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A Arte da Seita Política – 8 – Espiral

Sequência de A Arte da Seita Política – 7 – Cativos

No universo dos cultos políticos online, o principal tema é óbvio: a política. Logo, temos um guru que deve mover seus discípulos na direção de conquistas políticas, que significa a disputa por interesses conflitantes com inimigos. Veremos que isso torna o mecanismo da espiral do silêncio – vital para a análise de mídia, de processos de mudança social e das candidaturas políticas – ainda mais relevante para as seitas online. Antes disso, vamos recapitular em nível bem alto o que já vimos:

  • A estrutura de seita se baseia em guru e seus discípulos (e, logo abaixo dele, existem os escolhidos) [textos 1 e 2]
  • Tudo começa com um processo de submissão psicológica, quando alguém deve se render à autoridade do guru, pois esses sentimentos surgem desde a infância e estimulam fortes emoções [texto 3]
  • Esta rendição tem uma paga: o discípulo se sente especial, como parte de uma elite de ungidos (mesmo com base em crenças falsas) – por isso mesmo, os dois blocos principais de marcadores somáticos se relacionam a (1) superioridade do guru, (2) senso de elitismo nos discípulos [texto 4]
  • Isto tudo é amparado por uma mitologia, toda ela construída para sustentar a ideia da superioridade do guru e do elitismo dos discípulos [texto 5]
  • Existe um “estalo” em que a pessoa muda de personalidade e passa a acreditar que faz parte daqueles que “tem a revelação” [texto 6]
  • Após esta mudança de personalidade, a doutrinação contínua tem que ser mantida, periodicamente, para ir cimentando a nova personalidade doutrinada na seita [texto 7]

Em uma casca de noz, isso compreende a seita, mas ainda temos que avaliar o que a “move” no fundo da alma. A importância de falar da motivação é que para as questões políticas a luta contra inimigos requer crença ao longo de toda delimitação “nós e eles”.  Sem acreditarem que vencerão, não vai rolar a “faísca”. Essa constatação é óbvia para qualquer ação política. No caso de um culto político é muito mais importante, pois isso deve ser levado ao nível patológico, paranoico e acima de qualquer pensamento crítico.

Do lado de fora alguns cometerão o equívoco de achar que o guru e seus adeptos estão “perdendo a mão” ao soarem excessivos, intolerantes, arrogantes e enlouquecidos. Ledo engano: é exatamente a manifestação deste comportamento que dá maior força a eles. É somente assim que a espiral do silêncio – tese já muito estudada em cursos de comunicação e jornalismo – adquire prisma ainda mais amplo no estudo das seitas online. Naturalmente, se há uma expectativa de vitória inexorável, existe algo por que lutar. Antes de falar da espiral do silêncio, precisamos falar do conceito de utopia reversa.

Utopia reversa

Ouvimos muito falar de utopia nas discussões políticas como se fosse algo “de esquerdistas”. Na verdade, utopias não possuem origem esquerdista, mas ficaram especialmente conhecidas por terem sido acopladas aos seus projetos de poder desde os tempos de Jean Jacques-Rousseau, William Godwin e suas influências para os jacobinos da Revolução Francesa. Na verdade, eles estavam apenas se aproveitando de utopias em escala mais ampla do que fizeram os primeiros iluministas, os  renascentistas e, ainda mais, os milenaristas, uma antiga divisão do cristianismo.

Em termos práticos, utopia significa “não lugar” ou “lugar que ainda não existe, mas vai existir”. Um dos primeiros usos do termo veio de Thomas Morus, que escreveu a obra “Utopia” em 1516. Na época, Morus apresentava um projeto de transformação social de tons renascentistas inspirado nas histórias de Rafael Hitlodeu, um navegador português que viajara junto com Américo Vespúcio. Hitlodeu ficava no litoral da América, enquanto Vespúcio voltou para a Europa.

O livro fala de um longo diálogo com Rafael, em duas partes. Primeiramente, Morus critica a sociedade atual em que vive, pensando na sociedade perfeita. Na segunda parte, existe a narração de Rafael sobre a ilha idealizada que conheceu em detalhes. Nesta ilha, todos viviam felizes, sem ganância, sem competirem uns com os outros. O detalhe é que essa não era uma sociedade real, mas “imaginada”; independentemente disso, poderia ser conquistada pela razão humana.

Quando os socialistas falaram em “sociedade sem classes”, estavam apelando a uma utopia. Nesse tipo de abordagem, as narrativas usam a fantasia para explorar a imaginação, fabricando um mundo irreal, mas que é vendido para os adeptos como se fosse possível. Consequentemente, com base em um mundo irreal, rejeita-se o mundo real. Sem surpresa, isso traz consequências.

Este tipo de utopia marxista, ampliada do jacobinismo, é o molde que mais ficou conhecido nos meios acadêmicos e filosóficos, tanto que foi utilizada como força motriz para inspirar a população a sucumbir a diversos regimes ao longo do mundo. Só que as utopias são bem antigas, como vemos em “A República”, de Platão, que definia uma abordagem completamente hierarquizada para a sociedade, argumentando que as pessoas são diferentes e devem ocupar lugares e funções diferentes na sociedade.

Em sua utopia, sugeriu que todas as crianças deveriam ser criadas pelo Estado até os vinte anos, com todos merecendo a mesma educação. Nesta situação, haveria uma seleção, na qual aquelas pessoas fossem identificadas como possuidoras de “alma de bronze” – ou seja, de sensibilidade grosseira – iriam para o artesanato, a agricultura e o comércio, cuidando da subsistência da cidade. Os eleitos continuariam os estudos por mais dez anos, período após o qual existiria uma nova seleção, definindo os que possuem “alma de prata”, ou seja, a virtude de coragem e determinação essencial aos guerreiros. Estes devem constituir a guarda do Estado. 

Dos que sobraram, se extrai o terceiro e mais elitizado grupo: os que tem “alma de ouro”. Estes serão instruídos a debater e dialogar. Chegando próximo aos cinquenta anos, estariam admitidos no corpo dos magistrados. Eles deveriam cuidar do poder, pois teriam a ciência da política. Por serem os mais sábios, também devem ser reconhecidos como os mais justos, pois conhecem a justiça, sendo esta a principal virtude. No seu catálogo de obrigações, deveriam manter a cidade coesa. Em síntese, esta sociedade utópica é um modelo aristocrático que dá o poder aos “melhores”.

Segundo Platão, este modelo evita a “tirania” (que diz que é a pior forma de governo). Segundo Marx, sua sociedade sem classes elimina o “estado”, que seria uma fonte de burocracia danosa. Ambas as utopias jamais entregaram o prometido. Em vez disso, deram sustentação a sistemas autocráticos e até totalitários. Já no caso da democracia, mesmo com riscos, existe um nível maior de diluição de poder. Detalhe: propor um governo “dos melhores”, conforme diz Platão, ou dos “eleitos entre os proletários”, conforme diz Marx, não muda a natureza humana. É por isso que os cenários futuros projetados só podem ser distantes da realidade.

Os exemplos de Platão e Marx mostram que temos utopias que “seguram” as propostas de diluição de poder, como também aquelas que prometem isso, mas por meios que só aumentarão sua concentração. A ideia de que utopias dependem de mundos que nunca existiram é falsa. Esse é apenas um tipo de utopia. Podem existir também utopias com base em recuperação de situações que jamais existiram.

Esperança

Outro ponto essencialmente importante para nós é entender a relação entre o desejo (por um futuro maravilhoso) e o ódio gerado contra aqueles que se interpõem nesse caminho. Dado que o ser humano é uma máquina de sobrevivência e seu cérebro atua na relação custo-benefício (quase sempre inconscientemente), sabemos que não haverá luta se não existir um desejo associado a ela. Por isso a capacidade de usar o desejo do ser humano assume papel estratégico. O desejo pode estar relacionado tanto para manter aquilo que se tem, ou recuperar o que foi perdido, ou até para conquistar algo novo.

Para entender o potencial do desejo no ser humano, basta imaginar que um amigo acabou de te ligar e disse que há um saco de laranjas que foi deixado no quintal de sua casa, antes de viajar para um local distante. Porém, imagine que sua casa tem um portão baixo, e que todos que passam na rua podem chegar lá. Mas você está num fim de semana na praia.  Na condição em que não tenha encontrado um conhecido que mora perto, ou qualquer pessoa em que confie, você pensa se vale a pena voltar para colocar o saco de laranjas dentro de sua casa. Sua mente cria imagens vívidas chupando essas laranjas. Mas ao mesmo tempo começa a balancear se vale a pena perder o fim de semana na praia. Ao balancear as opções, decide ficar na praia, correndo o risco de que o saco de laranjas suma.

Agora imagine que, na mesma situação, em vez de um saco de laranjas, seu amigo tenha dito que te deixou um pacote com muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo, bem mais do que você estaria acostumado. As condições são as mesmas, ou seja, você não tem conhecidos confiáveis próximos à região onde você mora. Ao mesmo tempo, sua mente cria imagens bem nítidas com você gastando o dinheiro no futuro. Imediatamente, você faz as malas e se dirige em alta velocidade para sua casa, correndo até riscos de causar um acidente. As duas reações diferentes mostram como a ativação do desejo tem um papel fundamental nas decisões humanas.

Assim, quando se promete a conquista de um território, isso significa que o exército irá ter algo a que desejar. Se a promessa é de obter comida, é outro item de desejo. O desejo é medido não só por volume e demais características, como por necessidade. É por isso que podemos dizer claramente a razão pela qual medo e esperança são os símbolos fundamentais da política. É preciso ter esperança em algo melhor junto ao medo daqueles que se interpõem nesse caminho. Observe o que Oliveira costuma dizer aos seus discípulos:

Ninguém irá nos deter no caminho de dominarmos a elite cultural de nosso país. Se hoje alguém acha que já ocupamos muito espaço no governo, eles tremerão de terror ao ver onde chegaremos. Não é possível nos impedir, pois estamos seguindo o fluxo da história, que não pode ser interrompido.

É assim que a mesma máquina cerebral que sente medo também possui esperança. No livro “O Viés Otimista”, Tali Sharot descreve um pacote de vieses que explica como o ser humano pode sucumbir ao otimismo, às vezes de maneira irrealista. Segundo ela, “o otimismo pode ser tão essencial à nossa sobrevivência que foi incorporado ao nosso órgão mais complexo, o cérebro”.

Há o seguinte pacote de vieses da mente relacionados ao otimismo:

  • Viagem mental no tempo
  • Profecia autorrealizável
  • Poder da relatividade
  • Poder da recordação
  • Poder da mera expectativa
  • Viés do otimismo
  • Viés do impacto

Falando de Oliveira, observemos como ele pode explorar esses vieses.

Logo no primeiro, vemos no mecanismo mental da viagem mental no tempo algo descrito como aquele que “talvez seja o mais extraordinário dos talentos humanos”. Estudado pelo psicólogo canadense Endel Tulving, esse viés fala do potencial da mente de revisitar o passado e imaginar o futuro, indo para frente e para trás no tempo. É que se não podemos nos imaginar no futuro, não temos como ser positivos sobre nossas expectativas. Como lutar por uma promoção, por exemplo, se não nos imaginarmos no futuro já tendo alcançado este objetivo? Como estocar alimentos se não nos imaginarmos protegidos da escassez no futuro?

Em seguida, temos o viés da profecia autorrealizável, expressão cunhada em 1948 pelo sociólogo Robert Merton, que fala da criação de uma previsão falsa para aumentar as chances de que ela se torne real lá na frente. Observe o caso de dois times que disputarão uma final de campeonato, mas apenas um sairá vitorioso. Ambos podem acreditar que vencerão, o que ampliará a motivação de ambos pela vitória. “Acreditar em um resultado positivo aumenta a probabilidade de que realmente se concretize”, diz Sharot.

A sensação de elevação, estudada por Jonathan Haidt, compreende situações em que o ceticismo é deixado de lado e dá espaço a uma atmosfera de esperança e otimismo. Esse efeito “reduz nossa incerteza acerca de estímulos sociais”.  Se alguém ri em sua direção e você interpreta como um sinal positivo, a ansiedade social é reduzida e promove-se a aproximação. Deborah Mattinson explica que “as pessoas tendem a se sentir mais otimistas em relação às coisas que acreditam poder controlar”. Normalmente, é uma ilusão, mas útil para alguém achar que vai girar o leme na direção certa.

Em seguida, o poder da relatividade limita a capacidade humana de comparar situações. Por exemplo, nos comparamos não com dados estatísticos profundos, mas com nossos amigos. A “relatividade é um aspecto fundamental da psicologia humana”, diz Sharot. Se ouvimos música num volume baixo, notaremos a menor mudança de volume.

O poder da recordação é um marcante viés que pode ser notado quando encontramos uma pessoa e temos a impressão de que já a vimos anteriormente, mas não temos certeza de onde e quando. Educadamente, enquanto conversamos com a pessoa, podemos falar de pontos que nos farão, pouco a pouco, recordar mais detalhes, agora com maior vividez. Tal efeito nos permite “voltar no tempo e reviver mentalmente um acontecimento” e recordarmos partes interessantes de um episódio. O diabo é que as vezes podemos esquecer as partes mais chatas e cometer erros de avaliação.

Com o poder da mera expectativa, basta esperar algo positivo| no futuro para sentir mais felicidade. Num levantamento em grande escala, envolvendo pessoas em vários países, chegou-se à conclusão definitiva de que a maioria das pessoas é feliz a maior parte do tempo. Não surpreende que as pessoas fiquem mais felizes na sexta do que no domingo, mas no primeiro caso temos a promessa do fim de semana, enquanto no último caso temos a expectativa da segunda.

Com esse pacote de vieses, muitas vezes agrupados, finalmente chegamos ao viés do otimismo, que é a tendência humana a superestimar a probabilidade de acontecimentos positivos e subestimar a probabilidade dos negativos. Isso não é tudo, pois pessoas otimistas imaginam acontecimentos positivos com maior nitidez e riqueza de detalhes do que os negativos. Com mais otimismo, há mais chances de imaginarmos acontecimentos positivos como mais próximos no tempo, mais vividamente e como se tivessem maior probabilidade de ocorrerem do que os negativos.

Embora nos traga riscos, o viés do otimismo “nos protege de perceber com precisão a dor e as dificuldades que o futuro sem dúvida nos reserva e pode nos defender de ver nossas opções na vida como um tanto ou quanto limitadas”, diz Sharot. Não apenas isso reduz estresse e ansiedade, como também permite que possamos visualizar realidades alternativas e nos planejarmos para o futuro.

Até mesmo em situações completamente adversas, o viés do otimismo pode se manifestar devido ao viés do impacto. Dito de outro modo, é “nossa tendência a supervalorizar o efeito de um resultado adverso sobre nosso bem-estar”. Considere a situação de alguém passando fome numa ditadura comunista. Acostumada ao ambiente, a pessoa poderá se sentir inspirada ao acordar pela manhã tanto como aquele que vive uma vida confortável numa democracia. No fim das contas, o viés do otimismo termina sendo uma fonte poderosa de esperança.

Pensemos no caso de Oliveira fazendo uso da esperança em seu dia a dia na seita. Com a viagem mental no tempo, é possível estimular em seu público uma imaginação vívida do futuro em que seus discípulos serão parte de uma elite cultural. Com a profecia autorrealizável, pode-se até influenciar eventos previstos, como, por exemplo, a participação de um de seus discípulos no caminhão de som de um movimento de rua, já que sua seita não é conhecida por engajamento fora da Internet. Com o poder da relatividade é possível confundir a percepção das pessoas pelo efeito de contraste e fazer as pessoas acharem que hoje vivem em um mundo desgraçado, mesmo que o nível de vida seja bem melhor que na era medieval (tão decantada pelo guru).

Pode-se utilizar o poder da recordação para estimular as pessoas a “voltarem no tempo” e reviverem acontecimentos. Por exemplo, elas podem imaginar uma época anterior pela qual passaram. Com o poder da expectativa, pode-se motivar as pessoas a partir de sentimentos pouco palpáveis. Meramente fazendo-as acreditar que estão indo ao futuro maravilhoso já as faz se sentir bem. O viés do impacto serve para mobilizar a emoção das pessoas mesmo em situações adversas. Com isso, Oliveira fará uma força para garantir que os revezes dos alunos sejam interpretados de maneira positiva. Por fim, o viés do otimismo faz com que as pessoas superestimem a probabilidade de acontecimentos positivos e subestimem a probabilidade dos negativos.

A exploração do contraste entre os dois símbolos mais poderosos – que são o medo, que motiva a reação ao mal, e a esperança, que luta pela manutenção do que é bom e a busca de um futuro melhor. Com o mecanismo da utopia, o uso do viés do otimismo é levado à escala máxima, com o estímulo do desejo atingindo seu ápice. Quanto mais existe o desejo, mais pode-se ampliar o discurso de medo contra aqueles que se opõem contra o futuro ambicionado.

Não é de causar espanto que quanto mais altas são as expectativas, mais haverá cobrança por resultados. Exatamente por esse motivo, é importante entregar alguns resultados parciais. Aquele que chega a um estágio de poder será cobrado por suas promessas. Quanto mais um grupo deseja algo, maior será a motivação. No caso da seita, é possível explorar os discípulos para que eles acreditem que estão se “saindo bem”, mas na verdade a maioria não sai do lugar e não vai participar da “elite do poder”. Seja lá como for, as utopias são o grau mais alto de lançamento de esperança já testado pela humanidade, pois prometem o paraíso na terra. No caso da utopia reversa, geralmente usada por cultos reacionários (como o de Oliveira), o efeito é praticamente o mesmo.

Em resumo, sempre, na política, falamos de símbolos de esperança, que, obviamente, vão ativar os mecanismos cerebrais relacionados ao medo, mas também a disposição por lutar, ou apoiar quem está lutando por eles.

É importante ressaltar também que o uso de eventos “cataclísmicos” também ativa fortemente as emoções. Segundo Robert Cialdini, um dos principais especialistas em persuasão humana, a escassez é um dos elementos básicos de conhecimento. Segundo ele, “as coisas são mais atrativas quando sua disponibilidade é limitada, ou quando nos arriscamos a perder a oportunidade de adquiri-las”.

Se a ideia é ampliar o desejo da pessoa por algo, é bom gerar o sentimento de que isso pode acabar. Quanto mais o evento for ameaçador, maior será o nível de sacrifício a ser realizado. Enquanto aguardam a ameaça, as pessoas nutrem sentimento de coletividade, mas também manifestam senso de urgência e sensação de fragilidade. Sentindo que possuem menos valor, isso aumenta o valor do guru que as orienta. É nessa condição que elas se sentem uma parte de uma elite, já que pelo menos sentem que estão entre os que possuem esperança de se salvar.

Veja o caso de Jim Jones, que garantiu que aqueles que se matassem seriam os escolhidos. Os que fossem covardes, disse ele, ficariam vivos e queimariam no fogo do inferno. Nesta matéria do Fantástico (feita à época), dá para entender a história:

Como lembra Bonnie Zieman – no livro “The Challenge to Heal” -, toda seita, independentemente do tamanho, apela para o desejo humano universal de uma vida melhor, um mundo melhor, um ser mais evoluído ou uma maneira mais adequada de servir a Deus. Ela explica:

Qualquer um pode ser seduzido em movimentos aparentemente idealistas, com objetivos de melhorar o eu e o mundo, especialmente quando eles não percebem que estão se juntando a uma organização para o auto-interesse do guru e de alguns poucos.

Quando fica claro que estão sendo explorados, para muitos ainda assim é difícil “sair”, por causa das “feridas psicológicas, emocionais e espirituais” que o abandono da seita causará.

Segundo Bonnie, “as pessoas se juntam a cultos por uma grande variedade de razões, conscientes e inconscientes”. Razões incluem procura de sensação de pertencimento, senso de significado, senso de propósito, salvação ou qualquer outro modo de se sentir como “destinado a algo especial”. Em razão isso, se juntar a um culto seria uma forma de acreditar ter senso de controle sobre si mesmo e o em relação ao meio. Para outros, pode ser uma forma de desabafar suas frustrações e raiva com o status quo, para citar apenas alguns. Medos psicológicos e inconscientes também contam como fatores importantes.

Não dá para padronizar os indivíduos que se juntam a cultos, pois eles podem ter motivos diferentes, mas nunca é demais repetir: eles se unificam na necessidade de acreditar fazer parte de uma elite que está acima dos outros em uma salvação. Se cada indivíduo possui motivos exclusivos, eles encontrarão promessas e sentirão efeitos que preencherão lacunas em suas vidas ou necessidades psicológicas.

É por isso que é tão importante a figura “de um resgatador final, substituto parental ou segurança perfeita”. Ela prossegue:

Pessoas de todas as esferas da vida, de todos os níveis de ensino, podem se ver envolvidas em uma comunidade, movimento, organização ou grupo que acaba por empregar métodos de controle antiético e enganação capazes de qualificar o grupo como um culto. As pessoas envolvidas em cultos raramente poderiam identifica-lo como tal durante o seu envolvimento – talvez nem mesmo após o término de seu envolvimento. Ninguém quer acreditar que foi enganado, manipulado ou explorado. Até mesmo admitir essa possibilidade pode evocar constrangimento, vergonha e ansiedade.

Especificamente por terem investido tanto esforço e emoção numa resposta única (o guru) contra essas ameaças e no caminho em relação a uma realidade utópica é que precisam ter certeza de que estão no caminho certo. Vista pelo mundo exterior como ilusão delirante, essa certeza é de onde tiram o combustível.

Ironicamente, aquilo que os adversários de um culto acham que é sua maior fraqueza é sua maior força: a certeza da vitória – especialmente por vários componentes do viés do otimismo, em específico a profecia autorrealizável -, que, mesmo diante de expectativas muitas vezes falsas, intimidam seus opositores. É aqui que entra o papel fundamental da espiral do silêncio nos cultos políticos online.

A Espiral do Silêncio

Um texto de Breno França dá um exemplo muito vívido a respeito do que muitos torcedores (ou não) de futebol passam. Inicialmente, ele pede para imaginarmos a seguinte cena:

Você é um cara que odeia futebol. Mas na sua rodinha de amigos o assunto surge e os caras começam a listar motivos pelos quais eles adoram esse esporte. Um fala sobre a complexidade do jogo, as questões táticas, os melhores jogadores. O outro sobre as cifras que o futebol movimenta e a geração de empregos diretos e indiretos. Um terceiro concorda com tudo e acrescenta como foi boa sua experiência na última vez que foi ao estádio. Na empolgação surge o convite para vocês irem ao bar na semana que vem acompanhar uma partida enquanto tomam chopp grátis a cada gol do time.

Você olha pro lado vê a empolgação dos seus amigos e sem querer ser o chato da vez, aceita sem reclamar. Você, afinal, já está acostumado a isso. Seu pai e seu avô eram torcedores fanáticos, a tradição da família era assistir aos jogos de domingo reunidos e a primeira foto que você conhece de você mesmo era com a camiseta do clube.

Segundo Breno, o que acontece na prática é que “os colegas percebem a sua ressaca em plena quinta-feira (resultado da goleada na noite anterior) e começam a puxar assunto sobre o jogo. Em pouco tempo, sua mesa vira o ponto de encontro da rodinha de conversa. Até seu chefe passa a ter mais boa vontade com você ao descobrir que vocês ‘torcem pro mesmo time’”. Ele segue:

De repente, você percebe que todos ao seu redor parecem adorar esse tal esporte e começa a duvidar dos fatores que te levaram a odiá-lo inicialmente. Afinal, é muito pouco provável que tudo que você vê em casa, no trabalho, no bar, nos jornais e nas propagandas esteja errado e só você certo.

Pense na seguinte imagem ao lado. Breno pergunta: “Seu chefe te deu uma dessas canecas e você ficou sem graça de tirá-la de cima da mesa”. Por fim, ele conclui: “No fim das contas, para todos os efeitos, pouco importa de você passou a gostar mesmo de futebol ou não. O simples fato de você ter se calado lá no começo mudou a percepção das pessoas ao seu redor e outras pessoas se sentem constrangidas em falar mal do tal esporte perto de você. Em larga escala, a opinião majoritária sobre determinado assunto em determinado ambiente tende a se tornar cada vez maior, calando vozes discordantes progressivamente”.

Isto, em síntese, é o efeito da espiral do silêncio. Na época dos cultos online, é o que faz a diferença. Vamos entender o que isso representa, em detalhes.

A tese

Proposta pela cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann, a tese da espiral do silêncio estipula que os indivíduos possuem medo do isolamento. Isso tem a ver com a noção de que, por suas opiniões, alguém pode ser estigmatizado de um grupo que possua opiniões diferentes da sua. Em razão deste medo do isolamento, alguém fica em silêncio em vez de expressar sua opinião. Originalmente, a tese visava estudar o cenário eleitoral. Hoje em dia, foca muito em questões relacionadas à mídia de massa, tornando-se um dos assuntos mais pertinentes em cursos de comunicação e jornalismo.

Geralmente, as pessoas fazem uma avaliação equivocada do ambiente social. Quer dizer: não deveriam ter tanto medo de expressar suas opiniões, mas, ainda assim, sentem o efeito e não se expressam como desejam. Na avaliação de participação em fóruns públicos, a tese é ainda mais incisiva. Shelly Neil explica que basta que uma pessoa acredite que seu ponto de vista seja minoritário para ir para o fundão. Por outro lado, os que acreditam que possuem um ponto de vista majoritário serão encorajados a falar.

Observe, então, que a própria retulância individual com base nas percepções do que todos pensam tem implicações decisivas em nível social. Essa percepção de que alguém é minoritário pode chegar a um ponto de que esta minoria não mais se manifesta. É assim que a opinião majoritária se converte em norma social.

O termo “espiral” se deve a uma analogia para descrever visualmente a tese. Ao fim da espiral temos o número de pessoas que se recusam a expressar publicamente suas opiniões, por medo do isolamento. A maior probabilidade é de que alguém desça na espiral caso perceba que sua opinião não está de acordo com a opinião da maioria. Essas são as quatro etapas do processo, segundo a autora:

  1. Medo do isolamento – Temos como distinguir os campos onde as opiniões e atitudes são estáticas – por exemplo, costumes – e os campos onde estão sujeitas a mudanças – atua-se conforme esta opinião em público para não sofrer isolamento. Naquelas opiniões que estão em fluxo ou são disputadas, o indivíduo vai tentará descobrir o que pode ser expressado sem consequências de isolamento.
  2. Avaliação do ambiente – ao observarem seus ambientes, as pessoas que notam sua opinião repercutindo ficam mais confiantes ao expressá-la em público. Por outro lado, se perceberem que perdem terreno, tendem a se reservar mais.
  3. Maior motivação dos dominantes – o resultado é que os que se sentem majoritários vão ficando cada vez mais confiantes enquanto os que se sentem minoritários  vão ficando em silêncio. Aqui começa a ficar decisiva a coisa: a opinião reforçada assim parece mais forte do que realmente é; por outro lado, a opinião reprimida parecerá mais fraca do que realmente é.
  4. Ciclo da espiral – o resultado é um processo em espiral que segue levando outros indivíduos a perceber as mudanças de opinião e as seguindo, até que uma opinião sedimentando-se como a atitude predominante enquanto a outra opinião desde a ladeira, sendo rejeitada por todos.

Essas percepções são variáveis, mas servem para estabelecer uma opinião como predominante, quando ela sai do do estado líquido para uma norma sólida. Além disso, Noelle-Neumann descreve a espiral do silêncio como um processo dinâmico. Nesse processo, as previsões sobre a opinião pública tornam-se realidade: tanto quanto a opinião majoritária da mídia se torna o status quo, a minoria tende menos a falar.

Sempre será o medo do isolamento a força centrífuga que acelera a espiral do silêncio. É por isso que há monitoração contínua do ambiente. É por questão de sobrevivência que muitos indivíduos tentam descobrir o que podem expressar sem ficarem isolados. O detalhe é que boa parte do processo tem a ver com expectativa, principalmente a expectativa de que a opinião seja vitoriosa no embate de ideias ou que represente a vitória de um grupo.

Durante as eleições Noelle-Neumann elaborou um questionário simples. Ali diziam em quem votariam e quem achavam que venceria. Notou que um dos fatores fundamentais para a decisão – especialmente dos indecisos – é a sensação de que o candidato escolhido vai ganhar. A mídia geralmente influencia essa decisão, com base em três fatores:

  1. Acumulação: excesso de exposição do tema na mídia.
  2. Consonância: forma semelhante como as notícias são produzidas e veiculadas.
  3. Ubiqüidade: presença da mídia em todos os lugares.

Segundo os estudos da Noelle-Neumann, se uma opinião sobre um dado assunto alcançasse maior pontuação nesses três níveis, isso aumentaria consideravelmente a probabilidade de sucesso dessas correntes.

A espiral na web

Inicialmente a Internet foi tratada como a salvação para a espiral do silêncio. Na época do mirC e do ICQ isso era certamente verdade. Depois que as redes sociais mais amplas, com Facebook, Twitter e Instagram deram o tom, a espiral do silêncio passou a ser ainda mais forte na web do que fora das redes.

Pessoas que tomam “descurtidas” podem se desmotivar a dar sua opinião. Muitos calibram a percepção de acordo com com aumento de likes e followers. No texto anterior, falamos bastante de como uma dinâmica de seita online pode criar cadeias de solidariedade que multiplicam seguidores dos participantes.

Aqueles que ficam com medo do isolamento podem se basear em fatores como menor interação. Outros se sentem mal na rejeição por pares.  Em adição, a redução de contato com pessoas fora do mundo virtual aumenta a pressão pela aceitação no mundo virtual.

Se grupos minoritários conseguem se expressar na Internet, isso também requer bastante cuidado, pois podem ser engolfados pela atuação se setores querendo calá-los. Hoje em dia, o medo de linchamentos virtuais e de perda de seguidores amplia-se. Outro fator é a relação entre as redes sociais e o mundo real. Uma estigmatização no mundo virtual se refletindo no mundo real.

Em alguns aspectos, existe a redução do medo do isolamento para grupos com opiniões pouco habituais. Por exemplo, a união de fãs de uma banda que quase ninguém gosta. Para alguém vivendo numa cidade do interior, ele estará na espiral do silêncio no mundo real. Já na Internet, pode se encontrar com os mesmos fãs.  Desse modo, grupos restritos podem quebrar, temporariamente, a espiral do silêncio.  O que importa, para nós, é como o processo funciona por completo na Internet.

Os “duros de espírito”

Há uma ressalva adicional no material de Noelle-Neumann: existem alguns indivíduos que são chamados de “duros de espírito”. Essas pessoas não se submetem à espiral do silêncio, já que não se deixam impacta pelo clima de opinião. Essa pessoa não tem medo de se tornar socialmente excluído. Em outros casos, a pessoa usa sua discordância para objetivos pessoais, como trazer uma ideia inovadora.

Um caso se relaciona a maltas que perseguiram Abel Brukawit, um sujeito que possuía um canal de vídeos no YouTube.  Um sujeito chamado Abu Legesse postou no perfil de Oliveira que Brukawit havia dito que o guru tinha opiniões deploráveis sobre a batalha cutlural. Legesse convocou o assassinato de reputações e disse que Brukawit perderia 10% de seus seguidores, no mínimo. Este foi o diálogo:

– Vamos acabar com você!

– Pode vir!

– Deixaremos você estigmatizado. Ninguém vai querer mais vir no seu canal. Faremos campanha para todo mundo ir embora, e você vai ficar sozinho.

– Tudo bem. Isso me poupa trabalho de moderação.

– Você vai perder seguidores!

– Tudo bem. Pode levar. O acesso é mesmo de graça.

– Você vai ficar sozinho!

– Melhor ainda. As vezes é bom o silêncio.

Este é o tipo de perfil que deixa os gurus indignados. Tecnicamente, Noelle-Neumann diz que os “duros de espírito” cumprem uma função social importante de manter vozes discordantes ativas. O que importa é que sempre há uma minoria vocal – a não ser nas ditaduras mais violentas – que permanece no topo da espiral, desafiando ameaças de isolamento.

Uma classe dessas pessoas é definida como “não conformista incondicional”, que são “pessoas que já foram rejeitadas por suas crenças e não têm nada a perder falando”. Algumas pessoas que se consideram “à frente dos tempos” também podem não se deixar intimidar.

Bugs da mente

Até o momento, temos cerca de mais de 20 vieses da mente que já vimos, tanto em textos anteriores como até mesmo acima (ao falar do viés do otimismo). Veremos mais sete novos. Entre os que já vimos, temos vieses básicos como:

  • Prova social
  • Viés da conformidade social
  • Obediência à autoridade
  • Dissonância cognitiva
  • Viés do investimento emocional
  • Falácia do custo irrecuperável
  • Efeito Backfire

Além disso, vimos ainda nesse capítulo vieses específicos à esperança, que são:

  • Viagem mental do tempo
  • Viés do otimismo
  • Profecia autorrealizável
  • Sensação de elevação
  • Poder da relatividade
  • Poder da recordação
  • Poder da mera expectativa
  • Viés do impacto

A esses vieses e aspectos, podemos considerar outros que ampliam a espiral do silêncio:

  • Pressão social
  • Efeito manada
  • Reforço comunitário
  • Ignorância pluralística
  • Efeito do falso consenso
  • Pensamento de grupo

Falaremos um pouco de cada um desses sete novos vieses, todos com breves exemplos relacionados a Oliveira.

Pressão social

Basicamente, a pressão social, ou “pressão dos pares” é a influência de pessoas sobre aquelas que estão ao seu lado. Tecnicamente, é um par da “prova social”, em que a pessoa cria um comportamento mais adequado para receber aprovação social. A pressão social foca em saber que mecanismos influenciam essa decisão. Este tipo de pressão pode ser feito espontaneamente ou direcionado. Com isso, os indivíduos se sentem “pressionados” a mudar de atitude.

Geralmente, o efeito é mais forte em grupos de associação. Por exemplo, um partido político ou organização em geral. Mesmo assim, alguém não precisa ser membro para ser afetado. Por exemplo, suponha que um sindicato não queira integrar uma greve geral. Uma campanha de pressão social feita por outros dois sindicatos pode fazê-los mudar de ideia.

É assim que Oliveira nunca deixou de contar com verdadeiros exércitos de linchadores virtuais, que aporrinham aqueles de opinião divergente. A certo momento alguns chegam a concordar como se dissessem: “Ok, não aguento mais! Tudo bem? Eu concordo! Eu concordo!”. 

Assim, sempre que alguém for estudar os mecanismos de alteração de opinião, é vital entender quais mecanismos de pressão social estão sendo exercidos. Obviamente, nem sempre a pressão social é danosa ou parte de cultos, mas é um elemento fundamental de estudo para sociólogos.

Efeito manada

Diretamente ligado ao viés da conformidade social, o efeito manada explica a taxa de aceitação de crenças, tendências e modas de acordo com sua aceitação aos outros. Enquanto o efeito da conformidade social não necessariamente quer saber se as crenças adotadas são falsas, o efeito manada quer observar todos os fenômenos de aceitação com base especificamente no grau de aceitabilidade externa e entender o processo.

Sem ligar para as evidências, as pessoas vão calibrando a adoção de suas ideias em relação à proporção que os outros fizeram. O efeito manada seria como se fosse o resultado da pressão social, com a busca da prova social e, por fim o efeito da conformidade. Na junção desses três aspectos, visualizamos externamente o efeito manada de forma mensurável.

Para se ter uma ideia, Oliveira chega a usar o seguinte exemplo ridículo sobre filosofia:

Uma prova de que eu sou melhor filósofo que os outros da Nibéria é que eu tenho mais de 100.000 visualizações em cada vídeo meu. O filósofo Len Chukwudumaga pode até fazer um vídeo refutando o que eu falo, mas ele não terá um décimo de minhas visualizações. 

É mole? Pois é. Se temos um “filósofo” dizendo que a quantidade de pessoas é o que importa, certamente é alguém já focado na exploração do efeito manada. 

Os estudos do efeito manada vão geralmente além dos vieses que se conectam a ele, pois buscam saber não só porque uma tendência ou moda aparece, mas também como desaparece. Para os políticos, esse tipo de informação é importantíssimo.

Reforço comunitário

Inicialmente o reforço comunitário parece ser uma extensão do efeito manada, mas vai um tanto além. Em essência, este viés busca estudar como conceitos e ideias inválidos ou até danosos (aos seus agentes) são repetidamente afirmados.

Uma das ideias desse mecanismo é observar o quão longe alguém vai em uma ideia aparentemente estranha aos seus instintos e desejos se outros já a aceitaram em um ciclo de contínua confirmação. No livro “Psicologia do Terrorismo: Entendimento e Perspectivas Teóricas”, Chris E. Stout identifica que esse aspecto está presente no estado psicótico dos terroristas.

Segundo ele, ao tomar essa decisão ele perderia coragem, validação moral, santificação e zelo se estivesse fazendo um julgamento individual. Mas ao transferir o julgamento de acordo com as regras do grupo, se sente menos exposto. Isso dá noção a uma missão de grupo.

Diariamente, Oliveira posta várias mensagens de testemunho em um perfil auxiliar, feito apenas para isso. Essas mensagens sempre dão conta de que há continuamente pessoas manifestando fé nas ações da seita. Esse ritmo de bate-estaca dá a impressão de que todo mundo não pára de apoiar a causa. Se assim o é, muitos discípulos vão seguindo no caminho. 

Quanto mais os indivíduos recebem apoio de outros terroristas, mais se sentem motivados a “transferir” seu julgamento de acordo com as regras do grupo.

Ignorância pluralística

Este é outro viés que se parece com um anterior. No caso, o reforço comunitário. A diferença aqui é que a avaliação é feita em termos de vários indivíduos do grupo e se identifica que a maioria dos membros (se fossem avaliados individualmente) rejeitaria uma normal em particular que está sendo aceita.

O detalhe é que a própria ideia e que a maioria aceita a norma é falso. Assim, não é que o sujeito está concordando com uma ideia errada porque a maioria acredita, mas porque ele erroneamente acha que a maior parte das pessoas a aceita. É quase como dizer: “”ninguém acredita, mas todo mundo acha que todo mundo acredita”.

O interessante aqui é que a atitude conta muito. Por exemplo, se 20 pessoas estiverem numa sala e apenas 5 acham que o projeto deve seguir enquanto 15 que o projeto deve continuar, a atitude de pessoas do primeiro grupo pode levar a maioria do segundo grupo a achar que essa é a ideia dominante.

Segundo Elisabeth Noelle-Neumann, os preconceitos usados em mídia aumentam a ignorância pluralista. O drama é que as pessoas podem se achar um membro desviante de seus pares até mesmo quando não é. Isso também pode levar grupos a persistirem em políticas e práticas que perderam o apoio generalizado.

Oliveira sabe que as pessoas adotam esse viés. Por essa razão, sempre toma a opinião de algumas opiniões relevantes como se fosse a opinião do todo. Isso o ajuda a dizer que tudo que ele faz é “em nome do povo”. 

Quer dizer: alguém pode achar que está submetido à pressão social e então tenta obter a prova social, mas não vai conseguir seus resultados por que na verdade está vitimado pela ignorância pluralística.

Efeito do falso consenso

Outro fenômeno aparentemente parecido é o efeito do falso consenso, que faz alguém superestimar a extensão em que suas opiniões, crenças, preferências, valores e hábitos são normais e típicos dos outros. Ou seja, se alguém pensa de alguma forma, então acha que os outros pensam de forma similar.

Basicamente, as pessoas tem o desejo de se conformar (como na visto no viés da conformidade) e de serem apreciadas pelas outras. Então, automaticamente quando alguém adota uma opinião, acha que os outros estão adotando uma similar. Em outro contexto, este viés se apresenta quando um grupo define que a opinião coletiva exibida lá dentro corresponde ao do resto da população.

O detalhe é que o grupo chegou a um consenso e ninguém discorda lá dentro. Assim, pessoas do grupo tendem a acreditar que todos agirão da mesma maneira. Observe que o efeito do falso consenso não fala apenas dos casos em que as pessoas acreditam que seus valores são compartilhados pela maioria, mas ainda se manifesta como uma superestimativa da extensão de sua crença.

Se alguém mostrar que o consenso não existe, alguns podem assumir que os discordantes estão com algum problema. Geralmente, isso se deve à tomada de decisão com base em pouca informação. 

Há um contraste entre o efeito do falso consenso e a ignorância pluralista. Enquanto o efeito do falso consenso leva as pessoas a acreditar erradamente que a maioria concorda com elas (quando a maioria discorda abertamente delas), o efeito da ignorância pluralista leva as pessoas a acreditar erroneamente que elas discordam da maioria (quando a maioria , de fato, secretamente concorda com eles).

No livro You’re Not So Smart, de David McRaney. encontramos uma descrição interessante das diferenças:

A ignorância pluralista poderia, por exemplo, levar um aluno a se envolver em bebedeira por causa da crença equivocada de que a maioria dos outros alunos o aprova, enquanto na realidade a maioria dos outros desaprova, mas se comporta da mesma forma porque eles compartilham o mesmo erro, coletivamente autossustentável. Em um exemplo paralelo do efeito do falso consenso, um estudante que gosta de beber em excesso acreditaria que a maioria também gosta dele, enquanto na realidade a maioria dos outros o detesta e diz abertamente.

O falso consenso pode ser explorado por um guru de maneira similar à que ele explora a ignorância pluralística. 

Pensamento de Grupo

Da junção de vieses anteriores, o pensamento de grupo é um fenômeno que ocorre dentro de um grupo de pessoas em que o desejo de harmonia ou conformidade deriva em um resultado de decisão irracional ou disfuncional.

Geralmente pensando em “deixar pra lá” e não gerar treta desnecessária, um grupo pode buscar minimizar o conflito, resultando numa decisão consensual sem avaliação crítica de pontos de vista alternativos, suprimindo ativamente pontos de vista dissidentes e isolando-se de influências externas.

A tendência é não levantar questões controversas ou soluções alternativas. Com isso, há perda de criatividade individual, singularidade e pensamento crítico independente. 

Quando isso ocorre os dominantes influenciam o restante das opiniões dos outros na tomada de decisões. Os que são considerados “fora do grupo” tendem a ser excluídos da decisões. 

Pioneiro na pesquisa, Irving Janis diz que cunhou o termo fazendo analogia com o “duplipensar”, descrito por George Orwell. Foi assim que Janis o definiu inicialmente:

Uso o termo pensamento de grupo como uma forma simples e fácil de me referir ao modo de pensar em que as pessoas se envolvem quando a busca por concordância se torna tão dominante em um grupo coeso que tende a anular a avaliação realista de cursos alternativos de ação. O pensamento de grupo é um termo pertencente à mesma ordem que as palavras do vocabulário da moda que George Orwell usou  no cenário desanimador visto no livro 1984. Nesse contexto, o pensamento de grupo assume uma conotação odiosa. Exatamente tal conotação é pretendida, uma vez que o termo se refere a uma deterioração na eficiência mental, testes de realidade e julgamentos morais como resultado de pressões de grupo.

Oliveira se aproveita do pensamento de grupo ao deixar vários de seus alunos o questionarem em suas aulas. Eles até divergem, mas dentro de um cercadinho permitindo, com medo de serem chamados de “esquerdistas disfarçados” por outros. Aos poucos, muitos vão acreditando mesmo naquilo. 

Espiralizando

Antes de entrar nos métodos cotidianos de “espiralização”, vamos revisar essas duas dezenas vieses que vimos até agora. Todos eles servem para entender parte da constelação de métodos para aplicar a espiral do silêncio e causar medo do isolamento e, mais ainda, fazer pessoas até se juntarem na manifestação – geralmente movida pelo guru e seus principais adeptos – de que a “vitória é inexorável”.

Vamos a eles, pensando em como você os manifestaria:

Vieses básicos

  • Prova social: Você busca obter o melhor resultado social de suas ações públicas;
  • Viés da conformidade social: Você tende a se adequar ao que os outros estão fazendo;
  • Obediência à autoridade: Você tende a obedecer mais a figuras de autoridade;
  • Dissonância cognitiva: Você reduz a tensão acomodando crenças contraditórias;
  • Viés do investimento emocional: Quanto mais emoções você investiu numa crença mais difícil é de largar;
  • Falácia do custo irrecuperável: Quanto mais se sacrificou por sua crença mais você se apega a ela;
  • Efeito Backfire: Quanto mais suas crenças são expostas como falsas mais você acredita.

Vieses do otimismo

  • Profecia autorrealizável: Em alguns casos, você aumenta a chance de algo ocorrer por sua crença nisso (mas em outros pode se ferrar);
  • Sensação de elevação: Você abandona o ceticismo em troca de uma sensação de otimismo e esperança;
  • Poder da relatividade: Você compara situações de forma limitada [por ter amostras reduzidas];
  • Poder da recordação: Você olha para o lado bom de recordações e esquece as partes chatas;
  • Poder da mera expectativa: Você espera algo positivo no futuro e já se sente bem com isso;
  • Viés do otimismo: Você superestima acontecimentos positivos com mais nitidez e riqueza de detalhes do que os negativos;
  • Viés do impacto: Você compara com o que está vivendo e acaba sendo otimista.

Vieses especialmente úteis para a espiral:

  • Pressão social: Você participa da pressão feita sobre alguém para que ele se adeque;
  • Efeito manada: Você vai junto se outros forem também [em nível geral, em extensão do viés de conformidade];
  • Reforço comunitário: Você repete comportamentos que parecem comuns se eles são continuamente reafirmados;
  • Ignorância pluralística: Você acha que todo mundo quer ir junto, mas na verdade não querem. E você vai mesmo assim;
  • Efeito do falso consenso: Você acha que todo mundo concordaria com você. Mas não concordam;
  • Pensamento de grupo: Você busca a harmonia em discussões de grupo, mas o resultado depende da posição em que você está no grupo [do lado dos dominantes ou dos dominados].

Sendo assim, com esse pacote de vieses em mente, há um baita conjunto de interruptores a serem aproveitados na mente para explorar falso otimismo, forçar falsos consensos, mover a manada, desanimar dissidentes e daí por diante. É natural que, cientes desses vieses, essas pessoas mais manhosas tenham criados verdadeiros estratagemas para se aproveitar do medo do isolamento humano. Vamos a eles. 

Ilusão de invulnerabilidade

Com as narrativas adequadas, o guru e seus aliados podem demonstrar que são invulneráveis quando não são. O objetivo aqui é gerar otimismo excessivo e incentivar a tomada de riscos pelos demais.

É preciso notar que aqui é basicamente uma encenação vinda de cima. A diferença é que a sensação nos que estão em baixo deve ser firme e vívida. É quase como fazer alguém assistir a um filme sobre um herói indestrutível e fazer o espectador se sentir assim também, como se estivesse no mesmo trajeto que o personagem do filme. 

Oliveira, por exemplo, diz que ninguém jamais poderá vencê-lo em qualquer debate. Segundo ele, é o seguinte:

Qualquer um que tentar aparecer no meu caminho será totalmente destruído. Tantos já tentaram e nenhum sequer chegou perto. Eles tremem na base só de me ver. Não possuem cultura e não entendem absolutamente nada.

Isso gera o clima, perante os adeptos, de que seu guru é invulnerável. E isso pode ser transferido para o próprio grupo, que deverá se aproveitar um tanto disso. Um de seus adeptos, Fréderic Bienheureuse, disse:

Esses idiotas liberalóides, devem tirar o cavalo da chuva se imaginam que vão conseguir mostrar que o Professor Oliveira está errado. Todos que tentaram se deram mal. Eles sabem que terão que se rebaixar em um dado momento. Qualquer resistência é inútil. He he he….

Esse tipo de atitude é feito com confiança. Para os líderes do grupo, geralmente isso é simulado. Para os que estão embaixo, evidentemente tem que ser espontâneo.  

Narrativa antifrágil

Nassim Nicholas Taleb

Esse conceito é baseado no livro “Antifrágil”, de Nassim Nicolas Taleb, que trata a incerteza como algo presente e desejável nas empresas. Segundo ele, se as organizações assimilam os conceitos de antifragilidade, podem tomr melhores decisões sem a ilusão de serem capazes de prever o próximo grande acontecimento.

Isto seria diferente do conceito de “resiliente”, que resiste aos choques e se mantém. Indo além, o antifrágil “melhora” com os choques. É assim que se criou a mitologia de que “Quanto mais bate, mais cresce”. Oliveira usa isso para ele e seus alunos, bem como para qualquer um apoiado por ele. O presidente Jan Benjamin, eleito tendo Oliveira em sua base de apoio, é tratado por militantes ligados ao guru por essa narrativa.

Em relação ao guru, um caso ficou interessante quando um órgão de mídia descobriu as articulações feitas nas redes sociais por militantes pró-Oliveira e em favor da ala extremista da base de Benjamin. Inicialmente, vários deles ficaram enfurecidos, o que se tornou óbvio em vídeos que deixaram no YouTube. Porém, Jean-Baptiste organizou vários desses militantes. Horas depois, vários disseram, pela Internet:

Obrigado pelo apoio, jornalistas! Você apenas ajudaram a nos divulgar. É sempre assim: quanto mais vocês batem, mais nós crescemos.

O problema é que a própria linguagem corporal não batia com essa declaração. Era nítido que vários estavam irritadíssimos com a matéria do jornal. Porém, como estavam em um alinhamento superior da seita, não podiam passar aos discípulos a imagem de que estavam fragilizados. Foi aí que a narrativa antifrágil foi adotada. É importante que as pessoas que a aplicam façam de forma empolgada. Sem isso, os que estão abaixo não ficarão convencidos.

Atenção: o conceito de antifrágil é coisa séria. Mas a narrativa antifrágil é uma extrapolação que distorce a noção original de Taleb. 

Falsas “jogadas de mestre”

Durante o dia a dia da ação política, acontecem vitórias e derrotas. Quanto mais sectário alguém é, mais suas derrotas são exploradas, especialmente pela extrema arrogância da seita, o que é inevitável para que eles mantenham o senso de elitismo. Em virtude disso, um mecanismo especial é criar narrativas para converter erros cometidos em falsas “jogadas de mestre”. Assim como é possível simular que seus escolhidos são “antifrágeis”. É muito simples: é só fingir que todas as atitudes vindas da seita e daqueles a quem apoiam como “jogadas de mestre”.

Um exemplo está em quando o presidente Benjamin desmaiou em um debate, após dar uma resposta agressiva e tomar uma cacetada da deputada centrista Beatrice Rayowa. Após desmaiar, a militância ficou sem ter o que dizer. Foi aí que um dos discípulos (provavelmente muito bem orientado) disse:

Benjamin acabou de executar uma jogada de mestre no debate hoje. Ao falar com o coração e dizer umas verdades para Rayowa, ele se enervou e até desmaiou. Sabe o que isso mostra? Mostra coragem a ponto de fazer suas emoções aflorarem e passar mal no debate. Isso é uma jogada de mestre. Ele vai subir 3 pontos depois disso!

A coisa foi tão bizarra que apenas metade da militância extremista compartilhou. Mas dias depois, o presidente divulgou em suas redes sociais um vídeo mostrando um ato sexual durante as festas de rua da Nibéria, ocorridas durante uma semana inteira de Junho. No vídeo, um sujeito enterrava um toco de madeira de 30 centímetros no brioco do outro, fazendo até verter sangue. Comprando as narrativas de que o esquerdismo e o vampirismo estavam associados, Benjamin escreveu:

Isso é o que se tornaram as Festanças de Junho? É uma mostra da decadência de nossa civilização. Com esse ritual em público, o vampirismo é atraído para nossa civilização. Precisamos mudar essa situação!

Todos ficaram chocados. Alguns falaram até em impeachment de Benjamin. Dessa vez, 12 horas levaram até que usassem o recurso, pois todos estavam realmente chocados. Foi aí que um de seus militantes – imediatamente repercutido desta vez por quase todos – escreveu:

Finalmente, a mídia que está divulgando tudo isso faz o que Benjamin sempre quis: expor como eles são degenerados e que o esquerdismo está associado com rituais de sacanagem para invocar vampirismo. Eles acham que estão ridicularizando Benjamin? Agora é que estão se expondo de vez. Essa foi mais uma jogada de mestre de Benjamin.

Ambas as vezes em que militâncias da ala radical usaram esse recurso contaram com o auxílio da seita. Tudo bem que é uma campanha que pode até reduzir a sua popularidade, mas na bolha da seita isso os deixa empolgados e é o que importa.

O clima de “jogada de mestre” para simular julgamento de  ação – mesmo danosa – dá o tom da militância da seita nas redes sociais.

Confiança na vitória

Como mecanismo adicional, é preciso demonstrar confiança na vitória. Claro que nem sempre isso vai acontecer, mas aí é só omitir os dados das derrotas, como se elas não existissem.

Nesse caso específico, falamos das vitórias futuras. Por exemplo, Oliveira decide lançar vários processos judicais para intimidar seus opositores. Na primeira baciada, de sete processos, perde os 2 primeiros. Nesse momento, omite as informações. Mas no momento de lança-los, disse:

Agora as pessoas que sempre me ofenderam vão pagar. Elas não perdem por esperar, pois estarão nas barras da Justiça! E assim mostraremos como os mentirosos sempre perderão. Mexeram com a pessoa errada!

Isso deixou seus discípulos empolgados. Porém, quando os 2 primeiros processos foram perdidos, ninguém deu um pio. Evidentemente, Oliveira não comentou absolutamente nada, pois isso quebraria a espiral da confiança absoluta na vitória.

Apresentação seletiva de vitórias

Para ampliar esse clima, a seita divulga casos selecionados de pessoas do grupo que se deram bem, como na conquista de cargos em ministérios, na apresentação de um projeto de lei e em qualquer coisa. Não é raro exagerar nas citações, muitas vezes convertendo uma vitória parcial numa grande vitória, ou mesmo na tentativa de apresentar para si uma vitória que não é dele, ou ao menos não inteiramente dele.

Evidentemente, esses são os famosos testemunhos que existem em vários sites da Internet, quando as pessoas apontam os “casos de sucesso” ao usar um produto. Porém, neste caso específico das seitas, é feita a seleção de matérias jornalísticas e outros tipos de conteúdo para criar o clima de que mais vitórias aconteceram do que realmente é o fato. Pode-se também dar um clima inexistente de que há mais vitórias do que derrotas.

Como exemplo, Oliveira citou o caso de um vídeo feito em sua homenagem que foi agendado para exibição em várias capitais do país. Mostrou dois exemplos de salas cheia e disse: “isso mostra como dominamos o território; todos estão indo assistir”. O problema é que ele omitiu que o vídeo estava programado para ser exibido em evento nas demais 14 capitais, nas quais foi cancelado por falta de quórum e de interesse.

“Tá tudo dominado”

Um clima de “frisson” pode ser levantado para dar a noção de que “a dominação total está acontecendo”. Nas redes sociais, a militância de Oliveira se junta para dar a impressão de “abafa”. Para que isso funcione o guru costuma retribuir bem as melhores manifestações, sendo que algumas são claramente “fanfics” ou análises enviesadas dos fatos. 

Veja o caso de Rudi Ufuk, um de seus alunos, que falou:

O professor Oliveira ontem atuou em várias frentes. Escrevia no Facebook enquanto centenas de milhares de pessoas viam o filme que contava com sua presença. Todos estão tendo que se render à sua presença. Outro filme, “Ascensão”, também trazia entrevistas com o professor. Será que alguém ainda tem dúvida de que se trata do maior pensador vivo da Nibéria? Será que alguém ainda tem dúvida de que dominamos tudo?

O detalhe é que ambos os filmes foram sucessos relativos dentro da bolha. Na verdade, o segundo, “Ascensão”, está longe de ser um sucesso. Mas a ideia é dar o “clima de abafa”.

Outro aluno, Samuel Abimbola, disse:

Hoje em dia é impossível navegar pela rede sem topar com alunos do Professor Oliveira. Um em cada 140 niberianos já viu o documentário com sua presença. Se você está no Instagram, já encontrará alguém citando o mestre para milhares de pessoas. Se entrar no Twitter, encontrará outro falando para milhares de pessoas e citando o mestre também. É uma questão de tempo até que Rudi Ufuk seja apontado como um dos maiores intelectuais do país. Já temos vários outros ali, do lado do mestre. Você vai numa livraria a dá de frente com uma tradução feita por Ugo Ululani, que é aluno do professor. Hoje o país se informa pela voz de Denis Lahahana. Existem vários outros alunos que estão ocupando os espaços nessa batalha cultural. O professor já nos avisava: “Tenham determinação. Inicialmente vocês falarão para poucos e terão um começo solitário. Depois dominarão tudo!”. Esse tempo já é passado. Agora você terá que nos engolir. E isso é só o começo.

O problema é que Abimbola ignora o fato de que era natural que grupos que participaram da base de Benjamin tivessem maior presença nas redes. Por ter indicado pessoas para ministérios e outros cargos, Oliveira ganhou mais holofotes no cenário. Decerto vendeu muitos livros, mas não conseguiu sair da bolha. Pior ainda: com a presença maior diante do público, a própria seita está sendo questionada.

Para a visão de seita, esses fatos são irrelevantes. O objetivo é sempre dar o clima de que “está tudo dominado”. Claramente, os recursos vistos anteriormente, incluindo a apresentação seletiva de vitórias, é essencial. O objetivo é criar um clima artificial de vitória onipresente da seita.

Lembre-se: os discípulos precisam acreditar que estão num caminho e que as vitórias de alguns será a vitória deles também. Outros se contentarão com o processo vicário (que falaremos no texto 11, sobre a desonra no comportamento de seita).

Omissão de derrotas

Esse tipo de método possui verossimilhança se as derrotas evidentemente forem omitidas e varridas para debaixo do tapete. Depois que Benjamin chegou ao poder, as tropas de Oliveira ganharam mais relevância, mas tem sido mais ridicularizadas, principalmente por teses sobrenaturais (envolvendo vampirismo, zumbis e lobisomens) misturadas à política como também por a maior parte dos membros da seita participando de governo são desqualificados. 

Após 100 dias do governo, os dois ministros de pior avaliação foram exatamente aqueles indicados por Oliveira. Enquanto discípulos como Abimbola fazem clima de que “tá tudo dominado”, apresentam vitórias de forma seletiva e dão um falso clima de “vitória onipresente” do guru e seus principais adeptos, as derrotas sempre são varridas para debaixo do tapete. É aquela ideia do exército: não deixar o moral da tropa baixar.

Derrota onipresente do oponente

Caso um oponente sofra um revés, isso é apontado de forma extensiva, tendendo à ridicularização, além da ênfase na criação de um clima de que opositores estão “caindo pelas tabelas”. Ou seja, as derrotas do oponente não são apenas derrotas, mas a demonstração de que estão num carrinho de mão diante da ladeira.

Este clima é óbvia complementação aos tons de que “tá tudo dominado”. Na extensão da espiral do silêncio, é preciso não apenas dar a falsa impressão de que a vitória de seu lado é inexorável, mas a derrota do oponente também.

Análise de torcida

Tanto em grupos de discussão de WhatsApp como nos blogs de “análises” ou em canais de mídia, as análises devem traduzir basicamente “torcida”. Não é que todos estes analistas estão torcendo de fato, mas encenando um otimismo que deve contagiar sua audiência.

Por exemplo, John Dayo, um comentarista que conquistou um posto em uma grande emissora de rádio costuma fazer análises dizendo que adversários dos ministros ligados a Benjamin sempre “dão tiro no pé”. A análise é algo assim:

Hoje o ministro Kapya Kaweme, responsável por Negociações Externas, fez uma negociação maravilhosa para a Nibéria. A exploração exclusiva do país pela França é um exemplo de que hoje estamos livres de ter que negociar com ditaduras árabes, nos tornando indepdentes. Sabemos que existem pessoas criticando a decisão de Kaweme, mas isso é tiro no pé, pois lá na frente o sucesso dessa decisão vai envergonhar quem ficou contra!

O problema é que não existem dados para sustentar essa análise. É mais o uso da espiral do silêncio na tentativa de dizer que aqueles que ficarem na frente da seita vão se complicar. A ideia é dizer isso tudo com cara série, como se fosse análise de verdade mesmo.

Racionalização de avisos externos

Veremos no último capítulo (13) que o paternalismo é combustível para gurus. Geralmente essas pessoas dão “conselhos” para opositores, em vez de trata-los em termos de conflitos de interesses. Em geral, as análises paternalistas são condescendentes, em geral. Se soubessem que a análise crítica (como a que está sendo feita neste ensaio) é muito mais corrosiva, agradeceriam os paternalistas. Mesmo assim, os gurus não admitem nem esse tipo de análise contrária. 

Por exemplo, Cauê Twamlubu é um autor de livros que faz a seguinte avaliação sobre Oliveira:

Esse tipo de atitude de Oliveira de ficar humilhando os militares pode chegar a uma situação complicada em que uma decisão terá que ser tomada. Meu conselho é que Oliveira modere seu linguajar.

Porém, Oliveira é um guru e a falta de moderação no linguajar é parte de sua estratégia. Ademais, ele entende que por estar na França pode fazer o que quiser. Logo, não corre riscos. A análise de Twamlubu é paternalista por dar conselho a quem não pediu.

O detalhe é que Oliveira entendeu que esse próprio aviso poderia ser interpretado pelos seus alunos como algo que quebraria a confiança deles. E assim ele postou:

Esse Twamlubu é um mentecapto que acha que entende alguma coisa de política. Esses militares da Nibéria deveriam estar todos lambendo os meus pés. Se eu os xingo de canalhas, golpistas e safados é porque estudei para isso. Twamlubu apenas diz isso pois está interessado em carguinhos no governo e não os tem. Aquela mixaria de 15 cargos que alunos meus possuem no governo é pouco em comparação com a dedicação que eles demonstram. As intenções de Twamlubu são dignas de um vagabundo, que deveria ser surrado na rua feito cão.

Em suma, qualquer coisa que possa abalar a crença positiva do grupo de vitória ou superioridade deve ser descartada do jeito que for possível.

Discurso intimidatório

Há um poderoso efeito em discursos que criem um clima de temor, pois, na espiral do silêncio, eles podem ter mais de um efeito. O efeito mais básico, é claro, é o medo do isolamento. Mas também é possível fazer alguém temer ser vítima do uso da máquina do Estado, agora ocupada por integrantes da seita.

E assim Lauro Thokozile escreve em um grupo no WhatsApp a um crítico de Oliveira:

Olha aqui. Deixe de torcer contra o país. Ficar contra Oliveira é ficar contra Benjamin. Ficar contra Benjamin é ficar contra o interesse nacional. Ficar contra o interesse nacional é ficar contra a vontade popular. E você sabe o que acontece, não?

Neste tipo de discurso não fica claro de Thokozile está ameaçando que algum discípulo de Oliveira possa utilizar contatos na máquina burocrática para perseguir os discordantes. Muitas vezes, as ameaças são feitas de forma dúbia.

Discursos intimidatórios podem ser vistos em todos os níveis e formatos, sempre dando o clima de que, no mínimo, o discordante pode ser alvo de isolamento e estigmatização. Mas pode ter mais.

Ilusão de unanimidade

Sempre é preciso dizer que a opinião aprovada pelo grupo é uma visão que não é contestada. Assim, o discurso populista dá o tom.

Oliveira escreve:

Aqueles que ficarem contra mim estão ficando contra o único amigo de Benjamin. Mas a vontade popular está com Benjamin. Todos aqueles pensantes estão com ele e comigo. Quem está contra é apenas uma meia dúzia de vagabundos carniceiros, que serão espancados na rua.

O problema é que as pesquisas mostram que Benjamin está longe da unanimidade. Também mostram que a proximidade com a seita mais prejudica que ajuda a sua imagem. Há diversas especulações a respeito de que Benjamin teria medo de tirar oliveiristas da máquina estatal, por risco de retaliação. Mesmo assim, as mensagens são fabricadas para dar uma ilusão de unanimidade. Ou seja, a espiral do silêncio na raiz.

Nos vieses que vimos, sabemos que muitos silenciam sem discordar. Como não poderia deixar de ser, o guru e seus discípulos devem dar a impressão de que a ausência de questionamento é mais um sinal de que o grupo está certo.

Endeusamento do escolhido

Se pessoas comuns sofrem vitórias e derrotas, o líder não pode ser classificado como um eles. É por isso que o endeusamento é prática contínua da seita. Já vimos antes como isso funciona, mas durante a espiral do silêncio isso é ainda mais relevante.

É preciso aqui endeusar alguém no contexto de capacidade de vitória, o que tornará todos os outros truques igualmente mais críveis. Por exemplo, Oliveira explica, sobre Benjamin:

Se Benjamin não for capaz de liderar a Nibéria, ninguém mais poderá fazê-lo. Só ele tem a sabedoria, a moral e o “mojo” necessário para ser respeitado por todos. Esperamos 120 anos por alguém com essa altivez, com firmeza de caráter e com inteligência inerente. Qualquer um que desafiá-lo vai se dar mal!

Isso não é a descrição de uma pessoa real, mas um personagem de filme. O culto à personalidade é assim mesmo. Todos os mecanismos usados por líderes como Kim Jong-un e Benito Mussolini, de culto à personalidade, podem ser elevados ao máximo.

A seita pode fazer isso para os membros mais relevantes, como no caso do historiador Rudi Ufuk, que virou motivo de piada ao participar de um evento em que parecia que tinha um orgasmo ao falar o nome de Oliveira. Porém, é assim que um de seus pares o descreveu:

A expressão de brilho no olhar de Ufuk mostra a imagem da superioridade intelectual. De alguém que sabe que é mais iluminado que qualquer um naquela sala. Quando as pessoas o ouviam, algumas ficaram indignadas. Algumas até riram, mas por dentro estavam nervosas. Mas todas foram para casa sabendo que aquela palestra havia mudado suas vidas, pois sempre que Ufuk ou outro aluno destacado de Oliveira fala é assim. Um clima de reverência no ar!

Novamente, é um endeusamento não apenas com elogios, mas com reforço ao aspecto de que eles estão “no caminho da vitória” de forma que isso não pode ser interrompido.

Guardas da “esperança”

Outro componente que já vimos antes é o patrulhamento das opiniões. Mas aqui temos uma característica adicional. É o patrulhamento ao próprio nível de otimismo do adepto. Assim, as pessoas são monitoradas não apenas se concordam ou não com as ideias do grupo, mas sim se demonstram o nível de otimismo adequado (em relação a vitória) diante de cada uma das ideias.

Observe o seguinte diálogo:

– Ei, ninguém para o Oliveira, não é mesmo?

– Você acha?

– Claro que sim. Todos estão com medo dele.

– Não me pareceu isso não. Tem muita gente dando risada do discurso dele sobre a simbologia do sangue nas ideias da esquerda. Dizem que não é científica!

– Eles dizem mas não sabem nada. Eles estão com medo!

– Medo de quê, meu amigo?

– Eles estão com medo de que todos saibam o que eles fazem.

– Não acho que estão com medo não….

Observe que diante do primeiro o segundo nada disse quanto à validade da alegação de Oliveira sobre sangue vampírico. Pela espiral do silêncio, achou que era melhor deixar pra lá. Porém, o que o patrulhador queria não era apenas aprovação à teoria, mas ao próprio otimismo em relação a ideia de que eles estariam no caminho da vitória. Não demorou para o último ser estigmatizado.

Aí na próxima vez ele aprendeu direitinho. O diálogo foi assim:

– Ei, o Oliveira arrebentou todos de novo.

– Arrebentou mesmo. Estou até emocionado.

– Ele é foda, não é?

– Não tem ninguém igual. Mas estamos no caminho.

– Estamos mesmo! Em que estágio da consciência você está?

– Estou no terceiro.

– Estou também.

– Mas esse é o caminho. Ouvi falar de alguém que está no estágio 4.

– Dizem que no estágio 4 as pessoas que vão debater com você ficam até traumatizadas, tendo pesadelos por dias seguidos.

– Não tem pra ninguém!

– É nóis…

E assim a coisa vai fluindo. O negócio é ir ficando de olho para evitar que as pessoas que tenham dúvida – não tanto quanto a crença, mas quanto a possibilidade de dominação, de vitória – fiquem instados a seguir na fé, pois é isso que dá motor para a espiral.

Pressão para a crença [em dois níveis]

Por fim, todos os mecanismos possíveis e imagináveis devem ser utilizados na manutenção da espiral. Observe o cotidiano de alguma seita online e busque observar como esses componentes são utilizados no discurso. São extensos e amplos pois é isso que vai mantendo a motivação do grupo.

Junto a esses mecanismos abordados, temos exploração de vieses básicos (prova social, conformidade social, obediência à autoridade, dissonância cognitiva, investimento emocional, falácia do custo irrecuperável, Efeito Backfire), todo o pacote do viés do otimismo (profecia autorrealizável, sensação de elevação, poder da relatividade, poder da recordação, poder da mera expectativa, viés do otimismo, viés do impacto) e os vieses especialmente úteis para aceitação de crenças via pressão social (pressão social, efeito manada, reforço comunitário, ignorância pluralística, efeito do falso consenso, pensamento de grupo, Paradoxo de Abilene). É quase como se disséssemos que o poder de fazer alguém sucumbir ao medo do isolamento e se deixar intimidar com medo de não participar da luta pela vitória do grupo é um baita catálogo. Calma que ainda veremos no texto 13 as contra-medidas para cada recurso, mas, por enquanto, o importante é saber o arsenal de recursos que eles utilizam.

Novamente, aqui não é exigida apenas a crença do discípulo. Mas a crença na confiança de que a vitória é inexorável. 

Resumo

Aqui vimos um dos mais poderosos mecanismos utilizados por uma seita online: a espiral do silêncio. Isso é primordial para seitas online pois falamos de ações políticas, que se traduzem em algum resultado em embates.

Tudo começa com o uso da utopia, junto ao alto estímulo ao desejo. A partir daí, com esse futuro desenhado, é preciso criar um clima para deixar em isolamento aos que não manifestam a mesma crença. Mas o processo avança mesmo quando o (falso) otimismo é empreendido de forma estratégica, com o objetivo de intimidar os discordantes em nível máximo.

O entendimento deste processo também mostra uma tragédia cognitiva que se abate a muitos que lutam contra as seitas. Eles acham que elementos como otimismo irrealista, arrogância excessiva, fuga da realidade e ego inflado são os elementos que derrubarão a seita. Ao contrário, são esses elementos que dão aos discípulos o falso clima de que estão no caminho certo e que necessariamente irão vencer. É isso que é explorar a espiral do silêncio à máxima potência, e que acaba, em alguns casos, até ajudando-os a crescer. 

Se os marcadores somáticos inerentes a visão de que o guru tem sabedoria absoluta e que o discípulo faz parte de uma elite são os pilares que sustentam a motivação para a seita, nada disso avançaria se não fosse o clima que intimida os discordantes e até os descrentes, valorizando os crédulos e motivados. Entender isso é entender basicamente o motor da paixão da seita, bem como o principal elemento que leva a tanto poder de intimidação dos discordantes. Atingir uma seita política no uso da espiral é uma das coisas mais danosas que pode ocorrer para o grupo.

No próximo texto, falaremos de como é formada a mente dos “ungidos”, ou seja, como os discípulos da percebem seus inimigos, quais novos vieses podem ser explorados, a motivação para atacarem os “apóstatas”, o nível de paranoia normalmente adotado, o tipo de tensões pelas quais eles passam, o que estão dispostos a fazer, a tática das maltas,que nível de riscos aceitam correr, a utilidade do populismo e que dano podem causar aos que não estão preparados. 

Continua em A Arte da Seita Política – 9 – Ungidos

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4 comentários em A Arte da Seita Política – 8 – Espiral

  1. Censura nunca mais? // 13 de abril de 2019 às 10:16 pm // Responder

    Jogo dos 6 erros. O primeiro é: Quem segura 2 (duas) DUAS muletas dessa forma ? http://www.tribunadainternet.com.br/reportagem-da-veja-sobre-a-avo-e-a-mae-de-michelle-e-rigorosamente-verdadeira/

  2. SEITA POLÍTICA: Propaganda política ininterrupta, como faz o PT.

    O Leviatã da Propaganda Petista (e, também, do Petismo), hein?…

    “Muito engana-me, que eu compro”

    Eis:
    Vive o PT© de clichês publicitários bem elaborados por marqueteiros.
    Nada espontâneo.
    Mas apenas um frio slogan (tal qual “Danoninho© Vale por Um Bifinho”/Ou: “Fiat® Touro: Brutalmente Lindo”). Não tem nada a ver com um projeto de Nação.

    Eis aqui a superficialidade do PETISMO:

    0.
    “Coração Valente©”
    1.
    “Pátria Educadora©” [Buá; Buá; Buá].
    2.
    “Controle social da mídia” (hi! hi! hi!): desejo do petismo.
    3.
    “A Copa das Copas®”
    4.
    “Fica Querida©”
    5.
    “Impeachment Sem Crime é Golpe©” [lol lol lol]
    6.
    “Foi Golpe®”
    7.
    “Fora Temer©”
    8.
    “Ocupa Tudo®”
    9.
    “Lula Livre®”
    10.
    “® eleição sem Lula é fraude” [kuá!, kuá!, kuá!].
    11.
    “O Brasil Feliz de Novo®”
    12.
    “Lula é Haddad Haddad é Lula®” [kkkk]
    13.
    “Ele não®”.
    14.
    “Haddad agora é verde-amarelo ®” [rsrsrs].
    15.
    “LUZ PARA TODOS©” (KKKKK).
    16. (…e agora…):
    “Ninguém Solta a Mão de Ninguém ©”
    17.
    “SKOL®: a Cerveja que desce RedondO”.

    PT© é vigarista e Ersatz
    .
    Vive de ótimos e CALCULADOS mitos publicitários.

    É o tal de: “me engana que eu compro”.

    == A FORÇA-TAREFA DA PUBLICIDADE ININTERRUPTA DO PETISMO ==

  3. Sabe qual é o cumulo da hipocrisia ? O site do antagonista (representando todos os sites que “escolhem” comentários) se inscrever como primeiro site a entrevistar lula; PONTO E VIRGULA; e o Lula recusar a entrevista.

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