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A Arte da Seita Política – 9 – Ungidos

Continuação de A Arte da Seita Política – 8 – Espiral

Tudo o que já vimos até agora nos leva a entender os principais motores da seita e o mecanismo que garante sua sustentação. Mas ainda precisamos ir um pouco mais fundo na alguma desses discípulos, para entender o que está na raiz de sua motivação. Como já fizemos no início do texto anterior, é preciso uma recapitulação em algo nível do que já foi exposto, antes de seguirmos. Vejamos:

  • A estrutura de seita se baseia em guru e seus discípulos (e, logo abaixo dele, existem os escolhidos) [textos 1 e 2]
  • Tudo começa com um processo de submissão psicológica, quando alguém deve se render à autoridade do guru, pois esses sentimentos surgem desde a infância e estimulam fortes emoções [texto 3]
  • Esta rendição tem uma paga: o discípulo se sente especial, como parte de uma elite de ungidos (mesmo com base em crenças falsas) – por isso mesmo, os dois blocos principais de marcadores somáticos se relacionam a (1) superioridade do guru, (2) senso de elitismo nos discípulos [texto 4]
  • Isto tudo é amparado por uma mitologia, toda ela construída para sustentar a ideia da superioridade do guru e do elitismo dos discípulos [texto 5]
  • Existe um “estalo” em que a pessoa muda de personalidade e passa a acreditar que faz parte daqueles que “tem a revelação” [texto 6]
  • Após esta mudança de personalidade, a doutrinação contínua tem que ser mantida, periodicamente, para ir cimentando a nova personalidade doutrinada na seita [texto 7]
  • Como estão envolvidos numa causa política, o mecanismo da espiral do silêncio se torna um motor fundamental para fazer os adversários da seita se intimidarem e insuflar os ânimos dos discípulos [texto 8]

Se podemos dizer que a espiral do silêncio é a “cereja do bolo”, também se sabe que quase ninguém gosta de cerejas se não for a calda: é isto que dá sabor especial às cerejas. Então, a “calda” da cereja é a filosofia dos ungidos. Temos que saber: pelo que eles lutam? De onde tinham seus estímulos? Nas seitas políticas, o que os faz se sentirem tão especiais? Este é o momento de falar dos ungidos, que são os adeptos das seitas políticas.

Em essência, membros de seitas políticas possuem alto grau de vontade de destruição dos opositores. Se isto é claro na história dos eventos políticos relacionados a genocídios (ou pessoas que validaram esses genocídios), essa característica não muda para os cultos políticos. É evidente que hoje em dia há muito mais dificuldade para empreender violência física contra opositores. Ao mesmo tempo há outras formas de se exercer a sanha por destruição, pela via dos linchamentos virtuais, promoção de eventos de ruptura, apoio a atos de violência, ridicularização de vítimas de barbárie e assim por diante.

Importante também é notar que a violência promovida pelos discípulos das seitas políticas não decorre meramente da vontade de destruição. Decorre, principalmente, da sensação de que eles estão em um processo de purificação da humanidade ao fazê-lo. É hora de entender esse mecanismo.

Ungidos

Na essência dos cultos políticos está algo ainda mais forte do que é visto nos cultos em geral: uma obsessão crescente pela causa que move o grupo, resultando, como lembra Bonnie Zieman em “Cracking the Cult”, “na exclusão de quase todas as considerações práticas” em relação à viabilidade das propostas, mas, principalmente, das ideias em contrário. Assim, as ideias precisam ser tratadas como algo a não ser “contaminado” pelo que vem de fora.

O detalhe é que o guru, mesmo sendo visto como alguém de sabedoria superior, aos poucos vai fundindo sua imagem à do grupo. É por isso que a identidade do grupo não é igual a de uma união de pessoas divergentes, mas de pessoas que “chegaram à mesma conclusão”, mesmo que a partir de muitas camadas de sugestionabilidade. É por isso que:

[…] as identidades tornam-se confusas e aparentemente fundidas à medida que o envolvimento com o grupo continua e se aprofunda. Sempre que surgem questões críticas sobre o grupo ou líder, elas são freqüentemente descartadas e caracterizadas como “perseguição”. Palavreado e maneirismos repetitivos incomumente empolados e aparentemente programados que refletem uma mentalidade grupal ou clonagem de linguagem e comportamento de grupo preferidos.

Durante todo o processo, o grupo é orientado a depender cada vez mais do líder, em vez de se tornarem independentes. Essa é uma diferença fundamental para as estruturas de agrupamento fora dos cultos. Por exemplo, na estrutura universitária, um aluno deve estar apto a ter uma vida que não dependa de sua conexão com o professor que o ensinou, pois é algo passageiro. Num culto, é o contrário: ele deve ser orientado à contínua dependência.

Isso faz com que os discípulos fiquem aguardando a orientação do líder para resolver problemas e soluções, o que impacta a análise e a reflexão no nível individual. Por exemplo, quando surgiu uma luta pelo impeachment do presidente Joseph Onkwani, da extrema esquerda e anterior a Benjamin, vários setores da direita niberiana lutaram para tirar o primeiro. Entretanto, Oliveira ficou contra o processo de impeachment. Poucos membros do grupo sabiam justificar o motivo, mas tinham que aguardar para “deduzir” as razões de Oliveira. Dia após dia, Oliveira explicava razões para ficar contra o impeachment, acusando-os de fazer uma luta “contra a elite de ocupação do estado” ou “privilégio a esquerdistas disfarçados”. Aos poucos, os discípulos foram criando um clima de ressentimento contra os grupos de direita pelo impeachment.

Fundado no clima de que os outros eram “víboras traiçoeiras”, enquanto grupo tinha a visão purificada da solução, esse ressentimento visava dar o clima de “fuga do contágio” das ideias corrompidas de fora. Oliveira investiu muitos esforços nisso por necessitar da dependência dos discípulos, sem a qual não teria conseguido mantê-los submissos enquanto outros grupos estariam causando danos à esquerda. Ora, se o guru havia prometido que os “verdadeiros danos” só viriam de dentro da seita, então precisou criar uma narrativa para tratar outros direitistas como “impuros” contra os interesses maiores, que, é claro, são orientados por ele.

Demanda contínua pela pureza

Segundo Bonnie, essa “hiperatividade em relação ao grupo ou líder”, que inclusive “parece inibir ou substituir objetivos pessoais ou interesses individuais anteriormente mantidos” é fundamental para manter o clima de que está sendo feito algo em torno de um objetivo muito maior do que os interesses mesquinhos. Como o leitor já deve saber, o envolvimento contínuo da seita nessas atividades também serve para blindar o senso crítico em relação a tudo que está acontecendo.

Bonnie fala da brecha perigosa que isso pode gerar, principalmente quando aumenta a comunicação com o mundo exterior e existe, em alguns casos, até isolamento em relação a família e velhos amigos:

Qualquer coisa que o grupo ou líder diga ou faça pode ser justificada ou racionalizada, não importa quão dura ou prejudicial. pode aparecer. Ex-membros do grupo são normalmente considerados sob uma luz crítica ou negativa, e são mais frequentemente evitados. Parece não haver razão legítima para deixar o grupo. Aqueles que saem estão sempre errados.

Preste muita atenção: observar um ou dois desses comportamentos não é problema muito sério. Se alguém for fã da Marvel e está em rixa com os filmes da DC, pode ser algo bastante estúpido, mas está longe de ser a participação em um grupo destrutivo. O que falamos aqui é de quando a maior parte desses elementos se manifestam. Nisto, temos a criação de um senso de elitismo com base na pureza do grupo contra a “podridão” que viria do mundo exterior.

Robert Jay Lifton também tinha como um dos pontos centrais de sua tese a ideia da demanda pela pureza. Ele escreve:

No ambiente de reforma do pensamento, como em todas as situações de totalismo ideológico, o mundo experiencial está nitidamente dividido em puro e impuro, em absolutamente bom e absolutamente mau. Os bons e puros são representados por aquelas ideias, sentimentos e ações consistentes com a ideologia e política totalistas; qualquer outra coisa pode ser relegada aos maus e aos impuros. Nenhum julgamento imune está imune à avalanche de fortes julgamentos morais. Todas as “impurezas” e “venenos” contribuindo para o estado existente de impureza devem ser esmiuçadas e eliminadas. Subjacente a esta exigência, a suposição filosófica é que a pureza absoluta é atingível e que qualquer coisa feita a alguém em nome desta pureza é em última instância moral. Entretanto, não se espera, na prática, que a perfeição seja alcançada. Se nem esse paradoxo pode ser descartado apenas como um meio de estabelecer um alto padrão ao qual todos podem aspirar, é aqui que a reforma do pensamento dá testemunho de suas consequências mais malignas: ao definir e manipular os critérios de pureza, e então motivando uma guerra total contra a impureza, os totalistas ideológicos criam um estreito mundo de culpa e vergonha. Isso é perpetuado por um ethos de reforma contínua, uma exigência que se esforça permanentemente e dolorosamente por algo que não apenas não existe, mas que, de fato, é estranho à condição humana. Com isso, a demanda por pureza cria um ambiente permeado por culpa e vergonha, no qual alguém espera receber punição, resultado da relação de culpa com seu ambiente.

Ao observar o ambiente – incluindo os que estão fora da seita – e identificar os impuros, em um duelo eterno entre “bem e mal”, existe muito combustível para queimar: sem subdivisões e em tons completamente maniqueístas, gurus viverão demandando essa purificação dia após dia. Ciente desse processo, Oliveira cria discursos diários para apelar a esse clima. Como exemplo, observe o que ele disse a respeito dos objetivos finais de sua ação.

Nós sempre seremos perseguidos por essas víboras que querem cargos no serviço público enquanto nós jamais estaremos interessados nessas mesquinharias. Eles sempre nos consideraram iguais a eles; nós, ao contrário, queremos a verdade. Esse veneno que eles ficam lançando sobre nós está, no fundo, refletindo o que eles são. Eles não são capazes de entender a nobreza de nossas ações. É por isso que tudo que escrevo é interpretado dessa maneira interesseira por eles. Como eles só veem interesses nas pessoas, acham que pessoas como nós, que estão acima dessas mesquinharias, são iguais a eles. Todas as vezes em que eles reclamam de algum de meus alunos que está no governo, isso é uma clara evidência de que a escória do mundo está contra a elite cultural que salvará a Nibéria. Eles sabem disso e não podem permitir que pessoas decentes estejam lá.

Quando se observa a repetição contínua destes frames, o que se repara, em consequência, é o adepto se sentindo culpado caso decida voltar para o ambiente dos interesses mundanos.

Seria até infantil ignorar o fato de que os seres humanos, em geral, são interesseiros, pertencendo ou não a seitas. Mas a ilusão de grupo deve criar a visão de que “se há interesseiros, eles são os que estão do lado de fora”.

Nenhuma crença realista sobre o ser humano se acomoda com a visão de que o grupo está acima dos interesses. De mais a mais, ao longo de todo o processo, visualizar que o guru está acima dos interesses ajuda os discípulos a se sentirem melhor que os “interesseiros” que atacam o guru. Sem isso, a fé do discípulo é abalada.

Guerras morais

Se há um ponto em que alguns liberais se complicam ao entender o mecanismo da seita é quando ignoram que o envolvimento emocional se amplia quando as batalhas são todas levadas para o campo da moralidade. Pelo lado dos liberais clássicos, muitos estão acostumados a discutir o valor da liberdade de expressão, da defesa de ideias diferentes, etc. Pelo lado dos liberais econômicos, levam boa parte das discussões para a esfera econômica. Não que devessem copiar os mecanismos de seita, nem que isso significa que todos os adeptos de discussões morais são parte de seitas, mas faria bem que prestassem atenção a porque os gurus movem seu grupo: porque visam falar especificamente em questões morais. Evidentemente, os gurus levam as questões morais a um nível doentio e mórbido.

Em The Guru Papers, Kramer e Alstad dedicam bom espaço ao falar da importância das guerras morais na política sectária. Sobre as guerras morais, são aquelas cujas questões tratam de moralidade e de seus fundamentos:

O que isso envolve são suposições básicas sobre como viver e ser, qual é a ação apropriada e também (mais importante) como os problemas devem ser resolvidos ou não resolvidos. Moralidade (a estrutura aceita em uma ordem social que lida com o modo como as pessoas deveriam e tratam umas às outras) é a cola que mantém toda sociedade unida. E debaixo de toda ordem moral existe um fundamento que justifica isso. O que quer que seja esse fundamento, sempre envolve um ponto de vista sobre o que a realidade é e o que não é.

Segundo os autores, é um momento da história em que os fundamentos da velha ordem moral estão se desfazendo. Uma vez que isso seja percebido, gurus podem criar uma maquiagem da realidade para vender aos discípulos a importância do “restabelecimento da força da velha ordem moral”. Ou seja, os problemas atuais são apresentados como parte de nos afastarmos de antigas tradições. O problema é quando isso não apresenta apenas a recuperação de algumas ideias boas perdidas, mas a tentativa de se recuperar passados longínquos, como os tempos medievais.

Isso significaria adotar antigas moralidades “baseadas em transmissões autoritárias que essencialmente não podem ser contestadas”, uma vez que surjam de uma inteligência pouco típica aos humanos. É irrelevante se esta inteligência é um Deus ou não; mais importante é que nessa estrutura envolvendo guru > discípulo, um ser humano se declarará o “intérprete final” desta revelação. É aqui que o guru se aproveita se uma faceta do ser humano, que é tentar entender que a ordem moral não é arbitrária:

Um dos grandes medos da psique humana (às vezes consciente, mas muitas vezes não) é o caos e a anarquia – não apenas a anarquia social, política e comportamental, mas também uma anarquia psicológica interna. O medo subjacente a grande parte do fundamentalismo é que, sem restrições poderosas, as pessoas (e a si mesmo também) ficariam amuadas. O fundamentalismo constrói categorias rígidas do bem e do mal que batalham pelas almas das pessoas. O mal é apresentado como tão poderoso que uma pessoa não pode resistir às suas tentações a menos que esteja armada com as crenças apropriadas. O medo e a desconfiança de si mesmo não são apenas promovidos, mas apenas aliviados com a adoção segura das crenças dadas.

O apelo mais profundo das visões fundamentalistas é que elas “dariam certeza”. É assim que Oliveira construiu seu sistema filosófico dizendo que mais vale uma certeza importante, diante de dados inconclusos, do que uma dúvida paralisante. Quer dizer: o próprio sistema filosófico, tratado por muitos como um sistema sério de pensamento, não passa de uma justificativa para a submissão das pessoas ao culto.

Eliminação de divergentes

Ainda que a liberdade de expressão seja um valor a ser defendido, se requer que um nível básico de coexistência se estabeleça. Entretanto, a seita se sentirá impelida a privilegiar o ataque aos tolerantes. Robert Jay Lifton explica que, a certo ponto, os impuros são considerados pessoas dispensáveis e inúteis.

Segundo o autor, o ambiente totalista “traça uma linha nítida entre aqueles cujo direito à existência pode ser reconhecido e aqueles que não possuem tal direito. O processo de reforma do pensamento é um meio pelo qual as pessoas desautorizadas são autorizadas – através de uma modificação de caráter e atitude – se converterem em pessoas de fato”.

Na China Comunista, isso era visto na sentença aplicada a certos criminosos políticos: seriam mortos em dois anos, a menos que durante aquele período tivessem mostrado progresso genuíno em sua transformação pessoal. Ou seja, se a pessoa corrigisse suas “impurezas” quanto ao mundo exterior, mereceria viver. Caso contrário, morreria. Lifton segue:

A existência passa a depender do credo (creio, portanto, eu sou), da submissão (obedeço, portanto, sou) e, além disso, do sentimento de total fusão com o movimento ideológico. Em última análise, é claro, isso conflita com os elementos da identidade pessoal, que em alguns aspectos é tolerada; mas alguém está sempre ciente de que, se ele se desviar muito na direção deste “caminho errôneo”, seu direito à existência pode ser retirado.

Esse tipo de ambiente – mesmo que não recorra ao abuso físico – cria um medo de extinção ou de aniquilação. É desse jeito que as pessoas são “confirmadas” pela ausência de ameaças à sua existência. No ambiente criado por Oliveira, isso motiva o clima contínuo de linchamentos virtuais de pessoa de fora do grupo. Enquanto os ataques acontecem, assistidos por todos, as pessoas de dentro também percebem que elas estarão protegidas disso, já que elas são “puras” em comparação aos “impuros”, que, como tais, recebem o sofrimento merecido.

Assim, temos um ciclo contínuo, em que um grupo se estabelece por três elementos: (1) demanda contínua pela pureza, (2) disputa de guerras morais, (3) eliminação de divergentes. Aquele que não foi eliminado, além de ser recebido calorosamente pelo grupo, é um “ungido”, que recebe contínua validação enquanto, em suas disputas morais, purifica o mundo. Consequentemente, a seita política não se limita a apenas fazer alguém se sentir parte de uma elite de pessoas especiais. É bem mais que isso: ela se sente parte de uma elite que estaria purificando o mundo. É por isso que as utopias ideias para seitas políticas precisam jogar com aspectos profundos relacionados a purificação. É o que veremos adiante.

Ideologias da purificação

Falamos suficientemente no texto anterior a importância do uso de ideologias utópica para dar um clima de “vitória lá no final”. Dependentes da esperança de salvação, essas utopias reversas necessitam de um clima de que há inimigos contra esse futuro. Visto que levar essas guerras para o campo moral ativa as emoções com força, avaliaremos a relação entre milenarismo e jacobinismo e como essas ideologias desembocaram no populismo político. Em todos os casos, temos estruturas conceituais prontas para seitas políticas agirem.

Jacobinismo e milenarismo

Não foi o jacobinismo a primeira grande utopia que se materializou em violentas ações políticas. Esse título vai para o milenarismo, crença que resultou em violentos cultos de orientação político-religiosa. O melhor estudo sobre os milenaristas está no livro The Pursuit of the Millenium: Revolutionary Millenarians and Mystical Anarchists of the Middle Ages, de Norman Cohn, publicado em 1957.

A crença básica do milenarismo tem origem judaica, mas se converteu-se em doutrina no Novo Testamento. Foi somente depois que surgiram as seitas milenaristas, que dependem de uma interpretação parcialmente material – e não apenas espiritual – do livro do Apocalipse, que fala de um reino de mil anos estabelecido sobre a terra entre o primeiro Juízo de Deus e o Juízo Final. É dito que no juízo final, a Jerusalém dos céus desce sobre a Terra e Jesus habitaria carnalmente no meio dos seres humanos. Daí em diante, surgiria um período de 1000 anos de paz e felicidade na Terra.

Há várias interpretações sobre essa fase de paz na terra, mas foi na Idade Média que ela mais se propagou. Santo Agostinho dizia que os 1000 anos eram um tempo simbólico, com duração indefinida: seria um tempo de salvação entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, com a salvação ficando nas mãos da Igreja. Mas os adeptos de seitas milenaristas não compraram essa versão, preferindo optar por algo mais “terreno” e prático, por assim dizer.

Geralmente esses cultos vendiam a imagem do futuro de paz na Terra junto ao medo do Terror, no Juízo, com a Esperança, no castigo dos poderosos, com o triunfo dos pobres. O problema é que cada grupo definia uma data de início para o Juízo.

Foi só no século X que essa espera do Juízo Final levou a movimentos explorando o pânico e a esperança das pessoas. Com a Primeira Cruzada, de 1096, o primeiro grupo sólido de milenaristas se juntou à Cruzada dos Nobres. Se definiam como a Cruzada dos Pobres. Eram movidos tanto por motivos espirituais como materiais. Entendiam que a reconquista de Jerusalém seria o local onde Jesus perdoaria todos os seus pecados, mas ali também viveriam uma vida de abundância.

Algo não deu muito certo, pois isso tudo fugiu ao controle dos nobres. Nesse caminho, os milenaristas começaram a matar vários judeus que não queriam se converter. Também começaram a massacrar não apenas judeus, como também muçulmanos, após a tomada de Jerusalém em 1099. Outras ações milenaristas, geralmente violentas, se deram nas outras Cruzadas.

Trezentos anos antes de Lutero – ou seja, no século XIII – certos profetas milenaristas incluíram entre as forças demoníacas o próprio clero católico. Norman Cohn explica:

Todo o movimento milenarista era, de fato, quase obrigado, pela situação em que se encontrava, a considerar o clero como uma fraternidade demoníaca. Um grupo de leigos chefiado por um guia messiânico e convencido de ter sido encarregado por Deus da missão altíssima de preparar o caminho para o Milênio, tal grupo encontraria na Igreja institucionalizada, na melhor das hipóteses, uma oposição intransigente e, na pior, uma impiedosa perseguição.

O clima tinha que ser de “tretas eternas”, pois sempre precisavam identificar inimigos claros e tangíveis. Segundo os milenaristas, se o Anticristo agia através da fraude, não haveria melhor lugar para disfarce do que debaixo das roupas do papa e dos prelados. Chamaram a Igreja de Babilônia, como se fosse um símbolo do demônio. Um milenarista geralmente esquecido é Thomas Muntzer, pregador camponês que ficou contra Lutero e defendeu a primeira versão da sociedade sem classes lá pelos idos de 1520-1525. Lá pelas tantas, o milenarismo foi duramente combatido pelos papas, que não toleraram tanta bagunça.

O que os vários movimentos milenaristas tinham em comum é o estabelecimento de um futuro maravilhoso em Terra – não no mundo espiritual, repita-se -, que justificaria as ações violentas. No principal ponto em que se diferenciaram dos futuros jacobinos, é que acreditavam na religião (mesmo que interpretando-a conforme sua conveniência). Tirando isso, o molde milenarista seria adotado de forma ainda mais intensa pelos jacobinos.

Na Revolução Francesa, os jacobinos foram a primeira materialização da esquerda no poder, já no formato de extrema esquerda. Para atingir seus objetivos, usaram uma política de terror que levou a 40.000 mortes na guilhotina, além de diversos outros massacres. Um desses principais massacres foi o genocídio de toda aldeia da Vendéia, completamente eliminada do mapa por não aceitar o alistamento militar. Cerca de 200.000 a 300.000 vendeanos foram mortos.

Adotando as narrativas de Rousseau, os jacobinos disseram que sua ideologia era baseada na racionalidade. Foi por isso que criaram o culto à deusa da Razão. Com isso, adquiriram justificativa para o extermínio de religiosos. Depois das revoluções na Inglaterra e nos Estados Unidos, haveria algo bastante diferente nos jacobinos que dava o tom da revolução na França: um pensamento utópico. Evidentemente, ambos se aproveitaram de momentos de crise para tocar o terror.

Segundo os jacobinos, a radicalização total com o uso de todos os meios estavam justificada em razão do futuro maravilhoso a ser almejado. Como resultado, conseguiram estabelecer fortíssima centralização política nos aparelhos de Estado. Em 1794, na fase aguda do Terror, Robespierre dizia:

Queremos uma ordem de coisas em que todas as paixões baixas e cruéis sejam encarceradas, todas as paixões benéficas e generosas sejam despertas pelas leis; na qual a ambição seja o desejo de merecer a glória de servir à pátria; em que as distinções nasçam da própria igualdade; o cidadão seja submisso ao magistrado, o magistrado ao povo, e o povo à justiça; na qual a pátria assegure o bem estar de cada indivíduo, e cada indivíduo usufrua com orgulho da prosperidade e da glória da pátria; em que todas as almas cresçam pela comunicação contínua dos sentimentos republicanos e pela necessidade de merecer a estima de um grande povo; em que as artes sejam a decoração da liberdade que as enobrece, o comércio, a fonte da riqueza pública, e não somente a opulência monstruosa de algumas famílias.

Os revolucionários franceses sempre se definiram como republicanos. Numa suposta luta contra a aristocracia, esta república deveria exercer “a vontade popular”. Segundo Robespierre, seu governo republicano era também democrata.  Mas observe o que ele afirma:

A democracia não é um Estado no qual o povo, continuamente reunido, regula ele mesmo todas as questões públicas; menos ainda aquele no qual cem mil frações do povo, por medidas isoladas, precipitadas e contraditórias, decidiriam a sorte de toda a sociedade: tal governo não existiu jamais e só poderia existir para levar o povo ao despotismo. A democracia é um Estado no qual o povo soberano, guiado por leis que são obra sua, faz por si mesmo tudo o que pode fazer bem, e por meio de delegados tudo o que não pode fazer ele mesmo.

Isto é, tanto quanto milenaristas, existiam aqueles “ungidos” que poderiam representar a vontade do povo contra os vilões, que seriam seus inimigos. Por isso falou tanto em “virtude” enquanto exercia o Terror. Nessa trilha, sempre repetia que era desinteressado, na representação da “vontade popular”:

A virtude republicana pressupõe também outro princípio fundamental, que é definidor do próprio conceito de república: a preferência do interesse público a todos os interesses particulares. E, prossegue Robespierre, “somente na democracia, o Estado é verdadeiramente a pátria de todos os indivíduos que a compõem e pode contar com tantos defensores interessados em sua causa quantos cidadãos existam. Eis a fonte de superioridade dos povos livres sobre todos os demais”. Com a revolução republicana, a França teria sido o “primeiro povo do mundo a estabelecer a verdadeira democracia, convocando todos os homens à igualdade e à plenitude dos direitos do cidadão”.

Em estilo de “garantia soy jo”, Robespierre deu o formato mais acabado para o culto à personalidade, mas sempre dizendo que estava acima dos interesses, é claro. Sigamos com Robespierre:

A primeira regra da conduta política deve ser relacionar todas as atividades à manutenção da igualdade e ao desenvolvimento da virtude. O primeiro cuidado do legislador deve ser fortalecer o princípio do governo. Tudo o que dirija as paixões do coração humano para o interesse público deve ser adotado e incentivado. Tudo o que concentre essas paixões no eu pessoal, e desperte o interesse pelas pequenas coisas e o desprezo pelas grandes, deve ser rejeitado e reprimido.

Esta seria a virtude essencial da República, numa suposta relação muito próxima entre povo e governo:

A virtude republicana pode ser considerada em relação ao povo e em relação ao governo: ela é necessária em um e no outro. Quando o governo é privado dela, resta uma instância naquela do povo; mas quando o próprio povo está corrompido, a liberdade já se perdeu. (…) Aliás, seria possível dizer, num certo sentido, que, para amar a justiça e a igualdade, o povo não precisa uma grande virtude; basta que ame a si mesmo.

Outro ponto interessante é quando ele falou dos magistrados. Disse que cada magistrado estava “obrigado a imolar seu interesse ao interesse do povo, e o orgulho do poder à igualdade”. Na garantia de autoavaliação, dizia que o governo iria fazer isso para ter todas as suas partes em harmonia. Afirmava:  

Se existe um corpo representativo, uma autoridade primeira constituída pelo povo, cabe a ela vigiar e reprimir sem cessar todos os funcionários públicos. Mas quem a reprimirá, senão a própria virtude (…) É preciso, portanto, que o corpo representativo comece a submeter, em seu seio, todas as paixões particulares à paixão geral do bem público.

Neste ponto, ele justificaria o Terror ao dizer que “o caráter do governo popular é ser confiante no povo e severo consigo mesmo”. Na verdade, isso justificava os expurgos daqueles que não se adequariam aos seus ideais.

No que tinham em comum, milenarismo e jacobinismo eram utopias. Entretanto, ambas iam além do que Platão e Morus fizeram: eram também sistemas de poder, com ideologias para serem aplicadas no dia a dia. Não surpreende que tenham gerado tanto dano aos que entraram em seu caminho.

Ao contrário das visões mais abstratas sobre política, nomearam inimigos claros, para os quais os dedos poderiam ser apontados. Isso deu clareza e motivação para a destruição de inimigos. O que se espera de uma mitologia política aplicada, na exploração da utopia, é a identificação de grandes ameaças, que sejam tangíveis, pois é preciso existir luta contra essas ameaças. Sem isso, não haverá a “faísca” necessária para o combate.

Populismo

Pode-se dizer que milenarismo e jacobinismo deram o tom do discurso populista, que se tornava ferramenta poderosa para dominação de massas em torno de objetivos políticos. Nos primórdios do milenarismo, era claro que o conceito de opinião pública não era tão relevante, mas já era possível realizar os primeiros “testes” do populismo. A coisa definitivamente ficou séria a partir do século XVIII, quando todos os aspectos da vida pública foram ao debate. Desde então, a opinião pública assumia posição central no jogo. A existência de várias ideias no debate grupo significa um amontoado de crenças e ideologias, muitas vezes conflitantes, na busca de conquista de corações e mentes.

No livro “A Razão Populista”, Ernesto Laclau fez um trabalho inestimável ao definir o formato mais poderoso de arregimentação de massas. Ele definiu o populismo como uma lógica própria de construção política, e não, como já se afirmou tantas vezes, um tipo de ideologia ou anomalia ou mesmo de subdesenvolvimento irracional da democracia representativa. Ele escreveu:

Seja de esquerda ou de direita, decisivamente, o populismo se constitui sempre em torno de um corte. Em certo momento, o sistema institucional vigente entra em obsolescência e mostra sua incapacidade de absorver as novas demandas sociais pelas vias tradicionais; em decorrência disso, tais demandas tendem a se aglutinar fora do sistema, num ponto de ruptura com o sistema. É o corte populista.

Laclau toma como base de seu trabalho as investigações do psicólogo social Gustave LeBon, que entre 1894 e 1895 publicou duas obras sobre psicologia das massas. Le Bon disse que a chave da influência que as palavras exercem sobre a formação de uma multidão deve ser encontrada nas imagens que tais palavras evocam, com total independência de seu significado. Por exemplo, termos vagos como “democracia”, “socialismo”, “igualdade” e “liberdade” são usados conforme a conveniência de seus usuários.

Essas palavras são ditas como se tivessem um poder “mágico”, evitando o combate pela argumentação racional. LeBon concluiu que o uso estratégico dessas palavras muda lentamente no decorrer dos anos, enquanto as imagens evocadas – ou o sentido dado a elas – muda sem parar. Assim, as palavras empregadas com maior frequência no controle das massas são exatamente aquelas com os mais diferentes significados. Por isso, os líderes focariam em batizar com palavras populares coisas que a multidão não pode suportar sob seus velhos nomes.

Pode-se vender mais facilmente ilusões e esconder intenções sórdidas a partir do uso estratégico de palavras. Três recursos são essenciais para o funcionamento: (1) afirmação, (2) repetição, (3) contágio. O último conecta-se diretamente ao fenômeno da sugestionabilidade.

Como LeBon explicava, ao se tornar parte de um grupo, o indivíduo experimenta um processo de degradação social. Em manadas o ser humano pode descer vários degraus na escala da civilização. Dentro de uma massa, ele pode ser finalmente uma criatura que age por instinto, com toda a espontaneidade, a violência, a ferocidade e também o entusiasmo e o heroísmo dos seres primitivos.

O mecanismo de imitação é uma predisposição humana, que deve ser compreendida em termos de sugestionabilidade. Vários vieses vistos anteriormente mostra como se pode exercer o poder pelo controle de multidões. Segundo Gabriel Tarde, as multidões são motivadas pelo amor e motivadas pelo ódio:

O que multidões iradas pedem é uma ou mais cabeças. A atividade do público é, entretanto, menos simplista, pois ela se direciona tão facilmente para um ideal de reformas ou utopias como para ideias de ostracismo, perseguição e espoliação.

Ele afirma: “Descobrir ou inventar para o público um grande novo objeto de ódio ainda é um dos meios mais seguros de se tornar um dos reis do jornalismo”. William McDougall, depois, explicou como é muito rápido difundir a mesma emoção numa multidão, como o que chamou de “o princípio da indução direta da emoção”, que explica como, “mediante a primitiva reação solidária nos possibilita compreender o fato de que um ajuntamento de pessoas (ou de animais) pode transformar-se rapidamente numa multidão tomada pelo pânico, devido a algum objeto ameaçador, perceptível por apenas alguns poucos dos indivíduos presentes”.

Isto levaria o indivíduo participante de uma multidão a perder parte de sua autoconsciência, da percepção de si mesmo como uma personalidade distinta, e com isso também parte da consciência que tem de suas relações especificamente pessoais. Ele estaria, então, despersonalizado e perderia o senso de responsabilidade pessoal.

Segundo McDougall, a inteligência média dos membros da multidão se rebaixa. Ele afirma que o caráter psicológico de uma multidão pode ser resumido ao considerar que “ela é excessivamente emotiva, impulsiva, violenta, instável, inconsistente, irresoluta, extremada em suas ações, demonstrando somente as emoções mais toscas e os sentimentos menos refinados”. Extremamente sugestionável, ele julga as coisas apressadamente e não consegue elaborar mentalmente raciocínios complexos.

Segundo Patrick Charadeau, esse processo político nunca mudou nas sociedades, sempre segundo um mesmo padrão: “situação de conflito > tentativa de regulação > estabelecimento de um equilíbrio, e depois, novamente: conflito > regulação > equilíbrio > etc.”

Por essa perspectiva, há uma situação de equilíbrio quando “se estabilizam as relações de força entre os indivíduos ou os grupos que entraram em conflito”. Logo, a liderança populista precisa evitar essas situações de equilíbrio. Para que a lógica populista se mantenha, é preciso que o líder se apresente como salvador. Em seguida, o mal toma ares de catástrofe. É para isso que se adotam tons apocalípticos. Quanto ao povo supostamente representado, ele deve se sentir como vítima. Não é para nenhuma surpresa que os responsáveis sejam satanizados em culpados. Nessa guerra de valores, estes são exaltados por seu efeito identitário.

Quer dizer, os grupos representados devem ser apontados como “vítimas” de flagelos impostos pelo inimigo. O inimigo deve ser reportado como a encarnação do demônio em Terra. Mas especificamente em relação ao aspecto identitário, Charardeau lembra algo muito importante.

Exaltar o sentimento identitário é lembrar que o pertencimento é, ao mesmo tempo, uma natureza dada por filiação e um ato de reconhecimento voluntário. Fazer a apologia desses valores é lembrar que eles se inscrevem na história, numa tradição de luta em que se encontram os fundadores ou outros combatentes ilustres (daí o aspecto hagiográfico de alguns discursos, tanto à direita quanto à esquerda). Mostram-se os benefícios trazidos por tais valores no passado e fazem-se profecias de que são eles (esses valores) que trarão a solução a todos os males do povo. Os discursos patrióticos pronunciados para levar os membros de uma comunidade a marchar juntos na guerra demonstram isso.

É aqui que é importante notar como as teorias da conspiração ajudam (e muito) as pessoas que propõem utopias práticas a terem medo dos vilões que entram em seu caminho. Nisto, usam todos os aspectos que os bons autores de ficção adotam para falar dos vilões, que são pessoas “cruelmente maliciosas envolvidas ou devotadas à maldade ou ao crime; canalha”, segundo o dicionário da Random House.

Se existem os heróis que lutam pelo mundo melhor, devem estar clarificados os vilões. Claro que é possível identifica-los na “elite burguesa”, na “elite empresarial”, no “establishment”, mas vez por outras nomes claros de indivíduos devem ser identificados. Estes vilões identificados antagonizam os heróis, que são os líderes da revolução. No caso das seitas políticas, estes líderes são os gurus e os líderes políticos que apoiam, é claro.

Na construção de vilões, alguns arquétipos podem ser utilizados, como:

  • o doador falso: é exibido como uma figura aparentemente benevolente que oferece soluções de curto prazo e benefícios; no longo prazo, é o vilão que se beneficia;
  • a figura da autoridade: alguém que tem alto nível de autoridade e poder, mas sempre quer mais, com ganância;
  • traidor: possui aspectos de truques, manipulação e engano para alcançar seus objetivos. Alguns covardes podem se tornar traidores.
  • a besta: um personagem que confia puramente em seus instintos e pode causar destruição sem limites para alcançar suas metas.

Todas as narrativas utópicas aplicadas costumam usar mais do que um desses arquétipos principais acima. Para cada um deles, podem ser apontados desejos – com base no viés da atribuição hostil e o erro de atribuição final -, o que é útil para as teorias das conspirações. Assim, gurus podem eliminar ex-membros atribuindo-os a figura de traidor. Outros podem ser definidos como as bestas. Se os líderes lutam contra figuras que estão no poder, a representam como figuras de autoridades a serem derrubadas. Se algumas pessoas não aparentam serem inimigas, mas estão no caminho do guru, podem ser apresentadas como o doador falso. Com esses quatro arquétipos, é possível criar muita coisa.

Antes de seguirmos, é recomendável assistir um vídeo abordando o uso de teorias da conspiração na mitologia política, reforçando o que já vimos no texto 5. Antes de tudo, aviso que o material contido aqui não identifica se alguém é de esquerda ou de direita, mas apenas sobre a utilidade do conhecimento. Os vídeos são do Professor André Azevedo da Fonseca, estudando a obra “Mitos e mitologias políticas”, de Raoul Girardet, são os melhores. Seja lá como for, vale a pena:

Pílulas que “purificam”

O dia a dia da inculcação dos padrões para os ungidos é repleto de mecanismos que podem ser explorados a torto e a direito pelo guru. Antes de observarmos esses mecanismos, alguns anteriores já são úteis para manter o clima de que a seita é composta de ungidos. Vejamos esses itens já vistos em textos anteriores:

  • Linguagem carregada: uso de chavões, recursos “nós/eles”, estereótipos, etc;
  • Uso excessivo do medo: clima de medo tanto de sair do grupo como do mundo exterior;
  • Arrependimento público: humilhação de pessoas para que se arrependam, diante da seita, de terem “fugido ao chamado”;
  • Exploração de culpa: clima de culpa para a pessoa ter sua autoestima rebaixada, mas com a percepção de que isso pode ser recuperado com a submissão ao grupo;
  • Falsidade do mundo exterior [com e sem viés de atribuição hostil]: dizer que o mundo exterior está cheio de informação falsa feita para enganá-los;
  • Além da ideologia: o guru e seus discípulos devem ser considerados como se estivessem “acima” das ideologias;
  • Falsa isenção: obviamente, as opiniões do guru e seus discípulos são “isentas” de vieses, mas as dos outros não;
  • Ataque aos “interesseiros”: todos os que criticam o grupo são chamados de “interesseiros”, mas eles, é claro, não possuem interesse algum;
  • Espiral do silêncio [todos os mecanismos]: criar o clima de que o grupo é invencível, mesmo que a partir de muita encenação (mas que os discípulos tratarão como reais).

Especificamente neste texto, vimos:

  • Uso amplo de teorias da conspiração: onde vale tudo, pois é preciso criar narrativas com mocinhos e vilões, além do reforço à identidade;
  • Demanda pela pureza: continuamente a crença é exposta como pura, enquanto inimigos são os “impuros”;
  • Guerras morais: foco em pautas morais, que são as que possuem maior carga emocional;
  • Eliminação de divergentes: se não pelas vias físicas, os divergentes devem ser tratados como “merecedores de expurgo”;
  • Populismo: uso de uma construção lógica que os coloque como “representantes do povo”, enquanto os outros são, é claro, “o anti-povo” (isso já embute toda a dinâmica de “nós e eles” para ativar a violência política).

Assim, os elementos seguintes se juntam a esses, para, enfim, criar o clima de que são “ungidos” na luta contra os impuros.

Efeito Forer

Para começar, é preciso que as pessoas que se sintam “ungidas” podem se sentir validadas a partir de muito pouco. Se elas receberam “aprovação”, é preciso que elas sintam que foi uma validação sincera vinda do guru ou de seus principais representantes. Para isso, o Efeito Forer é bastante importante.

O primeiro a falar disso foi P.T. Barnum, que mostrou que as pessoas tendem a validar as avaliações de suas personalidades que, supostamente, foram feitas exclusivamente para elas só que, em verdade, são genéricas o bastante para se aplicarem a muitas pessoas. É assim que os astrólogos aprendem a dizer coisas que agradam as pessoas (sobre suas personalidades) mas que poderiam ser ditas a qualquer pessoa.

Foi em 1948 que o psicólogo Bertram R. Forer fez um experimento no qual deu a cada um de seus alunos um teste de personalidade. Após o teste, afirmou que cada um desses alunos receberia uma análise individual (e única) com base nesses testes. Eles deveriam avaliar quão precisa era a análise, em uma escala variando de 0 a 5, respectivamente “muito errada” e “muito correta”. Na média, as avaliações tiveram nota 4,26, ou seja, Forer teria acertado as avaliações de cada aluno a partir de suas respostas individuais. Porém, todos eles tinham recebido o mesmo texto:

Você tem uma necessidade de ser querido e admirado por outros, e mesmo assim você faz críticas a si mesmo. Você possui certas fraquezas de personalidade mas, no geral, consegue compensá-las. Você tem uma capacidade não utilizada que ainda não a tomou em seu favor. Disciplinado e com auto-controle, você tende a se preocupar e ser inseguro por dentro. Às vezes tem dúvidas se tomou a decisão certa ou se fez a coisa certa. Você prefere certas mudanças e variedade, e fica insatisfeito com restrições e limitações. Você tem orgulho por ser um pensador independente, e não aceita as opiniões dos outros sem uma comprovação satisfatória. Mas você descobriu que é melhor não ser tão franco ao falar de si para os outros. Você é extrovertido e sociável, mas há momentos em que você é introvertido e reservado. Por fim, algumas de suas aspirações tendem a fugir da realidade.

É assim que Oliveira decidi falar de vários aspectos da vida de seus alunos, para que eles pudessem “avaliar” o quão próximos estavam de seus objetivos de autoaperfeiçoamento. E, é claro, quão distantes estavam os outros. Cada um deveria se sentir “único” em sua trajetória. Logo, não se sentiriam manipulados. Ao contrário, se sentiriam especiais. É óbvio que, olhando externamente, todos eles utilizam teorias similares, mas precisam se considerar especiais.

Processo vicário

Outro mecanismo fundamental é o “processo vicário”, que significa basicamente “fazer as vezes do outro”. Esse mecanismo é especialmente útil porque, a certo momento, poucas pessoas do grupo ganharão benefícios particulares por fazerem parte do grupo. Só que esses benefícios não são para todos.

No livro “The Secret Lives of Sports Fans”, Eric Simons estudou o processo vicário. Tudo começou com uma pesquisa sobre como os fãs de esporte cultuavam de maneira tão determinada seus times de futebol, já que aparentemente não ganhavam nada com isso.

Basicamente, o que Simons descobriu é que as mesmas sensações emocionais que alguém tem ao vencer uma partida de futebol, dentro de campo, são as mesmas que um torcedor sente, de fora do campo. Seria uma ideia de “neurônios-espelho”, subjacente ao nosso seno de empatia. Essa resposta instintiva não se limita aos seus neurônios: os hormônios também sobem e descem conforme a sorte de seu time. É por isso que um jogador de futebol vibra feito louco ao fazer um gol. Em sua mente está o altíssimo salário e os prêmios. Muitos jogadores nem entram em campo se não tiverem a segurança do contrato. Já para o torcedor, ele sente a mesma coisa que aquele que está em campo.

Para as seitas, isso também é importante, pois os discípulos não podem se sentir diminuídos perante os outros. Porém, alguns poucos serão beneficiados por participar da seita. Logo, é preciso “transferir” aos discípulos que estão de fora dos benefícios uma espécie de processo vicário, em que eles sentem a sensação de outros. A observação deste fenômeno é ridícula, mas pode ser vista em como Oliveira estimula seus discípulos a venenarem os seus alunos que conquistaram cargos no governo.

Assim que analistas do mundo exterior criticam esses seus alunos, vários discípulos (que nada ganham), partem para intimidar o crítico dizendo: “Você tem inveja dele”. A partir deste momento, o analista muitas vezes nem entende o que está acontecendo, pois ele nem de longe estava disputando o cargo. Assim, como poderia “ter inveja”?

Basicamente, isso ocorre porque o discípulo “está sentindo o prazer de ter o cargo”, mas ele não tem. Transferiu esse sentimento a um dos discípulos do grupo que chegou a conquistar esse cargo. A partir daí, ele depende de valorizar essa conquista como se fosse uma conquista dele. Em seguida, intimida alguém de fora por “ter perdido”. Este fenômeno é o processo vicário, que ocorre quando alguém não obtém um ganho material de algo, mas se sente psicologicamente bem porque alguém para quem ele torce ganhou.

Além disso, ele já considera o ganhador do cargo como alguém ungido. Logo, precisa vê-lo como desinteressado. Mesmo assim, comemora as vitórias particulares do outro como se fossem as suas.

Implantação de interesses alheios

A técnica da “leitura mental” é uma forma de pensamento delirante em que as pessoas dizem que sabem exatamente o que os outros estão pensando. Geralmente, isso é algo inventado. Porém, serve a um objetivo. Inventar aos outros um interesse, o que é principalmente importante para gurus que tentam vender ao seu público que ele é desinteressado.

Isso pode ser visto no exemplo do Brasil quando os petistas diziam que “os críticos de Lula não gostavam de ver pobres andando de avião”. Obviamente, era um delírio, pois o aumento de pobres viajando de avião ajudou a reduzir o preço das passagens. Assim, certamente seria bem raro encontrar alguém que pensasse sequer em “pobres viajando de avião” como motivo para criticar o governo de Lula.

Observe isto que Oliveira disse a respeito de vários críticos que se juntaram para refutar sua análise da filosofia de Hegel:

É inacreditável que eles tenham combinado com tantas pessoas para me denegrir, fingindo que estão fazendo uma análise filosófica quando na verdade querem apenas me desmoralizar. Se eles quisessem realmente avaliar minha obra a fundo, teriam assistido as mais de 621 aulas que eu já ministrei em meu curso. Como não querem, visam apenas me difamar, já que sabem que eu prejudico o projeto de aliança entre globalistas e vampiros na Nibéria.

Porém, nenhum dos especialistas queria isso. Só tinham achado uma grande besteira a interpretação feita por Oliveira sobre Hegel. De qualquer forma, Oliveira não iria arredar o pé do truque.

Em essência, a implantação dos interesses alheios é uma expansão das teorias da conspirações, mas aqui é focada especificamente ao pensamento dos críticos. Basta dizer, detalhadamente, tudo que eles pensam. Geralmente isso é inventado, é claro. Mas a ideia é que dê coerência à exposição dos “sórdidos interesses do inimigo”, em contraposição à ausência de interesses do guru.

Contraste com inimigo imaginário

Esse é um método aparentemente cômico, mas de forte efeito psicológico. Aqui o guru, junto com seus escolhidos, vibram por algum resultado real. Em seguida, com o uso da implantação dos interesses alheios, dizem que seus opositores e divergentes estão “se rasgando de ódio” pelo que aconteceu. Obviamente, as intenções muitas vezes são inventadas.

Oliveira sempre executa este método, e vários de seus principais discípulos aprenderam a fazê-lo. Num certo dia em que a bolsa subiu, Oliveira disse:

Está aí! Hoje a bolsa subiu, mostrando que Benjamin é o presidente ideal, pois ele tem ouvido o que nós falamos a eles. Isso deve deixar a ala dos críticos do regime se rasgando de raiva. Vai descer, vai descer rasgando!

Evidentemente, esse é um mecanismo para “desligar” o pensamento da patuleia, mas pode bem ser que vários dos críticos estavam torcendo para o aumento da bolsa. Em suma, muitas vezes aquele que não é inimigo é tratado como um para que ele possa criar uma polarização inexistente.

Quase como uma inversão do mecanismo anterior, é preciso transferir as culpas das adversidades ao inimigo. Assim, alguém pode dizer que algo deu errado porque “os outros torceram contra”.

Praticamente, é como se fosse uma adaptação do livro “O Segredo”, de Rhonda Byrne, mas pelo avesso. No filme, que é pseudocientífico, a autora argumenta em favor da tese de que as pessoas precisam desejar que algo aconteça para que isso se materialize na realidade.

No caso do “Segredo” inverso, o guru dirá que as coisas estão dando errado porque os outros não querem que elas dêem certo. Isso facilita com que as culpas sejam sempre transferidas a bodes expiatórios.

Complô e paranoia

O clima de paranoia sempre deve ser mantido “no último”, com a menção a complôs diários feitos pelo que estão de fora do grupo. Como exemplo, considere o caso em que Gustavo Youssouph publicou uma extensa refutação a Oliveira, que respondeu desta forma:

Youssouph mostrou mais uma vez que ele está em conluio com os agentes vampiristas ligados aos globalistas. Em um momento em que tenho que me defendem de uma extensa rede de difamação, ele aparece com este texto, desenhado especificamente para me fazer perder tempo. Ele faz isso para ajudar aos seus aliados, que eu sei bem quem são!

Na verdade, Youssouph apenas decidiu refutar Oliveira pois achou que suas análises filosóficas eram o fim da picada. O componente anterior, de implantação de interesses alheios, é útil neste sentido.

A vida do guru e de seus discípulos deve sempre ser rodeada de complôs por todos os lados. A certo momento, Oliveira criou a narrativa de que o presidente Benjamin estava para ser derrubado por um complô de pessoas que, evidentemente, eram críticos à participação de membros da seita no governo.

Destruir “eles” para salvar o “nós”

Como já vimos anteriormente, a eliminação de discordantes é fundamental neste processo. Assim, diariamente Oliveira precisa requisitar a eliminação de discordantes de diversas formas. Por exemplo, ele decide atacar a grande mídia. Assim escreve:

Nenhum problema na Nibéria estará resolvido até que todo e qualquer jornalista globalista tenha sido escorraçado dos grandes meios de comunicação!

O problema é que isso nem mesmo interessa a vários de seus adeptos, que utilizam mídia de baixo nível. Mesmo assim, a narrativa é a que importa, pois é preciso dar uma noção de destruição de opositores.

Em outro momento, Oliveira sugere que inimigos devem ser tratados com cusparada na cara. Chega a dizer:

Todo e qualquer direitista que aperte a mão de um esquerdista deve ser considerado um canalha, merecedor de ser empurrado escada abaixo.

O problema é que acharam depois um vídeo em que Oliveira fez um debate com um líder esquerdista, cumprimentando-o educadamente. Dizem até que Oliveira não repete ao vivo o tom de agressividade na Internet. Até hoje seus discípulos escondem esse vídeo, mesmo que sigam repetindo que “todo inimigo deve ser fisicamente destruído”.

Desonra dos discordantes

Em geral, as seitas rebaixam a autoestima das pessoas, mas é preciso rebaixar ainda mais a dos que estão fora da seita. Foi assim que Oliveira criou uma cultura em que ele e seus discípulos se habituam a manchar a honra de quem está fora da seita. Eles fazem isso por causa da hierarquia de reputação, que sempre possui três níveis: (1) o guru, que é especial, (2) o ungido, que está na seita, (3) o impuro, que está fora.

O ungido já se diminui perante o guru, por aceitar se submeter a uma seita. Assim, os que estão de fora, precisam ser ainda mais desonrados. Como exemplo, um influenciador recomendado pelo guru chega a fazer vídeos atacando as mulheres daqueles que dele discordam. Ele diz:

Está vendo aí, seu esquerdista canalha! Seu vagabundo! E sua namorada hein? E esse piercing que ela usa? Isso mostra que ela é uma cadela, safada, uma arrombada. É uma vagabunda que deve ser tratada com mão na cara.

A pergunta: por que isso? É exatamente para desonrar as pessoas, além de mostrar aos que estão fora da seita que os impuros são muito inferiores aos ungidos. Enquanto isso, os ungidos são inferiores ao guru.

O uso da desonra dos discordantes é um dos pontos de risco da seita online, pois a certo momento pessoas não tão acostumadas a utilizar a Internet podem se cansar dessa desonra, registrarem tudo e partirem para a retaliação.

Cooperação no barbarismo

Contar com os discípulos na participação em atos de hostilidade cria uma espécie de “cumplicidade” de grupo. Por isso, Oliveira costuma publicar dados privados de seus oponentes (como endereço pessoal), para que seus discípulos possam ir perseguir a pessoa em seu ambiente de trabalho, em sua vida privada.

Faz isso em seu perfil público, ostentando o ataque orgulhosamente, como forma de que as pessoas dificilmente consigam voltar atrás depois de estarem nas seitas.

Realize a seguinte situação: alguém que participa de um linchamento virtual não poderá coexistir depois com pessoas alvos desse linchamento. Logo, sua vida social estará prejudicada. Isso também serve para que a pessoa dependa ainda mais de participação à seita.

Certa vez, foi feito um brutal ataque a uma jornalista, por convocação da seita de Oliveira. As pessoas se orgulharam do ataque em seus perfis. Expostas em seus atos, elas já são “cúmplices do barbarismo”. Obviamente, terão dificultadas suas vidas no meio jornalístico. Com isso, dependerão da seita para terem relevância.

Fazer as pessoas ficarem incentivadas a participar de ações hostis e imorais é um dos segredos dos gurus.

“Belos sofredores”

A vida de alguém em uma seita pode colocá-lo em situação ridícula no mundo exterior, principalmente quando ele é confrontado com pessoas que não reagem bem ao seu modo de vida e sua forma antissocial de lidar com os divergentes. Isto pode parecer algo prejudicial à seita, mas os gurus sabem como decodificar até isso em favor do culto.

Steven Hassan, em Freedom of Mind, lembra o efeito negativo que isto gera, sendo depois convertido num efeito positivo:

Os membros da seita de mentalidade elitista foram doutrinados para acreditar que o mundo exterior é hostil, odioso e perigoso. Eles são frequentemente tratados como se fossem desajustados e idiotas por outras pessoas. Quando eu estava no Moonies, fui socado e cuspido por pessoas na rua. Uma vez eu joguei cerveja em mim. Meu compromisso com o grupo foi intensificado pelo que eu experimentei como perseguição.

A partir do momento em que alguém toma uma invertida no mundo exterior por defender alguma ideia da seita, essa pessoa pode ser apresentada como um mártir. Esse é um dos meios pelos quais algumas pessoas podem ser apresentadas como “credenciais” da seita.

Oliveira diz que cada pessoa que é acusada nos jornais de mal uso de dinheiro público e que seja seu aluno é uma “prova do sofrimento dos oliveiristas, que são perseguidos por estarem trazendo a verdade” à Nibéria.

Quando as pessoas começam a passar dificuldades e talvez atribuam isso às ideias malucas que começaram a adotar, Oliveira diz que isso é uma demonstração da “beleza do sofrimento” na busca da verdade. Normalmente, as pessoas se inspiram por casos de sofrimento. Com isso, o guru pode “fisgar” mais adeptos.

A retórica do feroz

Uma técnica adicional é dizer que as pessoas que estão fora da seita são “frouxos”. Em seguida, dizer que o “verdadeiro combate ao inimigo” está na seita. Tecnicamente, o objetivo é lançar a seguinte estrutura conceitual: “nós somos os melhores combatentes ao inimigo”.

Oliveira utiliza este recurso para dizer que “todos os combates ao comunismo” feitos anteriormente na Nibéria eram formas de ajudá-los, de uma forma ou de outra. Logo, o seu combate é que era o efetivo.

Geralmente isto é uma encenação, até porque o extremismo tende a ajudar os setores mais extremistas do outro lado a retornarem posteriormente com mais força. Com ações políticas sem sutileza, as brechas são abertas para que, no caso, a direita niberiana, se enfraqueça.

Mesmo assim, a retórica deve ser mantida porque o guru está fazendo sua autovenda perante os discípulos, dizendo que eles é que “serão os verdadeiros lutadores contra o inimigo”. Logo, os outros devem ser tratados como os “falsos lutadores” ou “insuficientes”. É como se fosse no culto ao Manowar, que pode ser entendido neste vídeo:

Em suma, “nós somos os verdadeiros”, e vocês “são falsos”.

Perseguidos (“nós somos”)

Com uma base de conhecimento deste tipo, além do uso de uma linguagem intolerante, é claro que pessoas ligadas a Oliveira serão contestadas na mídia, no ambiente acadêmico, no meio científico, e daí por diante. Uma forma de gurus combaterem isso é antecipar o jogo, dizendo que seus discípulos certamente serão perseguidos pelo novo conhecimento que adquiriram. Por exemplo, ele diz, sobre Janus Hassana, que tomou uma paulada ao participar de uma manifestação:

Deram uma paulada na cabeça de Hassana, um de nossos alunos. Isso mostra como eles perseguem todos aqueles que chamam de oliveiristas. Querem nos eliminar do ambiente público, pois não admitem nossa presença.

O problema é que ele omitiu que Hassana havia feito uma provocação aos manifestantes opositores, o que configura mais uma briga de mão dupla do que perseguição.

Ao apresentar um trabalho sobre vampirismo na política em sua faculdade de filosofia, o orientador deu risada de Dennis Ohwonigho, um de seus alunos. Foi quando Oliveira comentou, em seu perfil:

A ideia de rejeitarem um trabalho de Ohwonigho sobre vampirismo na política é um sinal de que não querem ouvir o contraditório, perseguindo aqueles que querem levar a verdade à academia. O brilhantismo de Ohwonigho ofusca a luz desses professores medíocres.

Aqui novamente Oliveira omite um fato: o de que o trabalho de Ohwonigho não trouxe nenhuma referência suficiente para se qualificar como trabalho acadêmico.

Normalmente, pessoas que trabalham com conhecimentos não validados são mais propensas a serem contestadas. É assim que a “vacina” de antecipar que eles serão perseguidos ativa o viés da confirmação e faz alguns discípulos pensarem: “se estão rejeitando meu comportamento ou minhas ideias, então é prova de que o guru está certo”.

Resumo

O que move os “ungidos” – e o que os torna verdadeiras máquinas de incivilidade – é a crença de que estão purificando o mundo e que todos que estão em seu caminho são inimigos dessa purificação, que, evidentemente, levará a um cenário futuro maravilhoso.

Agora a questão que nos falta resolver é: como isso pode se converter em pessoas decididas a fazer exatamente o que quiserem? Este é o objetivo do próximo e penúltimo texto da série, que tratará a imoralidade utilizada em seitas pela ótica da dinâmica social. É onde falaremos do uso de maltas, do mecanismo do bode expiatório, do desengajamento moral e diversas outras técnicas para que pessoas normais sejam convertidas em emulações da psicopatia, geralmente a cargo de gurus que são psicopatas.

Continuará em A Arte da Seita Política – 10 – Imoralidade

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6 comentários em A Arte da Seita Política – 9 – Ungidos

  1. Otário (eu sou o otário). // 20 de abril de 2019 às 7:07 pm // Responder

    Corporativismo é natural. PONTO. Porque o site do antagonista BLOQUEIA (censura, não permite) comentários que criticam o “colega” Jean Willis ?

  2. Porque todos pilantras CENSURAM comentarios ? // 21 de abril de 2019 às 12:44 am // Responder

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  3. Discordo no ponto da faculdade. Depende da ciencia. Em Historia, o aluno se forma, mas nunca busca outras referencias. Passa a.vida inteira repetindo igual papagaio, na computacao é como o cidadao que aprende C e quer programar o resto da.vida em C.

  4. A sequência está interessante, mas uma pergunta: por que só agora para atacar o olavismo que gerou esse cenário perigoso no Brasil atual? Por que só desmascarou o olavismo agora, sendo que teve tantos anos para isso mas preferiu baixar a cabeça?

    No início de 2016 o dono desse site foi agressivamente atacado pela militância bolsonarista e seita do Olavo. Os ataques foram baixos e geraram vítimas que nada tinham a ver com a situação, como um rapaz que teve todos seus dados expostos na internet pelo Olavo à sua militância doentia. Os ataques surgiram por conta da resistência do Ayan em dar apoio à candidatura do Bolsonaro já naquele momento.
    Os ataques sequer eram uma novidade, já tinham ocorrido em 2015 numa escala menor, mas naquele início de 2016 vieram de forma insana.
    Acontece que não demorou muito para este blog baixar a cabeça e se render ao bolsonarismo. Chegou até a em 2017 chamar o Bolsonaro de “mito” em uma postagem. Também chegou a defender o filme do Olavo que estava sendo impedido de ser exibido numa universidade.
    Vejo que esse site criticar o Arthur do Val, com razão, por ficar agindo como cão de guarda do Nando Moura, mas esse site agiu de forma bastante parecida à militância olavete-bolsonarista.

    Em 2018 o dono do site foi amplamente atacado, teve sua identidade exposta graças a um olavista, e então seu nome passou a aparecer em diversos veículos impressos e televisivos acusando-o de divulgar fake news.
    O que fez o autor desse site?
    Parou de postar uns tempos e retornou apoiando a candidatura do Bolsonaro desde criancinha. E assim foi até o segundo turno.

    Por que só agora decidiu atacar o olavismo que já pediu sua cabeça? O Bolsonaro foi eleito graças a sites como esse, a influenciadores como esse, que permitiram que a praga bolsonarista pegasse e hoje nossas liberdades estão ameaçadas. A culpa é de vocês que apoiaram esse governo há anos. E não adianta negar, pois esse site passou a apoiar o Bolsonaro como presidente desde 2016, chamou de “mito” em 2017, e em 2018 mesmo após ser achincalhado nacionalmente graças a um aluno do Olavo, continuou ajudando os olavetes em seu plano de chegarem ao poder e implantarem suas vontades sádicas e autoritárias.

    Curioso que alguém que publicou um livro chamado “Liberdade Ou Morte”, que tenha visto Olavo de Carvalho e seus bobos da corte numa missão destrutiva contra si, tenha sido atacado de diversas formas e nunca levantou a voz, não só apanhou quieto como ainda ajudou que eles elegessem quem eles queriam para fazer os planos DELES.

    Ajudou aos olavetes a chegarem no poder para implementar o autoritarismo DELES e agora vem fazer uma sequência de postagens mostrando o perigo da seita?
    A sequência está ótima mas deveria ter sido feita antes de dar poder pra essa gente.

    • Beto,
      Antes de tudo é justa a sua reclamação. Reconheço erros de tomada de decisão minha, mas, em relação à série, existem alguns fatores. Entre setembro e janeiro deste ano eu elaborei meu segundo livro, que posteriormente entrou em fase de revisão. O que faço neste livro é propor uma nova abordagem via dinâmica social. Com esta abordagem, ficou mais fácil mapear interesses dos blocos de poder. E, com isso em mente, fiz um estudo detalhado a respeito de seitas, que confirmaram as suspeitas que tinha. Foi somente aí que adquiri base para fazer um trabalho de escrutínio do comportamento sectário.
      Assim, não tinha como eu fazer uma série como esta o ano passado. Agora tenho base para fazê-lo.
      Isso dificultou o entendimento da dimensão em que as coisas poderiam chegar. Naquela época, havia a dúvida de se o Bolsonaro era “iludido” pelas hostes extremistas ou se orientava tudo. Quando vários amigos de confiança narram histórias internas dizendo que “Bolsonaro não se deixaria os olavistas darem o tom”, podemos tomar decisões erradas, como fiz. Aliás, vários amigos já perceberam a barca furada hoje em dia.
      Por isso, não renego minha responsabilidade por ter ajudado a colocar a seita no poder. Mas agora tenho base suficiente para detalhar o comportamento sectário.
      Grande abraço,
      LH

  5. "mas uma pergunta: por que só agora para atacar" // 24 de abril de 2019 às 1:49 am // Responder

    O nome disso é: Evolução. PONTO. Você “erra” (toma uma atitude em uma determinada situação “em um tempo, e/ou espaço), e após essa situação (ou sua opinião) mudar, a pessoa que tiver cérebro (ou personalidade) muda (evolui). https://www.youtube.com/watch?v=D-klnCbxbYA

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