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A Arte da Seita Política – 5 – Mito

Continuação de A Arte da Seita Política – 4 – Emoção

Se existe algo observável em quase todos os gurus ao redor do mundo é uma história por trás de sua transformação em um “ser iluminado”, as provações pelas quais passou e uma narrativa para justifica-lo como detentor de uma “revelação”. Como a maioria dos mitos, geralmente as histórias são falsas, mas existem para dar significado a alguma coisa.

Como de costume, os mitos são difundidos com base em histórias e lendas passadas de uns aos outros, quase sempre carecendo de comprovação. Mitos em torno de indivíduos sempre são amparados por informações entrecortadas, seleção e omissão de informações e mistura de informações verdadeiras e falsas. Pessoas falíveis passam a ser consideradas infalíveis com a mitologia, assim como vilões são construídos conforme o gosto do freguês.

Na criação desta atmosfera de que o guru “é especial”, a mitologia adota papel central. É disso que falaremos agora: do papel da mitologia no estabelecimento da figura do guru, bem como da criação do clima de “saga”, tanto para ele como para seus discípulos.

Medo

Como já vimos anteriormente, a manipulação do medo é um dos fundamentos da doutrinação em seitas, além de, em certo nível, ser parte de quase toda propaganda, uma vez que os seres humanos são máquinas que buscam sobreviver, visando se proteger daquilo que tem medo e correr trás do que lhes dá esperança.

Nas sagas envolvendo gurus, é preciso proteger as pessoas daquilo que muitas possuem medo, pois essas figuras se tornam especiais exatamente pelo poder de proteção dos outros em relação ao mal. Mas seria impossível alguém ganhar status especial por proteger as pessoas de pequenos males. Logo, é preciso criar categorias em que o mal assume tons realmente demoníacos ou excessivamente destruidores. Uma figura de altíssimo status diante do mal depende de que este seja representado de forma tão exagerada quanto possível.

Nesta escala, será preciso apelar a grande dose de autoengano. Em seu livro “Risk – The Science of Fear”, explica como as notícias mais assustadoras aumentam o potencial de vendagem de jornais:

Os hormônios que desencadeiam a amígdala melhoram temporariamente a função da memória, de modo que a experiência terrível que desencadeou a resposta será vividamente codificada e lembrada. Tais memórias traumáticas duram e são potentes. Muito tempo depois de a calma ter voltado, mesmo anos depois, em alguns casos, é provável que elas sejam lembradas com facilidade aterrorizante. 

De acordo com Rush Dozier Jr. (autor de “Why We Hate?”, do qual falamos no primeiro texto dessa série), a mais alta capacidade da mente humana é a significação, que pode amplificar o clima de ódio. Uma vez que a mente se compromete com esses sistemas de significado, passa a interpretar diferenças de significação como ameaças à sobrevivência e reprodução.

Segundo Aaron T. Beck MD, no livro “Prisoners of Hate”, nos tempos antigos, deuses raivosos, grupos alienígenas, demônios suspeitos e espíritos perversos eram apontados como culpados por tragédias e desgraças. Ao escolherem bodes expiatórios para serem trucidados, os gurus diziam que esses alvos eram portadores de poderes malévolos secretos:

Os judeus e outros hereges por exemplo, foram considerados como representantes de Satanás buscando derrubar a cristandade. Consistente com essa crença estava a popular suposição de que doenças e desastres eram produzidos por Satanás trabalhando através de seus agentes, os judeus. 

Nas palavras de Beck, “teorias de conspiração como essa são uma elaboração da crença de que grupos malignos projetam seus vizinhos inocentes”. De acordo com Dozier Jr., ódio e significação complicam a equação, pois “praticamente não há limites para as atrocidades que um indivíduo, um grupo ou uma sociedade podem perpetrar” quando o ódio impregna um sistema de significação. Observe agora o que Oliveira diz dos globalistas, com os quais se defronta:

Os globalistas calcularam sordidamente o declínio de nossa civilização, usando todo o poder que tinham ao seu dispor. Eles tentam de todas as formas nos escravizar, pois querem destruir toda a base de nossa nação e impor coisas como pedofilia, sacrifícios humanos, estupros e vampirismo. Com o globalismo, o genocídio será uma prática costumeira, e seremos sempre reféns de forças alienígenas. Nenhum globalista tem qualquer tipo de sentimento humano, pois todos pensam todos os dias em te destruir. Eles não pensam com qualquer tipo de compaixão. Todo globalista só pensa em teu cadáver.

É absurdo afirmar que a polarização sempre levará ao barbarismo, pois é inerente a qualquer ação envolvendo conflito de interesses. Por outro lado, resultados estarrecedores podem ser alcançados com a combinação de elementos como o uso do “nós contra eles”, as estereotipagens tradicionais, todo o pacote do desengajamento moral, o excesso de aproveitamento do autoengano alheio e os discursos de ódio, elementos que, em conjunto, podem induzir as emoções humanas a impor o maior grau possível de horror.

Isso tudo é amplificado pelo alto nível do uso de teorias da conspiração, mecanismo sem o qual os gurus não conseguiriam tanto efeito em instilar medo de forma doentia. Geralmente, as teorias da conspiração possuem quatro elementos característicos:

  1. Grupos isolados, e não indivíduos
  2. Objetivos ilegais ou sinistros, em desacordo com a moral
  3. Atos orquestrados, geralmente em prejuízo da sociedade
  4. Planejamento secreto, em vez de discussão pública

Não apenas gurus, como marqueteiros de diversos tipos se aproveitam disso a partir de alguns vieses da mente, entre os quais o viés de atribuição hostil, que é a tendência de interpretar os comportamentos de outros como se tivessem intenção hostil, mesmo que o comportamento seja ambíguo ou benigno.

Estudado por Nasby, Haysen e DePaulo em 1980, o viés de atribuição hostil se manifesta, por exemplo, quando alguém visualiza duas pessoas rindo. Sem maiores informações, a pessoa intui que eles estão rindo dela, mesmo sem ter certeza disso.

Outro viés é aproveitado para isso: é o erro fundamental de atribuição, que se refere à como explicamos comportamentos nossos e dos outros. Por exemplo, se estamos transportando uma caixa de cerveja e a deixamos cair no chão, colocamos a culpa no piso molhado. Se for outra pessoa que deixar a caixa de cerveja cair, ela foi desleixada. O erro fundamental de atribuição foi estudado em 1970 por Lee Ross.

Em relação aos itens 2 a 4, os gurus se aproveitam desses vieses da mente para, mesmo sem apresentar provas, juntar informações reais com diversas outras inventadas na elaboração de suas teorias da conspiração. No livro “A Culture of Conspiracy: Apocalyptic Visions in Contemporary America”, Michael Barkun explica que essas teorias da conspiração geralmente se baseiam na ideia de que o universo é governado de forma planejada, onde praticamente nada acontece por acidente, nada é como parece e tudo está conectado. Além disso, as teorias da conspiração se “adaptam” e integram até as provas que aparecem em contrário, se tornando um sistema fechado e infalseável.

Barkun classifica as teoria da conspiração em três tipos:

  • Baseadas em eventos: Alguém pode criar teorias falando sobre o assassinato de John Kennedy, responsabilidades sobre o atentado terrorista em 9/11 e o espalhamento do vírus da AIDS de forma intencional;
  • Conspirações sistêmicas: são apontados objetivos abrangentes, normalmente relacionados à segurança de países, regiões e até do mundo topo. Normalmente, existe uma organização maligna e centralizada implementando um plano para se infiltrar na sociedade e subverter as instituições existentes. Falam-se em maquinações “da Maçonaria”, “dos Illuminati” e daí por diante;
  • Superconspirações: aqui são unificadas várias conspirações em conjunto, de forma hierárquica. No topo da conspiração, há uma força maligna e de extremo poder.

Considere que até hoje o documento “Os Protocolos dos Sábios do Sião”, que seria um plano judaico para dominar o mundo, é divulgado a rodo entre radicais islâmicos.

Barkun aponta os seguintes elementos para que as teorias da conspiração tenham apelo:

  • Elas afirmam explicar o que a análise institucional não consegue fazer; aparentemente, isso daria sentido a um mundo confuso;
  • Elas são apelativamente simples, dividindo o mundo entre as forças da luz e as forças das trevas; basicamente, rastreiam todo o mal de volta para uma única fonte, que são os conspiradores e seus agentes;
  • Ademais, essas teorias são apresentadas como um conhecimento secreto e especial; por isso, as massas são tratadas como um rebanho, ao passo que os adeptos da teoria fazem parte de uma elite de conhecimento que podem se sentir especiais ao perceberem o que os demais não perceberam.

A junção desses três elementos não apenas potencializa o uso do medo, mas atende aos marcadores somáticos básicos necessários ao guru.

No livro “Right-Wing Populism in America: Too Close for Comfort”, Chip Berlet e Matthew N. Lyons explicam que o conspiracionismo adota a forma narrativa básica de definir um bode expiatório, enquadrando os inimigos demonizados como paste de uma enorme trama sórdida contra o bem comum. Ao apontar os dedos para os culpados, dão margem para que um herói apareça para salvar os outros do grande mal.

Na política, as teorias da conspiração existem tanto para a esquerda como para a direita. Por exemplo, o juiz Sérgio Moro foi apontado pelos petistas como agente da CIA. Além dos vieses aqui observados, o viés da confirmação ajuda a potencializar as brechas para as teorias da conspiração. Para lutar contra esse grande mal, é preciso de um herói.

Monomito

As teorias da conspiração são mitologias úteis para gurus, mas elas se complementam com a mitologia relacionada ao herói. Para explicar essas mitologias específicas, há várias abordagens, das quais a mais fundamental é a do “monomito”, muitas vezes também chamada de “Jornada do Herói”.

Conforme o antropólogo Joseph Campbell, esta é uma jornada cíclica presente em mitos. O termo foi utilizado pela primeira vez em seu livro “O Herói de Mil Faces”. Campbell estudou profundamente a obra de James Joyce, do qual aproveitou o termo “monomito”.

Narrativas envolvendo Gautama Buddha, Jesus Cristo e Moisés, dentre milhares de outras, podem ser descritas em termos do monomito. Em todas as grandes obras da literatura e do cinema, o monomito dá o tom das narrativas. Campbell aponta, em especial, como George Lucas o adotava na criação da saga Star Wars.

Campbell e Lucas se tornaram amigos após a elaboração da trilogia original. O primeiro só foi assistir a posteriormente a série porque o amigo insistiu. Lucas O. Seastrom escreve:

“Alguns anos depois de seu primeiro encontro, o tempo finalmente chegou para que Lucas mostrasse a Campbell seu trabalho. Lucas conta aos biógrafos de Campbell: “[…] Em algum momento falei sobre Star Wars, e ele ouvira falar sobre Star Wars”. Disse-lhe “Você tem algum interesse em assisti-las?” Nesse tempo já tinha concluído os três filmes. Ele disse “Assistirei os três”. Eu disse “Você gostaria de assistir uma por dia?” porque ele ficaria uma semana mais ou menos. “Não, não, quero assistir todas de uma vez””.

O roteirista Christopher Vogler chegou a usar as teorias de Campbell para criar um memorando para os estúdios Disney. Posteriormente, escreveu o “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas”. Foi influente para os 10 filmes produzidos pela companhia entre 1989 e 1998. Também influenciou a série “Matrix”.

Conforme Campbell, o monomito mescla o conceito junguiano de arquétipos e a estruturação dos “ritos de passagem”, descritos no livro “Os Ritos de Passagem”, de Arnold Van Gennep.

Segundo Carl Gustav Jung, os arquétipos são conjuntos de imagens primordiais que estão em nosso imaginário e que dão sentido às histórias passadas pelas gerações. Elas representam o conhecimento no inconsciente. Futuramente, a psicologia social iria interpretar melhor isso a partir dos estudos dos vieses. Juntos, esses vieses fazem a mente ter certas expectativas de acordo com a interpretação de eventos do mundo e, por isso, somos predispostos a buscar figuras como “herói”, “vilão”, “o sábio” o “fora da lei” e diversos outros.

Conforme Gennep, diversas sociedades marcam a transição dos indivíduos de um status para outro. Na maior parte dos mitos avaliados, sempre havia uma sequência com “separação”, “transição” e “agregação”. Esses ritos fazem a representação simbólica da morte e da reencarnação presente, como princípios de renovação indispensáveis a toda sociedade. Gennep argumenta que, uma vez que indivíduos e grupos se encontrem em estado de suspensão, desvinculados da condição anterior, mas ainda não incorporados à nova condição, são um problema para a sociedade, dado que se situam fora as áreas normais de controle normativo. Precisam, assim, assumir novo “status”, previsto pelos valores de grupo.

O que importa para nós é que é esperado em qualquer narrativa mitológica a presença de “transições de estado” e inclusão de pessoas em arquétipos. Para o herói nas grandes narrativas, isso é explicado principalmente explicado pelo monomito (embora hoje em dia existam alternativas ao monomito, principalmente para aumentar a variação no cinema, considerado cada vez mais repetitivo).

Segundo Campbell, o monomito, está dividido em três seções: Partida (ou Separação), Iniciação e Retorno. Na Partida, o herói aspira à sua jornada. Já a Iniciação trata das várias aventuras do herói em seu caminho. No Retorno, o herói volta à casa com o conhecimento e os poderes adquiridos ao longo da jornada.

Na versão de Christopher Vogler, ainda mais facilmente assimilável, temos a seguinte divisão:

  • Partida
    • Mundo Comum
    • O Chamado da Aventura
    • Recusa do Chamado (ou Reticência do Herói)
  • Iniciação
    • Encontro com o mentor (ou ajuda sobrenatural)
    • Cruzamento do primeiro portal
    • Provações, aliados ou inimigos (ou a Barriga da Baleia)
    • Aproximação
    • Provação difícil ou traumática
    • Recompensa
  • Retorno
    • Caminho de Volta
    • Ressurreição do Herói
    • Regresso com o Elixir

Quem quer que tenha assistido a grandes sucessos do cinema, como “Senhor dos Anéis”, “Crônicas de Nárnia”, “Fúria de Titãs” ou qualquer outra obra épica e grande aventura, irá notar essa estrutura padrão. Mas é a mesma estrutura que visualizamos nas histórias contadas pelo guru.

Assim sendo, vamos observar como Oliveira usou os 12 estágios ao criar uma narrativa sobre sua aventura até se tornar o mais sábio niberiano, capaz de conduzir seus discípulos à iluminação.

Partida

Iniciando pelo estágio 1, o “mundo comum”, Oliveira sempre conta aos seus alunos como era simples e conformada a sua vida enquanto ele vivia como um mero jornalista nas redações da Nibéria. Aceitando qualquer coisa por dinheiro, dizia que não ter muita consciência do que acontecia. Afirmava que não era capaz de entender a sordidez de toda a conspiração marxista-globalista que o rodeava. Mesmo assim, dizia que percebia “ao menos um pouco” o cenário sinistro.

A importância deste estágio é conectar o herói ao público que está lendo a história ou assistindo o filme, pois é preciso existir uma identificação. Ele inicia-se “comum”, como a maior parte do público.

No estágio 2, ocorre o “chamado à aventura”. No caso de Oliveira, ele conta que começou a assistir diversas injustiças promovidas pelo meio jornalístico, com maquiagens de informações e tolerância a crimes como narcotráfico, sequestro de bebês e até vampirismo. Segundo ele, como os crimes eram praticados por esquerdistas, ninguém queria reportá-los, deixando os criminosos soltos. Nesse momento, diz, entendeu que era preciso conscientizar a direita dos males da esquerda. Oliveira também afirma que ninguém tinha dimensão do tamanho da malignidade e do poder esquerdista até então. Por isso, ele precisava estudar a fundo o que tinha acontecido. Tudo isso ocorreu lá pelos anos 80, segundo ele.

A importância deste estágio é lembrar ao público que todo mundo já assistiu injustiças em sua vida e se motivou a combatê-las. Até aqui o herói ainda não é um herói, apenas alguém como nós que apenas sentiu que algo deveria ser feito.

Chegamos ao estágio 3, em que existe a “Recusa ao Chamado”. Basicamente, Oliveira conta que resistiu por mais de 2 anos a fazer qualquer coisa. Entendeu que não conseguiria resistir à pressão, pensando em desistir de tudo. Achou que seria melhor voltar à sua vida comum e mais segura.

Esse estágio também se conecta a praticamente todo o público, pois muitas pessoas já passaram por situações em que poderiam ter feito algo e não fizeram. O heroísmo é considerado algo raro. Em escala dos grandes heróis, mais raro ainda. Até esse momento, o “herói” ainda não pode ser chamado como tal. Ele é como todos os outros.

No estágio 4, há o “encontro com o mentor”. Nas narrativas místicas, isso é visto como uma “ajuda sobrenatural”. No caso de Oliveira, mesmo que ele tenha interesse profundo em questões religiosas, seu amparo é visto em William Kumbukani, pesquisador que levantou todas as atas do Fórum de Ngarasai, ainda no início dos anos 90. Ninguém acreditou em Kumbukani na época, diz Oliveira, mas ele sim. Foi com base nos estudos de Kumbukani que Oliveira decidiu desmascarar toda a grande conspiração esquerdista/globalista/árabe para condenar o povo niberiano.

Com este último estágio, Oliveira começou a se converter no “herói”, pois tomou uma decisão que outros não tomariam, segundo ele. Tudo bem que Oliveira adotou fortemente a teoria da conspiração para converter as reuniões do Fórum de Ngarasai, que realmente existiam e congregavam vários líderes políticos da África (e que se uniam de outras formas, além deste fórum) na “maior conspiração já vista sobre a África para implementação do esquerdismo/globalismo em escala continental”.

Na criação da mitologia, Oliveira afirma que a grande mídia estava escondendo informações do Fórum de Ngarasai para fazer com que ninguém soubesse da grande ameaça. Se é verdade que a mídia não noticiava muito o caso, também era evidente que Oliveira superdimensionou o Fórum de Ngarasai, até porque as verdadeiras decisões políticas envolvendo as negociatas entre países não dependiam desta reunião pública (que ocorria anualmente) para acontecerem. Mas se Oliveira não superdimensionasse a importância do Fórum de Ngarasai, ele não seria um “herói”, não é mesmo? Seja lá como for, Oliveira começaria, agora, sua iniciação.

Iniciação

Nesta fase, Oliveira começa a adentrar um mundo que outros não teriam coragem de adentrar. Segundo sua narrativa, ele não era mais apenas um jornalista, mas um daqueles corajosos a ponto de não querer esconder a verdade dos outros. Queria estudar todos os planos conspiratórios das esquerda globalista e marxista para levar o horror à Nibéria.

O estágio (5), “cruzamento do primeiro portal” narra este abandono do mundo comum. Agora, Oliveira tomava a decisão de fazer algo que ninguém havia feito antes: decifrar os planos esquerdistas tão sórdidos para os niberianos. É claro que já haviam vários autores da direita, mas, segundo ele, nenhum deles teve coragem de desvendar os planos mais amplos e maquiavélicos da esquerda.

No estágio (6), começam as “provações, aliados e inimigos”. Para especialistas em narrativas ficcionais, esta é a uma das fases mais complexas e ricas da história, pois é o momento em que o herói alcança o ponto mais baixo de sua trajetória. Ele será ferido, ficará isolado, deslocado do que conhece, perderá suas armas, seus instrumentos e terá sua reputação abalada. É o seu “sacrifício” por ter adentrado um caminho que ninguém quis trilhar.

Joseph Campbell faz uma alusão à história de Jonas, no ventre da baleia (Jonas 1:1-4):

E veio a palavra do SENHOR a Jonas, filho de Amitai, dizendo:

Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até à minha presença.

Porém, Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis. E descendo a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, para longe da presença do Senhor.

Mas o Senhor mandou ao mar um grande vento, e fez-se no mar uma forte tempestade, e o navio estava a ponto de quebrar-se.

Nessa fase, o navio estava prestes a ser quebrado. Segundo a Bíblia, Jonas se recusou a obedecer os desígnios dados por Deus, que o mandara ir à Ninive, na Assíria, pregar contra a iniquidade daquele povo. Mas este povo gostava de fazer picadinho dos prisioneiros. Por agir covardemente, Jonas foi lançado ao mar e logo em seguida engolido por uma enorme baleia. Dentro do ventre do animal, após três dias, Jonas rezou (Jonas 2:1-4):

Na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeu; do ventre do inferno gritei, e tu ouviste a minha voz.

Porque tu me lançaste no profundo, no coração dos mares, e a corrente das águas me cercou; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado por cima de mim.

E eu disse: Lançado estou de diante dos teus olhos; todavia tornarei a ver o teu santo templo.

Em razão do arrependimento de Jonas, Deus fez a baleia cuspir o profeta nas praias de Ninive, onde pode cumprir sua tarefa.

Esse estágio também fora fortemente desenvolvido por Oliveira, segundo o qual titubeou várias vezes. Poderia ter se tornado recluso para seguir seus estudos, mas continuou trabalhando na mídia. Segundo ele, seus textos falavam do Fórum de Ngasarai, mesmo que fossem superficiais, serviram para atiçar o ódio dos conspiradores da esquerda, que se juntaram para tirar todos os seus empregos e perseguir sua família. Sofrera várias ameaças de morte. Foi quando ele pensou em desistir, mas já tinha ido longe demais.

Mas o estágio (7), da “aproximação”, também ocorre geralmente em paralelo. Mesmo com as diversas provações, Oliveira têm vários êxitos, e consegue reconhecimento de vários intelectuais de seu meu, que o acham excêntrico, mas com algo “diferente” a contar. Seu livro “O estúpido nacional” destroça vários textos de esquerdistas, dizendo que a inteligência da Nibéria está acabada. Consegue esgotar suas duas edições, sendo um relativo sucesso. Mesmo assim, Oliveira está restrito à Internet, mas já no começo nos anos 90 coleta suas vitórias. Segundo ele, suas vitórias mostram que é possível “sobreviver ao esquerdismo, desde que se tenha coragem”. Claro que ele omite os vários outros autores que escrevem textos para a direita. Mas, segundo ele, são “esquerdistas de segunda mão”.

O estágio (8), da “provação traumática” fala de quando ele teve que tomar a decisão de sair do país. Financiado por alguns empresários, viaja à França, local onde pode ter a tranquilidade de começar a escrever diariamente sobre política, criar um programa de rádio online, desenvolver seu curso de filosofia e, finalmente, criar uma forma de desenvolver a “elite de sábios” que conduzirá a Nibéria a se livrar do esquerdismo.

Segue-se o estágio (9), em que, após uma década, existe a “recompensa”. Oliveira, tendo enfrentado todas essas provações, conseguiu criar um sistema de pensamento capaz de vencer, de uma vez por todas, a esquerda. Como tudo até agora, há uma série de invenções – pois Oliveira é apenas mais um dentre vários formadores de opinião, além de falar apenas aos setores mais reacionários, não tanto a conservadores e liberais -, mas o que importa, para ele, é a mitologia. Oliveira diz ao seu público que chegou num estágio que ninguém mais conseguiu e que, agora, já praticamente cumpriu sua missão de vida. Faltaria o retorno.

O Retorno

No estágio (10), temos o “caminho de volta”. Após ter estabelecido sua reputação e construído seu sistema de pensamento, é momento de compartilhar seu conhecimento com todos os outros. Cria um curso online de estudos políticos, que, segundo ele, conseguirá criar pessoas para sucedê-lo. Segundo ele, já tendo realizado seu intento de vida, pode levar os outros a trilhar caminho similar.

Em seguida, temos o estágio (11), que é a “ressurreição do herói”. É que, mesmo já tendo praticamente concluído sua missão de vida, ele é desafiado várias vezes. Segundo Oliveira, todos tentam destruí-lo. Ele teria em seu caminho pessoas querendo evitar que ele desse o caminho para a direita niberiana. Ao ser exposto em suas falcatruas, aponta que isso é tudo parte da grande conspiração.

Ainda assim, conforme o estágio 12, e final, com o “regresso com o elixir”, ele, como herói, está pronto para ajudar a todos no mundo comum. É neste mundo comum que estarão seus discípulos – que ele chamará de “estudiosos” na verdadeira ciência política e filosófica -, a maior parte deles em seu curso online de política e filosofia. Os estágios 11 e 12 são recursivos, ocorrendo constantemente na narrativa.

Cada guru que se preze, seja ele orientado ao misticismo ou à auto-ajuda, ou então à política (ou mesmo tudo junto), deve ter uma narrativa deste tipo para contar aos seus discípulos. Isso será fundamental para que ele seja visto como alguém especial, que passou por estágios e provações que os demais nem sequer sonharam em passar.

É claro que Oliveira inventou quase toda a narrativa. Por exemplo, a alegação de que ele é o direitista que mais sofreu na Nibéria é implausível. Segundo ele, ninguém sofreu tantas ameaças de morte por dizer o que diz. Todavia, há vários youtubers que começaram a propagar seu conteúdo – com linguagem ainda mais agressiva –, saindo sempre ilesos. Até hoje não apresentou evidências dessas ameaças de morte.

Uma linha de argumentação diz que a narrativa de Oliveira inventou as ameaças de morte para justificar sua estadia na França, o que deixa difícil para que as pessoas que ele ofende na Nibéria possam processá-lo fora do país. Mas a narrativa de Oliveira diz que ele é o que mais sofreu pelo seu país e esse seria o motivo para ele viver no exterior, sem ter retornado ao país uma vez sequer durante todos esses anos.

Também deve ficar claro que toda esta narrativa não se encontra em livro algum, mas é contada, de forma picotada, em seus cursos, nos seus textos e diversos posts que faz nas redes sociais. É útil também para que ele intimide seus opositores. Por exemplo, ao questionar o general Lucas Mushimiyimana, que se opôs a um de seus indicados para o governo, Oliveira  diz:

Um militar como Mushimiyimana não sofreu um décimo do que sofri pelas Forças Armadas da Nibéria; portanto, ele não tem moral para me dizer nada.

Isso significa embutir em cada uma de suas narrativas diárias elementos que estariam coerentes com a mitologia que Oliveira criou para si próprio. Toda essa mitologia deve estar coerente com a visão de que o guru é uma pessoa especial, acima da comparação com os outros morais. Quer dizer: é assim que seus discípulos precisam visualizá-lo.

O especialismo do guru

O resultado do uso da mitologia na manutenção da imagem de ser alguém especial é o que Kramer e Alstad definem como “especialismo do guru”. Segundo os autores, esse especialismo “é apresentado como o resultado de muitas vidas de purificação. Por isso, é implícito que o avanço de uma pessoa nunca pode se aproximar do estado exaltado do guru – pelo menos não nesta vida”. A explicação para isso é bem clara:

É muito mais fácil se render a uma projeção de perfeição do que a alguém que é essencialmente como você. Assim, os gurus rotineiramente vendem imagens que as pessoas foram condicionadas a associar à divindade: onisciente, benevolente, todo-poderoso ou aproximações disso. Todos eles afirmam ser capazes de levar as pessoas à salvação, à iluminação, à felicidade, ao autoconhecimento, à imortalidade, à paz, ao fim da tristeza e, em última instância, a ser um com Deus. Esses estados são convenientemente tão difíceis de alcançar quanto são atraentes. Gurus também afirmam conceder amor incondicional àqueles que se entregam a eles, enquanto na verdade qualquer conexão emocional existe depende da rendição e obediência. Eles cultivam imagens que atendem às ideias preconcebidas de espiritualidade dos discípulos como pureza altruísta. Em suma, os gurus dizem basicamente aos discípulos o que eles querem ouvir, incluindo quão especiais e sábios eles são para se renderem a eles.

É por isso que muitos que se submetem a um guru acabam visualizando-o como uma espécie de “pai”. Foi assim também que ele vendeu a imagem de ser “o pai da direita niberiana”, mesmo que ele representasse apenas um dos setores.

Em manifestações que ajudaram a derrubar um presidente esquerdista, os setores ligados a Oliveira tiveram pouco papel. Mas o guru conseguiu vender aos seus discípulos uma imagem positiva ao dizer que os movimentos “não fizeram a revolução total” e, portanto, estavam desconectados do bem maior. Quando o impeachment aconteceu, maquiou os fatos para dizer que “se não fosse sua influência, nem o impeachment teria acontecido” (omitindo o fato de que o guru ficou contra o impeachment).

Essas contínuas maquiagens da realidade são adotadas para manter a mitologia, enfatizando a figura do “pai da direita niberiana”. Como a um pai dos velhos tempos, as pessoas aceitam sua liderança ditatorial, rendendo-se à autoridade absoluta deles. Quase sempre Oliveira exige ou espera certos títulos ou atos de respeito por parte dos discípulos, no que ele recompensa devidamente, exibindo os elogios em um mural virtual.

No texto “Cultism”, de Phil Alcoln, lemos:

Os escritos ou ditos do líder estão acima de questão. A liderança citará várias razões (às vezes citando as escrituras para se apoiar) para mostrar por que os seguidores não devem questionar a liderança. Se um problema surgir dentro ou para o grupo, ou o grupo ou líder é questionado ou refutado por alguém fora do grupo, então é sempre por causa de perseguição ou uma razão que não é culpa da liderança, pois a liderança está acima de estar errada. Problemas e objeções são sempre culpa de outra pessoa e a liderança não assume responsabilidade por esses problemas, mesmo que os erros sejam deles, para começar. Se questões ou falhas éticas ou morais forem identificadas na liderança, a infalibilidade e a inerrância da liderança são invocadas para desculpar ou perdoar essas falhas.

Outro aspecto que deve ser visualizado no guru é o de “visionário”. Se muitos do lado de fora o percebem como megalomaníaco, isso é essencial para que ele alimente a imagem de “condutor da verdade” perante os discípulos.

O ideal é falar de uma ideia de difícil acesso ao público leigo para requisitar um aprofundamento que só será obtido pelos discípulos da seita. Como já vimos, o ser humano é uma maquina de significação, além de especialmente motivado por idealizações. O fato é que ninguém entregaria sua vida se não fosse por algo que não fosse expressivo ou soasse grandioso. Se não existir essa percepção, o indivíduo vai gastar seu tempo e dinheiro com outras coisas, em vez de dedica-los a um guru.

No primeiro dia de aula em seu curso, Oliveira garante que seus alunos se tornarão a elite cultural de seu país. Como já observado anteriormente, isso é ilusório – principalmente por tratar de um conhecimento não validado -, mas mantém a narrativa. Seus indicados para cargos públicos são, em geral, menos qualificados que os demais indicados por outros setores da base do presidente, mas, ao serem chutados, Oliveira diz que todos “são vítimas da injustiça, por serem os únicos interessados no destino do país e os únicos qualificados a exercer posições no governo”.

O guru é especialmente “purificado”, é claro, por ter passado por muito tempo de purificação. A narrativa do herói atende a este princípio, reduzindo o senso crítico dos discípulos em questionar essa purificação. É isso também que permite ao guru adotar o aspecto de “avaliador”, que é aquele que, segundo Kramer e Alstad, “balança cenouras de conhecimento esotérico que ele transmitirá quando julgar o discípulo ‘pronto’”. Certo dia, Oliveira divulgou a seguinte mensagem em seu mural:

Apenas Josias Anaishe, Charles Zendaya e mais 8 pessoas estão prontas a seguir o meu trabalho assim que eu morrer. Outros podem chegar lá, mas, lembrem-se, que é preciso muito estudo e dedicação, no que eles se destacaram.

É esperado que este tipo de mensagem seja capaz de “atiçar” a sede por aprovação dos diversos membros, que enfiam a cabeça nos “estudos” para chegar lá. Enquanto isso, Oliveira consegue se safar de diversas situações. Kramer e Alstad explicam:

[…] se alguém perguntar como é que alguém cuja mensagem promove a austeridade vive tão abundantemente, esse tipo de resposta é usual: “Você não entende a verdadeira natureza da austeridade, que não tem nada a ver com circunstâncias externas. A verdadeira austeridade é um estado totalmente livre de anexos e comparação. Você acha que isso é importante para mim? Porque isso é importante para você e você se compara com os outros, você não é livre. O universo apóia o verdadeiramente liberado como um todo”. A mensagem aqui não apenas critica o questionador, mas sugere que através dos ensinamentos do guru, pode-se eventualmente ter tudo também.

Um aspecto que o guru deve lutar para manter acima de qualquer coisa é o de “desinteressado”. Tendo indicado mais de uma dezena de integrantes para a base do presidente, Oliveira traz o inferno na Terra para os oponentes diante da possibilidade de algum deles perder o cargo. Luta para mantê-los por lá mais do que tudo na vida.

Ainda assim, sempre que essas lutas políticas são percebidas externamente (e a mídia até se assusta ao notar o quão longe Oliveira é capaz de chegar para segurar essas posições), ele diz coisas como:

Eu sou um sujeito que coloca a realidade acima dos interesses de grupos. Os outros que visualizam interesses em mim são os verdadeiros interessados. Ao contrário de todos os outros, meus alunos estão no governo só para ajudar. Todos os demais são desqualificados, existindo superioridade moral e intelectual dos meus alunos em relação ao resto. É por isso que eu e meus alunos ficamos acima da disputa de poder. Juristas, empresários e militares que estão na base do governo não estão no meu nível e nem de meus alunos. É por isso que jamais disputo o poder com ninguém: apenas digo o que penso. Aqueles que lutam contra mim lutam contra a realidade.

Todo esse discurso soa infantil até em filmes da Sessão da Tarde, mas os discípulos seguem acreditando assim mesmo. Geralmente isso tem a vez com os DIGs (delírios de injustificada grandeza), mas isso é erradamente interpretado pelos que estão fora da seita como “maluquice sem sentido”. Sem esses delírios, a imagem “especial” do guru não se sustenta entre os discípulos. Seria, assim, uma “maluquice que dá resultados”.

Por fim, o guru sempre se venderá como “incorruptível”, o que pode ser útil também para o uso de discursos populistas e aliança com medidas políticas neofascistas, populistas e autoritárias em geral. Como dizia Lord Acton, “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”. A suspeita de Acton dá sustentação às visões conservadoras – de suspeita em relação ao poder do ser humano – e liberais – de restrição do poder nas mãos de poucos, mas – acredite se quiser – Oliveira se declara “conservador”.

Mesmo assim, o guru precisa convencer seu público de ficar além dos seres humanos normais. Se o resto da humanidade é baseada no auto-interesse, isso não afetaria o guru, que estaria livre do auto-interesse. Logo, seria incorruptível, o que amplia o autoritarismo de suas ações. Como Kramer e Alstad apontam, a maioria das manobras é baseada no sentido de fingir que “o guru não tem interesse próprio”:

O ideal tradicional de iluminação permite este reino livre de fraude porque o guru é colocado em uma categoria além do conhecimento e julgamento dos outros. A partir daqui, gurus podem racionalizar qualquer comportamento contraditório. A ideia tradicional que uma vez iluminada alguém pode fazer qualquer coisa também é atraente para os discípulos que secretamente esperam que seja onde os seus sacrifícios possam eventualmente levá-los. Ligada a isso está a visão de mundo da unificação, que vê a unidade de toda a existência como a realidade suprema. Dentro desse quadro, a separação ou individuação é considerada uma ilusão direta ou, na melhor das hipóteses, menos real que a unidade. O guru se apresenta e é visto por seus seguidores como uma manifestação sem ego dessa unidade. Assim, os conceitos de unicidade e iluminação trabalham em conjunto para criar um sistema fechado onde cada um valida o outro: a ideologia unificadora postula que algumas pessoas especiais são iluminadas, que por sua vez verificam a ideologia da unicidade.

Em adição, Kramer e Alstad lembram que “para ser considerado esclarecido, deve-se não apenas ter certeza disso, mas também a respeito de todo o resto”. Leia mais:

A certeza em áreas onde os outros não tem certeza e possuem auto-interesse automaticamente configura o domínio do guru. Já que aqueles sem autoconfiança buscam a certeza nos outros: o poder está lá apenas para a tomada por qualquer um que envie uma mensagem dizendo às pessoas, com certeza, o que elas querem ouvir. Além disso, para obter seguidores, se faz necessária uma mensagem de que desejos promissores serão realizados e facilidade em lidar com os desafios e confusões das pessoas. A certeza combinada com a estrutura tradicional da unicidade dá ao guru uma posição de fácil. Palavras fáceis de unicidade como “somos todos um” ou “tudo é perfeito” são fáceis e podem desviar qualquer desafio ou dúvida. Os problemas que surgem da vida individualizada podem parecer triviais e um sinal de que o questionador tem sérios “problemas com o ego”. Desviar de tudo de volta para as faltas dos outros é uma manobra simples e antiga de qualquer pessoa em uma posição de imutabilidade.

É assim que a relação entre guru e discípulo é essencialmente autoritária. Exatamente por não permitir questionamento e exigir excessiva submissão. Não é por acidente, mas por que se não for assim a seita não funciona em toda sua necessidade por submissão dos adeptos.

A saga dos ungidos

Nunca se esqueça que são dois os conjuntos de marcadores somáticos (distribuídos em diversos frames) que “plugam” a seita: (1) sensação de que o guru é especial, acima de qualquer contestação, (2) senso de elitismo nos discípulos, que tem a impressão de que estão acima dos demais seres humanos. Logo, se existe uma mitologia relacionada ao guru – sem a qual a seita não se sustenta -, é preciso também que ela se aplique, ao menos em parte, em relação aos discípulos.

É evidente que o guru deve dizer aos adeptos que eles vão “sofrer muito no trajeto”. Alguns poderão ser discriminados pelos outros pelas novas ideias adotadas. Mas também é dito que este sofrimento valerá a pena. O guru não vai contar que muitos serão vistos com “malucos” por seguirem ideias não validadas, mas sim porque os mundanos “não querem a verdade”. É por isso que as promessas do guru não podem ser coisas muito palpáveis, mas algo de difícil tangibilidade.

Por exemplo, se um guru promete que alguém terá “aumento de salário” em seis meses, corre o risco de ser visto como um embusteiro se isso não acontecer. É por essa razão que a promessa deve ser por algo de definição duvidosa, impalpável e abstrata. Como, por exemplo, o pertencimento a uma “elite cultural”, que irá comandar os destinos da nação. Obviamente, a descrição exata do que significa essa elite cultura é pouco clara. De mais a mais, os próprios elementos culturais abordados no curso de Oliveira são pobres. Não há uma análise do cinema, das artes, etc. Decerto existem vários chavões, mas nada que signifique “criação de nova cultura”. Mesmo assim, a “criação de uma elite cultural” é vendida aos membros.

É por isso que, a cada percalço que o presidente (apoiado por ele) sofre, Oliveira declara:

Só uma coisa pode vencer o globalismo: a guerra cultural, interminável e persistente, que só meus alunos conseguem disputar.

É preciso que se diga aqui sobre a importância da disputa política nos espaços culturais, o que não significa que o método de Oliveira seja o único e que seus alunos sejam esses “ungidos” ou que tenham a maior clareza de cenário. De qualquer forma, a vagueza do objetivo é o que permite que os discípulos possam lutar por anos a fio atrás da meta vaga. Caso não atinjam o alvo, o guru poderá dizer que ele não mirou direito ou que faltou vontade.

Aos poucos, o discípulo começa a acreditar que a falha é dele. Com autoestima abalada, verá o sentimento de culpa dominá-lo nas próximas ações. Muitas vezes, isso o torna ainda mais vulnerável à sedução pelo guru. Enfim, isso é um “prato cheio para criar uma nova meta dentro da grande meta”.

O importante é que o discípulo também se sinta como parte de uma saga, na qual ele é um dos “ungidos”. Qualquer narrativa criada pelo guru deve sempre instilar o senso de orgulho de se pertencer ao grupo. O foco está na identidade daqueles que fazem parte da luta.

Mas é aqui que começa, então, a saga do discípulo, que deve começar com os estágios da partida: (1) Mundo Comum, (2) O Chamado da Aventura e (3) a Recusa do Chamado. São estágios normais, que acontecerão para todos que estivessem se juntando à seita.

A coisa começa a ficar excitante para os discípulos a partir das “iniciações”, em que a sua relação com o guru é o estágio (4), “o encontro com o mentor”. Grande parte da vida do discípulo é ficar rodeando pelos estágios da Iniciação, que envolvem “cruzamentos de portais”, “provações” e “aproximação”. Dificilmente, ele terá uma “recompensa” tangível, mas poderá ter manutenção da expectativa emocional e se sentirá empolgado nas batalhas que disputará no caminho, como veremos no capítulo 9 (sobre os “guerreiros da seita”).

É assim que vemos Oliveira costumeiramente dizer que “a guerra cultural não deve parar”, e que seus alunos fazem parte deste caminho, pois ouviram, já na primeira aula que:

Se a salvação da Niberia não sair daqueles que estão neste curso, não sairá de nenhum outro lugar. É isso que torna vocês especiais, ocupando uma posição histórica que nenhuma pessoa além de vocês ocupará.

Evidentemente, o senso de elitismo irá impressionar algumas pessoas do lado de fora. Principalmente por isso, Oliveira consegue intimidar muita gente nas redes sociais. O presidente teme sua influência e até alguns de seus filhos, fascinados, assistem os cursos de Oliveira. Vários grupos de ação online são originados de turbas ligadas a Oliveira, mesmo que várias vezes criem problemas para o presidente, devido ao extremismo excessivo. Há quem diga que o presidente goste de tudo isso.

Enquanto isso, o guru vai utilizando os testes de fé. Por exemplo, Oliveira costuma passar missões para membros específicos, que pode aceitar o desafio. Se aceitar, isso será uma prova de fé. Pode ser a perseguição a ex-membros e o ataque mais extremo a eles. Os mais ousados são classificados como uma elite e elogiados em público.

Tudo isto é movido pela mitologia que, enquanto é usada de forma detalhada pelo guru, também deve descrever parte da saga dos discípulos.

Resumo

Se os dois blocos de marcadores somáticos da seita são aqueles que mostram o guru como “especial”, acima de qualquer ser humano, e o discípulo como parte de uma elite, acima dos demais mortais, é evidente que uma mitologia precisa ser fabricada para isso. Tudo começa com o clima de medo e o uso de teorias da conspiração, pois existirá um “herói”, o guru, que os levará à salvação.

O monomito explica como os gurus construem suas narrativas, contendo a Partida – que o separará do mundo comum -, a Iniciação – em que ele passará por fases de purificação e provações -, e o Retorno, quando ele volta para ajudar os demais. Essa estrutura de “saga” é embutida em suas narrativas para convencer os discípulos de seu especialismo.

Elementos assim são reforçados na comunicação diária, em que os discípulos devem sempre aceitar que estão diante de alguém com atributos como “salvador”, “detentor da revelação” (o que será abordado em mais detalhes no próximo texto), “especial”, “purificado”, “desinteressado”, “incorruptível” e “avaliador”. É por certo que, diante de tamanha submissão, a relação só pode ser autoritária.

Mas o próprio discípulo, por ter que se sentir parte de uma elite – mesmo que quase sempre afundado em DIGs, ou, melhor, delírios de injustificada grandeza -, também deve se sentir parte de uma saga. É certo que esta é quase uma “mini-saga”, em comparação com a saga do guru. Com essa mitologia em dois andares (para o guru e o discípulo), é feita a “cola” entre os marcadores somáticos relacionados à expectativa de que o “guru é o máximo” e que o discípulo “é parte de uma elite”, precisamente por seguir o guru.

No próximo texto falaremos do momento que se define por “estalar”, que funciona praticamente como se fosse uma “pílula vermelha”. Se já entendemos o mecanismo da submissão, é no próximo texto que entenderemos o momento em que a pessoa mergulha de uma vez por todas, desconectando-se de vez da “realidade mundana” de fora da seita.

Continua em A Arte da Seita Política – 6 – Pílula

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1 comentário em A Arte da Seita Política – 5 – Mito

  1. As crianças (soldados) do exercito estão de parabéns. // 13 de abril de 2019 às 3:01 am // Responder

    Deram 70 SETENTA tiros de aviso, e mesmo assim um bêbado (que havia visto a FARDA dos militares que GRITARAM para ele parar), arriscou a vida da família e avançou uma barreira sô porque estava alcoolizado. PONTO. Ai os Jovens soldados tiveram que dar mais 3 tiros, e abater o motorista infrator criminoso (preservando a vida dos reféns).

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