Anúncios

A Arte da Seita Política – 10 – Imoralidade

Continuação de A Arte da Seita Política – 9 – Ungidos

Poucas coisas são mais potentes para um guru do que superar os padrões tradicionais da moralidade, o que também vale para seus discípulos. Para o mundo exterior, isso pode parecer algo bastante absurdo. Na verdade, é considerado, por eles, como um “diferencial”, pois quebrar a moralidade significa “poder fazer mais” que os outros.

Com todos os elementos vistos nos textos anteriores da série, já temos condições de entender como é que uma seita política online consegue executar tantas e tão volumosas ações imorais sem se envergonhar disso. Ao contrário, se orgulham do que estão fazendo.

Para facilitar nossos exemplos, vamos observar o contexto das seitas políticas online, especialmente no caso de Oliveira e seus asseclas que, na Nibéria, passou a contar com o uso de linchamentos virtuais de desafetos (mesmo da direita), o que torna os membros da seita  danosos  para as coalizões políticas.

Armadilhas da moralidade

O processo que precisamos compreender pode ser descrito, por um modelo via dinâmica social, como “normalização da imoralidade”, que significa tornar práticas anteriormente tratadas como imorais agora aceitáveis, mas, é claro, desde que cometidas pelo seu grupo. Para isso, é preciso compreender alguns aspectos importantes de como isso pode funcionar dentro das seitas.

O que é moral?

Um dos termos mais abrangentes e complexos em debates é a moral, tanto que milhares de páginas já foram gastas sobre o tema, principalmente pela filosofia, pela teologia e pela religião. Nas últimas décadas, a moral se tornaria objeto de estudo da psicologia social.

Tecnicamente, moral significa a capacidade de diferenciar ações, intenções e decisões quanto à sua adequação ou inadequação perante à sociedade. Já ética significa a fundamentação teórica para definir o melhor estilo de vida tanto na esfera pública como privada. Para a dinâmica social, moral e ética são características da moralidade. Na filosofia, os termos são distintos. Para simplificar as coisas, ter um senso moral significa nutrir a capacidade de observar algumas regras que norteiam a conduta humana para uma boa convivência. O item mais básico, presente em todas as religiões é algo como “não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizerem com você”.

Pela teoria dos marcadores somáticos, isso se baseia na empatia. É por isso que a ideia de “seres de pura razão” é fictícia; é que os seres humanos nem sequer teriam construído códigos morais se não existisse a capacidade de nossa mente de sentir as dores alheias. Pense, por exemplo, em uma cena de filme de terror em que um personagem tortura alguém amarrado a uma cadeira. Quando alguém vira o rosto ou sente algum incômodo com a cena (como ocorre com a maioria das pessoas) é por “sentir a dor do outro”. É que as áreas cerebrais utilizadas para sentir a dor alheia são as mesmas que usamos para sentir a nossa própria dor. Não é por outro motivo que empatia signifique “sentir a dor do outro”. A existência destes marcadores somáticos em nossas mentes, conforme nosso aprendizado de vida, nossa vivência cultural e nossos instintos básicos, é o que faz com que os sistemas morais tenham sentido. Sem essa capacidade humana, ninguém iria se importar com a dor alheia.

Todas as sociedades possuem códigos morais, mesmo que existam diferenças em certos pontos. A alteração no zeitgeist (espírito do tempo) provoca modificações nesses códigos morais. É por isso que hoje em dia a escravidão é considerada imoral, embora tenha sido prática comum nos tempos passados. Ainda que esse zeitgeist se modifique, algumas construções morais básicas dificilmente se alteram em sociedades sadias. Considere regras como “proteção dos vulneráveis” (seja pelas vias estatais ou privadas, via caridade) ou “evitar punição de inocentes”, que são presentes em qualquer sociedade humana. Nesses moldes, podemos falar em uma “moralidade básica”, que permite identificar se alguém age de forma antissocial em termos morais.

Convém também lembrar que essas regras morais afetam os psicopatas, que, por não terem empatia, usam os sistemas morais conforme sua conveniência. Outra coisa é que boa parte das pessoas também quebra os códigos morais diariamente, mas, quando o fazem, tentam esconder suas “vergonhas”, pois há um senso moral na sociedade exterior para julgá-los. Logo, quando dizemos que há um “senso moral” isso não significa que todos passem a segui-lo; significa, apenas, que as quebras desse código moral devem ser vistas com vergonha, e jamais ostentadas.

Para começo de conversa, precisamos compreender alguns elementos básicos da moralidade, válidos para qualquer grupo social. Vejamos os elementos básicos para equação moral:

  • Senso moral
  • Empatia
  • Senso rudimentar de equidade
  • Senso rudimentar de justiça
  • Reputação moral
  • Altruísmo autêntico
  • Punição altruísta
  • Monitoração bidirecional

A começar pelo senso moral, como já vimos, é a capacidade de perceber as ações como morais ou imorais. Por conseguinte, a propaganda pode afetar essa capacidade, pela maquiagem das informações. Uma ditadura pode convencer o público de que um sujeito cometeu algo que realmente não cometeu. Quando isso acontece, o senso moral das pessoas, em geral, é afetado.

Quanto à empatia, é a capacidade de sentir a dor dos outros. Um sistema autoritário pode encher a mente das pessoas com propaganda para que ela deixe de sentir empatia por certos grupos ou pessoas.

O senso rudimentar de equidade não tem nada a ver com esquerda ou direita, mas sim com a percepção de que as divisões de recursos são justas ou não. A título de ilustração, a meritocracia, mais defendida pela direita, tem uma perspectiva de como aplicar este senso de equidade, com foco nos resultados, enquanto o igualitarismo, mais defendido pela esquerda, adota códigos que enfocam principalmente o trabalho.

O senso rudimentar de justiça fala da percepção sobre quais ações devem ser incentivadas e quais ações devem ser punidas. Tanto como o item anterior, eles são definidos como “rudimentares” pois estão distribuídos na população, que geralmente não possui todas as informações. Tanto o senso rudimentar de justiça como o senso rudimentar de equidade podem ser discutidos, de forma mais ampla, pela filosofia, pela ciência ou pela religião.

A reputação moral significa o “selo” que alguém ou grupo recebe de acordo com suas atitudes públicas quanto à moralidade. Considere um pedófilo exposto pelos seus crimes. Com o repúdio público a esta atitude, sua reputação moral diminuir.

A ideia de reputação moral pode dar a impressão de que as sociedades são baseadas apenas em atitudes morais que abaixam ou diminuem sua reputação moral. Ou seja, alguém só praticaria o bem se outros tiverem olhando. Por sorte, não é assim. A manutenção da reputação moral é apenas um dos componentes da moral. Outro, em complemento, é o altruísmo autêntico, em que as ações morais são instintivas e não focam em nenhum ganho pessoal. Vemos isso a todo momento.

Pense em alguma vez em que você assistiu a um vídeo de alguém sendo morto, de fato. Se você se sentiu mal, não pensou em sua reputação moral, mas teve sensações inconscientemente e desinteressadamente. Seres humanos sadios (sem contar os psicopatas) são assim na maior parte do tempo. Em suma, não precisamos estar “ganhando” ou “perdendo” para nos sentirmos motivados a promover a moral ou mesmo fazer ações morais.

Para concluir esta equação, temos a monitoração bidirecional, que significa a observação que fazemos de nossos atos, em relação ao mundo, e de como os outros nos observam. Na sociedade, a reputação moral de indivíduos abaixa ou diminui de acordo com essa monitoração.

O que importa, é que, de forma básica, temos como identificar de alguns comportamentos básicos de moralidade estão sendo exercidos ou não. Tecnicamente, a utilização de linchamentos virtuais por Oliveira e seus asseclas jamais seria considerada uma estratégia moral por pessoas sadias.

Capital Social

Como Oliveira possui uma seita política, ele desenvolveu uma forma específica e que deixa desconcertadas outras pessoas da direita. Agir diante de outros direitistas – desde que não estejam submissos a ele – da mesma forma que trataria os piores inimigos. Por isso, temos que avançar um pouco mais e falar do conceito de capital social.

Basicamente, é normal que as pessoas possuam favoritismo de grupo, mas nem isso justifica a completa quebra da moralidade. Para entender como isso funciona, considere os intragrupos – que são aqueles pertencentes ao seu grupo – e os extragrupos, que estão entre os de fora.

Imagine agora que esquerda e direita sejam dois grupos gigantescos. Dentro de cada um deles, existem subgrupos. Do lado da direita, existem liberais, conservadores, reacionários, neoconservadores, etc. Do lado da esquerda, existem sociais democratas, marxistas, adeptos da terceira via, trabalhistas, a tropa do politicamente correto, etc. Dentro da nova esquerda politicamente correta, por exemplo, existem novos subgrupos, com as pautas identitárias.

Seja lá como for, dentro de cada grupo existe o favoritismo maior a quem pertence a ele. Não apenas isso vale para as questões políticas, como para outros subgrupos, alguns acima da esfera ideológica, como categorias profissionais, religiosas, etc. É por esse motivo que, quando um jornalista é vítima de um ataque, outros jornalistas saem em sua defesa de uma forma mais incisiva do fariam se o ataque fosse feito a um não jornalista. Tudo isso é plenamente normal e explicado pelo favoritismo de grupo.

Nessas definições de intragrupos e extragrupos, geralmente existe um certo nível até “onde não se pode chegar” nas quebras de moralidade nos conflitos entre eles. É por isso que mesmo que PT e PSOL tenham brigado tantas vezes, eles se uniram contra o impeachment de Dilma Rousseff. Isso porque, enquanto “esquerda”, há um certo limite que não pode ser ultrapassado nesses conflitos internos, até para que as pontes não sejam quebradas em termos de uniões futuras.

Por outro lado, no caso da Nibéria, especificamente com os grupos políticos ligados a Oliveira, a regra era outra: quaisquer outros indivíduos e grupos que estivessem em seu caminho, mesmo sendo de direita, eram tratados de forma até pior que esquerdistas. Ou seja, quebra-se o ciclo de convivência básica até mesmo em grandes conflitos políticos, imperando-se um ambiente de completa falta de ética de grupo. A pergunta é: por que?

Encontramos parte da resposta na tese do capital social, uma das teorias que a direita brasileira mais desconhece, de modo bastante irresponsável. Antes de qualquer outra coisa, é bom que se diga que o termo “capital social”, em política, não guarda relação alguma com o termo relacionado a relação societária nas empresas. Foi em sua redescoberta do termo no início dos anos 70 que o cientista político Robert Salisbury investigou como a confiança e a reciprocidade podem significar uma forma de “capital”, algo não tão facilmente tangível, mas potencializador de resultados dos grupos sociais.

Como critério útil para ampliar essas chances de sucesso, entraria em cena um alto nível de capital social. Não há dúvida de que, para operar em conjunto, as pessoas precisam dentro do grupo precisam ter um certo nível de confiança e reciprocidade entre eles.

Não é apenas com a força bélica que um Exército pode contar, mas também com a confiança entre os membros do grupo na tentativa de derrubar inimigos. Seria difícil até cochilar com medo de outro soldado do pelotão te degolar para roubar seu relógio de ouro. Este é o valor da confiança. No mundo em que conhecemos, o excesso de esforço de vigilância toma tempo e reduz os resultados.

Não precisamos encarar o fracasso destes “elos” em situações extremas como o fracasso da conquista de capital social. É claro que, debaixo de um bombardeamento por napalm, com várias pessoas com os corpos em chamas, haverá um momento em que é “cada um por si e Deus por todos”. De qualquer forma, na maior parte dos momentos, haverá a luta em conjunto. Ampliando o conceito de capital social, Robert Putnam usou dois conceitos em seu livro “Bowling Alone”: bonding e bridging.

No primeiro caso, do bonding, falamos das redes sociais entre grupos homogêneos. Um mero exame preliminar sobre grupos religiosos ou minorias unidas por uma luta mostra que eles se juntam em grupos e redes para fazer avançar suas necessidades coletivas. O bonding explica como as sociedades fazem prosperar as formas tradicionais de capital social através da família, parentesco, comunidades e demais associações voluntárias, mas sempre em núcleos restritos.

Com o bridging, a coisa avança um pouco mais, pois tratamos das redes sociais entre grupos socialmente heterogêneos. É por isso que o termo, no original, é “ponte”, pois fala de troca de informações entre grupos diferentes, visando convergência diante de interesses diversos, ampliando o “raio de confiança”. Para facilitar o entendimento, considere que cada organização política, ou partido, está unida pelo bonding, mas quando elas se juntam para lutar contra um inimigo em comum, falamos do bridging.

Reconhecer que não há regras estabelecidas para se medir um bom nível de capital social não é o mesmo que deixar de apontar uma boa prática: um bom nível tanto de bonding como de bridging é útil na luta contra um inimigo fundamental ou algo próximo disto. A teoria do capital social não é mera explicação para a ação política, mas algo que permite o entendimento de como os grupos podem render mais ou menos de acordo com certo nível de confiança e reciprocidades quando se unem diante de uma ameaça maior.

Seria ingenuidade dizer que é possível ficar livre das sabotagens ocorridas em partidos e diversas organizações políticas, mas, num contexto de bom nível de capital social, o ideal é que elas jamais sejam publicizadas, o que geraria a perda de confiança. Está no bom nível de capital social a explicação para que quilombos se unissem contra escravagistas e guetos contra oficiais nazistas.

Já deveria ficar óbvio que, se o objetivo de um código de conduta é dizer quem está dentro ou fora de grupos, isto pode derivar para um código de luta, nem de longe restrito a essa definição, mas também até tratando das possíveis alianças. Na inexistência de códigos de luta, alguém pode tratar alguém do seu lado como se trata um inimigo fundamental. Se, para se unir contra inimigos em comum é preciso de bons níveis tanto de bonding como de bridging, um déficit nesse sentido pode levar a uma diminuição drástica da ética de grupo. Obviamente isso aumenta a instabilidade nos jogos internos de poder.

Em essência, o que acontece é que a seita, por ser composta de pessoas acostumadas a pensarem como se fossem “ungidos”, entendem que todos do lado de fora são a escória moral. Todos eles. E, por isso, códigos morais não se aplicam. Logo, eles só investem em capital social do tipo bonding. No mundo externo à direita niberiana, trabalha-se com bonding e bridging.

Com isso, em praticamente todas as alianças entre outros setores da direita e aqueles ligados à seita, este últimos sempre passam a rasteira nos primeiros. Como prova de que se sentem superiores, chegam a publicizar seus atos. Certo dia, um dos integrantes de um canal de mídia pró-oliveira, Jonas Mukantagara, entrou em um grupo de WhatsApp de várias pessoas de direita. Em seguida, apareceu em público dizendo o seguinte:

Ei, prestem atenção, consegui um áudio privado de um grupo de WhatsApp em que um crítico ao nosso mestre Oliveira está reclamando do autoritarismo do governo. Vamos ouvir? [em seguida, James começa a tocar o áudio em público]

Em qualquer sociedade tradicional, isto seria inaceitável, pois envolve a violação de comunicação privada. Envolve, também, quebra de confiança básica. Moralmente, é inaceitável em todos os casos. O detalhe é que isso também poderia ser praticado pela via da sabotagem. Mas preste atenção no que aconteceu: Mukantagara contou, orgulhosamente, em público que fazia esse tipo de atitude. Não foi nada escondido.

Isso se explica porque seu programa se dirigia ao público da seita, que adota como regra que não há nenhuma regra moral e nenhum limite contra quem não é integrante. A partir de um ponto, vários deles – estimulados pela atitude orgulhosamente ostentada por Mukantagara – começaram a entrar em grupos e vazar conversas.

Quanto aos outros grupos, que esperavam a mínima demonstração de bridging, estes sempre eram pegos de calça curta. Já para a seita, tudo era normal. Desta forma, isso ajuda a explicar como as seitas também podem conseguir poder: por saírem da esfera de previsibilidade dos que estão fora dela. Mas isso é apenas parte da equação para entender como eles transcendem fácil a moralidade tradicional: porém, tudo começa com o fato de que eles só devem satisfação moral ao próprio grupo fechado, e, em seu favoritismo de grupo, exercem apenas o bonding, mas jamais o bridging, a não ser de maneira dissimulada.

O “Eu dividido”

O “problema”, para eles, é que o ser humano ainda continua sendo um animal moral, a não ser no caso dos psicopatas, que não passam de 2% da população. O que acaba acontecendo, então, para que os discípulos, antes seres moralmente normais, se tornem pessoas adeptas a aceitar qualquer tipo de imoralidade quanto aos extragrupos?

Tudo também depende da ideia de moralidade superior do grupo, que não é questionada. Assim, os demais grupos – os de fora da seita – são automaticamente considerados inferiores nos quesitos morais. Não se trata mais de divergência de ideias, mas de pessoas que moralmente significam uma escória.

Este clima febril ajuda a criar uma identidade fraturada, que costumeiramente se chama de “eu dividido” nos estudos sobre seitas. Kramer e Alstad explicam que essa noção de que “o campo de batalha cósmico entre o bem e o mal (Deus e Satanás) não apenas dualisticamente divide a realidade, mas cria uma divisão dentro da psique”. Isso significa impor tantos rótulos demoníacos aos inimigos (que são aqueles que não estão no grupo) que “um pouco de maldade não fará mal” na luta contra eles. Eles escrevem:

Assim, a batalha continua em uma base individual entre o aspecto de si mesmo que é rotulado como bom (os elementos que dão amor, cooperação, compaixão e altruísmo) e o aspecto rotulado de ruim (as diferentes expressões de egocentrismo). Tornar-se um satanista é uma maneira de acabar com a batalha – uma maneira mais fácil do que se tornar um santo.

Isso se observa numa famosa frase em que pessoas que cometeram crimes disseram que “o diabo me fez fazer isso”. Nas doutrinas religiosas, isso é tratado como possessão demoníaca. Para a psicologia, trata-se de um fenômeno de “eu dividido”, em que alguém parece estar acometido por uma segunda personalidade. Esse processo não ocorre conscientemente, na maior parte dos casos; é inconsciente, mas, acometido por emoções intensas, alguém começa a aceitar qualquer tipo de atitude.

Os autores seguem:

O satanismo é apenas um exemplo extremo de como um ser humano dividido tenta lidar com o conflito interno dando ascendência ao que é definido como ruim. Isso é particularmente atraente se a atitude “boa” não valeu a pena. Em nossa observação, muitas pessoas convivem com graus variados dessa divisão dentro de si. Aqui a vida se torna um campo de batalha para o controle entre o “eu” bom ou o chamado eu superior e o “ruim” ou eu inferior. A guerra interna entre compartimentos “bons” e “ruins” altamente condicionados pode parecer um modelo excessivamente simplista, mas não é mais simplista do que sua fonte – um universo dividido em bem e mal, Deus e o Diabo. Talvez o exemplo mais bizarro de compartimentalização seja a psicopatologia conhecida como transtorno de personalidade múltipla, na qual um corpo parece estar carregando um número de personalidades distintas. Alguns deles são por vezes cientes da existência de alguns dos outros. O drama dentro dessa pessoa se torna “Quem está no controle?” Curiosamente, uma “personalidade” raramente tem outra em alta estima. A única constante em todos os casos de múltipla personalidade parece ser que a pessoa foi severamente abusada e traumatizada enquanto era uma criança.

O conceito de “eu dividido” não precisa ir ao extremo de múltiplas personalidades. Duas já bastam. Ao ser criada uma nova personalidade, as demais pessoas já não o reconhecem mais. A certo momento, vários amigos de pessoas da seita sentem que até passam a ficar sob ameaça. Assustadas, perguntam: “o que está acontecendo com você?”.

O que acontece é que o discípulo começou a criar um vínculo apenas de fidelidade à seita. Ademir Gahiji, um dos novos integrantes da seita de Oliveira, passou a ameaçar outras pessoas de um grupo de amigos que se reuniam para discutir política. Vale notar que o grupo sempre foi diversificado, respeitando as diferenças ideológicas entre eles. Após começar a se deixar doutrinar, Gahiji, passava a dizer: “Olhe, fique no seu lugar e pare de ficar falando essas coisas; uma hora vamos te colocar no seu lugar!”. Outros amigos perguntavam: “Gahiji, que diabos está acontecendo com você?”. Aos poucos, notou-se que Gahiji estava tão envolvido pelo clima de “bem e mal” absolutos (com aqueles do lado de fora da seita sendo considerados como escória) que seus amigos não o reconheciam mais. A nova personalidade de culto já tomava a dianteira acima da personalidade original.

Para superar a moral

Assim, vemos que a seita possui uma noção de moral que habilita-os a fazer qualquer coisa contra quem está de fora da seita, pois a noção deles de capital social é baseada unicamente em bonding (com foco na seita), além de que o próprio “eu dividido” já aceita uma personalidade totalmente distante dos sentimentos mais espontâneos que tinha antes de se submeter psicologicamente. A seguir, veremos mecanismos da mente e padrões sociais que potencializam a quebra da moral. Combinando-os com diversos vieses vistos anteriormente temos os seguintes vieses e mecanismos:

  • Desvalorização reativa
  • Viés de autolicenciamento / credenciamento moral
  • Favoritismo no grupo
  • Efeito espectador
  • Código azul do silêncio
  • Mentalidade de manada / mentalidade de gangue
  • Projeção psicológica
  • Bode expiatório

Para facilitar nosso entendimento, daqui para o final do texto utilizaremos exemplos envolvendo a mania de Oliveira e seus discípulos resolverem tudo com linchamentos virtuais, o que é uma prática condenável. Mesmo assim, é considerada totalmente aceitável se for feita pelo grupo contra o mundo exterior e se o alvo do ataque não for um discípulo, é claro.

Desvalorização reativa

O viés da desvalorização reativa, em termos simples, significa a desvalorização de uma ideia, proposta ou argumento de acordo não com seu conteúdo, mas com quem a originou; caso venha de um antagonista, ela é automaticamente desvalorizada. Os estudos originais deste viés são de 1988 e foram feitos por Lee Ross e Constance Stillinger.

Nos estudos, os pesquisadores foram às ruas e pediram apoio aos transeuntes sobre um programa radical para reduzir armas nucleares, de ambos os lados, envolvendo URSS e EUA. Ao serem informados que a proposta fora feita por Ronald Reagan, 90% ficaram a favor. Já se elas vissem que a proposta vinha de analistas não identificados, 80% a apoiavam. Porém, se soubessem que a proposta fora feita por Mikhail Gorbachev, apenas 44% a apoiavam.

Ciente deste viés, Oliveira costuma “marcar” algumas publicações da mídia que publicam conteúdo que ele não gosta e, então, já pede o boicote às publicações. Isso faz com que ele nem sequer precise discutir com seus discípulos qualquer notícia publicada nessas mídias “marcadas” como antagonistas.

O uso contínuo de desqualificações contra os discordantes também é feito para dizer aos discípulos que nada que discorde deve ser visto com atenção. Poupa-se um tempo considerável sem ter que se explicar aos discípulos, mesmo que as acusações sejam reais.

Viés de autolicenciamento / Credenciamento moral

Com este viés, as pessoas se “aproveitam” de seus preconceitos particulares para seu benefício. Isso porque as pessoas dão a elas próprias e aos outros uma espécie de “licença” para fazer determinados atos. O problema é muitas vezes que os critérios são, como é de se esperar, arbitrários.

Em complemento à desvalorização reativa, isso explica como judeus e palestinos fazem narrativas históricas completamente diferentes, ficando ambos convencidos de que possuem a verdadeira e única visão. Com este viés, alguém observa suas falhas de uma maneira muito diferente do que observaria as falhas dos outros, especialmente os que estão fora do grupo.

Isso pode ser visto até em situações básicas. Por exemplo, quando olhamos para outras pessoas que “furam” a dieta, isso deve ser porque estão com falta de vontade. Mas podemos “furar” a dieta que teremos perdão. Daí mecanismos podem ser utilizados, como tomar uma coca cola zero enquanto comemos um baita hambúrguer triplo e ultra gorduroso. Isto acontece porque obtemos “licenças” dadas por nós mesmos que dificilmente daríamos aos outros.

Este viés pode claramente ser levado para as questões morais, no que se chama de viés de credenciamento moral. Aí é simples: consideramos nossas ações de quebra da moralidade mais aceitáveis, pois temos motivos para isso. Já os motivos dos outros não são levados em conta. Consequentemente, nossas falhas morais são perdoáveis, mas as dos outros não. Como a mente é eficiente em criar esses mecanismos engenhosos com base na dissonância cognitiva, podemos até realizar uma boa ação para depois realizar um ato imoral. É como se fosse o matador profissional que ajuda uma velhinha a atravessar a rua e, logo em seguida, vai executar seu alvo. Evidentemente, ele se sente “perdoado”, mas não daria o mesmo perdão aos outros.

No caso de Oliveira, ele sempre pede esse “voucher”, mesmo quando promove seus linchamentos virtuais. Em seguida, ele afirma, aos seus discípulos:

Tudo isso que aconteceu é justificável, pois temos sido muito atacados. Ninguém tem piedade de nós. É preciso ter algum senso de proporções. Logo, nada há do que se arrepender. O que foi feito é extremamente justo, diante das condições em que nos encontramos com tanta pressão por todos os lados.

Observe que o trecho acima dá algumas “licenças” para o ato imoral, mas isso jamais seria aceito para qualquer um de seus opositores. Logo, os linchamentos virtuais sempre serão vistos como “desculpáveis”, o que jamais ocorreria com opositores.

Favoritismo de grupo

O favoritismo de grupo é uma sequência dos dois vieses anteriores e fala da tendência de privilegiar os membros do grupo na comparação com os que estão fora. Às vezes, o viés é denominado viés intragrupo. Assim, as pessoas que pertencem ao grupo já recebem uma “validação” antecipada, basicamente porque “são da panelinha”.

Nas empresas, costuma ser um drama para muitos funcionários inexperientes quando eles acham que serão avaliados da mesma forma que os outros, mas cada liderança possui suas “panelinhas”. Isso, é claro, influencia a avaliação. Com o tempo, as pessoas percebem que existe algo mais do que a mera competência para que ela seja julgada por seu real valor.

Devemos considerar, por exemplo, os principais formadores de opinião elencados pelo guru como parte de uma elite dos melhores influenciadores. Com o tempo, nota-se que essas pessoas não são julgadas por suas efetivas qualidades, mas por sua fidelidade ao grupo. É assim que o guru elenca uma lista dos 20 maiores intelectuais da Nibéria, e pede que seus alunos os acompanhem. Curiosamente, ele selecionou exatamente os que o apoiavam. Não apenas para a aptidão, como para o julgamento moral, o favoritismo no grupo é utilizado para definir quem está “certo” ou “errado” em qualquer disputa moral.

Efeito espectador

Um caso terrível ocorrido em 13 de março de 1962 – a partir das 3 horas e 15 minutos da madrugada – em Nova York deu margem ao estudo deste viés. Catherine Genovese, gerente de um bar, voltava para sua casa no Queens, em Nova York, após um dia de trabalho. No caminho, foi esfaqueada por um homem, mas conseguiu espernear e gritar, até escapar e chegar até sua casa. Todavia, o bandido foi atrás dela, entrou em sua casa, a esfaqueou novamente, roubou seu dinheiro, a estuprou e, somente depois, a deixou para morrer. Quando a polícia chegou, ela ainda estava viva, mas morreu a caminho do hospital.

Além da brutalidade do crime, havia outro fator macabro: 38 pessoas testemunharam ao menos os gritos e mesmo assim não chamaram a polícia. Detalhe: ela agonizou por 33 minutos, pedindo socorro até a polícia chegar. Somente após todo esse tempo é que alguém ligou para a polícia.  Entre as desculpas dadas pelas pessoas estava coisas como “eu não queria me envolver” ou “fiquei com medo de represálias”.

Este é o efeito espectador, estudado por Bibb Latané e John Darley, que descobriram porque as pessoas ficam menos propensas a ajudar quando estão vendo alguém em apuros, mas não são as únicas testemunhas. Ou seja, se alguém está testemunhando alguém em apuros e está sozinho tende mais a ajudar do que quando está em grupo.

Philip Zimbardo explica bem o fenômeno no vídeo abaixo e as razões para isso:

Ciente disso, Oliveira entendeu que as pessoas não iriam ajudar tanto as vítimas de linchamentos virtuais, motivo pelo qual selecionou essa como uma de suas principais estratégias.

Código azul do silencio

Não tanto um viés, como um padrão comportamental, o termo Código azul do silêncio também é chamado de parede azul do silêncio. Foi utilizado para denotar a regra informal que supostamente existiria entre policiais de não relatar má conduta, crimes e erros cometidos por outros policiais.

Quando questionado por um incidente de conduta indevida envolvendo outro policial, aquele que segue o código dirá que não viu nada ou não tem ciência do delito. No fundo, este é também um padrão corporativista, previsível nos agrupamentos humanos em geral, não apenas em policiais.

Para uma seita, isso é extremamente útil para que as pessoas que a ela pertençam evitem comentar algo sobre os delitos cometidos. Em virtude disso, Oliveira sempre é contestado por vários casos de linchamento virtual, mas nos grupos geralmente pessoas que pertencem à seita costumam dizer que “não viram nada” (especialmente quando estão em desvantagem). Se estiverem em vantagem, podem até defender o ato.

Certo dia, um assassinato de reputação cometido foi exposto em um grupo de discussão onde estava um dos discípulos, que ocupava posição de desvantagem em relação ao resto. Este foi o diálogo:

– O que você diria da falsa acusação de estupro no linchamento virtual contra Norberto Diouf? Não acha repugnante?
– Se isso realmente aconteceu, é repugnante.
– Então veja aqui as provas. Foi o guru que começou com essa conversa.
– Verei e avaliarei o caso.
– Aqui está o link. Avalie.
– Avaliarei o caso e te digo.

Sempre empurrando com a barriga para não ter que avaliar o caso, o discípulo acabou saindo do grupo. Ficou com medo de dizer que o linchamento seria imoral e ser observado por outros integrantes da seita que porventura estivessem por lá. Em suma, este é o código azul do silêncio.

Mentalidade de manada / mentalidade de gangue

Como já vimos o efeito manada, a consequência dele é a própria mentalidade de manada. Se o efeito manada é visto a cada decisão, a mentalidade de manada tem a ver com a maneira pela qual as pessoas continuamente se deixam influenciar pelos pares de acordo com aquilo que o grupo a qual pertenceram faz.

Evidentemente, serão decisões diferentes das que tomariam se não pertencessem ao grupo. Vários outros vieses como pensamento de grupo e desindividuação são importantes para que isso se mantenha.

O primeiro grande estudioso ao assunto foi Gustave Le Bon, em sua obra Psicologia das Multidões, de 1895 (que já citamos anteriormente). Um vídeo simples, de 3 minutos, dá um bom exemplo do que ocorre:

Nem é preciso dizer muito que isso explica porque a tática dos linchamentos virtuais acaba sendo tão eficiente.

Projeção psicológica

Muitos provavelmente já ouviram falar de uma lenda segundo a qual Lênin teria criado um suposto lema dizendo “acuse-os do que fazemos”. Na verdade, isso nunca existiu. Porém, o ser humano possui um mecanismo capaz de habilitar isso.

A projeção psicológica é um mecanismo de defesa para que as pessoas neguem que certas falhas ou vícios existam em si atribuindo-as aos outros. Isso faria um sujeito que atrasa a entrega de seus projetos começar a acusar os outros de fazê-lo. Não apenas em nível inconsciente, há uma função tática para isso: quando ele atrasa o projeto, já terá lançado a fama de “não entregar na data” aos outros, sofrendo menos consequências.

Oliveira chegou a desenvolver um método de lançar uma acusação prévia de que estaria sofrendo um linchamento virtual das vítimas. Como exemplo, Marcio Matsimela é um jornalista que avisou que escreveria um livro contando as experiências que teve ao assistir os treinamentos de Oliveira. Todavia, avisou que seria um livro crítico.

Antecipadamente, Oliveira acusou Matsimela de estar com a intenção de linchá-lo virtualmente ao escrever o livro. Detalhe: o livro nem fora lançado. Mesmo assim, iniciou um linchamento virtual contra o escritor. Ou seja, ele acusou o outro do que ele decidiu fazer.

Bode expiatório

Segundo René Girard, o mecanismo do bode expiatório pode explicar muitas das atrocidades contra inocentes. Nas palavras do autor, as diversas mitologias religiosas sempre tiveram espaço para a figura do bode expiatório e como elas foram sempre “úteis” para esses grupos em algum momento.

Tecnicamente, a vingança não existe entre os animais, mas é um fenômeno humano. Isto poderia fazer a espécie humana se autodestruir, principalmente quando há crises de rivalidade, quando pessoas disputam o mesmo objeto (exemplo: um cargo, uma posição ou qualquer outra coisa). Com este tipo de disputa, os conflitos infindáveis acabariam com a sociedade.

Todavia, quando se criam alianças contra inimigos em comum, as pessoa “esquecem” um pouco as diferenças. Assim, mais forte do que o “amor”, como elemento que une as pessoas, o ódio em comum é o que mais as unifica. Como se espera, pessoas com algumas rivalidades podem se unir para destruir um inimigo comum a elas: esta é a figura do bode expiatório.

Tal como nos mitos, continuamente a violência coletiva é lançada contra uma única vítima. É por isso que Oliveira geralmente escolhe um alvo fixo para ficar atacando por dias. As pessoas se sentirão empolgadas, mesmo que tenham algumas diferenças entre elas. Geralmente, as vítimas são inocentes, pois foram escolhidas conforme a conveniência e não por sua culpa real.

Quando um linchamento virtual ocorre, isto requer a escolha de um bode expiatório. Essas pessoas receberão uma culpa – muito provavelmente falsa – e as maltas se sentirão bem ao destruí-la.

Por exemplo, Oliveira se acostumou a atacar vários liberais. Uma forma de satisfazer alguns deles é colocar vários a seu favor para destruir, por exemplo, um líder jurista, já que ele está pressionando pela indicação de uma pessoa ao seu lado para o cargo. Observe que os liberais podem estar inconscientes, mas entram no jogo para bater no “rival em comum” (definido por Oliveira), esquecendo-se de que as tropas que seguem o guru tem algo preparado para eles depois. Escolher bodes expiatórios é também um mecanismo de distração.

Desengajamento moral

Um dos mais poderosos modelos para explicar os diversos comportamentos imorais do ser humano é a tese do desengajamento moral, de Albert Bandura.

Unificando vários dos pontos anteriores, mas de uma forma tão sintética quanto completa, o desengajamento moral é o processo em pelo qual alguém convence a si próprio que os padrões morais podem ser “revogados” numa questão específica. O detalhe é que as pessoas se auto condenam quando cometem alguma imoralidade. Mas há uma série de mecanismos mentais que podem “revogar” esta auto condenação e justificar e até incentivar condutas desumanas.

O desengajamento moral faz uma reformulação cognitiva do comportamento danoso – transformando-o em algo moralmente aceitável – sem precisar mudar o comportamento e os padrões morais. Existem os seguintes padrões moduladores que provocam esse “desengajamento” da pessoa em relação aos padrões morais normalmente aceitáveis:

  • Justificação moral
  • Comparação vantajosa
  • Rotulagem eufemística
  • Distorção das consequências
  • Desumanização
  • Culpabilização da vítima
  • Transferência de responsabilidade
  • Difusão de responsabilidade

Como um método, vamos, seguindo nos exemplos dos linchamentos online, observar como um dos escolhidos de Oliveira, Sam Karamojong, utilizaria discursos para influenciar até mesmo aqueles discípulos indecisos a aceitarem qualquer ação imoral.

Vamos falar do caso de Janet Kijuyu, jornalista que teve um relacionamento com Richard Ikinya. A certo momento, ela fez uma crítica pública ao guru, dizendo que seu comportamento era irracional. Em contrapartida, discípulos relevantes se juntaram para vazar conversas de Ikinya e até montagens pornográficas de Janet, que foram compartilhados por Karamojong. Vistas do lado de fora, todas essas atitudes são consideradas extremamente imorais. Após a devastação que causaram na vida do casal, contudo, como um dos principais discípulos de Oliveira justificaria tudo isso (numa situação tão grave que nem mesmo o guru quis tocar no assunto)? Veremos a seguir nos padrões moduladores.

Justificação moral

No padrão modulador da justificação moral, alguém diz que a atitude foi moralmente justificável, geralmente em prol de um “objetivo maior”. É assim que um terrorista justifica um atentado terrorista, ao mencionar que “a causa da libertação vale qualquer sacrifício”. Assim, a imoralidade se justifica por uma causa maior.

Karamojong, que possui um blog pró-Oliveira, é reconhecido publicamente por ter levantado a hashtag #kickthebitchkijuyu, que incentivou toda a campanha de linchamento virtual. Além disso, divulgou áudios privados de seu namorado, publicou fotos pornográficas e diversas informações falsas. A certo momento, Karamojong escreve, em seu perfil, após a mídia expor sua responsabilidade nesse caso:

A atitude de condenação pública aos atos perversos cometidos por Janet Kijuyu, em extremo desrespeito ao professor Oliveira, é algo que já deveria ter sido feito há bastante tempo. Finalmente, corrigimos esse débito para com nosso mestre. Não se tolera um desrespeito assim. Se não fizermos, isso, ignoramos a causa maior, que é livrar a Nibéria do culto vampírico financiado pelos globalistas.

Observe acima que Karamojong não pede desculpas em um momento sequer. Em vez disso, justifica tudo que fez, sem deixar de lembrar que há uma causa maior para seus atos. Neste caso, ele diz que está fazendo isso para “livrar a Nibéria do vampirismo”. Neste exemplo, Karamojong não acredita em suas palavras, mas este é um discurso feito para explorar um padrão modulador dos diversos discípulos que serão influenciados por ele. Não se esqueça que ele é um dos escolhidos do guru.

Comparação vantajosa

Com a comparação vantajosa, o perpetrador da imoralidade compara o seu ato de maneira favorável ao que o outro fez. Apelando ao viés do impacto típico do ser humano, aproveita-se do fato de que os julgamentos humanos dificilmente são justos, mas sempre modificados de acordo com o que é comparado. Não surpreende que isso faça as pessoas ficarem confusas em vários momentos.

Este é o clássico: “eu fiz, porque eles fizeram algo pior”. Ora, se a mente humana aceita que um “mal menor” serve para combater “um mal maior”, temos como corolário que se comparar moralmente à sua vítima, de forma vantajosa, explora este mecanismo mental. Observe o que Karamojong escreve em seu perfil:

Preste muita atenção nisso que a mídia está fazendo ao me expor como criador da hashtag. Compare o que estão dizendo o que eu fiz com o que Janet Kijuyu e seu namorado Richard Ikinya efetivamente praticaram. Para começo de conversa, eles defendem o globalismo, que é uma ideologia que todos sabemos estar ligada ao surto de vampirismo aqui na Nibéria. Todos nós sabemos que o vampirismo já atuou de forma genocida no passado e tem um plano genocida para ser praticado contra nós em alguns anos e, por isso, precisamos combatê-los. O que é o dano à vida de um casal perto do genocídio do povo niberiano? Nada!

Observe aqui que Karamojong criou uma narrativa fictícia. Mas o mais importante é notar como esta narrativa faz uma comparação entre dois atos. O primeiro é o que ele cometeu: a convocação ao linchamento público de um casal. O segundo é o genocídio de grande parte de uma nação. Mesmo que ele tenha inventado uma história para a segunda narrativa, as pessoas podem se influenciar e achar algo como: “é, pensando bem, perto de um genocídio, a destruição da vida de um casal não é nada, não é mesmo?”.

Rotulagem eufemística

A rotulagem eufemística envolve o uso de palavras ou sentenças mais “agradáveis” para suavizar o peso conotador das palavras originais. O eufemismo sempre foi um clássico das propagandas de guerra. Por exemplo, dizer que é preciso “neutralizar o alvo” ao invés de “matar os inimigos”, ou mencionar “danos colaterais” em vez de mencionar “morte de civis”.

No dia a dia, se diz que alguém “passou desta para a melhor” em vez de morrer. Nos velhos tempos se dizia que uma mulher trabalhava “na vida” em vez de falar em prostituição.  No politicamente correto, se diz que alguém tem “inteligência limitada” em vez de falar que o outro é burro.

No caso do linchamento público, o mesmo ocorre, conforme descrição de Karamojong:

O que tivemos aqui, bem ao contrário do que a mídia marxista/globalista não quer que façamos, é a contestação a figuras importantes de seu meio. Estão acostumados à falta de contestação e, por isso, ficam tão incomodados. A contestação, no entanto, é parte fundamental da democracia. Certamente existem incômodos para as pessoas contestadas, mas quem já não sentiu incômodos na vida? De qualquer forma, a contestação é sadia e sempre deve ser praticada, sem a qual não temos democracia.

O detalhe é que não falávamos de “contestação incômoda”. Este é um eufemismo adotado por Karamojong para rotular linchamento público a partir de informações falsas e/ou privadas que jamais deveriam ter sido divulgadas. Ao usar o termo “contestação”, ele enganava o leitor em relação ao que realmente acontecia. Em relação a “incômodo”, temos outro eufemismo, mas podemos tratá-lo logo a seguir.

Distorção das consequências

Quando há uma vítima das atrocidades, um padrão modulador envolve distorcer as consequências ou mesmo omiti-las. Em outros casos, é possível tirar o crédito da fonte. Qualquer uma das três alternativas pode ser utilizada, ou mesmo em conjunto. Isso normalmente depende de como as objeções externas são apresentadas.

Vejamos como Karamojong inicia o jogo com uma negativa ao reagir à acusação de ter levantado a hashtag:

Essa é claramente uma informação falsa. Não tenho responsabilidade alguma nisso. E isso mostra como a mídia mente!

Em seguida, dados foram publicados mostrando detalhadamente sua responsabilidade. Foi aí que ele mudou o discurso:

É incrível que tenham falado que eu levantei a hashtag. Ok, eu levantei, mas o que é o levantamento de uma hashtag? Nada além disso aconteceu. É da vida.

Posteriormente, a mídia publicou que a filha da jornalista não conseguia mais ir à escola, envergonhada do que havia acontecido. A jornalista decidira ficar uma semana em casa, por síndrome de pânico. Logo, ele não conseguia mais ficar apenas com a negação. Daí ele se saiu com essa:

Vejamos só. Janet Kijuyu realmente sofreu incômodos, que são coisas normais para as pessoas contestadas. Eu já senti vários incômodos na vida. Todos nós sentimos. É absurdo que ela fique com todo esse mimimi somente porque sofreu um incômodo.

E aqui entra o eufemismo de que falamos antes, mas aplicado como forma específica de distorção das consequências. Em três momentos diferentes, vimos Karamojong (1) negar o que fez, tentando tirar credibilidade da fonte, (2) negar as consequências e (3) distorcê-las, buscando amenizá-las.

Desumanização

A desumanização envolve a retirada das características humanas do alvo. Isso acontece porque as pessoas tem sua “empatia” desligada se percebem o outro como menos humano. O termo foi aprofundado em diversos livros, mas um dos melhores é Less Than Human, de David Livingstone Smith.

Geralmente, os alvos são definidos com termos como “barata”, “víboras”, “ratos” e coisas do tipo. As campanhas dos nazistas contra os judeus, na Alemanha dos tempos de Hitler, ou da liderança hutu radical contra os tutsis, em Ruanda em 1994, adotaram fortes tons de desumanização. Entretanto, o efeito pode acontecer também em ações de linchamento virtual ou qualquer outro modo de retirar traços de humanidade da vítima.

Karamojong escreve:

Preste atenção no que Janet Kijuyu andava escrevendo. Quem expele esse tipo de dejetos só pode ser mesmo uma víbora. Animais peçonhentos desse tipo estão aí para contaminar nossa nação, com mesmo jeito que ratos transmitiam a peste bubônica nos velhos tempos. Nesse sentido, minha hashtag foi um inseticida.

Inconscientemente, os leitores sentem repulsa do alvo. Evidentemente, não é apenas a desumanização que serve para o desengajamento moral. Utilizada em ritmo bate-estaca, entretanto, ela pode ter profundos efeitos psicológicos.

Culpabilização da vítima

Esse padrão significa transferir para a vítima a culpa pelo que aconteceu. É como se fosse dito que a pessoa “fez por merecer” tudo aquilo que a vitimou. Observe o discurso de Karamojong sobre seus ataques:

Eis então que temos isso tudo que aconteceu com Janet Kijuyu, que deve servir como uma boa lição. Ela hoje diz que está com síndrome de pânico, mas foi ela própria que correu atrás disso tudo. Primeiramente, ela se juntou com Richard Ikinya que, como todos sabiam, sempre foi desafeto do Professor Oliveira. Deste jeito, ela não pode saber que não estava ciente. Mesmo assim, aumentou suas críticas ao professor tão logo prosseguiu no relacionamento com Ikinya. Ela poderia ter evitado tudo isso se mantivesse seu apoio ao professor. Em vez disso, o que ela fez? Foi cada vez mais escrevendo tudo que lhe dava na telha, sem ligar para as consequências. Foi ela que escolheu todos esses problemas em sua vida.

No trecho acima, Karamojong ainda lança uma informação falsa para dizer que Janet estava se deixando influenciar por Ikinya, o que era falso. Mas o mais importante é notar que, a todo momento, ele a culpa por tudo que aconteceu.

Entretanto, uma crítica ideológica feita por Janet jamais justificaria um linchamento com base em informações falsas, principalmente quando ela era uma ex-aliada que ainda estava na esfera do debate civilizado.

Transferência de responsabilidade

Com a transferência de responsabilidade, alguém joga a culpa para outro, principalmente se for uma figura de autoridade ou algum significante vazio, como no populismo. Por exemplo, quando Robespierre dizia que as pessoas iam para a guilhotina “em nome da virtude”, estava transferindo a responsabilidade para uma esfera de julgamento de autoridade moral superior. Obviamente, “virtude” pode significar qualquer coisa. No caso de Karamojong, ele também faz uso do populismo para justificar o que aconteceu:

Todos esses problemas que Janet Kijuyu teve tem a ver com uma coisa muito simples que ela demorou a entender. A vontade popular é a que importa. Desse jeito, a hashtag levantada representa a vontade popular. Seria ridículo negar essa vontade popular. Qual de nós seria obtuso a ponto de negar a importância da vontade popular? Aquilo que é feito em nome da vontade popular é inerentemente virtuoso.

Logo, foi feita uma manifestação da virtude.

O detalhe é que Karamojong levantou a hashtag e foi apoiado por dezenas de influenciadores aliados, que nem de longe representariam qualquer “vontade popular”. Decerto, o discurso populista é costumeiramente enganoso, mas aqui ele exagerou! Mas o que devemos observar é como sempre ele transferiu a responsabilidade para uma figura de autoridade, no caso, “a vontade popular”.

Difusão de responsabilidade

Com a difusão de responsabilidade, alguém se sente menos culpado por ter a responsabilidade de um delito compartilhada com outros. Tecnicamente, isso tem um pouco a ver com o efeito espectador, com a diferença que ali fala da indiferença das pessoas em relação a ajudar alguém. Aqui, temos a indiferença das pessoas em relação a sua própria culpa enquanto estão atacando os outros.

Karamojong explora o mecanismo dessa forma:

Antes de tudo, é preciso deixar o mais importante aqui para todos vocês: ninguém tem culpa de absolutamente nada. Olhe quantas pessoas levantaram essa hashtag. Pense: você é apenas mais um. Como pode se sentir culpado? Não há absolutamente culpa de nada. Como já disse anteriormente, essa é a vontade popular. E um pouquinho dessa vontade popular esta em cada uma de nossas ações de levantar a hashtag.

Aqui ele simplesmente diluiu a responsabilidade dele ao “anexar” à responsabilidade de todos que compartilharam seu conteúdo. Unindo-se ao grupo, também disse que cada um deles “estava junto”. Com a responsabilidade compartilhada, fica mais fácil para a massa colocar a cabeça no travesseiro e dormir feito anjinhos.

Normalizadores da imoralidade

Vamos resumir o que vimos até o momento. Basicamente, o jogo da imoralidade começa assim:

  • É normal que guru e discípulos de seita estejam envolvidos com instâncias de comportamento imoral
  • Isso começa com a extrema carga de ódio que eles possuem em relação ao mundo exterior
  • Com o “eu dividido”, cria-se praticamente uma nova personalidade distante de suas sensações morais normais
  • Como o capital social é ligado apenas a bonding, ele atingem qualquer um que apareça no caminho da seita, dificultando suas alianças e prestes a praticar “trairagem” até com pessoas próximas. Isso não afeta apenas os inimigos mais amplos, como qualquer um que não esteja no grupo, pois o número de pessoas para as quais eles devem satisfação moral é muito menor do que o do resto da sociedade.

Junto a vários outros vieses que vimos anteriormente (como efeito manada, reforço comunitário e viés da conformidade, dentre outros), além de outros mecanismos (como a espiral do silêncio), temos alguns mecanismos e vieses específicos para superar a moralidade:

  • Desvalorização reativa: afirmações vindas de um opositor não possuem crédito
  • Viés do auto licenciamento/credenciamento moral: “licenças” morais diferentes para o indivíduo do que para os demais
  • Favoritismo de grupo: pessoas da “panelinha” são privilegiadas enquanto as de fora são discriminadas
  • Efeito espectador: em grupo, as pessoas podem ser mais indiferentes ao sofrimento de quem pede ajuda
  • Código azul do silêncio: o grupo pode criar códigos para intimidar quem denuncie as atitudes do grupo
  • Mentalidade de manada ou de gangue: a pessoa pode se acostumar com os padrões dominantes do grupo, tornando-se parte de seu hábito
  • Projeção psicológica: vítimas podem ser previamente acusadas daquilo que irá atingi-las
  • Bode expiatório: um alvo, mesmo inocente, pode ser selecionado conforme a conveniência

Evidentemente, isto é quase um catálogo para a psicopatia, mas é claro que esses padrões e vieses não precisam ser todos utilizados. Apenas alguns deles em conjunto já fazem efeito, mas normalmente se espera que o guru utilize quase todos. O mesmo vale para o desengajamento moral, que explica os padrões que fazem os indivíduos “desengajarem” de sua conduta moral, seja antes, durante ou depois de um ato imoral. Como sempre, não é preciso utilizar todos. Um par desses padrões já pode ter efeito bastante danoso. Revisemos os padrões do desengajamento moral:

  • Justificação moral: o ato imoral é justificado por uma “boa causa”;
  • Comparação vantajosa: é dito que – por comparação – não fazê-lo seria pior ou que o outro “fez pior”;
  • Rotulagem eufemística: termos são usados para obscurecer o que foi feito;
  • Distorção das consequências: nega-se as provas, as consequências ou até as minimiza;
  • Desumanização: retira-se a característica humana do alvo;
  • Culpabilização da vítima: a vítima recebe a culpa de seu infortúnio;
  • Transferência de responsabilidade: a culpa vai para uma outra pessoa, uma “autoridade maior” ou um significante vazio;
  • Difusão de responsabilidade: a culpa é diluída entre muitos.

Muita coisa, não? Mas existem alguns padrões sofisticados adicionais que podemos encontrar para as seitas, especialmente aquelas com ações políticas via Internet. Consideraremos os três casos para os exemplos:

  • O ato de Jonas Mukantagara ter obtido, a partir de espião, um áudio privado de outro grupo
  • O linchamento público causado pelo guru contra o repórter Marcio Matsimela
  • A campanha de linchamento público promovida por Sam Karamojong, com revelação de dados falsos, imagens falsas e áudios privados, contra a jornalista Janet e seu namorado Richard Ikinya

Aqui falaremos especificamente de métodos que ajudam a normalizar a imoralidade, ou seja, acostumar as pessoas a aceitar a imoralidade no comportamento do guru e seus principais discípulos, o que aos poucos contamina todos os demais. Com isso, dentro do grupo, eles começam a se vangloriar das imoralidades praticadas, o que significa que elas estão se normalizando como parte de um novo “código moral”.

Orgulho da imoralidade

Este mecanismo significa ter orgulho da imoralidade praticada. É uma atitude de extrema arrogância, quando vista do lado de fora, mas que possui forte efeito psicológico nos discípulos. Basicamente, agir assim significa que, em vez de se desculpar, é preciso se orgulhar do que foi feito. Se isso parece absurdo, observe como Jonas Mukantagara se vangloriou por conseguir obter um áudio vazado de um grupo privado:

Observe como nós temos canais em todos os lugares. Aqui está um áudio que eu consegui de um grupo privado, o que mostra que ninguém está livre da gente. Aprenderam o que é competência? Somos capazes de obter esse tipo de informação. HAHAHA!

Este tipo de comportamento mostra alguém se orgulhando de algo que normalmente deveria esconder. Informantes e espiões normalmente trabalham em sigilo. Pessoas que abusam da confiança alheia são vistas pelo público como pessoas dignas de vergonha. Se é assim, por que Mukantagara age dessa maneira pedante diante de algo que deveria ter vergonha?

É porque isso causa uma fratura no senso moral dos discípulos e estipula novas regras morais, dizendo, ao grupo, que o inimigo – que pode ser apenas alguém que não quis participar do grupo – é tão perverso que “tudo vale” se for contra ele. Neste caso, Mukantagara cometeu um erro ao revelar sua fonte e se tornou um problema até para o governo que apoia, pois acusados de espionagem entram como suspeitos em qualquer aliança, mas ele precisava tão fortemente de se orgulhar de uma imoralidade que precisou expor o que praticou.

É uma estratégia arriscada, mas geralmente discípulos de seita de vez em quando se vangloriam, até mesmo em suas constas de Twitter ou Facebook, de terem obtido informações sigilosas, de estarem vazando conversa indevidas e de estarem quebrando as confianças de “idiotas de fora do grupo”. A regra é:  “Não se envergonhar da imoralidade. Em vez disso, se orgulhar dela”.

Requisição por mais baixezas

Esta técnica significa não apenas se orgulhar da imoralidade praticada, mas dizer que aquilo que foi feito é “pouco”, em relação ao que devia ter sido feito. Nesse sentido, alguém poderá dizer que as críticas que estão sendo feitas não significam “nada”, perto do que “ainda vai ser feito”. Isso ajuda os discípulos a não apenas deixarem de se envergonhar e se orgulharem do que foi feito, mas se motivarem a mais. Se este “mais” não for feito (por medo), logo o ato em questão pode ser “amaciado” em comparação à requisição. Por exemplo, se um sujeito é acusado de matar uma pessoa, ele pode dizer que “precisa matar mais 10”. Como ainda não matou os 10, apenas 1 crime é pouco perto do que “há para ser feito”.

Observe o que diz Karamojong:

Vocês prestaram bem atenção no que aconteceu com Janet Kijuyu e seu noivo, não? Sabem o que é isso? Isso é apenas o começo do que vamos fazer. Todo jornalista desonesto desta mídia de porcos vai sofrer o mesmo destino. Vai chegar a um ponto em que vão olhar para a gente com temor e respeito. Toda semana um jornalista vai sofrer o mesmo destino! Temos que começar com isso urgente. Janet Kijuyu é só uma amostra grátis do que vamos fazer. Estamos juntos?

Como se observa, Karamojong está requisitando mais daquilo que foi feito. Muitos leitores estarão vibrando tanto que até ignorarão o risco das próximas ações.

Requisição por regras morais diferenciadas

Por este padrão, são requisitadas regras morais diferenciadas para o guru ou discípulo que tenha cometido o ato. A noção de que as regras morais são diferenciadas dá a impressão imediata de superioridade de alguém, pois muito do que ela está fazendo pode ser uma “compensação merecida” ou por ser uma “figura de autoridade”, que pode saber mais.

Observemos no caso de um debate em um grupo em que todos consideravam o ato de revelar dados sigilosos de jornalistas algo imoral. Ari Abaluhya, discípulo de Oliveira, havia concordado que isso era decididamente imoral e inaceitável. Em seguida, um participante citou o linchamento promovido por Oliveira contra o repórter Marcio Matsimela, com a revelação de dados privados. Veja como foi o diálogo com Abaluhya:

– Então, Abaluhya, explique isso que seu guru fez.
– Deve ter havido um motivo para isso!
– Você acabou de dizer que era imoral, em qualquer condição, divulgar dados privados de um jornalista. Você não está sendo consistente.
– Estou sim. Oliveira deve ter tido um motivo.
– Vamos nos atentar aos fatos: é imoral ou não é divulgar dados privados de um jornalista?
– Oliveira é como um avô para mim. Sabe o que é respeitar um avô? Sabe quantas coisas ele já passou para chegar aonde chegou?
– Foque na discussão moral! É ou não é imoral divulgar dados privados de um jornalista?
– Ele não pode ser julgado por esses critérios.
– Não faz sentido isso que você está dizendo! Essa é uma discussão moral!
– Você já leu tudo que ele escreveu? Tem a capacidade de abstrair uma realidade superior?
– Quer saber de uma coisa? Vá lamber sabão…

Em toda essa interação, Abaluhya apenas estava propagando a noção de que os critérios morais usados para os seres humanos normais não valiam para Oliveira.

Duplo padrão

Com o duplo padrão, temos algo mais simples do que no item anterior, sendo apenas a manifestação de critérios diferenciados para um julgamento. No duplo padrão, alguém não defende o uso destes critérios: apenas os utiliza.

Por exemplo, Oliveira utilizou todos os mecanismos do desengajamento moral para justificar o vazamento das informações sobre Matsimela. Em suma, tudo era “certo e moral”. Porém, na semana posterior, dados sobre Jonas Mukantagara, ironicamente, acabaram sendo mostrados num meio de mídia que fez uma matéria sobre ele. Aí Oliveira se pronunciou:

Isso prova, de uma vez por todas, que essa mídia é assassina e criminosa, vivendo de cometer crimes a todo momento. Deveriam ser duramente punidos por isso. O presidente Benjamin deveria ir atrás deles sem dó nem piedade. Esse tipo de coisa não se faz, de jeito algum.

Mas espere, isso de que ele está acusando a mídia é exatamente o que ele próprio fez com o jornalista Matsimela. Ou seja, os critérios morais são elásticos conforme a conveniência.

Ataque aos “limpinhos”

Como a política é baseada na identificação de inimigos, adversários ou opositores em geral, uma forma de se justificar a imoralidade é – com a extensão da distorção das consequências e da comparação vantajosa – dizer que os métodos dos críticos não funcionam. Observe como Karamojong se explica:

Uma das coisas mais ridículas que já vi é essa turma da “direita limpinha” niberiana, que vive reclamando de coisas como as que fizemos contra Janet e seu namorado Richard Ikinya. Só que se fôssemos depender deles, a esquerda ainda estaria nos dominando. Hoje, estamos indo melhor, principalmente porque fazemos o que deve ser feito.

Basicamente, ele rotulou pejorativamente seus críticos como “menos eficientes” contra o inimigo. Logo, deveriam ser percebidos de maneira negativa pelo público. Nesse caso, Karamojong também utilizou o rótulo pejorativo “direita limpinha”, quase como se dissesse que a “direita sujinha” é que deveria resolver o problema.

Racionalização maquiavélica

Não é verdade dizer que Nicolau Maquiavel defendia a total imoralidade na política, embora fosse bastante pragmático. Ele defendia que a aparência de virtude era fundamental, mas também explicava que a imoralidade em excesso poderia derrubar um rei. Se a análise de sua obra não leva à conclusão de promoção de imoralidade, o termo maquiavelismo, da psicologia, denota a defesa de qualquer coisa em nome de um fim.

Helena Moura, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, explica: “O maquiavelismo costuma ser normal entre os narcisistas, que manipulam para conseguir o que querem, geralmente admiração e superioridade, coisas mais subjetivas. O psicopata, ao contrário, quer vantagens materiais. São problemas difíceis de entender e diagnosticar porque não existe uma alteração biológica por trás desses transtornos, o que significa que também não existem medicamentos próprios para eles”.

Os psicólogos Richard Christie e Florence Geis definem o maquiavelismo como uma “tendência pessoal à insensibilidade e ao afastamento da moralidade convencional, permitindo que o indivíduo busque enganar e usar os outros”. A racionalização maquiavélica embute a criação de discursos para avançar o maquiavelismo.

Observe Jonas Mukantagara explicando como usa informações privadas indevidamente:

Note como essas pessoas são infantis em termos de política. Ficam criticando nossas atitudes como imorais, mas elas ainda não entenderam o que é realmente a política. Se entendessem, não ficariam reclamando de bobagem. A política é coisa de quem entende do assunto e eles, decididamente, não entendem.

O que Mukantagara está fazendo é criar um discurso “fake”, que não dá nenhuma justificativa moral para o que fez, mas permite que ele pose de modo superior pelo que fez ao tentar ser comparado por outro critério (o da eficiência política) e não do julgamento moral (que era o tema em discussão). Porém, o discurso é geralmente falacioso, pois as imoralidades existem ao rodo na política, mas dificilmente são publicizadas (a não ser em ditaduras violentíssimas). É por isso que a política é um território de dissimulação, menos do que imoralidades publicizadas. Não é o fato de a política ser um ambiente barra pesada que justifique a inexistência de código. No fundo, há códigos de ética até em prisões. A racionalização maquiavélica geralmente é engodo de quem não tem argumentos para justificar o que fez.

Uso do Boi da Cara Preta

Essa é uma técnica que tem tudo a ver com o que as crianças já viram em suas épocas da infância. Aponta-se um alvo digno de medo para que as crianças, por exemplo, comam tudo que está no prato, ou então que não fiquem acordadas durante a noite. Nessa fase, as crianças ouvem uma história como a do “boi da cara da preta”, cuja letra dizia: “boi, boi, boi, Boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta”.

Imagine, por exemplo, que Oliveira esteja sendo questionado moralmente por ter revelado os dados privados de Matsimela. Ele pode escrever um post assim:

É incrível como tem até pessoas da própria direita – veja bem, da direita – irritadinhos e querendo ajudar Matsimela, esse canalha esquerdista. Isso mostra como essa gente é fogo. Em vez de se preocupar com o inimigo fundamental, querem ajudá-las. Se depender dessa direita “limpinha”, teremos a esquerda dominando a gente!

Nota-se que Oliveira evitou discutir a acusação, pois não tinha como se defender. Em vez disso, apelou a menção a um inimigo, fazendo com que aquele que o questionasse moralmente fosse visto como “aliado do inimigo”. Tecnicamente, é como cantar a música “Boi da cara Preta”.

Tática da falsa ocupação de espaços

Quase como uma extensão do Boi da Cara Preta, com componentes da racionalização maquiavélica, temos a tática da falsa ocupação de espaços. De novo, como a maior parte das atitudes da seita será moralmente questionada (por qualquer perspectiva de fora, seja de direita ou esquerda), alguém conseguirá justificar toda e qualquer atitude a partir de chavões básicos. Imagine na época da Revolução Francesa, durante os diversos casos de assassinatos. Bastaria dizer que era para “combater os inimigos da Revolução”. Logo, cada caso isolado de arbitrariedade era ignorado.

Uma seita política que seja baseada no combate ao inimigo pode justificar tudo que estiver fazendo como “ocupação de espaços”. Considerando o caso do ataque contra o jornalista Matsimela. Oliveira pode dizer:

Preste bem atenção nisso que estamos fazendo. Estamos ocupando espaços. Ao retirar um jornalista da atividade, estamos destruindo seu meio de vida. Com isso, ocupamos espaços. É assim que as coisas funcionam!

Evidentemente, isso não serve como justificativa da imoralidade. Geralmente, isso é feito pela distorção do termo “ocupação de espaços”, que é típico das estratégias de guerra, mas dificilmente servem para justificar qualquer ação.

Uma vez que existam vítimas, há questionamentos morais sobre o que foi feito. Os julgamentos de crimes de guerra acontecem e não adianta argumentar que “era ocupação de espaços”. Vários genocidas foram condenados ao longo da história. Isso não significa que todos os culpados tenham sido punidos e nem que imoralidades no âmbito virtual são da mesma escala. Mostra apenas que gritar “é ocupação de espaços” não serve como justificativa para atos imorais.

Dessensibilização para o “novo normal”

Com esse método, a ideia é ir acostumando as pessoas a perderem a sensibilidade diante das imoralidades cometidas. Isso cria a retórica de que esse é o “novo normal”. Observe como Mukantagara pode comentar o que fez:

Prestem atenção, porque agora é assim que o jogo funciona. Quem não está acostumado ainda vai chorar muito! Mas é a nova realidade da política. Nós somos assim e as pessoas estão se acostumando. Somos o que somos. Conformem-se.

Para funcionar, esse discurso deve ser feito com postura confiante e arrogante, utilizando os mecanismos da espiral do silêncio. Observe que em nenhum momento Mukantagara falou do assunto em questão, mas de como “as coisas passam a ser”.

Além do discurso, isso normalmente se reflete em comportamentos como se isso tudo fosse “normal”, para dar a impressão de que as vítimas reclamam sem motivo e que seus críticos não tem um ponto.

Seleção conveniente da própria culpa

A certo ponto, pode se tornar quase impossível ficar sem reconhecer a própria culpa quanto ao que foi feito. Um método pode ser o reconhecimento de uma culpa parcial, que, é claro, é quase nada em relação à acusação completa.

Como vimos, Karamojong é acusado não apenas de ter levantado uma hashtag ofensiva e difamatória, mas de no mesmo post ter divulgado link com montagens pornográficas, vazamento de dados privados e informações falsas. Se fosse o levantamento da hashtag, nem haveria polêmica. Mas ele reage assim:

Eu reconheço o levantamento da hashtag. Mas é lamentável quererem perseguir alguém apenas por ter levantado a hashtag. Isso mostra a absoluta ausência de proporção desse pessoal da mídia. Imaginem se todos os nossos problemas se devessem a levantamento de hashtags?

O detalhe é que levantamento da hashtag é a menor das acusações. Tecnicamente, essa é uma minimização das consequências, mas, também, da própria acusação. Notamos que isso é claramente um truque se insistirmos em apresentar a acusação completa e o outro dizer: “De novo eles vem reclamar por causa de uma hashtag”. Como no geral, isso é feito com muito cinismo.

Ridicularização da acusação

Uma coisa que costuma funcionar bem na Internet é aceitar a acusação, mas, em seguida, tentar ridicularizá-la. Muitas vezes isso é feito simplesmente ao aceitar a acusação, no máximo fazendo alguns pequenos ajustes e embutindo um tom de “piada”. A ideia básica é dizer que a própria acusação é ridícula. Geralmente, o objetivo é tirar peso da acusação. Neste exemplo, Oliveira poderia utilizar o seguinte argumento:

Incrível que o pessoal tem medo de que divulguemos dados do endereço de Matsimela. Será que está com medo de que as pessoas percebam que ele mora num local ruim? Ou que sua casa vale pouco? Estamos até ajudando-o a vender seu imóvel. HAHAHA.

Em seguida, é possível criar memes dizendo “Vamos ajudar Matsimela a vender o imóvel”. Isto é, transformar a acusação em algo ridículo.

Evidentemente, é sempre um jogo de tensionamento, pois o feitiço pode virar contra o feiticeiro, já que a indignação das vítimas pode aumentar. Sendo o padrão identificado, as complicações morais podem ser ainda maiores. Em caso de ter sido cometido um crime, o início de uma campanha de ridicularização pode ampliar a pena.

Resumo

O uso de discurso de ódio, teorias da conspiração, pensamento do “ungido”, a técnica da espiral, a falsificação de informações e diversos outros meios, em conjunto, evidentemente levarão a ações autoritárias, especialmente no caso de seitas políticas. Tudo isso leva a necessidade natural de os líderes de seus e seus principais discípulos desenvolverem métodos para ampliar o uso da imoralidade e tratar das consequências quando elas ocorrerem. Isso cria um contínuo motor de ampliação da imoralidade, que pode ser claramente identificado na atuação online destes grupos.

Numa grande fórmula para potencializar o uso da imoralidade, vimos:

  • O uso do capital social apenas em bonding, com a noção do eu dividido
  • Diversos vieses e mecanismos que auxiliam na superação da moralidade (que se juntam aos que vimos anteriormente)
  • O desengajamento moral, que traz os padrões moduladores para justificar qualquer coisa
  • Vários padrões para normalizar a imoralidade, com aplicações sofisticadas dos pontos acima

Isso é tudo sobre a imoralidade? Quase. Ainda devemos lembrar que tudo que foi posto pode ser amplificado pelo uso de estereótipos, linguagem carregada e diversos outros métodos vistos nos textos anteriores.

Com isso, entenderemos a lógica das seitas políticas no contexto da imoralidade demonstrada nas ações online. Não só isso: já podemos compreender toda a lógica da atuação das seitas políticas em si.

Primeiramente, começamos entendendo a dinâmica do processo, em que há um guru, seus escolhidos, os demais discípulos e a massa, além de sua relação com os inimigos, os extragrupos e os espaços de poder. Isto está no texto 2.

No texto 3, sobre submissão, vimos o que faz alguém se submeter a um culto. No texto 4, falamos sobre os mecanismos emocionais explorados inicialmente por um guru.

Com o texto 5, entendemos a mitologia gerada por um guru, que é feita para ampliar os pontos anteriores. Em seguida, no texto 6, falamos da pílula, que é o que provoca a primeira mudança de personalidade para que a pessoa se renda de uma vez por todas.

Com o texto 7, entendemos como funciona o cativeiro da seita, além de saber como ele opera nos meios online. No texto 8, vimos o segredo mais bem guardado dos membros das seitas online: a espiral do silêncio.

No texto 9, falamos dos ungidos, mostrando porque eles possuem tanta sanha de destruição em relação ao mundo exterior. Neste texto 10, vimos não apenas até onde eles podem chegar, como também os mecanismos que possuem para exercer a imoralidade em escala máxima.

Se isto encerra o mecanismo da seita, ainda falta algo mais. O próximo texto encerra esta série. Seu título é “Libertação” e fala das ações que podem ser tomadas para as pessoas de fora da seita se defenderem.

Continua em A Arte da Seita Política – 11 – Libertação

Twitter: https://twitter.com/lucianoayan

Facebook: https://www.facebook.com/ceticismopoliticosc/

Anúncios

1 comentário em A Arte da Seita Política – 10 – Imoralidade

  1. Não seria o caso de alguém denunciar o Olavo de Carvalho, para que ele seja definitivamente banido do Facebook, Twitter e Instagram, assim como foram banidos o Alex Jones, Louis Farrakhan, Laura Loomer e outros extremistas odientos?
    O Matusalém da Virgínia claramente faz uso do Facebook e outras redes sociais para espalhar ódio, “fake news” e teorias da conspiração; perseguir ex-seguidores, críticos, jornalistas e blogueiros; caluniar desafetos (ofensas gratuitas a ex-generais e militares brasileiros em geral); doutrinar e realizar lavagem cerebral.
    Naturalmente, os posts dos “followers” do Matusa também desaparecerão. Como retaliação, o choramingão vereador Recruta Zero Dois (Carluxo) pedirá ao “pápi” para banir o Facebook do Brasil.
    Sem a presença no Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Dailymotion e sites similares, o caçador de ursos comunistas da Virgínia e sua seita terão de recorrer a outros meios para ludibriar, manipular e escravizar os brasileiros.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: