais e fazer seus discípulos aceitarem tudo. Como parte da prova social, membros do grupo seguirão acreditando nele, pois não estão apenas avaliando o guru, mas sua própria identidade. Kramer e Alstad explicam que os discípulos “suportarão uma grande quantidade de comportamento contraditório e aberrante da parte do guru, pois duvidar dele literalmente significa ter seu mundo desmoronado”.  

Às vezes, alguns discípulos duvidam, mas se sentem confusos e podem entrar em depressão. Alguns se sentem traídos e zangados. Nessas situações, alguns podem abandoná-lo, entrando no traumático processo de pular fora seita. Outros podem sucumbir ao Efeito Backfire, um viés da mente que faz alguém se tornar ainda mais crente quando suas crenças são confrontadas. Leia o seguinte, a partir do site Mural Científico:

O efeito backfire diz que as pessoas, diante de evidências contrárias às crenças preestabelecidas, tendem a não reconsiderar sua opinião e acreditar mais fortemente na mesma. Isso acontece porque as pessoas não querem ser vistas como “idiotas” na frente dos demais, já que uma mudança de opinião é muitas vezes interpretada como fraqueza ou falta de personalidade. Além disso, as opiniões normalmente estão vinculadas a valores profundos, fazendo com que a reconsideração de um ponto de vista afete todo um conjunto de crenças: se alguém mudar de ideia sobre o aborto – para qualquer um dos lados -, provavelmente terá que repensar as crenças sobre ética, vida, direitos femininos e liberdade sexual. Logo, é difícil deixar uma opinião pois muitas outras a sustentam e reconsiderá-las é trabalhoso e podem levar o indivíduo a se achar incapaz de raciocinar.

Segundo Kramer e Alstad, “as maneiras pelas quais as pessoas negam e justificam são semelhantes: como supostamente ninguém que não é esclarecido pode realmente entender os motivos de alguém que é, qualquer crítica pode ser descartada como uma perspectiva limitada”.  Alguns também adotam a noção de que “qualquer comportamento por parte do guru, por mais básico que seja, pode ser considerado um ensinamento secreto ou uma mensagem que precisa ser decifrada”. Leia mais:

Alguma razão oculta mais profunda pode sempre ser atribuída a qualquer coisa que um guru faça: Diz-se que o guru assume o carma dos outros, e é por isso que seu corpo tem quaisquer problemas que tenha. O guru é obeso ou insalubre porque é muito gentil para recusar ofertas; além disso, ele dá tanto que um pouco de excesso é compreensível. Ele pune aqueles que o desobedecem não por raiva, mas por necessidade, como um bom pai faria. Ele usa o sexo para ensinar sobre energia e desapego.

Ele vive uma vida opulenta para quebrar os preconceitos simplistas das pessoas de como a perda do ego deve ser; também mostra como ele se destacou e não se preocupa com o que os outros pensam. Afinal de contas, “uma vez iluminado, alguém pode fazer qualquer coisa”. Acreditar nesse dito torna qualquer ação justificável. As pessoas justificam e racionalizam em gurus o que em outros seria considerado inaceitável porque eles têm um grande investimento emocional para acreditar que seu guru é puro e correto. Por quê? Por que as pessoas precisam de imagens de perfeição e onisciência? Isso remonta a toda a relação guru / discípulo sendo baseada na rendição. A rendição de grande magnitude requer correspondentemente grandes imagens de perfeição. Seria difícil se render a alguém cujos motivos não fossem considerados puros, o que passou a significar não contaminado pelo egocentrismo. Como alguém pode se render a uma pessoa que possa colocar seu interesse próprio em primeiro lugar? Também é difícil se render a alguém que possa cometer erros, especialmente erros que podem ter um impacto significativo na vida de alguém. Consequentemente, o guru nunca pode estar errado, cometer erros, ser egocêntrico ou perder o controle emocional. Ele não fica com raiva, ele “usa” a raiva para ensinar.

Esse tipo de exploração da dissonância cognitiva servirá para manter em suas mentes a imagem do guru como perfeito. Obviamente, não serão aceitas explicações comuns para seu comportamento, mesmo perversos.

Kramer e Alstad explica que os gurus são sedutores principalmente para aqueles que se incomodam com a vida “em mundo onde os valores tradicionais estão desmoronando, trazendo formas frágeis e hedonistas de se relacionar”. Nesse sentido, muitos podem se sentir sozinhos e desconectados. Ao se juntar a um grupo, esses limites pessoais são afrouxados, ampliando-se o conteúdo emocional da vida. Isso pode trazer propósito, significado e esperança, mesmo que a partir de crenças falsas.

É por isso que aqueles que se juntam a uma seita normalmente dizem se sentir “muito melhor do que antes”. Se estão estudando um conteúdo, precisam sentir que “não sabiam de nada antes”. Normalmente, essa ligação é feita pelo compartilhamento de uma ideologia. Porém, se o guru não prestar atenção, ele pode se enrolar: se uma fresta for deixada aberta, esse clima pode se evaporar rapidamente. Por esse motivo, a submissão contínua é importante para manter a conexão o discípulo ao guru.

Não importa quanto material o guru possa produzir se não seguir mantendo a exploração das sensações similares às da infância. Sem essas sensações, não conseguirá manter a “cola” entre ele e o discípulo. Gurus que usam a linguagem da filosofia ou da auto-ajuda podem produzir livros continuamente. Nos ambientes místicos, sempre se encontram aqueles livretos e jornais para serem lidos, fundamentais que o adepto jamais deixe de se envolver. Evidentemente, todo esse conteúdo serve para prover a sensação emocional para mantê-lo submisso.

Como estão recuperando estados mentais profundos dos tempos da infância, sempre dependerão da sensação de que são “cuidados” pelo guru. Kramer e Alstad dizem que “entregar-se a qualquer autoridade traz isto até certo ponto, mas com um guru isso atinge vastas dimensões”. Deixando claro que todos que estão com ele são e serão especialmente protegidos, a linguagem do guru sempre deverá fazer este reforço.

Em suas aulas, Oliveira sempre diz, 2 vezes por semana, que neste caminho eles terão a oportunidade de se tornarem grandes filósofos e figuras importantes no cenário político. Igualmente, são convencidos de que serão estigmatizados e abandonados fora dali. Estimulado a se sentir assim, um seguidor sempre ficará mais empolgado que pinto no lixo. Cada aula, cada post, cada palestra do guru é uma oportunidade para dar sequência nestas sensações.

Normalmente, os discípulos acreditam que o guru realmente se preocupa com seu futuro, “amando-os incondicionalmente”. No auge da entrega, dizem os autores, “sentem que desistiram de seu passado e, pelo menos conscientemente, não temem o futuro”. Mais do que disso, escrevem, “eles se sentem mais poderosos acreditando que o guru e o grupo estão destinados a influenciar grandemente o mundo. Sentir-se totalmente cuidado e aceito, no centro do universo, poderoso e aparentemente sem medo do futuro, tudo é conseguido ao preço de dar o poder de uma pessoa a outra, permanecendo essencialmente uma criança”.

Vale lembrar mais uma vez como é evidente, também, que ninguém gosta de se sentir utilizado. Em consequência, o guru sempre deve estabelecer uma forma de que o discípulo se sentir livre, mesmo que não seja. Todavia, é fácil perceber, do lado de fora, os comportamentos padronizados de uma seita. Segundo Kramer e Alstad, qualquer um dos seguintes itens são fortes indícios de pertencimento a um grupo autoritário:

  1. Nenhum desvio da linha partidária é permitido. Qualquer um que tenha pensamentos ou sentimentos contrários à perspectiva aceita é levado a sentir-se errado ou mal por tê-los.
  2. Qualquer que seja a autoridade, ela é considerada perfeita ou correta. Assim, comportamentos que seriam questionados em outros são tratados como apropriados se forem feitos pelo guru.
  3. A pessoa confia que o guru, os escolhidos e demais alunos experientes sabem o que é melhor.
  4. É difícil que ele se comunique bem com alguém que não esteja no grupo.
  5. A pessoa se encontra defendendo ações do líder (ou outros membros) sem ter conhecimento em primeira mão do que ocorreu.
  6. Às vezes, a pessoa fica confusa e temerosa sem saber por quê. Este é um sinal de que as dúvidas estão sendo reprimidas.

Mesmo diante de tantos sinais externamente observáveis, o guru pode conseguir instilar nos seguidores a sensação de que não estão sendo vítimas de submissão caso a ideologia adotada dê a impressão de que todo o trabalho feito sirva como “porta de entrada para algo maior” ou “um nível de conhecimento superior”. As emoções relacionadas a essa sensação farão com que o discípulo olhe para as pessoas do lado de fora como “inferiores”. Sensações assim ajudam a evitar que ele perceba como está sendo utilizado. Vieses como Efeito Backfire, apelo à autoridade, investimento emocional, dissonância cognitiva e diversos outros vão sendo explorados no processo.

Kramer e Alstad até brincam com isso ao dizer que membros de seita poderiam ler seu livro como exemplo de comportamentos egoístas e provenientes de um plano inferior de compreensão. Se, em última análise, não é possível provar qual é a mais precisa dar perspectivas, também é fato que se pode mostrar os dados referentes à observação externa do processo, geralmente previsível.

Resumo

O que vimos aqui é que alguém se submete aos gurus para alimentar sensações poderosas que estão enraizadas desde a infância. Na essência, é um relacionamento autoritário, mas existe um hardware pronto para que esse programa de submissão seja instalado. Muitas vezes achamos que os gurus são delirantes, com ideias malucas, mas a própria rejeição a modelos de pensamento acadêmicos, científicos e céticos atrapalharia o processo de rendição psicológica dos adeptos. É um processo envolvido em emoções profundas do início ao fim, como diria a música “I Surrender”, do Rainbow: “Here I am, Down on my knees again, Surrendering all”:

Dando sequência ao tema, o próximo texto, “Emoção”, falará de como os gurus controlam os frames e exploram os marcadores somáticos, utilizam métodos como chantagem emocional, se aproveitam da necessidade de prova social e satisfazem necessidades básicas de relacionamento.

Continua em A Arte da Seita Política – 4 – Emoção

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1 comentário em A Arte da Seita Política – 3 – Submissão

  1. É isso mesmo “temos” que implantar uma censura geral e irrestrita contra todos que pensam diferente do que ,,,,,acha que é certo. https://www.youtube.com/watch?v=AtdKUGLuRcM

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