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A Arte da Seita Política – 6 – Pílula

Continuação de A Arte da Seita Política – 5 – Mito

Se existem métodos para pessoas se submeterem, terem suas emoções manipuladas e aceitarem uma mitologia, como fazer com que tudo isso seja “inserido” na mente dos discípulos, a ponto de causar a “fenda” na mente?

No filme Matrix, dirigido pelos Irmãos Wachowski, o personagem Neo (feito de Keanu Reeves) tinha de escolher, após ter uma percepção da nova realidade (que mudaria sua identidade de uma vez por todas), entre voltar para uma vida de aparências, ilusões e tédio se tomasse a pílula azul. Mas poderia encontrar o mundo real, mas desconhecido e perigoso, se tomasse a pílula vermelha. Ao decidir pela pílula vermelha, passaria a ter revelação contínua de uma nova identidade e de novos aspectos da realidade.

Como no filme, o personagem passa por momentos em que pode pensar em retornar ao estágio anterior. É a isso que os autores Flo Conway e Jim Siegelman chamaram de “estalo” – como se fosse o estalar dos dedos – em seu livro “Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personality Change”.

Tecnicamente, o “estalo” deve funcionar como se fosse a tomada de uma pílula vermelha pela primeira vez, devendo ser seguida por novas dosagens para o efeito ser mantido e ampliado. São essas pílulas que funcionam como elementos fundamentais para a fase inicial de conversão de alguém a um culto.

O “Estalo”

Se todos os elementos vistos até então desembocam em dois conjuntos de marcadores somáticos – (1) aqueles que dão a percepção de que o guru é absoluto em vários absolutos e (2) aqueles que geram senso de elitismo nos discípulos por pertencer ao grupo -, o mesmo vale para causar o “estalo”.

Como já vimos, qualquer coisa destoando desses marcadores somáticos irá fracassar. Se é óbvio que expandir os frames ao redor destes marcadores – até para gerar interesse e alocar todo espaço mental possível dos discípulos, abrangendo vários assuntos, mas sempre com a mesma visão de mundo -, todos eles devem se adequar aos dois blocos principais de marcadores somáticos.

Nesse sentido, o “estalo” é o ponto em que ocorre uma mudança súbita da identidade e alguém começa a cair de cabeça na ideia do culto. Segundo Conway e Siegelman, esse é um momento de extrema emoção. Em alguns casos, pode até “produzir alucinações ou delírios ou tornar a pessoa extremamente vulnerável à sugestão”. Também “pode levar a mudanças que alteram hábitos, valores e crenças ao longo da vida, perturbar amizades, casamentos e relações familiares e, em casos extremos, incitar autodestrutivos”.

Segundo Ted Patrick, entrevistado por Conway e Siegelman, é comum para os participantes de cultos e seitas a manifestação deste fenômeno ao falarem de “mudanças repentinas” que experimentaram no meio do processo:

Na maioria das vezes, essas pessoas não sabem explicar o que aconteceu com elas. Muitos, no entanto, descrevem a sensação em um termo gráfico, quase visível. Dizem coisas como “algo estalou dentro de mim” ou “eu acabei de quebrar” – como se a consciência deles fosse uma peça de plástico quebradiço ou um elástico puxado para fora. E, na verdade, muitas vezes é essa a impressão daqueles que estão mais próximos deles: seus pais, cônjuges, amigos e colegas. Para esses observadores, parece que toda a personalidade do indivíduo “estalou”.

Isso não é meramente uma alteração superficial de comportamento ou crença, mas algo que “pode trazer mudanças orgânicas mais profundas na consciência e em toda a estrutura da personalidade”.

Tecnicamente, esse “estalo” é algo que não está presente apenas nas seitas e cultos do tipo destrutivo, mas em toda a sociedade. Podemos ler um livro que muda nossa forma de pensar ou assistir um filme que “muda nossa vida”. Do mesmo modo, podemos assistir um treinamento de gestão que “muda nossa perspectiva” a respeito de como gerenciar projetos. Ao chegar em um novo país e conhecer uma nova cultura, alguém pode “mudar a forma de visualizar as coisas”. O detalhe é que isso não tem necessariamente a ver com a submissão a gurus e nem com DIGs (delírios de injustificada grandeza). Ao falar do “estalo”, conforme Conway e Siegelman, tratamos de submissão a autoridade de uma forma que abre brechas para um guru explorar seus discípulos, o que nem de longe configura relações sadias.

Vulnerabilidade

Tudo fica mais fácil quando alguém possui certo tipo de vulnerabilidade para se submeter a cultos. Esta vulnerabilidade foi bem observada pelo já citado Ted Patrick, nascido em 1930 em Chattanooga, Tennessee. Ele se mudou para San Diego aos 25 anos, passando a atuar em movimentos civis de esquerda contra a discriminação. Envolvido na política do Partido Democrata, ajudou a acalmar os distúrbios de Los Angeles Watts em 1965 e fundou um programa de voluntários. Aos 41 anos, foi nomeado pelo governador republicano Ronald Reagan para um posto de Relações Comunitárias em San Diego, no verão de 1971.

Ted Patrick

Sua vida mudou em 4 de julho daquele ano quando seu filho de 14 anos, que chegou em casa tarde, explicou que seu atraso aconteceu por ter sido interrompido na rua por alguns jovens que portavam Bíblias e guitarras, questionando-o se ele acreditava em Deus e se sabia que Cristo tinha morrido por “nossos pecados”. Se descreveram como uma grande família chamada Filhos de Deus. Diziam que podiam ter uma vida sem trabalho, sem problemas e jamais ficariam doentes, sem precisarem ir à escola. Afirmaram que essas coisas eram do Diabo, o que quase seduziu o garoto.

Se Patrick já ficou de orelha em pé com isso, ele logo recebeu a ligação de uma mulher angustiada: ela contou que seu filho, de 19 anos, havia desaparecido de Belmont Park naquela mesma noite. Cinco dias depois, ela recebeu uma ligação do filho, dando a impressão de que ele lia um roteiro, através do qual dizia ter se juntado aos Filhos de Deus e não mais retornaria para a casa. O jovem passou a rejeitar os pais, dizendo que eles viviam em pecado. Como ele era maior de idade, a polícia nada pôde fazer. 

Desse momento em diante, Patrick começou a investigar o caso, descobrindo que várias crianças haviam desaparecido e se juntado aos Filhos de Deus naquela mesma noite. Após dois dias de investigação, Patrick havia compilado 26 histórias semelhantes. Dias depois, já tinha 52 histórias. Foi aí que ele decidiu entrar no grupo e ver o que estava acontecendo.

Fingindo-se de sonso, Patrick se enfiou num ônibus com cerca de 14 meninos e meninas, com idades variando de 16 a 25 anos. Orientado a ler vários panfletos, foi levado para uma propriedade no subúrbio de San Diego. Ali viu várias tendas armadas em um campo.  Na casa principal, observou um ancião falando a um grupo de cerca de 50 jovens sentados no chão. Ele dizia: “Seus pais são o inimigo”. Em seguida, bradou: “Você tem que entregar toda a sua vida a Deus… 100 por cento”.

Em todos esses dias iniciais, Patrick observou vários padrões recorrentes nesse estágio inicial de submissão. Em geral, descobriu que a maior parte das vítimas eram jovens, tinham algum problema de relacionamento e questões relacionadas a autoestima. Quanto maior o problema sentido, mais facilmente alguém irá se submeter ao pertencimento a uma elite de “ungidos”, sentindo-se parte de algo especial.

Apesar de ambientes repressivos, a transição é sentida como se fosse algo especial, relacionada a muita alegria.  Quando conversou com Conway e Siegelman, em 1977, Patrick estava preso após ter sequestrado alguém para desprograma-lo, a pedido dos pais. O encontro ocorreu na Cadeia de Orange County. A história de Ted Patrick é contada no documentário “Deprogrammed”, dirigido por Mia Donovan:

Patrick contou que os membros de culto “destroem completamente a mente”. Complementou lembrando que o método de controle começa com o momento em que a atenção do ouvinte é capturada: “Eles têm a capacidade de chegar até você e falar sobre qualquer coisa em que se sintam interessados, qualquer coisa”, disse ele. “A técnica deles é conquistar sua atenção, depois sua confiança. No minuto em que eles conquistam sua confiança, eles podem inseri-lo no culto”.

Segundo, Patrick, isto seria algo como uma “hipnose imediata”. Assim que o membro em potencial é fisgado, o culto mantém uma barreira constante de doutrinação até que a conversão esteja completa. “Quando eles programam uma pessoa”, disse Patrick, “eles usam repetição. Eles dão a mesma coisa várias vezes, dia após dia. Eles se sentam lá, vinte e quatro horas por dia, dizendo que tudo fora dessa porta é Satanás, que o mundo vai acabar dentro de sete anos e que, se você não estiver na família deles, vai queimar no inferno. Quando uma pessoa fica pra baixo, ela se sente culpada se voltar para aquele mundo maligno e perverso. Ele está apavorado com o que vai acontecer com ele lá fora”.

Sobre os Filhos de Deus, ele conta: “Há tanta coisa que a mente humana pode aguentar. Você pode ficar acordado por tanto tempo sem dormir. Você pode ouvir a mesma coisa repetidas vezes e então você se decepciona. Fui a um dos cultos com a intenção de ficar uma semana. Fiquei quatro dias e três noites e, se tivesse ficado mais seis horas, teria ficado viciado. Eu nunca teria saído”.

Mesmo atento às táticas do culto, Patrick descobriu que não estava imune aos seus efeitos: “Você pode sentir isso chegando”, explicou ele. “Você começa a duvidar de si mesmo. Você começa a questionar tudo o que você acredita. Então você se encontra dizendo e fazendo as mesmas coisas que eles. Você tem a sensação de estar se afundando na areia, se afogando – às vezes ficando com tontura”.

Segundo Conway e Siegelman, esse é o momento em que o indivíduo primeiro fica para baixo, quando pode experimentar a liberação emocional esmagadora que muda a personalidade. Somente a partir daí, o novo membro é doutrinado continuamente, para que não consiga mais recuperar o controle de sua mente.

Existe aí um conceito que se chama de “estado flutuante”, que é o ponto em que as crenças de alguém sobre a realidade se confundem e uma nova identidade pode ser criada. Esse estado acontece tanto para a programação de alguém no culto como para sua desprogramação.

Flutuação

Conway e Siegelman descrevem quatro itens que constituem esse estágio de “flutuação”, aos quais definiram como variantes de uma “doença informacional”. Esses itens alteram os poderes cotidianos de pensamento, sentimento, percepção, memória, imaginação e escolha consciente.

Se essas capacidades vitais são alteradas ou danificadas, não haverá apenas mudança de comportamento. A fenda resultante provocará uma mudança duradoura de consciência no nível mais fundamental da personalidade. Os quatro elementos descritos como tipos de “doença da informação” são:

  • Estados Alterados de Consciência
  • Fase Delirante
  • Interrupção do pensamento
  • Interrupção do sentimento

Cada um desses quatro tipos é explorado pelos gurus e seus auxiliares. Comecemos pelos estados alterados de consciência, que não são tão raros e normalmente ocorrem após uma experiência de alto impacto emocional. Com o nível de consciência reduzido, a desorientação e a confusão do momento dão abertura para a absorção de muita informação nova.

Nas experiências místicas, isso tem muito a ver com o transe ou com estágios de extrema empolgação. Isso também pode acontecer em qualquer culto que envolva questões relacionadas a forte emoção. Excesso de raiva e ódio em questões políticas podem levar a esse tipo de alteração da consciência.

Com a redução das capacidades de pensar, questionar e agir, alguém se torna plenamente sugestionável, podendo criar dependência emocional do grupo. Nessa suspensão da liberdade de pensamento, é fácil inserir uma torrente de novas informações na forma de doutrinação direta. Conway e Siegelman escrevem: “Em sermões prolongados, palestras, grupos de discussão, estudo privado e confrontos pessoais, as novas crenças, valores, doutrinas e regulamentos estritos do grupo são inculcados”.

No segundo tipo, a fase delirante, a coisa vai um pouco além: isso já reduz a habilidade de um indivíduo de distinguir entre realidade e ilusão. Tendo como exemplo os sonhos, é um fato que a mente humana consegue criar informações próprias. Veremos no texto 8 (sobre a “espiral”), como elementos da mente podem ser utilizados para qualquer tipo de narrativas, especialmente as utópicas, na manipulação destes estados. Uma vez que “o alcance da imaginação é ilimitado”, “cada sensação física pode ser igualada ou substituída por uma sensação imaginada. Cada imagem e ideia pode ser instantaneamente transformada em outra”.

Chegamos ao terceiro tipo – interrupção de pensamento -, que abre a brecha para o controle da mente. Basicamente, isso é o que permite que o indivíduo renuncie à sua capacidade de pensamento. Nos grupos místicos, isso pode tomar a forma de oração repetitiva, cantar, falar em línguas, auto-hipnose ou diversos métodos de meditação. Em outros tipos de grupos, é preciso envolvê-los em atividades de extrema emoção e euforia ou então aproveitar os momentos de fúria, alegria e afins. O importante é conseguir dar às pessoas a sensação de “reinos intangíveis ou realidades alternativas”. É a abertura dos portais para “a revelação”.

Por fim, a fase de interrupção do sentimento inclui um domínio “mais profundo dos processos de informação humana: sentimentos internos de medo, culpa, amor, ódio, raiva e outras emoções universais”. É aqui que se despertam medos primitivos, a sensação mais profunda de raiva ou euforia, abrindo o espaço para diversas experiências emocionais intensas e momentos de “renascimento”.

O primeiro dos quatro itens é o mais comum. Em relação à “iluminação” ou expansão da mente, ele mantém a consciência reduzida. Frequentemente, há uma sensação enervante e incontrolável de “flutuação”. É a partir deste item que os três outros são explorados, conforme as necessidades da seita. É em pontos assim que surge a oportunidade para causar a mudança de personalidade e a criação de uma nova identidade para o discípulo. Nesta nova identidade, ele terá sentido que recebeu algo próximo a uma revelação.

Ingerindo a pílula

Basicamente, a mente se abre para receber a doutrina. Evidentemente, tudo isso tem a ver com a história dos processos de lavagem cerebral. Nisto, vale a pena recobrar os estudos de Robert Jay Lifton e William Sargant.

Em seu livro “Battle for the Mind”, de 1957, Sargant estudou evangelistas, políticos e curandeiros sobre como eles alteravam o comportamento dos outros. Em linha com aquilo que pode ser definido como formas preliminares de explicar o “estalo” e com base na “flutuação”, ele já dizia que as conversões dramáticas acompanhando essas experiências são o produto de uma “disfunção” fisiológica do cérebro, que se torna receptivo a novas ideias e fisicamente incapaz de julgar ou avaliar a sabedoria ou a correção das mesmas.

Hoje com 92 anos, Robert Lay Lifton ampliou de vez esse tipo do estudo ao lançar, em 1961, “Thought Reform and the Psychology of Totalism”, que mostrou um estudo das lavagens cerebrais na China comunista. Foi ele que cunhou o termo “clichê de interrupção de pensamento”. Vários dos elementos estudados futuramente pelos desprogramadores de cultos tem base em sua obra.

Entre os vários pontos estudados por Lifton estava o uso de estresse físico e emocional para induzir sentimentos de “ansiedade de culpa” e criar uma condição de “destruição do ego” nos indivíduos. No meio dos aspectos mais importantes, estava o processo de “despersonalização”, em que o senso de identidade do indivíduo se perdia. Na China, a proposta era inicialmente feita até por ameaças de morte explícitas, mas depois havia uma oferta de indulto, o que fazia brotar profundo stress emocional.

Nesses traumas, posteriormente havia uma sensação de “morte e renascimento” simbólica. Avaliando o processo de reeducação comunista, ele até notou o conhecido “olhar de mil milhas” que muitas vezes caracterizava as vítimas de lavagem cerebral.

Todavia, todos os processos abordados por Lifton não dependiam basicamente da coerção, mas da mudança de identidade que, conforme vimos nas análises de Patrick, não dependem basicamente de ameaças de morte. Na era dos cultos online, não depende também de qualquer intimidação física, ao menos no primeiro momento. O que há de comum em todas essas transições é a mudança completa de personalidade a partir de alguém que sente ter adentrado a uma nova realidade.

Unificando todos os processos de seitas, essa nova percepção é baseada na crença de que há uma nova realidade muito forte, a ponto de substituir qualquer paradigma anteriormente adotado. Para um guru, é nisto que se encontra o pilar de sua força: ele deve ser visto como alguém que anteviu ou superou as barreiras que os seus discípulos terão que superar.

Em síntese, o guru convence seus discípulos de ter passado por todos os estágios de purificação até o ponto em que é percebido como um ser humano absolutamente superior aos demais. O “estalo” surge quando o novo discípulo aceita que, em sua nova personalidade, definitivamente faz parte desse novo trajeto. Enquanto isso, o líder permanece forte em sua mente porque, como discípulo, ele ainda está em longa fase de preparação para chegar, ao menos um pouquinho, próximo de onde está seu guru.

Todas as provações embutidas na mitologia do guru são parte da narrativa utilizada para manter essa crença na mente dos adeptos. Isso também servirá para que os discípulos aceitem passar por diversas provações e humilhações, pois se o guru “já sofreu muito mais do que isso e já chegou lá”, por que um discípulo não toparia sofrer ao menos um pouquinho?

Alguns desses gurus não ficam bradando isso diretamente, mas outorgam a função a alguns de seus escolhidos, que devem reverenciá-lo como “a autoridade máxima” em qualquer coisa. Mas alguns gurus chegam a esse ponto e dizem, claramente, coisas como: “só eu passei por todos os estágios necessários para entender a realidade de forma plena”. Conway e Siegelman escrevem:

Os privilegiados serão aqueles que fazem um sacrifício maior que os demais para receber os ensinamentos da própria fonte superior. Essa mentalidade de informação secreta já foi utilizada pela realeza e, até hoje, é utilizada por partidos políticos ou empresas – informação privilegiada custa bem caro. Além disso, cria uma pirâmide de interesse auto renovável. Os que estão na base querem subir um pouco; os que subiram um pouco mais também até chegar ao líder. Os imediatos, se forem corajosos e espertos, sacam qual é a brincadeira e criam sua própria comunidade. Por isso é importante ter também uma hierarquia de sublíderes, o que fará com que os seguidores comuns desejem “subir de carreira” espiritual com mais afinco e cedendo tudo de si.

Essas respostas dependem do fluxo informacional – que, como vimos, pode ser explorado nos estágios de alteração de consciência, fase delirante, interrupção de pensamento e interrupção de emoção -, mas sem novas informações não são desencadeados. Em cultos místicos, isso inclui práticas rituais e técnicas individuais e de grupo, que também são vistas em cultos políticos. Estes últimos dependem muito de estratégias retóricas específicas. Em todo o processo, são usadas estratégias de marketing de massa e diversos métodos de comunicação mais sutis.

Em termos de exaustão palpável de informação, esses recursos podem criar profundos conflitos mentais e emocionais: ansiedade, confusão, desorientação, sentimentos de medo, culpa, ódio, raiva, humilhação, constrangimento e alienação.

Sensações assim em conjunto podem fazer alguém querer se libertar de um passado problemático ou mesmo de problemas imediatos. Pessoas são especialmente vulneráveis quando estão em ambientes de crise ou em épocas e locais em que precisam “se situar”. Conway e Siegelman explicam:

[Essas sensações] podem levar uma pessoa a procurar a libertação de um passado conturbado ou de problemas mais imediatos e prementes. Então, muitas vezes em um ambiente sensual, sedutor ou totalmente estrangeiro, ou imerso em uma atmosfera de amor, calor, aceitação, compartilhamento, franqueza, honestidade e comunidade, uma pessoa pode ceder a algum chamado, seja de fora ou de dentro, para se render. “Deixar”, “parar de duvidar” e “questionar”, “abandonar a vontade” ou simplesmente “deixar as coisas flutuarem”. É esse ato invisível de rendição, mais do que qualquer outra coisa, que resulta no encaixe.

É nesse ponto que a personalidade da pessoa se refaz quase que por completo. Em cultos místicos, isso pode dar margem a uma onda de sensações físicas como “uma luz ofuscante, um sentimento flutuante, paralisia momentânea, falta de ar, uma enxurrada de lágrimas, um fluxo de sangue por todo o corpo ou um forte formigamento da cabeça aos pés, como uma descarga elétrica”. Mesmo em cultos políticos, alguém irá sentir algo bem “diferente”.

A sensação às vezes é como a de um indivíduo que caiu do precipício, com a impressão clara de que algo mudou internamente ou no mundo exterior. Em geral, a sensação é percebida como misteriosa, de início, mas deve ser sentida como se tudo que aconteceu fosse irreversível. Quer dizer: a antiga realidade é jogada para trás.

Conway e Siegelman notam que esse ataque massivo de novas informações, em todas as entrevistas que fizeram, era como se cada um “tivesse explodido suas personalidades existentes”, mudando toda percepção deles próprios e do mundo ao seu redor. Em seguida, as pessoas tinham mais que uma simples sensação de “renascer”. No início, elas se sentiram chocadas e em pânico, até desorientadas. Mas era aí que começava o trajeto para a salvação. Conway e Siegelman explicam:

Para a pessoa que a experimenta, o momento de encaixe pode representar dilemas aterrorizantes. Ele pode achar impossível integrar a aguda e clara presença de seu novo sentido diante de alguma noção vaga de seu antigo eu, que ele não é mais capaz de localizar ou definir. Em alguns casos, uma pessoa pode se sentir catapultada através de um limite unidirecional muito além do que ele jamais pensou em ir em sua busca anterior. Ele pode se ver completamente separado de seu passado, colocado em uma pirueta física, mental e emocional. Nessa condição, uma pessoa é perigosamente vulnerável: no rescaldo dessa ruptura devastadora, as capacidades de processamento de informações do cérebro podem tornar-se fisicamente desorganizadas, não simplesmente deixando a mente aberta a novas ideias e informações, mas tornando-a receptiva a todo um novo plano de organização. Alguém cujo senso de eu acaba de ser detonado dessa maneira pode aproveitar a primeira interpretação ou explicação disponível de sua experiência. Se lhe disserem que seu êxtase avassalador era o Espírito Santo visitando sua mente e corpo, ele muito provavelmente acreditaria nisso. Se lhe disserem que seus sentimentos de desapego e despersonalização representam um estado de “unidade cósmica com o universo”, é bem possível que aceite isso como uma verdade absoluta.

Os autores explicam que esse estado de vulnerabilidade de quase total à sugestão não deriva de um mau funcionamento fisiológico do cérebro, mas de uma crise puramente informacional no momento de encaixe.

Nesse estado de busca e reorganização, o cérebro é capaz de incríveis feitos de imaginação. Por exemplo, um adulto maduro pode ser reconstruído à imagem de sua “criança interior”, regredindo ao nível emocional de um garoto egoísta ou adolescente rebelde. Isso pode se tornar parte de sua nova personalidade.

Segundo os autores, “se a pessoa retornar ao seu ambiente anterior e restaurar ativamente seus relacionamentos anteriores, os efeitos do momento de encaixe podem se dissipar em um tempo relativamente curto”. Mas se – por medo ou pânico – ele se retirar para dentro de si mesmo, pode permanecer nesse estado mental precário por meses ou mesmo anos, sempre vulnerável à sugestão

Medicação contínua

Junto a vários elementos envolvendo rituais e isolamento (que trataremos no próximo texto), alguns fatores informacionais podem ser usados para o encaixe, que causa o “estalo” a partir dos estágios de “flutuação”. O que importa é que este “estalo” é como se fosse a tomada de uma pílula, que, de início, gera no “quase discípulo” ou “novo discípulo” o efeito de que “algo mudou” em sua personalidade, mas ele está no começo de seu trajeto. Se após este “estalo” os passos seguintes de modificação de identidade não seguirem (por exemplo, se a pessoa voltar ao seu mundo normal) o processo se reverte.

Revelação

Esta é a primeira e mais fundamental das pílulas, sem as quais não há culto que se sustente. É preciso existir um clima de “revelação” atribuído ao guru. Como vimos anteriormente no texto anterior, a mitologia praticamente dá conta de fornecer esse clima, criando uma história de “purificação” para o guru, que deve ter passado por todos os estágios para ter a “revelação” para trazer aos seus discípulos.

Mas de nada adianta ter essa revelação, se ela não for propagada. É assim que Oliveira conta com um exército – quase todo ele voluntário – para propagar suas ideias pelas redes sociais. Vários desses discípulos saem feito orcs querendo propagar “a palavra”. Nesse continuum, acabam – muitos deles inconscientemente – fazendo outra pessoa ter “o estalo” de que algo está errado em sua realidade.

É por isso que os discípulos de Oliveira sempre dizem aos outros que fazem parte de algo maior. Saem contando que sua vida mudou a partir de sua decisão. Freneticamente, agem não apenas como pessoas discutindo algum conhecimento, mas como pessoas com a clareza de um destino final de sua vida.

Lembre-se que os dois conjuntos de marcadores somáticos envolvem não apenas a percepção de que o guru é a autoridade máxima de um assunto – por ter a “revelação” -, mas também o senso de elitismo por pertencimento a esse grupo. Por isso, os novos “ungidos” trazem a revelação, que, por enquanto estão apenas aprendendo o que é (mas que o guru sabe em toda a sua integridade).

Falsidade do mundo exterior

O clima de “revelação” depende de uma percepção clara de que agora o discípulo faz parte da “realidade”, que não está disponível aos outros. Logo, aquilo que “está lá fora” deve ser classificado como “falso”. Evidentemente, esse tipo de lógica existe em muitos outros contextos de persuasão humana além de os cultos. A diferença é que nas seitas isso é muito estruturado e intenso.

Oliveira conta com uma variedade de pessoas – nos mais altos escalões de sua seita – que aprenderam a falar esta linguagem. Por exemplo, há meia dúzia de blogs que dizem que todas as informações que os outros passam ao público é falsa. A certo ponto, criou-se um time de mídia, Nibéria Sem Máscara, que é como se fosse um “jornal independente” online, mas contemplando também conteúdo temático.

A linguagem do Nibéria sem Máscara não é muito complexa, mas pode ser compreendida numa temática de que “existe um falso conhecimento” lá fora (nas universidades, na mídia, etc) e que ali estaria o verdadeiro conhecimento. É assim que os membros do Nibéria sem Máscara produzem vídeos contando a “verdade que estão escondendo de você” e com notícias “que a mídia não quer que você leia”. Espero que você não fique surpreso ao saber que essas verdades são as mesmas contidas nas “revelações” de Oliveira.

Bastante sutil, o mecanismo serve para a cooptação de novas pessoas, além de gerar bom lucro com anúncios. Geralmente, Oliveira recomenda continuamente o material do Nibéria sem Máscara. Estes, em retorno, sempre colocam Oliveira dando declarações em vários de seus vídeos.

O Nibéria sem Máscara é apenas uma das iniciativas feitas em torno da seita e de sua linguagem. O fato é que os membros mais aptos da seita são treinados a usar esses métodos como forma de facilitar a cooptação e a criação do “estalo”. Em todos os casos, é preciso garantir que a estrutura conceitual nunca deixe de passar a mensagem de que as pessoas de dentro (ou próximas de se juntar) estão “acessando a realidade”, enquanto aquilo que está do lado de fora “é falso”.

Falsidade do mundo exterior [com viés de atribuição hostil]

Neste recurso, é preciso basicamente dar sequência ao anterior, mas alegando também que o mundo exterior é “falso” porque há uma intenção maléfica de pessoas que desejariam que o discípulo não recebesse o novo conhecimento, que é “verdadeiro”.

Um dos blogs apoiados por Oliveira, Conexão Nibéria, é treinado para identificar “intenções maléficas” em qualquer um que se interponha no caminho do guru. Por exemplo, durante um processo para retirada do presidente esquerdista anterior, o Conexão Nibéria divulgou a tese de que “todo o processo relacionado ao impeachment fora criado para evitar que a população soubesse a verdade sobre o Fórum de Ngasarai”. É assim que são continuamente inventadas intenções alheias para os outros. Quase sempre, é uma bola de cristal mentirosa que se aproveita do uso do viés de atribuição hostil.

Quando é refutado, Oliveira conta a história de que existe “uma ação organizada de pessoas querendo evitar” que seus discípulos conheçam a verdade. Como se nota, é um processo muito simplório. Assim como se pode dizer que o mundo exterior é falso, o efeito pode ser aditivado com a noção de que as pessoas têm intenção de evitar que seus discípulos “conheçam o mundo real”.

Mumbo jumbo

É evidente que Oliveira não pode contar aos seus adeptos que eles estão se submetendo a um projeto particular de poder, que envolve um conjunto específico e limitado de pessoas. Para que isso tudo funcione, as pessoas devem realmente acreditar que fazem parte de algo maior, ou seja, que estão recebendo “a revelação”.

Isso envolve muitas coisas. Entre elas, falar dos mais diversos e variados assuntos. Para que se tenha uma ideia, ele chegou a publicar o seguinte testemunho de um de seus discípulos, Francis Sebahive:

O professor Oliveira é responsável pelo mais completo trabalho metafísico de análise literária niberiana. Não apenas isso. Ele analisa toda a literatura política com um método único, que até então não havia sido descoberto. Seu estudo sobre Platão criou uma forma tão inovadora de avaliar a lógica política que ninguém na Academia teve capacidade de entende-lo. Sua teoria do conhecimento total fez com que a história da filosofia fosse toda redefinida. Ao estudar a conexão entre a política e todas as ações místicas, especialmente o vampirismo, conseguiu desvendar todas as questões mais profundas da humanidade. Nenhum outro ser humano vivo é capaz de ter entendido a mente de todos os filósofos da era moderna, mas ele o fez, desconstruindo um a um todos os embusteiros do período Iluminista, que mataram a real filosofia, que só ele foi capaz de descobrir. Sem a presença de Oliveira, não teríamos conhecido nenhum dos grandes autores mais importantes. Mais do que isso, também dá explicações definitivas para Biologia, Física e Química, sem precisar do método científico, mas de uma forma de avaliação cuja profundidade a maior parte dos cientistas nem consegue avaliar. A Nibéria não foi capaz ainda de entender a profundidade deste conhecimento. Oliveira é minha universidade.

Este tipo de relato é decididamente delirante, até porque pessoas não abrangem tantas áreas de conhecimento. Para piorar, descobre-se muito rapidamente que quase todo esse conhecimento não é validado. Para nenhuma surpresa, não existe sequer uma ementa para seu conteúdo. Isso dificulta a validação e o teste externo de suas teses.

Para que seus discípulos acreditem que estão realmente recebendo um conhecimento muito profundo e não tenham pudor de dar declarações deste tipo, é utilizado uma espécie de mumbo jumbo, que é uma linguagem aparentemente complexa para esconder ideias simples (e geralmente falsas). O mumbo jumbo pode ser feito para qualquer coisa. Por exemplo, para explicar como é “certo que o vampirismo niberiano é causado pelo Iluminismo”. Vejamos o que diz Oliveira:

Na essência do ser humano, está a vontade por acreditar em uma verdade universal e imutável. Esta crença é o que permite que os seres humanos se conectem por regras que são claras para todos. Sem estas regras, não haverá tecido social que dure por muito tempo. Numa sociedade judaico-cristã, temos a noção desta verdade universal e imutável. No surgimento do Estado Laico e, depois, do Iluminismo, perdeu-se esta noção de verdade universal e imutável. Sem esta noção, as pessoas passam a manifestar fé em coisas além daquelas amparadas por verdades universais e imutáveis. Para adeptos de crenças vampíricas e de rituais deste tipo, alguém deve acreditar em mudança daquilo que é real. O surto de rituais vampíricos, que evocam os espíritos do vampirismo, só pôde ter início com o fim da crença em uma verdade universal e imutável.

Tudo isto acima é uma enrolação para esconder o fato de que Oliveira não tem como provar que o Iluminismo tem qualquer coisa a ver com o vampirismo (que ele nem provou que existe de fato). Mas escrito desta forma, este show de parangolé pode ser confundido com “filosofia”.

No fundo, ele apenas está querendo que as pessoas temam estruturas que questionem a autoridade, mas não pode dizer isso diretamente. Em vez disso, cria supostos sistemas filosóficos para fingir explicações. Isso amplia a sensação, nos discípulos, de que estão “aprendendo algo muito especial”, quando na verdade é quase sempre apenas mumbo jumbo.

Papel do “educador”

Um guru deve cuidar de muitos aspectos da vida do discípulo. Logo, o curso de Oliveira sobre política e filosofia deve falar de muitos outros assuntos além disso. É por isso que ele utiliza o testemunho de pessoas como Sebahive como “evidência” de que seu sistema de conhecimento é muito profundo.

Claro que muitos que estão de fora da seita acham tudo isso muito ridículo, mas outros tantos não possuem meios intelectuais para não deixarem de se sentir impressionados. Logo de início, vários ficarão com inveja de Sebahive por ele já ter entendido tanta coisa que eles ainda não conseguiram assimilar, aumentando a vontade por seguir “aprendendo”.

Como forma de criar essa percepção, Oliveira precisa ser visto como “mais que filósofo” ou “mais que professor”, mas sim um “educador”. Tratar os diversos aspectos da vida dos alunos ajuda a criar a imagem não apenas de “sábio”, como mesmo a de um “pai” de seus alunos.

Além da ideologia

Várias conceituações sobre ideologia mencionam conjuntos de ideias que justificam ou acobertam objetivos de poder.  Porém, o guru deve vender aos seus discípulos a imagem de ser alguém “desinteressado”. Por conseguinte, é importante vender as suas ideias como “livres de ideologia”.

Por esse motivo, Oliveira sempre reage ralhando a qualquer matéria jornalística que o chama de ideólogo. Certo dia, ele escreveu:

Essa classe jornalística não consegue entender nada do que lê, principalmente de uma mente como a minha, e diz que todos os outros são ideólogos. Dizem isso porque visualizam ideologias em todos os lugares. Ao encontrarem alguém que só pensa na verdade, projetam suas baixezas nos outros e chamam a realidade de ideologia.

A pergunta: o que a afirmação acima fez na direção de provar que ele não tinha ideologia (que só existiria nos outros)? Basicamente nada. Mas isso é reafirmado sequencialmente para manter o frame de que o guru é “desinteressado”.

Quando as pessoas assimilam o frame, podem ter facilitada sua vida enquanto estão apregoando em público que, dentro do curso de Oliveira, existe “a verdade além da ideologia”.

Ataque à academia

Ao contrário do que existe no ambiente acadêmico, gurus precisam se vender como as fontes únicas do conhecimento. Não é por outra razão que o conhecimento externo deve ser descartado. É assim que um guru normalmente avisa que apenas com ele é possível aprender algo de verdade. Seus discípulos, é claro, saem repetindo essa cantilena, como forma de influenciar os outros.

Existe um esforço descomunal para invalidar qualquer outra fonte de conhecimento e principalmente estruturas de conhecimento acadêmicas. É precisamente por isso que as universidades são duramente atacadas por Oliveira. Se é fato que há várias críticas que podem ser feitas ao nível do ensino universitário da Nibéria, também é fato que os ataques de Oliveira são exagerados.

Mesmo que existam áreas em que esquerdistas atuem mais que direitistas (e outras em que direitistas atuem mais que esquerdistas), Oliveira diz que a doutrinação esquerdista “acabou com o ensino superior niberiano”.

Como já observado, o maior problema para gurus é que existe uma estrutura de validação de conhecimento nas universidades. É com essas estruturas que as grades curriculares se tornam públicas para serem comparadas por diferentes professores. Com isso, um professor pode substituir outro sem problemas. Evidentemente, isso não pode acontecer no curso de Oliveira. Assim sendo, ele costumeiramente diz:

Pegue seu diploma conquistado em qualquer universidade da Nibéria e rasgue-o. Não vale nada. Você deveria ter vergonha dele. As universidades niberianas são fábricas de burros. Mas aqui você poderá se livrar da doença mental que te transformou em analfabeto funcional.

Evidentemente, todo esse tipo de discurso serve não tanto como um ataque ao conhecimento exterior, mas também uma forma de apregoar seu conhecimento como “o único verdadeiro”.

Revisionismo histórico

Recontar a história é uma das formas mais eficientes de manipular as memórias alheias. Já sabemos que o ser humano se torna mais suscetível a aceitar memórias falsas em estados alterados de consciência . De mais a mais, a recuperação de “passados míticos” é algo que move muito as emoções dos discípulos, pois eles estão sendo levados a estruturas antigas de conhecimento (onde não havia validação).

Oliveira costuma revisar a História a todo momento. Por exemplo, contou a seguinte história sobre a Inquisição:

Poucas mentiras são tão grotescas como a de que haviam torturas e mortes horríveis nas Inquisição. Na verdade, os inquisidores usavam apenas penas de galinha para fazer cócegas nos “torturados”. No fundo, muitas dessas pessoas até agradeciam aos inquisidores, pois eles riam muito com essas cócegas e isso reduzia o stress deles. As tais fogueiras nunca queimaram ninguém. Apenas chamuscavam, mas isso também era útil para aumentar a temperatura corporal e servia como forma de terapia.

Com isso, Oliveira recontou uma história de violência sobre um “período mítico”, num passado maravilhoso onde tudo era só alegria. Nitidamente, os meios pró-Oliveira divulgarão várias revisões históricas desse tipo.

Ciência falsa

Um dos maiores inimigos dos gurus é a ciência moderna, principalmente por transformar em método o questionamento à autoridade. De acordo com o método científico, teses são validadas por mais de uma pessoa. Devem estar sempre abertas ao escrutínio, o que vai contra qualquer ideia do guru de manter um conhecimento específico fora de qualquer contestação.

Oliveira costuma atacar diariamente teses científicas, para as quais não possui conhecimento sequer para discutir. Certo dia, disse:

A ideia da teoria quântica é uma das coisas mais idiotas que já foram propagadas. Era clara tentativa de trazer ideias pagãs, que influenciaram o culto aos zumbis e aos vampiros, e estão por trás de todas as pragas de nossa história moderna. A grande verdade é que Niels Bohr era um grande charlatão, que não tinha a menor noção de como sequer apresentar ideias coerentes, e teve que inventar uma abordagem para omitir seu desconhecimento.

Certamente isso acaba enrolando muita gente que não tem o básico em termos de conhecimento científico, mas o que importa é o frame maior: o de que uma teoria científica não vale nada e um cientista que dela participou também. Sequencialmente, são elaboradas “análises” deste tipo.

Enquanto isso, várias teses pseudocientíficas são tiradas da cartola. Não é porque Oliveira seja maluco. Há método nisso aí: quanto mais alguém acredita em pseudociência e menos atenção dá à ciência de fato, mais propenso está a aceitar modos de conhecimento anteriores ao método científico.

Falsa acusação de fake news

Se o conhecimento externo deve ser apresentado como “falso em sua integridade”, o mesmo deve ser feito em relação à mídia tradicional. O objetivo aqui não é questionar a mídia em si, mas dizer que “toda a mídia” publica notícias falsas o tempo todo, a não ser, é claro, os meios que o apoiam.

Isso é muito útil para gurus que se envolverão em escândalos. Com o advento do termo “fake news”, se tornou uma mania também lançar a “falsa acusação de notícia falsa”. É por isso que Oliveira reage desta maneira a uma matéria que demonstrou que seis de seus alunos estão integrando um ministério sem possuírem diploma universitário:

Essas pessoas que acreditam na grande mídia deveriam ser vistas como suspeitas. Nem vou responder algo que está publicado na Gazeta da Nibéria, um órgão dominado por marxistas.

O diabo é que isso não responde à afirmação de se os alunos dele realmente foram para ministérios ou não. Com este método, temos um quarteto de apelo à autoridade, sendo os três anteriores: ataque à academia, revisionismo histórico e ciência maligna.

Falsa isenção

Posto que o conhecimento da seita não pode ser questionado, tudo que está sendo visto ali dentro deve ser apresentado como “a verdade”, mas isso porque é “isento”. Logo, o conhecimento externo é fruto de “interesseiros”, mas aquele vindo de dentro da seita surge de pessoas “desinteressadas”.

Nesse sentido, Oliveira elogia um livro extremamente ideológico publicado por um de seus alunos, Joachim Erhimeyoma:

Se você quiser ver uma abordagem isenta, leia este livro. Chega de opiniões enviesadas, que estão na academia da Nibéria. É preciso entender o que diz alguém que não está focado em seus interesses, mas na pura verdade.

Geralmente esse tipo de discurso é propagado efusivamente e convincentemente, até para inspirar os discípulos a saírem apregoando o conteúdo como “isento”.

Ataque aos “interesseiros”

É óbvio que se o conhecimento externo é apresentado como “coisa de interesseiros” é sempre parte do repertório apontar essa característica nos outros, invariavelmente om ataques que nunca terminam, durando dezenas de posts um atrás do outro. Lembre-se que toda vez que um opositor é considerado alguém com interesses em uma questão, ele perde parte de sua reputação. O inverso ocorre para aquele que é visto como “desinteressado”. Por isso, Oliveira diz:

De novo a mídia publica matérias sobre meus alunos ocupando cargos no governo. Esses sujeitos são tão interesseiros que não admitem ver o espaço ocupado por pessoas desinteressadas.

Em seguida, manda:

Essa turma militar é composta de interesseiros que ficam atrás de carguinhos e não entendem o motivo pelo qual mentes desinteressadas não estão lá.

Diante de uma refutação feita por um filósofo de fato, afirma:

Esse sujeitinho está interessado em fama breve ao falar em meu nome. Isso acontece porque ele não tem luz própria.

Ao receber um processo judicial por ter feito uma difamação, diz:

Esses marxistas [que podem ser até outros direitistas que dele discordam] lançam processos contra mim porque estão interessados em atrapalhar meu trabalho e evitar que eu siga ajudando a Nibéria a sair do abismo que eles colocaram.

E assim, sucessivamente, o “interesse” sempre está nos outros, que serão continuamente atacados.

Desconstrução dos “impuros”

Como vimos até agora, todas as pílulas acima servem a duas finalidades, isoladamente ou em dupla: (1) crer que o guru é absurdamente especial; (2) crer que o pertencimento à seita é coisa de ungidos, ou seja, uma elite.

Principalmente na Internet, a desconstrução de quem não estiver dentro da seita é parte fundamental do trabalho, ajudando a trazer novos adeptos. Animados ao ver alguém ser exposto, os membros da seita dirão que “isso é o que merecem os que não possuem o conhecimento”. Tecnicamente, é uma versão moderna da caça aos hereges dos tempos da Inquisição que, obviamente, Oliveira dirá que jamais aconteceu do jeito que está nos livros de História.

É mais do que previsível que Oliveira dedique boa parte de seu tempo a atacar pessoas de fora da seita (principalmente os críticos ou ex-membros), sempre ressaltando como são inferiores a ele e seus alunos.

Resumo

Existe um momento onde alguém tem a mudança de personalidade. A partir daí, recebe pílulas contínuas para que a mudança seja cimentada. Sem isso, o “estalo” inicial se perde e a seita deixa de ter um discípulo. Por esse motivo até mesmo essa fase do “estalo” deve ser seguida por novas pílulas e isso dá muito trabalho ao guru e seus escolhidos.

Essa é a primeira das três fases do processo de conversão de algum em membro de seita, o “descongelamento”. Uma vez tendo sido feita essa passagem, é preciso garantir doutrinação contínua para ir movendo a pessoa de acordo com os interesses do guru. Este é o assunto do próximo texto, “Cativos”, no qual falaremos do dia a dia de alguém na seita, para além da fase inicial de mudança de personalidade.

Continua em A Arte da Seita Política – 7 – Cativos

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3 comentários em A Arte da Seita Política – 6 – Pílula

  1. Série muito interessante (e divertida), Luciano. Mas é interessante notar também que uma figura desse tipo jamais poderia prosperar se os professores universitários de Niberia cumprissem seu papel de ensinar e não fossem ideólogos também.

  2. Qualquer direitista que faz historia tem qur fazer o curso calado ou quase calado, nao precisa ser da seita pra entender isso. Nao generalize ai, daqui a pouco vai falar que comunismo morreu com a queda do muro de berlim.

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