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A Arte da Seita Política – 7 – Cativos

Continuação de A Arte da Seita Política – 6 – Pílula

Conseguimos isolar até o momento em que, com o “estalo”, a personalidade de alguém chegando à seita acontece. Rendido a um guru, manipulado em sua emoção, tendo sucumbido à uma mitologia e vendo sua personalidade mudada, o novo discípulo está pronto para ser “trabalhado” dia após dia.

Agora é hora de falarmos do dia a dia dos cultos políticos online, o que exigirá uma abordagem muito mais específica. Uma vez que já entendemos a dinâmica da “entrada” nos cultos e se já vimos tanto exemplos de cultos online como dos cultos tradicionais, também é importante esmiuçar o nível em que os cultos online chegam no uso dos métodos dos cultos tradicionais. Deste texto em diante, necessariamente o jogo tem que ser “mais bruto”.

Jogo bruto

A primeira coisa que precisamos esclarecer é o quão próximos os cultos online estão dos cultos tradicionais, geralmente presenciais. Esta demanda é importante pois, em uma era de absurda conexão com a Internet e em um verdadeiro caos informacional, é preciso compreender até que ponto as características de ambos os tipos são compartilhadas.

Uma primeira pista se encontra mais uma vez no autor Steven Hassan, que irá lançar em 6 de agosto deste ano o livro The Cult of Trump, em que argumenta que a campanha do atual presidente americano utilizou diversas táticas de doutrinação em sua campanha presidencial. Como não li o livro (óbvio), mas já foi possível observar algumas análises de Hassan sobre o tema, a conexão é mais do que nítida.

Em complemento, Robert Jay Lifton irá lançar em outubro deste ano o livro Losing Reality: Political Religious Zealotry, em que o argumento promete falar especificamente do uso dos mecanismos de culto na ação política extremista.

Dado que ele já encontrou vários elementos de culto e extremismo nas ações de Donald Trump, uma observação preliminar se faz necessária: não estamos aqui dizendo que Donald Trump em si é um extremista, mas é um fato que Steve Bannon, atuando como seu estrategista de campanha, sempre adotou mecanismos populistas altamente extremistas e uma retórica bastante alheia à realidade. Por enquanto, o que importa é que há uma boa pista para estudos por aí.

Um artigo do New Republic, menciona como os cultos à personalidade são uma marca da política populista autocrática. Leia mais, no texto de Alexander Hurst:

Os nomes desses vários líderes são praticamente sinônimos de seus movimentos: Le Pen, Farage, Duterte, Orbán , Erdogan, Chávez , Bolsonaro, Putin. Ou se fossemos mergulhar mais para trás na história: Castro, Franco, Mussolini, Hitler, Stalin. Como líderes de culto religioso, os demagogos entendem a importância de estabelecer uma dinâmica dentro do grupo / fora do grupo como um meio de estabelecer a identidade de seus seguidores como membros de um coletivo sitiado.

Trump, como os autoritários populistas antes e ao redor dele, também entendeu (ou, pelo menos, captou instintivamente) quão indispensável sua persona individual se conecta ao seu objetivo final de agarrar e manter o poder.

A matéria também traz as declarações de Janja Lalich, uma socióloga especializada em cultos, que identificou quatro características de um culto totalista e aplicou-as ao trumpismo:

  • um sistema de crenças abrangente
  • extrema devoção ao líder
  • relutância em reconhecer críticas ao grupo. ou seu líder
  • desdém por não-membros

Gostemos ou não de Trump, me parece bem claro que esses elementos tem sido claramente identificados no modus operandi de sua campanha (não que não tenha sido utilizado por outros políticos de esquerda recentemente, como Barack Obama).

Mas isto basicamente fala questão de campanhas políticas. Mas e se, além de campanhas políticas, falamos de cultos políticos online que tem uma vida muito além das campanhas políticas? É o caso dos exemplos relacionados a Oliveira, que refletem a estrutura dos cultos tradicionais, mas aplicados na Internet.

Seita de fanáticos

Inicialmente, é importante avaliarmos como mapeamos todas as diferenças entre um culto tradicional e um culto online. Focando no primeiro exemplo, podemos lembrar do filme Seita de Fanáticos (Split Image, de 1982). Dirigido por Ted Kotcheff – que na mesma época havia feito o primeiro filme da série Rambo – , o filme conta a história de Danny Stetson (Michael O’Keefe), um estudante americano praticante de ginástica olímpica com planos de conquistar a medalha de ouro nas Olimpíadas. Mesmo sendo um atleta respeitado em sua universidade, tem sérios problemas de sociabilidade. Ao conhecer Rebecca (Karen Allen), acaba sendo envolvido por um culto místico liderado por Kirklander (Peter Fonda).

Naquela época, não havia Internet e nem se pensava na ideia de cultos online. Era um culto tradicional, com técnicas de isolamento físico, mudança de moradia (em que as pessoas vão para fazendas e casas ligadas ao culto) e daí por diante. Porém, o mais interessante era o conceito de “imagem dividida” e da “desprogramação”.

No caso, isso seria praticado por Charles Pratt (James Woods), um desprogramador radical contratado pelos pais de Danny, Diana (Elizabeth Ashley) e Kevin (Brian Dennehy). Mesmo que não fosse um filme violento, os momentos relacionados à “desprogramação” são psicologicamente brutais. Infelizmente, o filme é difícil de ser encontrado. Uma das cenas mais lembradas do filme é aquela em que Danny é sequestrado para ser posteriormente desprogramado:

Na vida real, a história dos desprogramadores de cultos começou com Ted Patrick, que, como vimos no texto anterior, quase viu seu filho sucumbir a um culto e ajudou várias famílias a recuperarem seus filhos, pela via do sequestro e posterior desprogramação.

Quando Patrick penetrou no culto Filhos de Deus, conheceu o guru, chamado David Berg, mas também conhecido como Moisés. Seu material era sempre referenciado por “mo”. Por exemplo, haviam cartas “mo” e áudios “mo”. Berg era um ex-ministro batista expulso por má conduta. No primeiro dia em que estava no culto, Berg não estava presente, mas sua palavra fora ouvida através de cartas “mo” e áudios “mo”. Em turnos, os anciões mantinham as pessoas despertas e constantemente pregando. Recrutas monitoravam os novos membros até mesmo quando estes iam urinar. Sobre os pais dos discípulos, algumas cartas “mo” diziam:

Eles vivem como animais… Eles comem e bebem, dormem e fodem, cagam e mijam – eles sugam o imbecil para o sistema. Fodam-se eles. Eles não são sua família. Há apenas uma família. Esta é a sua família. E você não sai daqui. Deixar nosso lar e voltar para seu lar é agir como um cachorro que come seu vômito. É como voltar e comer sua própria merda. Moisés é seu pai – não há salvação exceto ele. Se você sair daqui, terá sangue em suas mãos. Se você sair daqui, será atingido por um raio … e todos vocês serão mortos.

Em outra carta “mo”, lia-se:

Deus rompeu os casamentos de quase toda a nossa liderança no topo. Eu certamente observei muitos bons frutos nestes casos desde que isso começou a acontecer. Isso também deu bons frutos entre as crianças… Deus tem o objetivo de quebrar famílias, mas apenas as pequenas famílias privadas. Se você não abandonou seu esposo e esposa para o Senhor em algum momento ou outro, você não abandonou nada.

A certo momento, Patrick notou que os anciões deixaram uma mãe ver sua filha. Mesmo assim, cinco deles cercaram a jovem garota, dizendo à mãe: “Rachel não quer falar com você sozinha […] Somos a família dela agora”. A filha avisou à mãe que não queria deixar a nova família. A mãe agarrou a filha pelos braços, mas tomou um soco na boca. Ao assistir a mãe ser agredida e removida, sem nada fazer para impedi-los, Rachel foi homenageada publicamente por ter resistido ao teste.

David Berg

Patrick ficou 48 horas acordado e só então teve permissão para dormir três horas. Agora ele tinha que pensar em sair para evitar sucumbir psicologicamente. Deu uma de esperto e convenceu os anciões que ele precisava ir para casa a fim de receber dinheiro para doar. No caminho de volta, pediu para pararem em uma cabine telefônica, onde faria uma ligação. Aproveitando-se do descuido dos serviçais de Berg, ele mudou o caminho e pulou num táxi.

Já em casa, Patrick seguiu investigando. Ficou incomodado ao saber que, se não tivesse saído, teria se tornado um deles. Aos poucos, foi obtendo mais informações. Descobriu que Berg havia montado uma banda chamada Teens for Christ. O nome Filhos de Deus foi escolhido depois. Foi quando Berg se juntou a Fred Jordan, que apresentava um programa religioso matutino de domingo chamado A Igreja no Lar, onde levava cafetões, prostitutas, bêbados e viciados reformados e pedia doações. Em poucos meses, o grupo Filhos de Deus se expandiu em várias comunas pela Califórnia, tendo como sede uma fazenda de 40 acres em Mingus, Texas, doada pela Jordânia.

Após o contato de outra mãe cuja filha abandonou a Universidade da Carolina do Sul para se juntar aos Filhos de Deus, Patrick cometeu o primeiro sequestro com o objetivo de desprogramar a garota. Teve sucesso em trazê-la de volta para a família e logo criou a organização FreeCOG (Free Children of God).

Quando Jordan saiu do grupo, começaram as crises internas. Não demorou muito para a ex-cunhada de Berg mostrar provas de que o guru tinha praticado coação contra ela para que se casasse com seu filho aos 15 anos. Por várias vezes, Berg espiou ela e o filho transando. Num certo dia, exigiu que ela fizesse sexo com ele também. Quando se recusou, apanhou dos pés à cabeça, mesmo grávida.

Escândalos desse tipo eram parte de um relatório preparado pela Divisão de Fraude de Caridade de Nova York do Ministério Público, após o qual a seita se mudou dos Estados Unidos para a Europa no início de 1973. Segundo Berg, ele e seus seguidores foram obrigados a sair dos Estados Unidos porque o cometa Kohoutek iria cair sobre o país para puni-los de seus pecados.

A partir desse momento, outros pais passaram a procurar Patrick para sequestrar e desprogramar vítimas de culto.

Patrick explica:

Quando você desprograma pessoas, você as força a pensar. A única coisa que faço é lançar perguntas desafiadoras. Eu bati na identidade deles com perguntas que eles não foram programados para responder. Aprendi o que e como os cultos fazem isso. É assim que eu posiciono as perguntas certas para eles, que se frustram quando não conseguem responder. Eles acham que têm a resposta, pois receberam respostas para tudo. O detalhe é que eu os mantenho desequilibrados e isso os força a começar a questionar, a abrir suas mentes. Quando a mente chega a um certo ponto, eles podem ver através de todas as mentiras que foram programados para aceitar. Eles notam que foram enganados e saem disso. A partir daí, suas mentes começam a trabalhar novamente.

Quando seus métodos ficaram famosos, ele se tornou uma pequena lenda nos Estados Unidos. Segundo Patrick, sequestrar pessoas era apenas um último recurso. Em alguns casos, membros que foram sequestrados fugiram no meio do processo e buscaram a mídia para denunciar o procedimento de desprogramação.

Conhecido especialmente por desprogramar que estiveram em cultos Hare Krishna e na seita de Reverendo Moon, Patrick ganhou títulos como Diabo Negro e Black Lightning (Relâmpago Negro). Nos relatos, uma jovem disse que ele tirou suas roupas e a perseguiu nua pelos gramados da vizinhança. Outro conta ter sido brutalmente espancado por Patrick, mas mas nenhum pai, ex-membro de seita ou outra testemunha confiável chegou a confirmar acusações.

Na verdade, conforme Patrick contou a Conway e Siegelman, várias dessas lendas disseminadas faziam parte de uma campanha coordenada de vários cultos para desacreditar seus métodos. No final, ele disse, a propaganda só funcionou a seu favor.

“Os cultos dizem que eu estuprava e espancava as mulheres. Dizem que eu tranco-os em armários e enfio ossos em suas gargantas”, contou Patrick, rindo.

O que eles não sabem é que estão facilitando meu trabalho. Eles entram aqui mortalmente amedrontados. Esse medo resulta das coisas que lhes disseram: daí eu posso apenas sentar lá e olhar para eles. Isso é útil para desprogramá-los. Eles estarão pensando: “O que diabos ele vai fazer agora?”. Eles estão esperando que eu vá torturá-los fisicamente. Mas isso significa que suas mentes já estão trabalhando.

Sobre o “estalo”, Patrick contou a Conway e Siegelman que tão logo a desprogramação acontece, a aparência do agora ex-membro sofre uma mudança brusca e drástica, com o indivíduo readquirindo a capacidade de pensar por si mesmo. “É como ver uma pessoa mudar de um lobisomem para um homem”, disse Patrick. “Toda a personalidade muda, os olhos, a voz. Onde eles tinham ódio e uma expressão vazia, você pode ver a sensação novamente”.

Patrick foi julgado várias vezes pelos sequestros, mas geralmente era absolvido. Em 1977, quando foi entrevistado pelos autores de “Snapping”, estava preso. As coisas começaram a melhorar para os desprogramadores em 1988, quando a Suprema Corte da Califórnia tratou a lavagem cerebral como um delito. Isso dava o direito de processar os cultos, tornando desnecessário o sequestro.

Os três estágios

Em qualquer tipo de culto, o “estalo” é o estágio inicial, que deve ser seguido por sua manutenção, na completa transformação da personalidade. Nisto, temos não apenas um, mas três estágios. Em seu lendário livro Cults in our Midst, de 1996, Margaret Singer, uma das principais autoras sobre desprogramação, descreve os três estágios para a conversão em uma seita. Curiosamente, os três estágios são diretamente adaptados da análise de Kurt Lewin, criador da dinâmica social. São estes os três estágios:

  • Descongelamento
  • Mudança
  • Recongelamento

Em relação ao primeiro, “descongelar”, esta é a desestabilização do “self” de uma pessoa. Segundo a autora, o processo inclui “manter a pessoa inconsciente do que está acontecendo e das mudanças que estão ocorrendo. Controlando o tempo da pessoa e, se possível, seu ambiente físico. Criando uma sensação de medo, impotência e dependência e suprimindo boa parte do comportamento e das atitudes antigas da pessoa”. Esta fase é aquela na qual ocorre o “estalo”, que, como vimos, requer manutenção contínua.

O segundo estágio, “mudança”, é o que “faz a pessoa reinterpretar drasticamente a história de sua vida e alterar radicalmente sua visão de mundo, aceitando uma nova versão de realidade e causalidade”. Basicamente, aqui a pessoa deverá ter sua mudança continuamente reafirmada. Nesse ponto, ela já se sentirá “iluminada” por estar no processo de mudança.

Por fim, o terceiro estágio, “recongelamento”, visa “colocar um sistema fechado de lógica [para] não permitir nenhuma brecha para crítica real”. Deste ponto em dia, as pessoas do mundo exterior notam que as agendas da pessoa mudaram radicalmente. Fechado a um novo sistema de lógica, que não admite questionamento, a pessoa tem reações hostis aos que estão de fora. Segundo Singer, os membros do grupo são deliberadamente e estrategicamente selados dentro deste sistema estático.

Tanto como Patrick, Singer define que a desprogramação envolve “fornecer aos membros informações sobre o culto e mostrar-lhes como seu próprio poder de decisão foi tirado deles”. Parece que os exemplos de Patrick e Singer dão clareza suficiente dos eventos relacionados a cultos tradicionais. Mas será que tudo isso se aplica a cultos políticos online? É o que veremos.

Dos cultos tradicionais aos cultos online

Já se sabe que um culto tradicional requer isolamento físico, restrições comportamentais e às vezes até mudança de localização. Se um culto pode ser essencialmente místico, também pode ser político ou misturar as duas coisas. Pode ser baseado essencialmente em ações físicas, tendo meios adicionais (como Internet) como seu suporte. No caso de um culto online este será focado principalmente nas ações via Internet, mesmo que existam interações relacionadas ao poder e realização de eventos presenciais.

Como vimos, Steven Hassan, no caso de cultos políticos online, e Robert Jay Lifton, no caso de cultos políticos em geral (mas também incluindo ações online), levantaram pontos de prática de culto utilizados em campanhas políticas populistas, mas também transcendem essas campanhas.

No exemplo de Oliveira (inspirado em casos reais), sua ação é essencialmente virtual, com base em aulas destinadas aos seus assinantes, vídeos no YouTube, posts no Twitter e textos de blog. Além disso, ele escreve livros. Quase 90% de sua ação acontece via redes sociais. Com isso, não teríamos os mesmos mecanismos de isolamento que os cultos tratados por Patrick e Singer em sua fase inicial. Isso é um problema? Pode parecer que sim, mas não é.

De acordo com o modelo BITE (“comportamento-informação-pensamento-emoção”, ou “behavior-information-thought-emotional”), de Robert Lay Lifton, observamos no primeiro aspecto, “controle do comportamento”, o maior número de itens relacionados a restrições físicas, essencialmente observadas nos cultos mais presenciais. Como exemplo:

  • regulação da realidade física do indivíduo
  • ditar onde, como e com quem o membro vive e se associa
  • manipulação, exploração e controle da sexualidade
  • controlar vestimenta, regular uso de roupas e demais aspectos
  • reter documentos da pessoa
  • restringir lazer, entretenimento, tempo de férias; restringir o acesso à educação e empregos
  • regular sentimentos, pensamentos e atividades
  • usar recompensas e punições
  • usar regras e regulamentos rígidos
  • forçar a pessoa a cometer atos hostis

Comecemos com a “regulação da realidade física do indivíduo”. Evidentemente, é muito fácil fazer isso em uma fazenda ou acampamento, com a observação física dos outros. Porém, nos dias atuais, Internet o nível de monitoração de atividades dos outros é bastante intenso pela Internet. Grupos de WhatsApp podem ser monitorados, fotos de perfil de Facebook e diversos outros aspectos podem tornar a vida de alguém tão fácil de ser regulada por outros como em cultos presenciais.

Quanto a “ditar onde, como e com quem o membro vive e se associa”, isso também é plenamente possível pela Internet, haja vista que as redes sociais permitem o compartilhamento de muita informação entre os membros. É claro que alguns irão omitir informações e manter certa privacidade, o que aumenta a taxa de abandono. Mas o detalhe é que, via Internet, isso também permite maior distribuição de conteúdo doutrinário. Quer dizer: a limitação física reduz o potencial de distribuição de conteúdo para muitas cabeças ao mesmo tempo. A Internet compensa esse fator.

No que tange à “manipulação, exploração e controle da sexualidade”, é possível saber, pelas redes sociais, quem está se relacionando com quem. É claro que o controle não é tão presente como no ambiente físico, mas é muito fácil monitorar o comportamento de alguém a partir de contatos via Internet.

Controlar o tipo de roupas de alguém, regular alimentos, monitorar comportamentos também são elementos cada vez mais realizados a partir de ações online. É evidente que não é possível levar passaportes e outros documentos da pessoa, realizar abdução física e privar a pessoa do sono, mas esses são elementos auxiliares, mas não obrigatórios para um culto.

Quanto à exploração financeira, é muito mais seguro fazê-lo online. Por exemplo, um guru pode cobrar pelos cursos, elaborar cursos especiais, cursos presenciais e ainda pedir doações de vez em quando.

Em relação à “restrição de lazer, entretenimento, tempo de férias; restringir o acesso à educação e empregos”, o guru e seus coordenadores podem, na seita online, encher a cabeça do discípulo com tanto conteúdo que ele estará prejudicado em suas atividades de lazer. Ademais, a pressão social pode motivá-lo a trabalhar para o culto ou em atividades associadas ao culto.

O aumento do tempo gasto em preparação e doutrinação é feito tanto pela Internet como presencialmente. Novamente, é só entubar o aluno de conteúdo. É possível fazer isso mais pela Internet do que presencialmente.

Quanto ao relato de “pensamentos, sentimentos e atividades (de si e dos outros)”, a coisa é ainda mais feia na Internet. Isso porque as pessoas não são monitoradas apenas em seu dia a dia, mas em seu passado. Tudo que escreveram no passado pode ser utilizado um dia contra elas.

Evidentemente, o modelo de “recompensas e punições” é feito de forma clara. No caso de cultos online, as pessoas podem sofrer humilhação ainda pior. Por exemplo, uma coisa é ser humilhado numa fazenda. Outra, bem pior, é sofrer linchamento virtual, sendo exposto de uma forma muito mais pública.

A imposição de “regras e regulamentos rígidos” é menos controlada no ambiente virtual, mas o uso de recompensas para os mais disciplinados ajuda bastante a compensar esse caso. Em relação à “ameaças de dano à família/amigos”, pessoas que não se adequarem poderão sofrer ameaças a partir de conexões via rede.

Por fim, a pessoa pode ser forçada a “cometer atos hostis”, o que ela pode fazer com muito mais tranquilidade via Internet. A vida de discípulos de cultos online é repleta de atos agressivos executados via Internet, como intimidação dos outros, linchamento virtual e diversas outras formas de participação política.

A questão de alteração de identidade é compensada pelo uso de avatares nas redes sociais. Se não ocorrem indução de estados hipnóticos ou de transe, a ação virtual é repleta de muita emoção e tensão, compensando esse fato.

O que se nota, colocando tudo na balança, é que, entre atualizações e diferenças, a Internet é um território fértil para o exercício das atividades de culto, e, em alguns casos, potencializando a relação “guru > discípulo”.

Comunidades virtuais

Assim como as seitas criam “fazendas”, é possível criar comunidades virtuais. Na verdade, campanhas eleitorais já tem sido decididas pelo uso dessas comunidades virtuais. Na política, geralmente adotam a plataforma populista. Em essência, essas comunidades podem operar normalmente, como se fossem territórios físicos, mas na Internet. Agora veremos como a Internet pode ampliar o potencial de doutrinação.

Caos informacional

O clima de confusão e submissão das pessoas às ações virtuais pode ser mais facilmente entendido com o livro The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains?”, de Nicholas Carr. Na tradução, seria: “Geração Superficial: O que a Internet está fazendo com nossos cérebros?”.

Se muito hoje se fala da perda de qualidade no debate público, isso também tem a ver com o fato de que a discussão pública é feita por memes na Internet, além do excesso de tempo que as pessoas passam online, criando praticamente uma identidade com base no reconhecimento virtual.

No livro de Carr, existe um análise sinistra e realista a respeito do que define hoje como “geração superficial”. Ele explica que, com o fluxo incessante de informações – na era da Internet, e principalmente depois da era dos smartphones -, as pessoas estão se distraindo muito mais. Mas como o cérebro é plástico, então esse fluxo de informações estaria deteriorando nossa habilidade mental em num nível físico, destruindo as conexões e circuitos cerebrais responsáveis pela formação de pensamentos profundos e capacidade analítica de processar informações, com resultados perniciosos sobre a nossa memória de longo prazo, e também sobre nossa criatividade. Ou seja, a Internet está deixando as pessoas menos inteligentes.

Com a fragmentação de nossa atenção, também é alterada a profundidade de nossas emoções e nossos pensamentos. Se isso reduz a capacidade de aprendizado, também aumenta as possibilidades de submissão às ideias inseridas por outros. Há algo de curioso: com a Internet, as pessoas estão lendo muito mais do que antes. O problema é que elas dão atenção ao conhecimento que é mais facilmente assimilável, pois, diante de uma infinidade de outros meios de informação – e tudo ao mesmo tempo, tais como sons, vídeos, imagens, hyperlinks etc, e tudo numa única tela -, surge a fragmentação do conteúdo, atrapalhando a concentração.

Inconscientemente, a mente funciona por um cálculo de custo e benefício. Dado que na Internet tudo é feito propositadamente para distrair, capturar e roubar sua atenção, então as pessoas focam no que é mais fácil de ser assimilado. Não demora para surgir um ciclo vicioso, em que as pessoas são encorajadas a ações físicas e mentais destinadas a saciar a sede por informações, mas sempre no curto prazo: quanto mais respostas e recompensa, mais temos informações precárias, temporárias e picotadas.

Se nos habituamos a consumir cada vez mais informações picotadas, também perde-se gradualmente a paciência, o foco, a disciplina e a concentração em ler e escrever textos longos, que requerem o uso das capacidades mais nobres do cérebro, que são as de refletir de modo profundo, crítico e reflexivo sobre o conhecimento.

Logo, é de se esperar que cada vez mais existam potenciais para ideias absurdas divulgadas a rodo, pois o potencial de aproveitamento do auto-engano do ser humano é hoje muito maior do que antes.

Se você se lembra do texto 4 desta série, em que falamos de emoção, se lembrará que essas emoções, ativadas via exploração de marcadores somáticos, são baseadas nas informações que aceitamos ou descartamos. Isto é, quanto maior o caos informacional, maior é a capacidade de inserir informações aproveitando-se da rendição psicológica da pessoa.

Como resultado, os estágios de “flutuação”, relacionados ao “estalo”, estão disponíveis para serem aproveitados por propagandistas políticos na Internet. Igualmente, existe o risco de que alguém sucumba a alguma narrativa de um culto online, como aquele de Oliveira.

Grupos de isolamento e aceitação

A entrada de pessoas em uma seita, seja física ou online, é uma participação em grupos. Como se sabe, há um senso natural do ser humano de querer pertencer a grupos. Como vimos logo no começo, este é o efeito manada. Pode até parecer que militâncias virtuais são essencialmente realizadas por ação espontânea. Na verdade, são bastante coordenadas.

Muitos que estão em cultos online insistem em nos dizer que sua atuação é espontânea. Vale lembrar que, além dos cultos online, existem aqueles que pertencem ao mundo exterior mas também recebem influência. Falaremos destes especialmente a partir do próximo texto. Por enquanto, sigamos focados nos participantes dos cultos online.

O que ocorre nas comunidades virtuais é que algumas atitudes espontâneas vão se alinhando com ações planejadas e centralizadas, em uma cadeia de influência. Resta saber como fazer isso funcionar enquanto é dada ao discípulo a percepção de espontaneidade? É aí que entram as cadeias de influência.

Não precisamos repetir que a natureza humana visualiza as coisas pela ótica da relação “motivação versus recompensa”. Nas redes sociais, temos uma cadeia básica, com vários níveis. Relembre a cadeia de influência das seitas, que vimos no primeiro texto da série:

Focaremos naqueles que estão dentro do culto, ou seja, aqueles que compartilham as ideias do guru, seguindo-o fielmente. Como já vimos, é óbvio que o guru não vai entregar seus interesses aos que estão embaixo na cadeia, a não ser seus poucos escolhidos.

São esses escolhidos que terão meios de mídia impulsionados, que vão ganhar cargos no governo e meter a mão na grana. Os demais receberão apenas sensações, mas farão parte da cadeia.

Para que a coisa funcione, aqueles no menor nível hierárquico não podem suspeitar que são parte de uma engrenagem e não podem saber a direção de suas ações, pois sua atuação é espontânea e precisa continuar assim. Quanto mais subimos de nível, menor a espontaneidade. Logo, não temos uma reunião a salas fechadas envolvendo gente de todos os níveis da hierarquia para falar da “direção do discurso” ou coisa do tipo. Quem quer que estivesse no topo da cadeia e fizesse isso perderia o aspecto de espontaneidade. Não demoraria para alguém sair vazando informações.

Uma estrutura desse tipo só pode funcionar com camadas de controle. Já que a Internet permite vários meios de controle, existem alguns recursos que podem ser utilizados para controlar os que estão embaixo retirando destes últimos a percepção do controle. Entre esses recursos temos:

  • (1) Cadeias de solidariedade
  • (2) Estrutura de validação mútua
  • (3) Exclusão de divergentes

As cadeias de solidariedade servem para dar apoio para os demais integrantes da “rede”. Imagine que alguém é atacado pela Internet e recebe apoio de outros membros da rede. Se esta solidariedade acontece, alguém se sente “parte da comunidade”.

Lembre-se que os membros de culto devem ser “aceitos” e se sentirem bem ao fazer parte do grupo. Nesse sentido, as cadeias de solidariedade exercem um grande papel.

Já as estruturas de validação mútua se refletem em indicação e aprovação de conteúdo de um lado para outro. Por exemplo, um ministro, Elcias Adokwun, é plenamente inspirado pelas obras de Oliveira, dedicando longos e longos textos em homenagem ao guru. Ao criar seu perfil no Twitter, foi indicado por todos os discípulos de Oliveira. Como resultado, ganhou 20.000 seguidores em questão de dias.

Da mesma maneira que alguém pode ser “aceito”, pode ser rejeitado, como ocorre em qualquer agrupamento humano desde as eras tribais. Pessoas relevantes da cadeia de escolhidos e aprendizes podem se juntar para a promoção de “desconvite” em massa de pessoas que rejeitem as ideias do guru e até organizarem um assassinato de reputação.

Hoje em dia, quando as pessoas temem “morrer” virtualmente, a submissão a maltas das redes sociais é ainda maior.

Essas estruturas de validação dão uma imagem de “massa” – que exploraremos ainda melhor no próximo texto, ao falar da “espiral do silêncio” – e de grande aceitação.

Esses elementos – (1) cadeias de solidariedade, (2) estrutura de indicação mútua, (3) exclusão dos divergentes – não são todos. Mesmo assim, já nos são úteis para clarear o funcionamento da exploração do mecanismo humano inerente de “busca de aprovação social” (ou seja, prova social). Já no primeiro nível, as pessoas tem medo de ficar fora das manadas. Elas precisam de aprovação social.

Subconscientemente, muitas vão aprendendo aos poucos qual é o conteúdo “aprovado” pelos níveis superiores da cadeia. Eles vão entendendo, aos poucos, o que vai gerar likes e retuítes e o que será excluído. Aos poucos, sua produção de conteúdo depende de ter “entendido”as regras do jogo.

Estruturas desse tipo – utilizadas inicialmente na campanha de Barack Obama, e depois aprimoradas pela direita no Brexit e na campanha de Trump – não podem, de jeito algum, perder a espontaneidade, mas necessariamente tomarão alguma direção em um dado momento. Seria impossível que esse direcionamento deixasse de existir, até pela própria natureza humana.

Sem esse tipo de controle, apenas no nível mais alto, não existiria o conceito de “sabedoria das multidões”, obviamente.

A cultura da convergência

Para entender esse fenômeno, vamos falar um pouco daquilo que se chama de “cultura da convergência”, tema abordado pelo autor Henry Jenkins em obras como “A Cultura da Convergência” e “A Cultura da Conexão”. Outro autor que pode nos ajudar é Clay Shirky, que escreveu “Lá vem Todo Mundo” e “A Cultura da Participação”. Por fim, outro autor recomendável é James Surowiecki, que escreveu “A Sabedoria da Multidões”.

Vamos a um breve apanhado do que pode ser entendido de uma sumarização das ideias desses autores.

Henry Jenkins

Hoje em dia, as redes sociais deram mais voz às pessoas, mais do que no passado. O conceito de “prova social”, antes aplicado nas relações cotidianas, se moveu para explicar como alguém se sente “aprovado” nas redes sociais. O ser humano automaticamente quer pertencer a grupos, pois isso está codificado em seu hardware como um mecanismo de sobrevivência.  Como teorizada por Jenkins, a cultura fã (dos “fandoms”) trouxe muita gente produzindo conteúdo de graça, meramente pela sensação de pertencimento.

A cultura Star Trek e os fãs de Matrix, produzindo vídeos com as temáticas que gostam pela Internet, são as principalmente manifestações desse fenômeno estudadas pelo autor. São como pequenos “cultos” online. Obviamente serve para empresas cada vez mais conectadas, empresas de mídia e, é claro, seria utilizado por políticos. A campanha de Barack Obama foi o primeiro grande “case” de sucesso do uso da cultura fã.

Clay Shirky

Mas como isso funciona? Bem, não é possível que isso funcione de maneira planejada, pois, tal como mostra Clay Shirky, toda a espontaneidade natural se perderia. As pessoas que lutam por pertencimento (agindo espontaneamente) não lutariam da mesma maneira se tudo fosse baseado em incentivos financeiros, até porque não iria ter grana suficiente para todo mundo. Alguém que tem um canal com milhões de pessoas ganharia dinheiro, mas aquele que tem apenas 100 seguidores ficaria sem nada. Qual o incentivo para produzir assim? Logo, a espontaneidade é uma ferramenta fundamental desse processo.

Surowiecki demonstra que a agregação de informação em grupos resulta em decisões quase sempre melhores do que as que poderiam ser feitas individualmente, isso porque, em grupos fechados, existe o “pensamento de grupo”, viés da mente humana que limita as melhores decisões. Nesses grupos fechados e hierárquicos, muitas pessoas têm medo de dar suas ideias, por medo daqueles que possuem mais poder. Por isso, a criatividade vai pro buraco. Já os grupos mais “abertos” dão vazão à criatividade plena, além de muita motivação para produzir. No caso dos cultos online, é preciso misturar o clima de falsa espontaneidade com a simulação de “criação livre”.

James Surowiecki

Assim é possível explorar a espontaneidade das pessoas e planejar a direção do fluxo dessas informações atendendo a interesses bem sólidos, principalmente a partir do entendimento da busca humana pela “prova social”. Alguém pode ser bastante “criativo” e criar um conteúdo que vai agradar ao guru. Isso ganhará replicação. Se a pessoa sentir que isso é puramente espontâneo de sua parte, estará motivada a produzir mais.

A capacidade de alguém formar uma comunidade, pertencer a ela, poder ser aceito ou recusado dessas comunidades e de que essa comunidades estejam a serviço da seita é mais um fator que vai além de mostrar que não há restrição alguma para o estabelecimento de cultos online. Com ligeiras adaptações, até os métodos relacionados a controle de comportamento podem ser exercidos em sua maior parte. Quanto a métodos de controle de informação, controle de pensamento e controle emocional, as restrições já praticamente inexistem.

Com o poder da Internet, a coisa é outra: os métodos de doutrinação podem ser até amplificados.

Cabresto social

Se existem as comunidades que podem ser mobilizadas em torno de um guru, os exemplos práticos se tornam mais nítidos. Considere que Oliveira costuma retuitar conteúdo de seus melhores formadores de opinião. Esses formadores de opinião retuítam conteúdo de formadores menores. Cria-se uma comunidades em que as pessoas “vivem melhor” em termos virtuais. Numa época em que cada vez mais pessoas depositam suas expectativas nas identidades online, o uso de mecanismos sutis de controle é útil para potencializar resultados.

O que é importante quanto a Internet é que cada pessoa sabe que está sendo observada de várias formas, não tanto quanto ao seu presente como ao seu passado. Membros do grupo podem monitorar alguém em relação a comportamentos como até as curtidas que dá em uma postagem.

Certa vez, Oliveira requisitou que as curtidas de alguns membros fossem observadas: ele queria saber se haviam sido feitas em posts de seus adversários ou ex-membros da seita. Essas pessoas eram humilhadas em público ao fazê-lo. Com isso, aos poucos, as pessoas vão “aprendendo” o que podem curtir ou não. Se as possibilidades de monitoração são quase infinitas e se cada dia mais as pessoas dependem da imagem nas redes sociais, essa forma de “cabresto” nas redes sociais é poderosa.

Enquanto isso, toda uma linha de comando deve ser monitorada pelo guru. Muitas dessas pessoas próximas irão explorar a proximidade com ele. Muitos desses subordinados se tornam praticamente clones do guru, como já vimos.

Aos poucos o guru vai testando a ambição desses clones se forem retirados de projetos e se se provarem que são pacientes e subordinados às ordens do chefe. Nessa situação, vão ganhando mais poder.

Com boa organização, um guru pode contar com seus escolhidos para ter uma plena gestão das ações online. Para alguns aspirantes a se tornarem escolhidos, pode ser dado um objetivo sem alguma instrução, para que o guru avalie como eles agem. Se eles voltarem pedindo por mais instruções, em vez de chegarem eles próprios à conclusão (que deve atender aos interesses do guru, é claro), então não estão preparados.

Entre os mais ambiciosos, a manutenção do clima contínuo de que sempre serão testados é bom. É com isso que ficarão sempre tensos e motivados a mostrar resultados. Quem fica estressado demais pode ficar encarregado de tarefas simples e repetitivas. Ter pessoas com algo a fazer é sempre bom.

No ambiente das comunidades online, guru e seus escolhidos encontram uma vastidão de recursos para controle do comportamento e de outros aspectos do direcionamento das ações humanas.

Persuasão Coercitiva e Mudança de Atitude

Para facilitar o entendimento, podemos usar um modelo ainda mais simples para dar sequência ao “estalo” nas ações de Internet. O encontramos no artigo “Coercive Persuasion and Attitude Change”, onde o psicólogo Richard Jay Ofshe sugeriu um esquema de quatro fatores que distinguem a persuasão coercitiva de outros esquemas de treinamento e socialização”. A vantagem deste modelo é sua simplicidade, além de permitir monitorar as ações de cultos online, por parte de um guru.

São estes os itens:

  1. Dependência de ataques interpessoais e psicológicos intensos
  2. Uso de grupos de pares organizados
  3. Aplicação de pressão pessoal para promover a conformidade
  4. A manipulação da totalidade do ambiente social da pessoa para estabilizar o comportamento modificado uma vez

Vejamos como Oliveira consegue que as pessoas de sua seita (e até aqueles influenciados ao redor) se comportem conforme sua diretriz.

Richard Jay Ofshe

Começando pelo item 1, “dependência de ataques interpessoais e psicológicos intensos”, a ideia é partir para cima daqueles que discordam do guru. Basicamente, a ideia é deixar claro que a discordância em pontos fundamentais é indesejável. Evidentemente, o melhor é não afirmar que a opinião não pode ser dita, mas pressionar a pessoa que o fizer.

Para identificar esse processo, Ofshe sugere observar se há pressão para concordância diante de conflitos de ideias. Uma baixa aceitação de feedback crítico é indício de grupo de alto controle. Se pessoas são atacadas por forte divergência, temos mais um indício bastante forte.

Em relação ao segundo ponto – “uso de um grupo de pares organizados” –  é preciso compreender se existem pessoas monitorando de forma organizada os comportamentos dos outros. Novamente, isso é uma festa nas redes sociais. Reza a lenda que Oliveira conseguiu até que seus coordenadores adquirissem formas de monitorar hierarquicamente as ações praticadas via redes sociais por seus discípulos, sabendo até que assuntos eles mais postam, que elogios fazem, a estrutura de frases em que mencionam o guru (para identificar se é elogiosa ou não), que amigos possuem, que posts curtem, etc.  Nesse processo de monitoração contínua, as pessoas vão se adaptando.

Quanto ao item 3, “aplicação de pressão interpessoal para promover a conformidade”, os membros do grupo podem forçar a aceitação de ideias.

Por exemplo, num certo dia um de seus alunos requisitou fontes para o Pacto de Kansas, que unificaria todos os esquerdistas e os direitistas que não estivessem no culto como parte de uma grande conspiração. Alguns de seus melhores alunos sabiam que essa pergunta era “indesejada”. Assim, foi dito ao questionador que ele fosse pesquisar direito. Ao responder que já havia feito a pesquisa, ouviu: “Não, você não fez a pesquisa”. Ele insistiu que havia feito sim. Começara então um levantamento de dados de sua vida pessoal, para infernizá-lo.

Por fim, o item 4, “manipulação da totalidade do ambiente social da pessoa para estabilizar o comportamento modificado uma vez”, a seita pode estabelecer muito tempo para as atividades relacionadas ao grupo, de modo que ele crie uma “nova vida” no ambiente online. Com a criação de grupos de WhatsApp e o agendamento de encontros físicos, em nível da cidade e do Estado, é possível isolá-los de “antigas amizades, associações e interesses fora do grupo”. Quanto mais tempo próximo ao grupo, melhor.

Oliveira é conhecido por estimular toda e qualquer forma de integração das pessoa ao ambiente do grupo, valorizando a criação de congressos, encontros, grupos de WhatsApp, fóruns de discussão, onde as pessoas gastem a maior parte do tempo em torno das ideias da seita.

Todos esses quatro pontos são potencializados no ambiente da Internet. A monitoração das comunidades virtuais, conforme vistas agora há pouco, é facilitada pelo uso destes aspectos.

Em todo esse processo, deve existir o reforço contínuo, em que as pessoas são lembradas de sua importância a culto. Essa mensagem é propagada diariamente. Oliveira sempre deixa claro como eles são a elite cultural da Nibéria. Esse ambiente deve ser protegido de “intrusos”.

Como é uma “elite”, é evidente que ocorrerão algumas remoções, geralmente traumáticas, com pessoas sofrendo agressões e perseguições, o que vai instilando nos que seguem participando um senso ainda mais forte de pertencimento e elitismo. É com processos assim que, com pouco custo, um guru e seus coordenadores podem gerenciar enormes redes sociais com milhões de pessoas, numa cadeia de obediência quase toda ela implícita, mas capaz de perceber seus resultados em termos de melhoria de prova social e aumento de seguidores ou experimentar isolamento e remoção em caso de desalinhamento.

Vamos observar até agora tudo que pode ser feito em relação a membros do grupo que estão alinhados e os que não estão alinhados.

Em relação aos membros alinhados:

  • Receber elogios
  • Ser bem recebido em eventos da seita
  • Conquistar novos amigos
  • Aumentar o número de followers
  • Participar como agressor em tropas de linchamentos virtuais
  • Ter conteúdo compartilhado
  • Se sentir acolhido
  • Ter seu currículo observado e até receber indicações
  • Ficar com a sensação de ser parte de uma elite

Já para os que não estão alinhados temos:

  • Ser ofendido
  • Ser banido de eventos
  • Perder vários amigos
  • Perder vários followers (em campanhas de “dislikes”, por exemplo)
  • Sofrer linchamento virtual
  • Se sentir estigmatizado
  • Ter seu passado vasculhado para campanhas de assassinato de reputação
  • Ser tratado como um pária

É evidente que as pessoas mais experientes e que já possuem certo “calo moral” não se incomodam com isso. Mas imagine a situação de um jovem com problema de autoestima, sugestionável, dependente de aceitação nas redes sociais, tendo que escolher entre um e outro. É assim que, aos poucos, alguém vai sendo controlado a ir se adequando aos padrões aceitáveis para a seita.  

O dia a dia na fazenda

Todo esse processo é praticamente como cuidar de gado de criação em fazenda. Para o guru e seus coordenadores, isso dá trabalho, mas gera resultados em termos de poder e diversos outros benefícios. Vejamos alguns aspectos que devem ser levadas em conta pela coordenação em seitas especialmente nas redes sociais e que se juntam aos demais aspectos vistos em textos anteriores.

Isolamento

Assim como os cultos tradicionais promovem isolamento físico, os cultos online dependem de um certo grau de isolamento. Conforme R. Ross, em “Cults: Inside Out”, “Muitos grupos de culto parecem ganhar influência e controle sobre seus membros através de um processo de crescente isolamento e estranhamento da sociedade dominante”.

No livro “The Birth and Death of New Religious Movements”, Benjamin Zablocki escreve:

Os movimentos de culto raramente retêm seus membros pelo uso de força ou restrição física. Mas do que depende uma verdadeira lavagem cerebral: do uso da força ou meramente da demonstração de força? Esta crença generalizada é baseada em uma leitura errada de Lifton e Schein. Essa leitura errada ocorreu porque, de fato, muitos (embora nem todos) dos casos que eles estudaram foram levados a um estado de agência por força real ou ameaçada.

O que Zablocki explica é que a demonstração de força, por parte da liderança, é suficiente para a submissão. Em termos de atuação online, o isolamento se vê quando o discípulo vira as costas para todos os seus amigos e entes queridos, passando mais tempo com o guru/grupo. Em especial, Oliveira gosta de monitorar a relação dos discípulos com aqueles que discordam do grupo.

Inconsciência sobre a agenda

Conforme Robert Lifton é preciso “manter a pessoa inconsciente de que existe uma agenda para controlar ou mudar a pessoa”.  Por mais óbvio que isso seja, é preciso sempre esconder os interesses, as agendas da liderança.

Como diz Singer, “eles podem ocultar certos ensinamentos de novos membros e, em geral, se esforçam para racionalizar qualquer coisa que possa parecer negativa. Ninguém se une intencionalmente a um culto destrutivo”.

Pela Internet, isso é muito fácil de ser feito, com alguma organização. Lembre-se que, como visto no texto anterior, é preciso de muito esforço por parte do guru e seus escolhidos para esconderem qualquer nível de interesse do guru, que transmitirá a imagem de que apenas dá orientações para “o bem” de seus discípulos, mas jamais para ganho pessoal.

Submissão à doutrina

Novamente é bom recobrar o texto anterior, onde vimos vários aspectos para “o estalo”. Mas aqui vamos além e falamos até mesmo da coação contra quem faça questionamentos, já que estamos na fase de contínua doutrinação. Steven Hassan escreve, em “Combatting Cult Mind Control”:

Não há espaço em um ambiente de controle mental para considerar as crenças do grupo como mera teoria ou como mais uma forma de interpretar ou buscar a realidade. A doutrina é realidade. Alguns grupos chegam ao ponto de ensinar que todo o mundo material é ilusão. Portanto, todos os pensamentos, desejos e ações – exceto, é claro, aqueles prescritos pelo culto – não existem realmente.

Segundo Eric Hoffer, as doutrinas de culto mais eficazes são aquelas “que são inverificáveis ​​e inestimáveis”. Conforme o recurso do mumbo jumbo, elas são tão complexas que demoram anos para serem desvendadas. O ideal é que o discípulo “aceite, em vez de compreendê-la”.

Em caso de dúvida, a pessoa deve desconfiar do “seu eu autêntico”. Com isso, a doutrina se torna o “programa mestre” para todos os seus pensamentos, sentimentos e ações, uma vez que é a “verdade”, perfeita e absoluta, qualquer falha nela é vista como um reflexo da própria imperfeição do crente. Eles são ensinados que devem seguir a fórmula prescrita, mesmo que não a compreendam realmente. Ao mesmo tempo, é dito ao membro do culto que eles devem trabalhar mais e ter mais determinação, para que eles entendam a verdade com mais clareza.

Oliveira utiliza isso muito bem ao ter inserido na mente do adepto que ele é parte de uma guerra cultural. Sempre diz que “enquanto a batalha pela cultura não for vencida, nada adianta”. Ao passo que alguns de seus escolhidos recebem cargos, ele acha tudo ótimo. Mas de repente aparecem problemas. Não demora para ele começar a afirmar que “é porque a batalha cultural não foi vencida”. Ao mesmo tempo, diz que falta pelo menos uma década para isso acontecer, no mínimo. É a palavra passe para o pessoal seguir no curso.

À medida que as pessoas vão pedindo evidências a respeito dos eventos, ele vai se adaptando. Certo dia, questionaram uma época em que os militares, respeitados, governaram o país. Segundo Oliveira, o governo foi apenas mediano porque “eles não venceram a batalha cultural”. É claro que ele omitia as contingências e as impossibilidades daquela época. Como sempre, ele não foca nos fatos, mas na narrativa, na qual os discípulos devem seguir acreditando. Isto é o que significa tomar como critério de validação a submissão à doutrina.

Manipulação mística

Conforme Robert Jay Lifton, é preciso realizar uma extensa manipulação dos eventos relacionados à vida da pessoa. Assim, todos os aspectos de controle comportamental são justificados por “algo maior”:

Iniciada a partir de cima, [uma extensa manipulação emocional] procura provocar padrões específicos de comportamento e emoção de tal forma que estes devem ser percebido como se tivessem surgido espontaneamente de dentro do ambiente. Esse elemento de espontaneidade planejada, dirigido como é por um grupo supostamente onisciente, deve assumir, para a qualidade manipulada, quase mística.

Vale lembrar também que, escritas em 1961, essas palavras se confirmam com as análises de redes sociais dos dias de hoje. Em suma, muitos devem perceber que “espontaneamente” chegaram ao aceite da revelação.

Lifton lembra que isso não é feito apenas para a manutenção de um senso de poder sobre os outros. Os discípulos realmente devem acreditar que são impelidos por um “valor maior”. Se não for assim, as manipulações não serão justificadas. Se eles são a vanguarda deste movimento, se tornam “os instrumentos de sua própria mística, criam uma aura mística em torno das instituições manipuladoras – o Partido, o Governo, a Organização”.

Oliveira utiliza isso muito bem ao dizer que “é óbvio” o comportamento que se adequa à doutrina. Já comportamentos inadequados são tratados como doentios. A mera necessidade de não apresentar maiores explicações ajuda a manter a aura de “elemento natural”.

Obediência estrita

Conforme Steven Hassan em “Combatting Cult Mind Control”, há uma forte cobrança pela obediência estrita. Isso pode ser feito pela contínua comparação dos discípulos mais novos com um membro mais antigo do culto, que serve como modelo para o novo membro imitar:

Nos grupos bíblicos, isso é algumas vezes chamado de pastorear. O recém-chegado é instado a ser como essa outra pessoa. Líderes de nível médio são eles mesmos instados a agir como seus superiores. O líder do culto no topo é, naturalmente, o modelo final. Uma razão pela qual um grupo de cultistas pode atacar até mesmo um estranho ingênuo como se fosse um alienígena é que todos têm maneirismos, estilos de roupas e modos de fala parecidos. O que o estranho está vendo é a personalidade do líder transmitida através de várias camadas de modelagem.

É aqui que os “escolhidos” e os “melhores alunos” são importantes para o guru, que deverá citá-los continuamente. Pelas redes sociais, isso é ainda mais fácil: Oliveira continuamente compartilha o conteúdo dessas pessoas “aprovadas”, que, evidentemente, repercutirão as ideias dele.

Seleção e filtragem de informações

Já vimos anteriormente que existe uma clara seleção de informações – aquilo que é aprovado – ou não é. Oliveira, ciente disso, gasta muito tempo selecionando material adequado para que seus discípulos possam receber a nutrição diária, semanal e mensal de conteúdo “escolhido”.

Acostumados a ler aquilo que o guru indica, seu próprio filtro é uma forma de orientar as próximas leituras. Isso também significa que eles não irão acessar muitos dos materiais que não são indicados.

Outros materiais podem ser apontados como “lixo” e “coisas criadas por interesseiros”. Nisto, temos o procedimento básico de omissão da informação indesejável.

Doutrina sobre a pessoa

A colocação da doutrina sobre a pessoa, segundo Lifton, é outra características do totalismo ideológico: a subordinação da experiência humana às reivindicações da doutrina. 

Esse primado da doutrina sobre a pessoa é evidente na contínua mudança entre a experiência em si e a interpretação altamente abstrata de tal experiência – entre sentimentos genuínos e os sentimentos catalogados como espúrios. Tem muito a ver com a aura peculiar da meia-realidade, que um ambiente totalista exprime sobre os que estão de fora. A primazia doutrinária prevalece na abordagem totalista de mudar as pessoas: a exigência de que o caráter e a identidade sejam remodelados, não de acordo com a natureza ou potencialidades especiais de alguém, mas sim para ajustar-se aos contornos rígidos do molde doutrinário.

Neste estágio, a tendência é a negação absoluta dos fatos que contradigam a doutrina. Oliveira costumeiramente divulga informações falsas, que seus discípulos devem aceitar bovinamente.

Certa vez, ele avisou que sangue de vampiro estava sendo utilizado na receita do refrigerante Niber Cola, que havia chegado na Nigeria. Como um dos acionistas da empresa era amigo de George Soros, ele afirmou que isso era parte de um projeto globalista e marxista.

Futuramente, se descobriu que a notícia era falsa. Na verdade, a empresa Niger Cola fazia apenas criação de morcegos como parte de estudos para outro produto que nada tinha a ver com refrigerantes. Evidentemente, Oliveira não retificou a informação.

Manipulação da informação do culto

Em relação a este método, o objetivo é seguir no isolamento da pessoa em relação ao mundo exterior, mas pela recomendação excessiva de conteúdo relacionado ao culto. Assim, Oliveira pede que as pessoas comprem livros de autores ligados a ele. Geralmente são materiais que repetem o que ele diz (embora existam raras exceções), mas quanto mais a informação for repetida, melhor.

Esse ciclo sempre se retroalimenta. É o caso da empresa Nibéria sem Máscara, que é sempre indicada por ele e o indica de volta. Vale o mesmo para o Conexão Niberiana, que o cita várias vezes e é citado de volta. Aos poucos vai criando um ambiente que só aceita informação já validada, que  aceita as mesmas teorias e fala sob as mesmas categorias.

Se o material não pertence à seita, ele pode ser citado de forma distorcida ou fora de contexto. Nos cultos em geral, apenas o guru decide quem precisa saber o que e quando.

Enganação (sem consentimento informado)

Evidentemente o guru, que se tornou especialista na fabricação da realidade, geralmente mente que nem sente. Por exemplo, ele inventou que existem as 15 leis de Trotski que se aplicam à Nibéria. Diz que as leis incluem até “promoção do vampirismo”.

Algumas pessoas acham absurdo, mas não há fonte alguma que mostre que Trotski tenha escrito isso, mas ele repete assim mesmo. Tecnicamente, ele possui a teoria de que o vampirismo e o marxismo estão associados. Então vai “acomodando” os fatos à teoria. Se alguém questiona o guru a respeito disso, as pessoas intimidam o questionador, dizendo que ele é “puxa saco de esquerdista”.

Oliveira também criou a tese de que havia um plano cubano para converter niberianos em lobisomens. Era um acordo entre cubanos e George Soros. Nunca se encontrou essa informação. Oliveira diz que está em uma edição do jornal Granma. Quando alguém pede a fonte, ele diz: “é claro que já sumiram com a informação e não há mais edições disponíveis do jornal”. Sem peias, a narrativa vai seguindo.

Enquanto isso, ele desestimula o o acesso a fontes de informações concorrentes (mídia, jornais, TV). A ideia é manter os seus discípulos tão ocupados que não tenham tempo para pensar e investigar.

Comprometimento e consistência

Uma forma de aumentar o comprometimento dos discípulos é pedir doações a eles. Algumas vezes pode ser requisitada a doação de dinheiro. Em outras vezes, pode-se requisitar apenas o tempo.

Isso acontece por causa do viés do investimento emocional, que se complementa com um viés chamado de falácia do custo irrecuperável. Basicamente, quando mais investimos em algo, mais difícil é de abandoná-lo.

Segundo Daniel Kahneman em “Rápido e Devagar, lemos:

A perspectiva de perdas torna-se um motivador mais poderoso em seu comportamento do que a promessa de ganhos. Sempre que possível, você tenta evitar perdas de qualquer tipo e, ao comparar perdas a ganhos, você não as trata de forma igual. Os resultados de seus experimentos e os resultados de muitos outros que se replicaram e expandiram sobre eles provocaram uma taxa de aversão a perda inata. Quando é oferecida uma chance de aceitar ou rejeitar uma aposta, a maioria das pessoas se recusa a fazer uma aposta, a menos que o possível resultado seja o dobro da perda potencial.

Na mesma linha, David McRaney escreve:

Quando você perde algo permanentemente, dói. O impulso para mitigar essa emoção negativa leva a comportamentos estranhos. Você já foi ver um filme apenas para perceber em 15 minutos ou então você está assistindo a um dos piores filmes já feitos, mas você se sentou mesmo assim? Você não queria desperdiçar o dinheiro, então você deslizou de volta em sua cadeira e sofreu. Talvez uma vez você tenha comprado ingressos não reembolsáveis ​​para um concerto, e quando a noite chegou, você se sentiu enjoado, cansado ou de ressaca. Talvez algo mais atraente estivesse acontecendo ao mesmo tempo. Você ainda foi, mesmo que não quisesse, a fim de justificar gastar dinheiro sabia que nunca poderia voltar. E naquela vez que você chegou em casa com um saco de tacos, e depois da primeira mordida você suspeitou que eles poderiam estar cheios de comida de cachorro com infusão de salsa, mas você os comeu de qualquer maneira não querendo desperdiçar dinheiro e comida? Se você já experimentou uma versão de qualquer um desses, parabéns, você foi vítima da falácia do custo irrecuperável.

Ou seja, pedir doações e comprometimento de seus discípulos, muita vezes de forma desnecessária, é também uma forma de força-los a se submeterem à falácia do custo irrecuperável.

Nenhum outro autor de conteúdos da Nibéria – seja de esquerda ou da direita – exige tantos sacrifícios (incluindo doações) de seus leitores como Oliveira o faz. Evidentemente, alguns discípulos até se organizam em grupo para fazer essas doações. Ele faz isso principalmente pelo uso do viés do investimento emocional e da falácia do custo irrecuperável.

Resumo

O que vimos aqui é que os cultos online – sejam de orientação política ou não – possuem potencial similar de dar ao guru a dominação de seus discípulos do que cultos tradicionais. Se existem algumas perdas e outros ganhos, não há considerável alteração do resultado final. O que importa é que os cultos online estão por aí.

Neste texto, vimos como os grupos de isolamento e as comunidades online criam ambientes muito próximos dos ambientes físicos. Hoje em dia, é esperado que as pessoas tenham tanto medo de serem rejeitadas socialmente na Internet como no mundo físico. Numa era de caos informacional, essa vulnerabilidade aumenta.

Ao final, vimos vários elementos utilizados diariamente para garantir a doutrinação contínua – ou seja, o processo pós-“estalo” – dos discípulos a partir de ações que são executadas via Internet.

No próximo texto, falaremos de um mecanismo poderosíssimo especialmente útil para cultos políticos online: a espiral do silêncio. O detalhe é que ela é utilizada – conforme análises de ocorridos em campanhas promovidas por Steve Bannon e seus adeptos no Brasil – de forma excessiva e ampliada, nos permitindo entender de maneira bem diferente boa parte da comunicação oriunda de seitas políticas no Brasil.

Continua em A Arte da Seita Política – 8 – Espiral

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5 comentários em A Arte da Seita Política – 7 – Cativos

  1. Agora descobri de que lado estás és mais um na seita do sistema demo (krazia) és um 666 a tua marac futura todos “nós” estamos metidos numa “seita” e a tua é a mais perigosa os “luciferianos” nestes dias o “gato” sempre fica com o rabo de fora.

  2. Estou gostando muito da série! Já passei por algumas situações descritas como: quando houve um encontro de alunos de um curso virtal aqui na minha cidade, algumas pessoas só disseram que eu poderia interagir com elas se eu lesse uns 15 artigos e uns 4 livros do tal professor do curso. Isso porque eu não teria a capacidade intelectual de entender uma frase sequer que falavam. Insistiram ainda que eu fizesse inscrição no tal curso e quando falei que não tinha condições financeiras e tampouco tempo (e também não tinha interesse), “mandaram” que eu abandonasse meus estudos e deixasse de pagar meu médico e remédios (eu estava passando por um momento delicado de saúde).

    • Obrigado pelo feedback, Fefa. Temos que ficar de olho mesmo, pois o sectarismo tem aparecido por vários cantos. Até amanhã publico o texto 8, sobre a espiral do silêncio.

  3. Li os primeiros textos da série, ainda não li os demais pois quero fazê-lo com calma e tempo, e pelo que vejo esse texto 7 está sensacional. Espero que isso em breve seja publicado impresso pois é um trabalho necessário o de desmascarar a arte da seita política que no momento dominou o poder e levará um tempo para serem revertidos os estragos já feitos.

  4. Também não li. PONTO. Mas “mesmo não lendo” sei que está sensacional. PIADA PRONTA. Se a cozinha (do trípRRex e do sitio) é igual, porque tantos processos ? Ele só cometeu um único assalto.

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