A Arte da Seita Política – 4 – Emoção

Continuação de A Arte da Seita Política – 3 – Submissão

O processo diário de um guru é sempre baseado na manipulação das emoções. Como vimos no texto anterior, o objetivo é acessar emoções profundas que estão guardadas desde a infância. Assim, nada vai acontecer sem esse tipo de manipulação emocional, explicando o motivo pelo qual muita gente sai desapontada ao tentar discutir racionalmente com membros de seitas. Raramente a argumentação racional funciona, pois as identidades de luta foram criadas de forma profunda no subconsciente emocional. Dado que as emoções vindas da infância são as mais poderosas, vamos agora compreender como gurus se tornam exímios manipuladores emocionais.

Basicamente, falaremos de três tópicos aqui:

  • Marcadores somáticos: um dos mecanismos explicativos para acesso profundo às nossas emoções
  • Controle de frame: explicando como a linguagem manipula melhor as emoções
  • Motor emocional: diversos mecanismos utilizados na seita para manipular essas emoções

É evidente que estes pontos se complementam aos anteriores e não devem ser vistos isoladamente. Ademais, o “motor emocional” falará de alguns itens explorados especialmente relacionados à emoção, mas não são os únicos, uma vez que a manipulação emocional percorre todas as atividades de seita. Novos itens de manipulação emocional serão vistos também em próximos textos, mas estes que abordaremos aqui são os fundamentais, sem os quais entender os próximos será mais difícil.

Marcadores somáticos

Estudada por Antonio Damásio, a mais conhecida das teses sobre como nossas emoções são ativadas é a do marcador somático. Não é a única, pois os estudos da heurística do afeto trazem detalhes bem interessantes, mais focados no instinto. Já a tese do marcador somático afirma que símbolos culturais tem importância ainda maior. Mas não é preciso polêmica: não vamos nos tornar especialistas em neurociência, mas compreender o mecanismo. Por isso, a teoria do marcador somático já é o suficiente.

Antonio Damasio

Eliminando a ideia de que somos seres puramente racionais e que escolhemos nossos pensamentos, os marcadores somáticos são estruturas localizadas em nosso cérebro com fundamental importância para a sobrevivência. São duas as funções para os marcadores somáticos. Na primeira, existe a regulação a um estado interno do organismo para que este se prepare a uma reação específica, como o aumento da temperatura corporal ou aumento do batimento cardíaco. Na segunda, existe a produção de uma reação específica à situação indutora, como correr, lutar, iniciar um comportamento que dê prazer e daí por diante.

Imagine que você esteja na selva e ouça um rugido sem saber de onde vem. Se você sentir um calafrio no corpo, isto é a ativação de um marcador somático relacionado, ou seja, a função de regulação de estado interno do organismo. A segunda função pode ser se esconder ou correr, em linha com a situação indutora. Grande parte desse processo é subconsciente.

Os melhores livros de Damásio sobre o assunto são “O Erro de Descartes”, “Ao Encontro de Espinosa”, “E o Cérebro Criou o Homem” e “A Estranha Ordem das Coisas”, este último explicando como as emoções explicam grande parte de nossa cultura. A título de agilidade, vale assistir esse vídeo de 9 minutos para entender mais como operam os marcadores somáticos:

Algo importante sobre a importância dos sentimentos é que, sem eles, não teríamos sequer expectativas. Marcamos uma viagem a um lugar distante por termos sentimentos de descoberta e exploração nesses lugares. Buscamos o lucro em razão de sentimentos de um futuro com mais prestígio e status. Não podemos deixar de lembrar que a história de nossas vidas, nossos conhecimentos, nossas relações e diversos outros fatores contam, mas são os sentimentos que dão a motivação e realizam a conferência dos resultados. Sem estes sentimentos, teríamos um fluxo mental indiferente.

Damásio contra o já tradicional relato de Phineas Gage que, em 13 de setembro de 1848, trabalhava na dinamitação de um rochedo durante a construção de uma estrada de ferro. Às 16h30, foi vazar a pólvora para dentro de um buraco na rocha. Ao pressioná-la, o atrito provocou uma faísca, seguida pela explosão, que projetou uma barra de um metro e meio contra seu crânio, numa velocidade altíssima.

O caso de Phineas Gage

Entrando pela bochecha, a barra destruiu seu olho e atravessou a parte frontal do cérebro, saindo pelo topo do crânio, do outro lado. Incrivelmente, ele conseguiu sobreviver. Também foi incrível como ele teve rapidíssima recuperação física, tanto que em novembro ele já circulava pela vila de novo. Só que as pessoas começaram a notar que seu comportamento fora completamente alterado. Se tornou emburrado, desrespeitoso, indiferente e não conseguia mais planejar para o futuro. Além disso, passou a agir sem pensar nas consequências. Muitos disseram que “Gage deixou de ser Gage”. Foi demitido pouco tempo depois e perambulou pelo mundo como vagabundo, vindo a morrer em 21 de maio de 1861.

O caso é considerado a primeira evidência científica de que a lesão nos lóbulos frontais pode alterar a personalidade, as emoções e até a interação social. Como detalhe: o cérebro de Gage só foi estudado quatro anos após sua morte, pois sua irmã autorizou a exumação do corpo para estudos. Assim, temos sentimentos que nos movem. Esses sentimentos são registrados via marcadores somáticos.

Outro detalhe importante: não teríamos sequer a moralidade sem os sentimentos, uma vez que nosso fluxo mental seria indiferente. Não confunda isso com a psicopatia, que é ausência de consciência, mas não necessariamente ausência de sentimentos (apenas alguns deles). A ausência de sentimentos em si torna a pessoa indiferente não apenas em relação aos outros, como a si própria.

Por exemplo, a regra moral diz que devemos tratar os outros como queremos ser tratados. Mas se não temos sentimentos em relação a como gostaríamos de ser tratados, então não teríamos sequer como valorizar a moralidade. Por consequência, a moralidade depende de seres humanos capazes de ter sentimentos.

Assim, quais os marcadores somáticos importam neste momento? De acordo com o que vimos no texto anterior, se as emoções devem gerar e manter a submissão ao guru, os marcadores somáticos devem privilegiar:

  1. A figura de absoluta autoridade (o guru)
  2. Senso de elitismo na capacidade de superar limites

Esses dois passos devem ser sustentados em termos de imagem durante todo o processo. Agora podemos dar sequência ao próximo passo, que é entender como as propagandas se adequarão para produzir, ampliar e explorar esses marcadores somáticos.

Controle de frame

Uma vez que existam dois pilares para os marcadores somáticos do culto, a linguagem deve ser orientada para atendê-los (é possível existir algumas subdivisões e extensões, mas os dois pilares bastam como exemplo). Por exemplo, Oliveira é conhecido por usar suas redes sociais diariamente para desqualificar vários de seus opositores. Como escreve filosofia política e promete ensinar seus discípulos a serem parte de uma “elite do conhecimento” niberiana, ele gasta muito tempo dizendo que os outros não são capazes de sequer entender uma linha do que ele escreve. Esse entendimento seria aquele obtido pelos seus adeptos. Logo, seus livros só poderiam ser “entendidos” por iniciados.

Se ele faz isso, automaticamente explora o culto à personalidade, relacionado ao item (1) “figura de absoluta autoridade”, mas automaticamente também ajuda na narrativa de que o discípulo é parte de uma elite, exatamente por seguir alguém que segue esta autoridade num caminho para o futuro. Chamaremos estes dois marcadores somáticos de frames fundamentais da seita.

George Lakoff

Senão vejamos: ao assistir o mestre agindo como se tivesse “esmagado o adversário”, seus discípulos ficam animados ao assistir suas atuações online. A cada demonstração dessas, o guru passa a impressão de que é o verdadeiro mestre deles. E, por terem um mestre assim, ficam mais empolgados em reverenciá-lo como uma autoridade e, nesse processo, se sentirão parte da elite, pois podem “entender um pouco” das obras de seu mestre, enquanto os que estão de fora não entenderiam nada. Este alinhamento de toda a linguagem aos marcadores somáticos fundamentais é o que chamamos de controle de frame, que é uma forma adicional de visualizar a propaganda sob a ótica da dinâmica social.

Conforme estudados originalmente por Erving Goffman – em seu livro “Frame Analysis” – e depois expandido radicalmente por George Lakoff – em vários livros, como “Moral Politics” e “Don’t Think of an Elephant”, entre outros -, os frames estão em nossos cérebros e se originam de emoções lá inseridas anteriormente. Lakoff diz:

Os frames são estruturas mentais que moldam a maneira pelas quais nós vemos o mundo. Como resultado, elas moldam as metas que buscamos, os planos que fazemos, a maneira que agimos, e o que conta como um bom ou mau resultado de nossas ações. Nas políticas, nossos frames moldam nossas políticas sociais e as instituições que formamos para implementar essas políticas. Mudarmos nossos frames significa mudar tudo isso. A mudança de frames é mudança social.

Cada um desses frames é “ativado” a partir de fora, isto é, os eventos externos de comunicação. Tanto repetição como intensidade de emoção investida ajudam a tornar os frames mais fortes. Se qualquer estrutura conceitual ativa uma malha de frames, ao mesmo tempo qualquer palavra é um conceito, que ativa frames. “Sentidas” a partir das sinapses, as informações oriundas do mundo exterior estão de acordo com as sensações que temos (registrada a partir de marcadores somáticos, além de outras heurísticas e vieses).

Agora que é considerado o guru do governo, Oliveira passou a fica sob os holofotes da mídia. Todos se espantam com teorias bizarras sobre terra plana, vampirismo, aliança entre ETs e políticos e daí por diante. Também se espantam com o uso de um curso online que não tem início e fim como exemplo de algo que seria “melhor” do que existe nas universidades niberianas. Mas por que ele faz isso?

É por esse mesmo motivo que Oliveira jamais reconhece que está errado, pois, ao atacar acadêmicos, filósofos e outras figuras, está propagando estruturas conceituais que se conectam aos frames fundamentais da seita.

Nessas estruturas semânticas, existem alguns papéis semânticos quando observamos cada estrutura conceitual adotada. As mais óbvias são “líder genial”, bem como a do “conhecedor acima de todos os outros”. É para isso que ele interpreta os eventos costumeiramente tendo como resultado a percepção de ser absurdamente mais inteligente e esperto que todos os seus desafetos.

Outra forma de entender os frames fundamentais da seita é trazer à mente que a linguagem é baseada tanto em processo, como em conteúdo. O processo envolve o objetivo de manter a reputação do guru com autoridade máxima para o discípulo. Já o conteúdo envolve tudo que ele publicar, que deve estar em linha com o processo. E assim ele vai medindo o seu desempenho.

Além das estruturas mais simples, também temos combinações. Por exemplo, o papel do “líder absoluto” é um desses papéis semânticos adotados por Oliveira, mas, em outros momentos, ele exerce o papel do “líder decepcionado” (com um dos discípulos que o abandonou, por exemplo). Mesmo assim, para não perder acesso aos frames fundamentais, mas criará uma estrutura maior onde passaria a imagem de “líder absoluto, mas que por ser tão caridoso, às vezes se decepciona”.

Observe que temos dois sistemas possivelmente consistentes, mas a verdade também é que dois sistemas inconsistentes podem funcionar suavemente no mesmo cérebro por duas formas. A primeira é a inibição mútua, que liga um sistema enquanto outro é desligado. A segunda forma é a ligação neural diante de diferentes questões, quando cada sistema opera em diferentes preocupações.

Pense que um sistema de inibição mútua é um que visa saber se o indivíduo é bom ou ruim. Na ligação neural, há uma combinação: alguém vai julgar como a noção de que alguém é amigo ou inimigo, mas também julgar se há ou não coexistência. Esses circuitos vão ficando mais forte de acordo com a intensidade e repetitividade da ativação.

A cada conjunto de narrativas, existem papéis semânticos. Por exemplo, quando se fala em um exército, existem papéis para “soldados”, “tanques”, “armas” e por aí. Da mesma forma, quando existe um papel associado a um sujeito, seus atributos são papéis semânticos associados.

Considere o personagem Jack Sparrow, interpretado por Johnny Depp na série de filmes Piratas do Caribe. Quem assistiu o primeiro filme, sabe o que esperar dele no segundo, no terceiro e daí pra frente. Isso porque existe uma personalidade para o personagem, que vai sair das situações de uma forma padrão, adotar certas posturas previsíveis, como a fanfarronice, o engodo “divertido” e daí por diante. Ao sair das situações, o público vai pensar: “este é o Jack Sparrow” tradicional.

O mesmo vale para a personagem Alice, da série “Resident Evil”. Não importa qual episódio: o público vai reconhecer as características da heroína, que sempre acaba vencendo no final, por ter alto nível de indestrutibilidade e sempre um “ás na manga”. E por isso as situações são desenvolvidas para reforçar isso na mente do público. Em razão disto, roteiristas de sucesso não alteram a personalidade de seus personagens principais nas séries. Mesmo em contradição, ao fim do filme o público interpretará o resultado dos eventos como algo com que ele já está acostumado.

Se os roteiristas fazem isso, é porque querem ativar frames já conhecidos e coerentes a respeito das expectativas do público. Quando um guru se comporta para atender aos frames fundamentais da seita, age como se estivesse inserindo cenas de acordo com um personagem que deve soar coerente. Mesmo que algumas de suas ações pareçam incoerentes à primeira vista, uma gestão de sua produção de conteúdo poderá leva-lo de novo ao trilho e garantir a manutenção da coerência.

Observe também que coerência não é o mesmo que verdade. No exemplo em que juntamos duas estruturas conceituais numa maior, temos “líder absoluto, mas que por ser tão caridoso, às vezes se decepciona”. Imagine agora que o guru reconheça seu erro em relação a um julgamento. Ele poderá dizer que só errou porque recebeu a informação errada, e aí permitir que a narrativa se amplie para: “líder absoluto, que nunca erra, a não ser quando enviam informações incompletas para ele; mesmo sendo praticamente infalível, às vezes ele se decepciona”. Essa narrativa não precisa nem sequer ser declarada, mas percebida. O que importa é que os discípulos vão seguir percebendo-a como ao menos coerente.

Vejamos um exemplo em que o guru decidiu atacar Gentile Zagora, um integrante da base governamental num ministério. Zagora estava em conflito com Luis Uchenna, aluno de Oliveira e indicado por este ao ministério. Usando seu poder de líder de seita, orientou seus alunos a lincharem Zagora nas redes sociais. Após semanas de ataques em que Oliveira usou várias difamações – como acusá-lo falsamente de traficar a droga krokodil, fazer sexo com galinhas, cultuar vampirismo e tentar dar golpe -, Zagora decidiu lançar quatro processos judiciais contra Oliveira. Imediatamente um aliado de Uchenna, Bruno Zarambo, escreveu: “A injustiça de Zagora é absurda, pois recebeu conselhos diversos e, em vez de agradecer, lança processos”. Tempos depois, enquanto aguardava o processo judicial, Oliveira escreveu: “Zagora tem dado menos problema. Será que ouviu meus conselhos?”.

O problema é que Zagora estava em alta e Uchenna em queda, ou seja, o guru saiu perdendo, mas, mesmo assim, Oliveira precisou fazer uma encenação pública de que estava sendo “possivelmente ouvido” por Zagora. Para isso, maquiou suas difamações como se fosse “conselhos”, além de omitir os processos e inventar que o oponente tivesse mudado de atitude (quando não mudou). Com essa maquiagem da realidade, seguiu passando aos seus discípulos a imagem de que, como de costume, “estava certo, no fim das contas”.

Este é o controle de frame para a manutenção dos frames fundamentais da seita. O detalhe é que, fora da seita, as pessoas notam que o Oliveira praticou várias mentiras, pagou mico ao tomar quatro processos e ainda saiu perdendo politicamente. Dentro da seita, a realidade é outra.

Detalhe: nem sempre o controle de frame é baseado em maquiagem dos fatos, mas o que deve ficar claro é que, com certa omissão de informações e reinterpretação dos eventos, é possível controlar o frame, mantendo-o alinhado, como neste caso, aos frames fundamentais, já que o guru possui dano quando seus discípulos o vêem como alguém tão falível e vulnerável como os demais seres humanos.

Tudo isso são narrativas, que os gurus criam, aproveitando toda e qualquer situação para irem lançando conteúdo que não se conflite com frames fundamentais da seita. Para Lakoff, toda narrativa simples pode ser combinada em narrativas mais amplas e complexas, precisamente por causa da ligação neural. Sob impacto emocional forte, os diversos componentes da mente humana fazem com que, quando uma pessoa aceite uma narrativa em particular, ignore ou oculte realidades que a contradigam.

Muitas pessoas não sabem que existe toda uma arquitetura mental envolvida neste processo, que deve parecer espontâneo. No caso de Oliveira, isso deve ser percebido como parte de seu comportamento natural, mas o mais importante é que os frames são controlados de acordo com um objetivo claro. Aquilo que pode parecer “insano” muitas vezes é coerente com as narrativas que visam ao objetivo da submissão.

Existe uma coisa meio óbvia, que qualquer propagandista deve saber. Quanto mais um circuito cerebral é ativado, mais fortes suas sinapses se tornam. Quanto mais fortes suas sinapses estão, é tanto mais provável que disparem como mais forte pode ser esse disparo. Em resumo, pela força com que uma sinapse está isso cria uma hierarquia de sistemas morais dentro do cérebro, tornando uns mais difíceis de serem ativados do que outros.

Tanto como qualquer guru místico, marqueteiro, um guru político deve se se aproveita do potencial do cérebro de se confundir, pois a mesma parte do cérebro que usamos para ver algo também é usada para imaginar algo que estamos vendo, bem como para lembrar de algo, bem como sonhar com algo. Uma vez que o ser humano é uma máquina de significação, o cérebro, de imediato, precisa buscar as razões.

Como existem vários eventos ocorrendo, e as pessoas se preocupam com várias coisas, o resultado é uma capacidade reduzida de percepção, que pode ser amplamente manipulada. Aí que vem o detalhe: a estrutura conceitual correta deve estar em vigor para reconhecer eventos aparentemente diferentes encaixando-os no mesmo tipo de evento. É assim que, dia após dia, o guru vai usando a linguagem, mas sempre buscando manter a estrutura conceitual correta na visão do seu interesse para seus adeptos.

Assim, gurus não se comunicam abertos à correção de seus erros, mas como atores em um processo para manter uma imagem pré-estabelecida. Isso demanda muito esforço mental e bastante criatividade. Principalmente porque se a estrutura conceitual não parecer coerente aos discípulos, a mente entrará em confusão. Isso envolve não apenas os posts, como as aulas, os livros, mas também a própria mística criada em torno dele. Em todos esses pontos, existem papeis semânticos, um encadeamento de estruturas conceituais, etc. E, é claro, todas elas atendem a interesses humanos biologicamente compreensíveis.

Motor emocional

O dia a dia de comunicação do guru com seus discípulos deverá ser baseado em apertar botões na mente, que são marcadores somáticos e os frames associados a eles, de maneira mais ou menos complexa. Isso é o que seguirá bombeando gasolina emocional que motiva o discípulo.

A seguir, veremos alguns mecanismos que exploram a manipulam a emoção dos discípulos (e até pessoas ao redor da seita) no avanço dos interesses da liderança. São eles, que se juntam a outros padrões já vistos até agora (e outros que serão vistos nos próximos textos):

  • Seleção invisível
  • Linguagem carregada
  • Rituais de iniciação
  • Valorização de testemunhos
  • Rumores misteriosos
  • Uso excessivo do medo
  • Arrependimento público
  • Exploração da culpa
  • Extremos de “altos e baixos”
  • Chantagem emocional
  • Manutenção da hierarquia
  • Censura sutil
  • Entrega total

Seleção invisível

Em relação a seleção invisível, isso funciona porque os discípulos da seita terão encontrado, nas seitas, um alívio temporário para preencherem suas lacunas emocionais. Como escreve Flávio Amaral em “Seitas e Grupos manipuladores”, esse discurso “é segregacionista, sectário, excessivamente crítico e desabonador a tudo que estiver fora do grupo e de seu campo ideológico”.

O objetivo é gerar forte senso de “pertencimento coletivo e desconfiança contra o diferente, onde os membros tratam seus pares como pessoas especiais e escolhidas, seus diferentes como inferiores, e veneram o líder de maneira incondicional, como representante máximo da doutrina redentora”. Quem acaba de chegar na seita é geralmente alguém que se sentia antes como um Zé-Ninguém, passando a se sentir grande após se juntar.

O mais curioso é que esse processo de seleção geralmente é invisível. Flávio Amaral aponta que uma coisa é certa: “ninguém quer ingressar em uma seita, assim como ninguém quer iniciar uma relação onde seja manipulado”. Assim, todo membro de seita não pode admitir a manipulação. Se existirem evidências dessa manipulação, sua mente irá confabular para ignorá-las, pois ele está protegendo as sensações que obteve ao se juntar. Lembremos que elas se baseiam em sentimentos profundos de que o guru é o máximo da virtude e de que ele, por segui-lo, pertence a uma elite. Todo o resto fica nos arredores desses dois grandes marcadores somáticos e frames relacionados.

Amaral lembra que as seitas “respondem (de modo paliativo, mais eficiente pois imediatista), nossas aflições a nível afetivo e cognitivo”. Um guru de seita fornece satisfações – mesmo a partir de simulações – que o novo membro não experimentava antes. Assim, é claro que é um erro dizer que todo o processo de integrar novos membros à seita são baseados em “lavagem cerebral” – que é praticada no dia a dia da doutrinação, como veremos no capítulo 6 -, mas também numa forma de recrutamento mais espontânea do que muitos pensam.

Amaral diz que “o membro de uma seita, convencido de que o grupo tem o caminho para uma existência melhor, deseja que outros possam participar desta empreitada. Por isso, naturalmente, procura outros potenciais seguidores, a começar pelo círculo social próximo. Os ambientes sectários admitem facilmente qualquer um que aceite as verdades do grupo”. Isso quer dizer que, no caso de uma seita política online, como aquela criada por Oliveira, você muito provavelmente seria mais bem recebido por outras pessoas se se juntasse a eles. No início, isso significaria concordar com praticamente todas as ideias deles. Poderia até discordar levemente, com dizer que “discorda de alguns detalhes”, mas concordando no fundamental.

Os discípulos buscam voluntariamente aumentar seu grupo, feito esponja, pois muitos acreditam de fato nas doutrinas dadas pelo guru. Enquanto fazem isso, se sentem especiais. A chegada de novas pessoas vai reforçar esse sentido, pois o grupo progressivamente se sente mais forte. Amaral lembra que “quanto mais elitista o grupo, mais a sociedade lá fora é considerada inferior. Assim, também é uma surpresa gratificante para o discípulo conhecer alguém que os escute”.

Aqueles que estão do lado de fora e compreendem a mensagem e demonstram empatia na discussão passam a ser considerados “acima da média”. Isto é, pessoas exteriores ao grupo deixam de ser “mais um” ou parte do “povão impensante”. Em vez disso, são tratados como se estivessem “acima da multidão”, e, logo, “um dos eleitos para ajudar na importante missão de difundir a doutrina para a Humanidade”.

Isso levará a muita bajulação durante o processo de recrutamento. Não é incomum ouvir frases como “não havíamos notado como você era tão especial”. O ser humano naturalmente retribui com gentileza e até se comove nestes encontros iniciais. Por óbvio, a discordância forte também pode levar a reações indignadas, como dizer “que decepção; você não mostrou ter caráter suficiente”.

Amaral lembra que este processo de recrutamento da seita não é uma “tentativa de manipular” pessoas, “mas uma oportunidade nobre que os membros acreditam estar oferecendo às pessoas de fora”. Funciona tanto para o vício como para o sectarismo: “há um sujeito que colocou algo (a droga ou a seita) no centro principal da sua vida, que lhe proporciona um ganho imediato – redução do sofrimento que se manifesta em sua ausência – ao preço do colapso dos demais envolvimentos e a submissão a este próprio objeto, não sendo mais capaz de conduzir-se sem o suporte deste”.

A isso chamamos de seleção invisível, pois este acolhimento emocional que discípulos dedicam a recém-chegados não é premeditado por eles como uma forma sistemática de bombardeio afetivo (love bombing) “mas uma reação gratificante natural de euforia por encontrarem pessoas que as aceitam e não se parecem com o estereótipo negativo que mantêm sobre o mundo”.

Amaral escreve:

A influência emocional, para unir pessoas, atinge áreas cerebrais muito mais profundas que a influência intelectual. Com o tempo, as incoerências do grupo podem ir aparecendo mas parecem menos importantes do que o fato permanente de ser acolhido socialmente. Este é um dos aspectos mais intrigantes de grupos sectários. A força que os torna tão unidos parece ser também aquela que os separa do restante da sociedade, produzindo dinâmicas destrutivas e manipuladoras ao aprisionar os membros em opções totalistas (“ou nós, ou eles”) e protecionistas (“quem não está por nós, está contra nós”). A inserção do indivíduo na seita ocorre através do processo de socialização, muito mais do que por meios intelectuais, cognitivos, ideológicos, que imaginamos quando ouvimos expressões como “lavagem cerebral” ou “controle mental” (mind control). As ideias são aprendidas gradualmente, através da socialização.

Assim, seitas são grupos de pertencimento, mesmo que também sejam, pela visão do grupo, um conjunto doutrinário. Sempre teremos a ativação de marcadores somáticos e uso de frames que estejam convergindo para a noção de que o guru é alguém especial e que eles fazem parte de uma elite por pertencerem ao grupo.

Linguagem carregada

Todo esse processo depende da linguagem carregada, que é o uso de todos os métodos abusivos da propaganda no dia a dia da comunicação. Evidentemente, muitos discípulos adotam isso de forma natural, enquanto os gurus, seus escolhidos e melhores alunos vão admitindo o uso intencional da manipulação linguística.

Em sua seita, Oliveira faz uso abusivo de slogans. Como já vimos, o principal é “Oliveira acerta sempre”. Evidentemente, ele não gosta de dizê-lo formalmente, mas fica todo eufórico quando seus discípulos repetem o slogan. Enquanto isso, reforça o frame ao dizer, continuamente que: “só eu previ o que ia acontecer na Nibéria quanto ao avanço de nossa direita”. Normalmente, isso é feito com base em seleção e omissão de informações, mas o frame sempre é mantido.

Além de slogans, toda uma série de clichês linguísticos é tirada da cartola. Desse modo, o slogan é um dos pontos importantes da linguagem simplista, mas expressões e frases soltas. Certa vez um jargão – “eita, putada” – foi convertido em meme por um de seus seguidores. Obviamente, Oliveira mandou alguns de seus escolhidos divulgarem esse meme, que se tornou sua marca registrada. A certo momento, até camisetas foram feitas com a expressão “eita, putada” e a imagem de Oliveira.

Outro costume comum de linguagem carregada é a pose de superioridade, além da excessiva rotulagem aos opositores. Opositores são tratados como “liberais de bumbum guloso” e “comunistas disfarçados”. Como um bloco de escolhidos e alunos do guru ganhou cargos no governo, Oliveira decidiu carregar no discurso populista e dizer que o presidente é o mais nobre dos homens, mas que tem poucos aliados honestos. Sem surpresa, Oliveira diz que seus discípulos são “amigos do povo” e os que estão fora da seita os “inimigos do povo”.

A todo momento, sempre o guru busca manter a imagem de superioridade. Como os discípulos emulam a linguagem do guru, terão que adotar a mesma imagem. Como não poderia deixar de ser, a negação da realidade também será adotada como método. Isso acontece quando alguém questiona o guru a respeito de alguma ideia. Em retorno, ele responde bradando fúria ou usando extrema ironia, como se a resposta fosse óbvia, mas sem nem mesmo precisar argumentar.

Questionado a respeito da matéria de uma revista que desmascarou e desconstruiu uma teoria da conspiração que havia criado a respeito de um “Clube Globalista” na Nibéria, Oliveira afirmou: “esse é o tipo de pessoa que nega um fato desses”. Aos poucos os discípulos vão percebendo que o assunto não é bem vindo.

Em outro método, o wishful thinking, também serve para garantir que algumas ideias não sejam questionadas. Meses atrás, um aluno o questionou sobre se um projeto de lei que Oliveira defendia teria sucesso. O guru respondeu que “certamente será um sucesso”. Questionado sobre o motivo para este sucesso e quais as possibilidades tangíveis, Oliveira respondeu: “tem que ser um sucesso pois a história já está dada”.

Isso tem a ver com um recurso típico dos gurus místicos, no que se convencionou chamar de “cumprir o destino cármico”. Isto significa dizer que o caminho traçado realmente vai acontecer. Segundo Oliveira, toda a Nibéria será dominada por pessoas formadas em seus cursos, que liderarão a nova sociedade, que se tornará uma potência. Uma vez que não haveria nada interrompendo-os nesse caminho, eles devem seguir estudando e pagando as mensalidades. Criou, para isso, o bordão “nunca seremos detidos”.

Os estereótipos, como já vimos, blindam a capacidade cognitiva e são úteis para instilar ódio como para o aceite de ideias à fórceps. Oliveira jamais deixou de estereotipar seus oponentes. Lutando para que a Nibéria não faça negócios com chineses (em benefício de alguns lobistas nos Estados Unidos), diz que “nenhum chinês é confiável nos negócios”. Em fase que está sendo refutado por acadêmicos, reforça ainda mais a noção de que “todo acadêmico é arrogante e sabe menos que qualquer um de vocês, meus alunos”. Questionado filosoficamente, estabelece que “todo filósofo niberiano (menos ele) é analfabeto funcional”.

Rituais de iniciação

O uso de rituais de iniciação não é necessariamente algo de estilo religioso ou místico, mesmo que no caso de Oliveira sua seita política contemple misticismo e religiosidade. Quanto a rituais em geral, Oliveira exige que seus discípulos façam um exercício após assistir a primeira aula. A pessoa deve se imaginar como uma terceira pessoa escrevendo sobre ela hoje. Depois, deve se imaginar como essa terceira pessoa, de novo, escrevendo sobre ela daqui 10 anos.

Basicamente, o aluno enviaria dois relatos ao guru, dizendo como está hoje e como se visualiza daqui 10 anos. Esta é uma manifestação da percepção atual, como também a exposição de suas expectativas. Para o guru, nada disso é muito relevante, mas é importante a sensação do aluno de que está entrando em um estágio de “evolução”. O efeito é puramente psicológico.

O clima deve ser de “entrada no portal”, um ponto a partir do qual a pessoa começa seu trajeto na iluminação. Para o guru, isso também é útil pois cada relato permite saber as expectativas mais profundas de seus discípulos. Isso automaticamente cria na mente do discípulo uma vontade de ser aprovado e reforça a imagem de que o guru é alguém que deverá aprova-lo. Tudo isso ocorre subconscientemente, é claro, sem o qual não funcionaria.

Valorização de testemunhos

Uma técnica adicional é valorizar os testemunhos, estimulando-os. É assim que muitos dão testemunhos de como melhoraram suas vidas ou se tornaram detentores de um conhecimento superior, deixando animados os demais discípulos. Oliveira criou o costume de exibir as publicações de seus alunos como exemplo de como eles tem sucesso. Questionado sobre seus alunos, diz que ninguém consegue debater com eles, o que serve como animação para os estudantes.

Uma forma de manter a euforia dos adeptos é expor, seguidamente, pequenos eventos que mostrariam sucessos dos seus discípulos. Essa é a técnica da cenoura, que deve manter as pessoas animadas com o que será conquistado lá na frente. Muitas vezes os alunos podem ser induzidos a “aguardar décadas até chegar lá”, mas, nesse interim, sempre vão evoluindo.

Kramer e Alstad explicam:

Existem diversas formas de conseguir a submissão, podendo ser graduais ou rápidas. Isso pode acontecer em qualquer sistema de crença e significa “ver a luz”, que serve para alguém se sentir livre da antiga bagagem, como se tivesse renascido. Essas experiências produzem intensa emoção, sendo quase como o abandono de uma antiga identidade para que seja assumida uma nova.

No caso de Oliveira, as experiências de alunos servem para mostrar que eles não tinham nada de útil a aprender nos ambientes passados. É assim que “o passado é automaticamente reinterpretado à luz de qualquer sistema de valores e visão de mundo ao qual se tenha convertido. As pessoas usam esses sentimentos poderosos para validar suas novas crenças”.

Kramer e Alstad prosseguem:

Essas crenças são a fonte da euforia, mas não necessariamente porque são verdadeiras. Qualquer nova cosmovisão fará, como é a própria experiência de conversão, não a validade de crenças específicas, que é a verdadeira fonte das emoções. O guru promete, direta ou indiretamente, que se entregar a ele trará algo maravilhoso, e ele está certo. As pessoas então concluem que o guru deve de fato ser um.

E foi por esse princípio que o guru promove as pessoas que coletam e distribuem testemunhos elogiosos ao guru e ao novo conhecimento que adquiriram por pertencerem ao grupo.

Um efeito emocional poderoso obtido por Oliveira é dizer que seus discípulos são os mais hábeis que existem por toda a Nigéria, sendo incapazes de serem vencidos em debates. Segundo ele: “nenhum desses parlamentares (que não são ligados a ele) tem condição de debater cinco minutos com meus alunos”. Isso deixa os alunos animadíssimos.

Rumores misteriosos

Outra técnica é utilizar alguns de seus mais tarimbados discípulos para espalhar rumores misteriosos sobre a seita. Alguns deles são feitos para gerar inveja e medo. Por exemplo, pode ser espalhada a tese de que “os discípulos do guru estão deixando assustados todos no governo, por terem conhecimentos superiores a todos”. Isso caba gerando um clima, entre os adeptos, de que essas pessoas se tornam tão poderosas que devem ter algo de especial, exatamente por terem sido as mais dedicadas ao seguir o guru.

Como a maior parte de seus seguidores nas redes sociais não paga mensalidades do seu curso online, alguns dos escolhidos acabam divulgando informações sobre “um conhecimento superior visto apenas para os que assistem as aulas online”, para gerar um clima de curiosidade aos que estão de fora. Pouco a pouco, a própria cadeia de rumores funciona como uma espécie de marketing multinível (o que, curiosamente, também importou várias características das seitas).

Algumas pessoas dirão que “os planos não podem ser todos revelados, mas na hora certa serão”. Oliveira até chegou a dizer que “os planos estão sendo discutidos, com ótimas novidades para serem ditas em breve”. Isso reforça o papel dos escolhidos, que terão seu status aumentado ao serem percebidos pelos discípulos como aqueles que carregam “aura especial”, por terem sido os melhores alunos. Para os novos discípulos isso trará a imagem de um “novo mundo” a ser descoberto, se eles se dedicarem mais e mais.

É evidente que, enquanto alguns desses rumores farão aqueles que carregam os segredos se sentirem especiais, muitas vezes nem serão negados nem confirmados. Muitas vezes é preciso tomar cuidado, pois o guru pode perder a mão e cair em descrédito no uso deste recurso. É por isso que os próprios arquitetos dos rumores devem pensar bem antes de distribuí-los.

Uso excessivo do medo

O uso excessivo do medo atende ao objetivo de mantê-los todos conectados ao objetivo de escapar de algum mal. Se a exploração do medo é essencial para qualquer ação política, numa seita política isso deve assumir um grau doentio, pois é importante que alguém tenha muito medo do que está lá fora. Quanto mais medo a pessoa tiver do que está na fora, mais vontade ela terá de ficar na seita.

Algumas formas de se explorar o medo não devem ter pudores de deixar a pessoa em estado paranoico, com medo irracional, acreditando que existem pessoas querendo sequestrar os cidadãos para injetar-lhes chips à força, que estão filmando-os em todos os lados. É óbvio que as necessidades de segurança são importantes para todos os indivíduos, mas se forem levadas ao exagero (e sem provas), podem criar um clima persecutório e delirante. Para os gurus, este é o estado mental desejado.

Uma das teses de Oliveira que realmente existiu o vampirismo na Nibéria e que o globalismo estaria eliminando certas crenças que causariam o retorno dos vampiros. Também afirmou que os globalistas se uniriam aos marxistas para adotar a pedofilia nas escolas. Com a pedofilia, isso poderia também ajudar a trazer o vampirismo.

O importante é que a pessoa perca a disposição de pensar independentemente, ficando com medo de inimigos por todos os lados. É na participação à seita e na submissão ao guru que ele encontrará proteção. O guru também adotará tons tétricos para falar daqueles que desistirem no meio do caminho, como frustrados.

Diversos procedimentos podem ser adotados para que a pessoa fique com medo de deixar o grupo ou de ser chutado. A certo dia, Oliveira orientou um de seus escolhidos a espalhar um meme dizendo: “Vá lá… discorde do Oliveira… e seja estigmatizado”. Geralmente expõem pessoas que perderam seguidores nas redes sociais ao deixar o grupo. Focam sempre na importância de estar entre aqueles aprovados no grupo.

O jogo também fica bem pesado com o lançamento de medos irracionais contra quem deixar o grupo ou questionar a autoridade do líder. Isso também pode ser feito pelos diversos ataques aos ex-membros, o que já serve para lançar medo sobre os que ficam.

Se alguém acabar saindo, o guru nunca deve reconhecer uma razão legítima para o abandono. O discípulo pode ser chamado de fraco, maldoso, interesseiro ou alguém com péssimas intenções. Ameaças a família e assassinatos a reputação entram no catálogo.

Arrependimento público

Um efeito poderoso acontece quando o guru, após esses ataques, obtém o arrependimento público de alguma de suas vítimas. É conhecido o caso em que Oliveira perseguiu Conrad Mukambaguza, somente porque este revelou que já tinha enviado o relato de suas experiências ao guru. Mesmo ciente de que isso fosse verdade, Oliveira chamou Conrad de “apoiador de necrofilia”, o que era evidentemente uma acusação falsa.

Em consequência disso, Conrad teve sua reputação assassinada. Discípulos partiram para ameaçar a namorada de Conrad em seu emprego. Desesperado, pediu perdão ao mestre 3 semanas depois. Em retorno, o mestre disse: “Está perdoado. Esse é um homem honrado. Aos que estão atacando-o, peço o que parem”.

Esse é um ritual que funciona inicialmente pela humilhação de um alvo e, quando ele decide pedir desculpas, serve como uma redenção. Os demais discípulos dirão que o mestre mostrará sua “honradez” ao dar esse perdão, ignorando o fato de que a perseguição em si foi imoral. Mas lembre-se que eles estão condicionados a não desaprovar nenhum ato do guru.

Exploração da culpa

Em outro recurso, temos a exploração de culpa, pois uma das técnicas da mentalidade autoritária visa enfraquecer continuamente a autoconfiança dos discípulos que pensem em abandonar o grupo ao dizer que seu conhecimento é “verdadeiro” em comparação aos conhecimentos “falsos”, que são os que estão fora do grupo. Em ritmo de bate estaca, o guru segue dizendo que somente seguindo nos estudos (com ele), será alcançado o verdadeiro conhecimento. Kramer e Alstad explicam:

Ao adentrar o grupo, a pessoa tem que se sentir mal, como parte de uma realidade desastrosa. Assim, ela se sente mal porque a sociedade estaria decadente em virtude da dominância de certos sistemas de pensamento. Ao se sentir culpado por essa situação, o discípulo lutará para ampliar sua consciência e, assim, ajudar a derrotar o mal.

Ao entrar na seita de Oliveira, os alunos todos passam a se sentir como se fossem culpados pelo “estágio de decadência” alcançado pela sociedade niberiana. Seus hábitos anteriores e suas crenças anteriores são tratadas como responsáveis por deixar as coisas chegarem neste estado. O pertencimento ao grupo o ajudará a se redimir desta culpa.

Para isso, o guru deve sempre julgar os resultados gerais pelos mais altos padrões (obviamente arbitrários). Isso dará ao discípulo a sensação de que ele deve se sentir mal por estar distante disso. Todavia, ele deve saber que vai chegar lá. Esse processo de instilação da culpa deve ser contínuo.

Extremos de “altos e baixos”

Com o uso dos extremos de “altos e baixos”, o guru pode se comportar furiosamente em um dia, mas, em outro, amorosamente ou até mesmo misturar esses dois comportamentos no mesmo dia. Isso gera um espanto nos discípulos que, em vez de sentirem automaticamente decepcionados, ficarão ansiosos. Isso amplia as emoções, pois são recuperadas as expressões de surpresa dos tempos de infância. Isso cria um senso de impotência e dependência, mas o ato de “puxar para cima” compensa tudo depois.

Em quase todos os casos, a manipulação emocional aqui deve ir ao extremo. Por exemplo, diante de uma ameaça política, o guru pode dizer que “está tudo acabado”. Isso deixará todos frustrados e atônicos. Mas, daí, em seguida, dizer que “há uma chance”, que, obviamente, está em seguir suas dicas.

Ficou famosa uma eleição onde ele se recusou a apoiar um candidato, Alexander Gugulethu, dizendo que ele parte de uma “elite de globalistas”. Porém, faltando uma semana para as eleições, fez um pronunciamento dizendo que o candidato era o grande líder que o país precisa, além de ser uma figura para levar a Nibéria a um novo estágio. Porém, ao perder as eleições e reconhecer a vitória do rival, Oliveira disse que Alexander era um traidor que merecia ser enxovalhado da vida nacional.

O importante, para o guru, é que o uso desses extremos de “altos e baixos” ativa sempre fortes emoções, que impedem o pensamento racional por parte dos adeptos.

Chantagem emocional

Praticada de diversas formas, a chantagem emocional é principalmente usada para alguém se sentir culpado, de forma indevida. Certas vezes, Oliveira reclama que ninguém sai em sua ajuda quando ele é “vítima de crimes” supostamente praticados pela mídia. Basicamente, Oliveira chama de “crimes” todas as notícias sobre seus delitos ou declarações estapafúrdias. Com isso, faz seus discípulos sentirem que estão em débito com ele, e que deveriam ir atrás dos que falaram mal de seu mestre.

Conforme explica Susan Forward em seu livro “Chantagem emocional”, pessoas vítimas de chantagem emocional perdem a integridade moral de seus julgamentos. Para o site Neuropsi, a Dra. Fabiana Saraiva do Nascimento escreve que “a arma do chantagista é provocar a culpa na tentativa de induzir alguém a fazer algo que não quer e não deve em favor deste”.

O problema, diz Fabiana, é que “ao contrário do que se pensa; aqueles que praticam a chantagem emocional não são vítimas, porque não sentem culpa em se comportar assim, mas sabem que muitos a sentem com facilidade e se aproveitam deles sem nenhum pudor”. Quanto maior o vínculo emocional, mais poderosa será a chantagem. As vítimas da chantagem terminam por desenvolver “sentimentos de culpa, medo e de obrigação bem como a evitar situações de conflito, acabando por ceder”.

Como os gurus acabam fazendo o papel de “pais substitutos”, pelo alto nível de autoridade alcançada, o efeito da chantagem emocional nas seitas é o máximo possível. Fabiana resume muito bem quatro tipos de chantagem emocional:

A primeira é a do bullying emocional usado para inibir a outra pessoa; a segunda é quando o chantagista se recusa a dar aprovação e amor ao outro até que atinja seu objetivo (pais e mães fiquem atentos a isso); a terceira chantagem emocional é a que se baseia na própria dor do chantagista para manipular os outros e conseguir simpatia e aceitação. O famoso fazer-se de vítima; a  quarta é a do sofredor: sua infelicidade é a ameaça maior que ele usa sobre os outros, colocando os chantageados na posição de responsáveis por qualquer consequência negativa de sua vida.

É por isso que, às vezes, Oliveira explode quando contrariado e diz que “talvez as pessoas não mereçam todo seu esforço”. Quando um de seus discípulos faz algo de que ele não gosta, ele pode fazer uma reclamação pública, em vez de contatá-lo em privado. Talvez diz que está “sofrendo com vários crimes” e “com ataques de todos os lados”, para explorar a empatia dos discípulos. No caso da perseguição a Conrad, Oliveira diz que o ex-aluno foi responsável por todo seu próprio infortúnio.

Manutenção da hierarquia

A manutenção da hierarquia é sempre vital para um guru, pois as pessoas precisam saber que estão em evolução. Assim, sempre o líder deverá ser considerado superior, assim como deverá existir uma casta inferior, e depois uma outra abaixo e assim por diante. Geralmente 3 a 4 camadas bastam. Outro elemento importante é criar estruturas adicionais de avaliação.

Oliveira chegou ao ponto de adotar um modelo de 8 estágios de consciência. No último, a pessoa adquiriria a consciência dos maiores mestres da humanidade. Por isso, Oliveira nunca diz aos seus alunos em que estágio está, mas eles devem intuir que é algo entre 7 ou 8. Seus escolhidos, ficariam entre 6 ou 7. Já alunos variando de 3 a 6, e daí por diante. As avaliações sempre serão subjetivas, é claro.

O mais importante é saber que, para uma seita funcionar, é preciso de uma estrutura hierárquica. Como fazem os gurus místicos, é dito que isso significa “abandonar o ego”, e se converte em “progresso espiritual”. A cada camada da cebola, o aluno passa a ter um conhecimento que os outros não tem. Se alguém reclamar disso, o guru pode dizer que a pessoa “está apegada ao ego”.

Censura sutil

Como as pessoas não podem saber que são manipuladas, a sutileza assume papel fundamental, principalmente no cerceamento de ideias. Como lembram Kramer e Alstad, “as mentiras e técnicas que utilizam para submeter os outros geralmente foram ensinadas por outros gurus”. Outra mentira comum é dizerem que “as dúvidas são saudáveis”, mas sempre existirão punições sutis.  Os gurus mais aptos possuem histórico de terem experiências com outros gurus no passado.

É assim que o guru precisa criar duas camadas de discurso: na primeira, é dito que não há censura alguma e que todas as ideias são bem vindas (pois as pessoas precisarão se sentir livres); na segunda, é estipulada uma violenta censura, por meios sutis, às ideias divergentes.

Sem a manipulação do medo, isso não funcionará. Gurus que punem ex-adeptos ou mesmo alguns de seus discípulos fiéis criarão um clima de medo da punição. Mas isso também pode funcionar no nível psicológico, como dizer que elas “terão terríveis resultados” fora do grupo.

Oliveira, por exemplo, faz continuamente ataques a discordantes, que também enviam um sinal de alerta aos outros, que entendem qual é o cercado das opiniões aceitáveis. Certa vez, ele foi questionado sobre a validade da tese de que os surtos de vampirismo eram originados de filósofos da Escola de Frankfurt. Irritado e enlouquecido, com os olhos vermelhos de sangue, disse que é um absurdo que a pessoa ainda não tinha entendido algo tão óbvio. Entenderemos esse processo detalhadamente no texto 8, com o mecanismo da espiral do silêncio (visto agora num escopo além daquele originado de sua autora, Elisabeth Noelle-Neumann, mas reconstruído completamente como meio de cerceamento de opiniões alheias em uma seita).

Entrega total

Como vimos anteriormente, com o Efeito Backfire e o viés da confirmação, quanto mais as pessoas investem suas emoções em uma crença, mais difícil é se desapegar delas.

Dan Ariely traduziu isso no viés do investimento emocional, fenômeno que explica como algumas pessoas se “apaixonam” por suas crenças. Conforme Ariely, as decisões humanas são maculadas pelos investimentos emocionais acumulados. Quer dizer: quanto mais alguém investe numa crença mais difícil é abandoná-la.

O estudioso Jeremy Ginges diz que as crenças de valor fundamental são sagradas para as pessoas, com alto valor para sua identidade. Já vimos que poucas coisas são mais valiosas para as pessoas como sua autoestima. Assim, os valores fundamentais, que protegem nossa identidade também manter nossa autoestima. Segundo Ginges, “esses valores motivam muitas decisões importantes ao longo da vida, tanto da perspectiva individual quanto da social”. Isto é, “basicamente, tudo em nossa vida está relacionado a nossos valores”.

Assim, quanto mais tempo ou até dinheiro alguém investe em uma crença, por muito tempo, mais difícil é abandoná-la. Foi assim que os gurus entenderam que um dos mais potentes estratagemas é atribuir alto valor ao desapego. É por isso que Oliveira orienta seus alunos a abandonarem seus interesses alheios ao curso. Devem “estudar e nem sequer se preocuparem a pagar as contas”. Mesmo que isso leve alguns alunos a altas dificuldades, serve para estimular um alto investimento emocional. Kramer e Alstad lembram que uma mensagem fundamental dos gurus é que “você não pode se tornar iluminado se estiver preso no plano material com anexos”.

É claro que nesse processo alguns de seus alunos cometerão desastres ao longo da vida por tamanha irresponsabilidade pessoal, mas é exatamente isso que os fará ainda mais apegados à crença. Também é certo que alguns se sentirão enganados neste processo, gerando o abandono da seita. Mas, como visto nos itens anteriores para controle emocional, os próprios ex-membros são tratados como crueis, interesseiros e oportunistas. Deste modo, o ataque ao comportamento das ovelhas desgarradas é usado para apertar os grilhões emocionais dos que permanecem.

Resumo

Os 13 itens para manipulação emocional não são os únicos, mas os principais para fazer o motor da seita girar. Eles serão encontrados em praticamente todas as estruturas de seita ao longo da humanidade. Como não poderia deixar de ser, não são os únicos itens de controle emocional. Em próximos textos, falaremos de outros itens de controle emocional que são utilizados em diferentes contextos, como no clima de “pílula vermelha” ou no avanço da “espiral do silêncio”, especialmente útil para seitas políticas.

Neste capítulo, vimos como tudo depende de marcadores somáticos, que, no caso das seitas, se baseia simplesmente em manter a noção de que o guru é uma criatura infalível (ou quase isso) e que seus seguidores são uma elite especial por segui-lo. Todo o resto da malha de frames é desenhada para impulsionar esses marcadores somáticos. É claro que há mais elementos somáticos e frames do que isso, mas todos eles são alinhados com a noção do quão especial é o guru e do elitismo de seus discípulos.

No próximo texto, falaremos da “mitologia” que o guru criará em torno de si, de sua seita, de suas habilidades, de seus discípulos. Enfim, vamos compreender o poder do “mito” dentro do mundo das seitas políticas.

Próximo Texto: A Arte da Seita Política – 5 – Mito

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2 comentários em A Arte da Seita Política – 4 – Emoção

  1. Nessa parte
    ”Entrega total

    Como vimos anteriormente, com o Efeito Backfire e o viés da confirmação, quanto mais as pessoas investem suas emoções em uma crença, mais difícil é se apegar delas.”

    não seria ”mais difícil é se desapegar delas.”

    keep on the good work

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