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24/4: o dia em que o paternalismo enlameou a direita

Eu estava preocupado que este dia fosse chegar, mas, enfim, chegou. A direita brasileira tomou um caminho praticamente sem volta. Dois grupos tomaram decisões extremamente radicais: reacionários e liberais.

No primeiro caso, os reacionários decidiram partir para cima do General Mourão, sempre a partir das mentiras de costume. Como era de se esperar, a liderança nada fez a respeito. Com isso, ocorreu um linchamento completo nas redes sociais. O que resta aos que se fingem de sonsos é dizer: “Ah, precisamos dar um conselho para que ele tome mais cuidado com o eles postam na Internet?”. Numa boa, esse discurso paternalista já é uma ofensa à inteligência dos outros.

Foi um show de truculência e arrogância raras vezes visto na Internet. Como ninguém se importou em passar vergonha, chegaram até a levantar uma hashtag mandando o vice calar a boca. Tão repugnante foi a coisa que, segundo um comentário em um grupo de WhatsApp, constatou-se que essa escória da ala autocrática das redes antissociais não tem interação decente no mundo real. Foi comentado que, no mundo real, se mandam alguém próximo “calar a boca” talvez saiam com os dentes quebrados. É uma observação realista.

Em tempo: quem levanta uma hashtag pedindo para alguém da base “calar a boca” já mostra como exige submissão em suas relações interpessoais. Nem petistas eram tão autoritários assim dentro da base de governo. Uma dica, aliás, é que nunca se deve pensar sob as categorias determinadas pelo adversário. Às vezes alguém diz: “(a) deveria calar a boca”. Diga de volta: “Se tu é submisso, não transfira sua falta de vergonha na cara aos outros”. Aí depois, é claro, se deve argumentar.

É engraçado como os minions da ala autocrática costumam dizer: “você tem inveja de quem tem cargo”. Será mesmo? Inveja de pertencer a um meio onde te mandam calar a boca? Vejam a medida da perda de dignidade desse pessoal. Perderam a vergonha na cara de uma vez por todas mesmo…

Por aqui, no entanto, tudo correu conforme o esperado. Há uma doentia relação sadomasoquista entre reacionários e liberais que não será sanada tão cedo. Qualquer outro grupo tem chances de acordar. Certamente, o último a acordar será o setor liberal.

Deste grupo, veio a maior decepção. Não reagiram a esse ataque em volume suficiente. De novo: é claro que existem alguns liberais que reagem de vez em quando (alguns até neste 24/4), mas é preciso ressaltar que o número foi muito baixo. A maioria está morrendo de medo, já abdicando de qualquer luta pela democracia.

Liberais já foram ofendidos de todas as maneiras, mas raramente reagiram aos ataques reacionários na Internet. Quando a coisa chega a um certo ponto, as pessoas mandam a honra às favas. Sem honra, não conseguem mais julgar o que é certo ou errado. Hoje em dia, são raros os liberais que conseguem reagir a ações autocráticas. [Quem defende sua honra ou a honra de grupo não se sinta incluído entre esses que vivem de lamber a sola do sapato dos reacionários, certo?]

Nessa relação sadomasoquista, onde se acostumaram a apanhar, criaram uma obsessão por “reforma da previdência” que já virou caso de psiquiatra. O ideal é que procurem um médico e contem “Doutor, estou com ideia fixa na reforma da previdência e não consigo nem lutar pela manutenção da liberdade e da democracia”. Nem é preciso dizer que é importante ter a reforma da previdência. O problema é quando ela é usada como anestésico para as ações mais importantes: a luta pela manutenção da liberdade.

Resultado: enquanto os reacionários lutam para desconstruir qualquer pessoa que tenha reputação e possa abalá-los, os liberais simplesmente adquiriram desculpa para não fazer nada. Basta dizer: “estou cuidando da reforma da previdência”. É de dar dó assistir um negócio desses.

É uma diferença considerável para a direita liberal do passado, em cuja história honrada existiu construção de liberdade, derrubada de monarquias, etc. Já no caso da direita liberal brasileira, as regras são outras: anestesiar o povo para que a ala autocrática da direita os entube. (Quase sempre fazem isso sem querer, pois são arrogantes e paternalistas)

O paternalismo é uma anomalia que faz alguém adotar a postura ridícula de sair “aconselhando” pessoas adultas, que geralmente estão morrendo de rir deles. É isso que faz pessoas – adultas, lembre-se – darem “conselhos” a um líder que deu espaço para gente que busca ruptura a partir do uso de milícias virtuais.

Quem mente para si próprio para achar que o outro tem os mesmos interesses que os seus é claro que não vai prever os próximos passos do outro. Assim, sempre tomarão tombo.

Estou dizendo desde janeiro que esse pessoal reacionário iria tentar a ruptura e agora entraram num caminho sem volta.

Embora eu não concorde com a lista feita por Augusto de Franco, sua mensagem é certeira:

Ou seja, houve uma decisão centralizada (sob o comando dos filhos de Bolsonaro, com a anuência do pai – como sempre) de abrir guerra contra o vice-presidente e eliminar a possibilidade de diálogo na medida em que Mourão é apresentado como traidor e, portanto, inimigo.

É uma tática arriscada (mesmo se aventarmos a possibilidade de ser um jogo combinado, com propósitos diversivos ou estratégicos – de manter aquecido o ambiente, em clima de guerra). É muito perigoso.

Qual a força político-militar desses caras (ou, quantas divisões têm os olavistas, perguntaria Stalin)? Se apenas cerca de 40 pessoas bolsonaristas (que funcionam como hubs de uma rede descentralizada, mais centralizada do que distribuída) forem “neutralizadas” (a expressão é de Flávio Bolsonaro, mas não a uso, como ele, no sentido de exterminar vidas humanas e sim no sentido político do termo), acaba a possibilidade de organização – que ainda é incipiente – do bolsonarismo como força política duradoura (posso apresentar – e vou, mais adiante – a lista desses 40).

Qual será o próximo passo para aumentar a capacidade de governo (em um governo cujos primeiros escalões estão ocupados, infestados, aparelhados, por mais de uma centena de militares – quase 150)?

Ora, Mourão não vai renunciar, Mourão não pode ser demitido, Mourão não pode sofrer impeachment. Mourão pode sempre desconversar e se esconder dos holofotes, mas… e os outros generais, almirantes, brigadeiros? Vão todos virar burocratas servis, trocadores de fraldas sujas do indisciplinado capitão e de seus filhos mimados? Isso corresponderia à completa desmoralização das forças armadas. Nada disso é plausível.

Ou será que o bolsonarismo-olavismo está apostando numa revolta da baixa oficialidade, dos sargentos, cabos e soldados contra os seus comandantes? Se for isso, mais grave ainda.

Que eles queiram manter o país numa guerra civil fria, é o óbvio. Mas e o risco de isso descambar para uma guerra quente mesmo, com levantes, rebeliões, insurreições?

Querem usar os militares para intervir nos outros poderes (como já propuseram fazer com o STF, submetendo-o ao STM) ou para engajar o Brasil numa guerra (por exemplo, contra a Venezuela – como queriam Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo)?

Sim, porque, sem um fato extraordinário desse tipo, em condições normais de temperatura e pressão, seus objetivos de destruir o establishment (ou o “estamento burocrático”) não será atingido e eles sabem disso.

Como eles sabem disso, cabe a pergunta: os bolsonaristas querem dar um golpe (no caso, um auto-golpe) apoiados pelo povo nas ruas ou pelas milícias que atuam nas mídias sociais?

É o que está parecendo. Mas…

Sim, agora já ocorreu a ruptura. É um processo sem volta que vai ser decidido de uma forma bem complicada. Mas por uma ótica via dinâmica social é preciso entender até onde as coisas podem chegar.

Evidentemente, ninguém está aventando a possibilidade de um genocídio. A violência de outros tempos tem sido substituída pela violência virtual. Linchamentos públicos satisfazem a ira por destruição em vez de linchamentos físicos.

Ponto.

Todavia, ainda assim, há algo de instrutivo nesses dois minutos de gravações da Radio Milles Collines, que incentivou o genocídio em Ruanda (preste atenção especificamente ao que é dito em 1:35):

É importante prestar atenção à isso: “Se nós exterminarmos completamente as baratas, ninguém no mundo irá nos julgar”.

Esta é a parte chave da mensagem. Nessa fase os hutus já tinham em sua conta a morte de milhares de tutsis. Assim, eles encontraram solução partir para o extermínio total para NÃO SEREM JULGADOS pelo que fizeram.

A mesma dinâmica ocorre no universo dos assassinatos virtuais, com um detalhe a mais: as pessoas linchadas seguem vivas. Ou seja, eles executam discursos que normalmente justificariam o extermínio físico das pessoas, mas, como só ficam na ação virtual, deixam as vítimas vivas.

Evidentemente, cada vítima de linchamento virtual que permanece viva é uma testemunha do que fizeram. Com essa quantidade de julgamentos, eles não podem mais voltar atrás, dado que agora precisam criar uma situação em que NÃO SERÃO JULGADOS. Não podem mais retroceder disso.

Logo, terão que tentar alguma forma de autoritarismo, uma vez que já se torna inseguro para eles permanecer com tantas vítimas de ataques que podem esfregar na cara deles o que fizeram. Ao fazer isso com um vice, mandaram a mensagem de que PODEM FAZER QUALQUER COISA. Historicamente, já sabemos o que significa esse tipo de mensagem, certo? Sem o uso da máquina para silenciar as vítimas dos linchamentos virtuais – até para “mandar a lição” – a situação pode descambar.

Quem poderia ter resolvido isso eram os liberais, que foram as primeiras vítimas dos reacionários, anos atrás. Naquele que foi o maior espetáculo de capitulação já visto na política, nunca reagiram. Com isso, foram estimulando a ampliação dos ataques. Agora, já não há mais limites. Pior: não podem voltar atrás. Se, uns quatro anos atrás, tivessem rebatido cada ataque, a história seria outra. Hoje mereceriam respeito. Agora, boa parte se tornou serviçal de projetos autocratas.

Quem disser que “Ah, agora é só pararem né? Por que não aceitam meus conselhos para pararem?” está mentindo para si próprio e aos outros. O espertinho que viver com esse discurso paternalista deveria explicar: o que vão fazer com as vítimas vivas? Infelizmente, o tecido social já foi quebrado.

Agora é só esperar os movimentos que tenderão à ampliação da ruptura ou algum ato de violência que tentem fazer. Lamentavelmente, a apatia liberal incentivou a truculência, criando-se, no Brasil, um autoritarismo com base em milícias virtuais.

Novamente, é bom dizer que existem exceções – e, sim, existem liberais que lutam pela democracia, assim como reacionários que são moderados -, mas a verdade é que quando não há mais tecido social, muita coisa pode acontecer.

Detalhe: segundo Gramsci, a guerra cultural deveria ser sutil. A ala autocrática da direita decidiu fazer uma tal de guerra cultural VULGAR. Obviamente, de “cultura” não há nada ali. É pura fachada.

Agora a pergunta que fica é: até que ponto a ala autocrática da direita está disposta a chegar para adquirir a condição de NÃO SEREM JULGADOS? E, do outro lado, qual é o ponto em que setores consideráveis decidirão lutar por alguma honra? Se isso acontecer, qual setor político abrirá o jogo? Lamentavelmente, os liberais – pelo andar da carruagem – devem ser os últimos da lista a se mexer.

Em tempo: me perguntam onde estão os “conservadores”? Alguns tem feito alguma coisa, mas muitos estão em banho maria. Detalhe: falar que essa tropa das milícias virtuais representa o “conservadorismo” é uma grande piada.

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7 comentários em 24/4: o dia em que o paternalismo enlameou a direita

  1. Fernando Jose da Silva // 25 de abril de 2019 às 9:39 pm // Responder

    Carlos/Luciano, acompanho suas análises políticas há muito tempo. Desde o tempo em que voce ensinava a identificar as rotinas do neo-ateísmo de Richard Dawkins. Coisa de quase dez anos.Sempre lhe considerei um analista diferenciado, mas desde aquele entrevero que você teve com os olavetes (sem julgar o mérito de quem estava certo) vejo que você de certa forma está tateando no escuro. Nesse caso específico dos ataques ao Mourão, por exemplo,você desconsidera por completo o conteúdo das falas do vice-presidente. Não é possível que você considere NORMAL um vice sair sabotando e traindo (sim, esse é o nome do que ele vem fazendo) a agenda conservadora do presidente. Uma vez, duas, tudo bem mas todo dia o cara falar mal do Bolsonaro, fingindo apoiá-lo, é inadmissível pra qualquer pessoa. Hoje inclusive a jornalista Bela Megale, de O Globo, noticiou que o Planalto até já identificou uma ação do Mourão com o Levy Fidelix para montar uma bancada parlamentar paralela. SE isso não é traição, não sei mais o que é. Ok, reconheço as limitações do presidente, o pavonismo do Olavo, a chatice dos minions etc, mas isso não pode lhe levar a fazer análises enviesadas, como essa, que trata o Mourão como se ele fosse um exemplar servo do presidente. Não, ele está pedindo pra ser linchado na redes ou então é muito ignorante mesmo, coisa que ele não parece ser. Enfim, responda – é normal um vice-presidente sair por aí dando entrevista à rodo pra desdizer as falas do presidente ou até mesmo repreendê-las?

    • Enfim,

      O problema é que eu acompanhei o caso desde 25 de janeiro, quando começou o assassinato de reputação do Mourão.

      Tive acesso a um mapeamento de todas as narrativas criadas, antes de se quebrar totalmente a confiança.

      Assim, é fácil iniciar um assassinato de reputação de alguém e depois reclamar de que “não concordou”.

      A direita online está acostumada a aceitar esse tipo de coisas. Fora da Internet, não está sendo bem assim.

      Talvez você não tenha a informação completa do que ocorreu.

      O caso da jornalista Bela Megale veio muito depois do início dos ataques a Mourão. De novo: aceitar aquilo sem revide é coisa de quem não tem honra.

      Assim, é claro que é uma direita que acha que resolve tudo no linchamento virtual. Mas e quando não encontra pessoas assim pela frente?

      Num país decente, vice e presidente resolvem suas diferenças. Num sistema social bizarro, um líder usa milícias virtuais para determinar que o vice deve “calar a boca” via Internet. É a pior escória moral que tem.

      Vergonha de ter votado nisso.

      Abs,

      LH

  2. Ana Paula Henkel, Roger Moreira, Danilo Gentili, Flavio Rocha, Augusto Nunes, Felipe Moura Brasil, Alexandre Borges… numa lista com o pior do bolsonarismo! Quanta democracia esse Gutinho de Franco, hein? Perdi até a vontade de ler o resto do texto do Sr. Afonso depois de voltar do link do maluco. Sem contar que: listas! De novo! Essa merda de novo e mais uma vez com os critérios mais absurdos. Exatamente pessoas que ainda podem puxar o país de volta são jogados acintosamente num bolo podre. Não é à tôa que o Gutinho sempre bloqueia quem comenta qualquer coisa que ele não goste, ainda que sem desrespeitá-lo. Mas agora se mostrou apenas uma espécie de canalha, o fazedor de listas para intimidação. Se a sobrevivência da democracia depender de uma figura dessas, tão irresponsável quanto o olavismo, estamos fodidos.

  3. Como dizia um general “viver para lutar outro dia”. Obviamente o articulista não possui mandato. A imprensa após a aprovação da reforma da previdência vai se comportar como uma serviçal. Já o STF se desfizer a reforma perde o auxílio-paletó. É o que tem pra hoje, resta ver se o quentão esse ano vai estar bom.

    A Folha é tão combativa que só publica entrevista do X-9 depois de autorizada pelo STF a fazer essa incrível reportagem.

  4. Nando Moura fez um vídeo pedindo a cabeça do Mourão cortada no pescoço e servida de bandeja aos urubus.
    Os comentários dos inscritos dele no vídeo são de dar risadas sádicas. É coisa do nível
    “eu confio no Carlos pois o Carlos é filho do Jair e é aluno do Olavo, já o Mourão é filho de quem? o Olavo não gosta dele”
    “vamos as ruas derrubar o Mourão em apoio ao presidente Jair”
    “Mourão foi quem mandou o Jair ser esfaqueado”

    O nível é muito pior do que eu imaginava. Estou só comendo a minha pipoca e assistindo vocês todos se matarem entre si. Vocês apoiaram esse governo e elegeram essa gente. É culpa de vocês. Pode censurar meus comentários quanto quiser, mas não poderá censurar a sua responsabilidade de fazer campanha a essa família de sádicos há 3 anos.

  5. ORGASMO DE CAVALO ASTRÓLOGO GAGÁ // 1 de maio de 2019 às 12:03 am // Responder

    O astrólogo geriátrico e decrépito está destruindo de vez a imagem da direita. Ele faz parecer que todo direitista é neonazista babaca feito ele o clã Bolsonazi. O velhaco geriátrico do Olavo além de ser uma completamente desescolarizada e burro, também é um vigarista que viveu a vida dando golpes e calotes. Nunca trabalhou na vidinha idiota dele, apenas viveu de ser um parasita sugando dinheiro de alunos e de pessoas próximas. Esse velho filho da puta é tão vaso ruim que nem um cisto no pulmão levou ele pro inferno. E ainda teve as despesas do hospital aonde ficou internado todas custeadas pelos O-T-Á-R-I-O-S das olavetes.

  6. Agora começaram contra o Moro, vejam a quantidade de post contra ele no Antagonista(filial da globo) que estão se irradiando para os blog petistas como BR247.
    Este é o esquema contra o Bolsonaro,estão enfraquecendo o governo por dentro. Vão tentar tirar o vice, para depois entrar com um impeachament e o Maia assume chamando novas eleições, nesta fase o lula já estará solto e aí o filme será outro.

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